White Stripes

Um bombo roufenho .

Naif

O bombo e a guitarra a transbordar distorção nas ondas do éter. O condutor, subitamente, corta-me a viagem e muda a estação .No rádio ecoa agora  uma algazarra em espanhol da Califórnia .Na caixa aberta do furgão que se dirige a Tijuana falo simples com o diabo . Só eu , ele e uma garrafa de mescal. No fundo o gusano espera por mim. Juan Ramirez diz que por quinhentos dólares posso ser o primeiro a ter a sua filha ,Conchita .Antes que os homens da zona norte a lancem às ruas por um preço muito superior. Confrontado com os meus duzentos dólares e o meu pronunciar, lábios ao retardador na palavra do ébrio – Fiesta! . La Fiesta! – cala-se, ri e encolhe os ombros. Um sorriso com muitas crateras de cáries percebe que me dirijo para o braseiro de quarenta graus e infinita tequila pelos prazeres da alucinação e não para chafurdar nos rios de mucosas prostitutas que ocupam , literalmente , as vielas onde o calor derreteu o asfalto e a sede se mata com golpes bruscos de bebidas geladas

Na cabina da furgoneta a minha companheira de viagem está ensanduichada entre dois suados mexicanos. Pela inclinação da sua cabeça e pelo arquejar da sua respiração decerto que um , talvez mesmo ambos , estão a acaricia-la por baixo da longa saia. Através da pequena janela vem o fedor de um grande cigarro de marijuana. Estendo o braço para o interior e recolho o meu troféu. A minha amiga roda a cabeça e por detrás dos espelhos fora de moda dos Ray-ban insulta-me com um sorriso de menina suja:

– És tão drogado.

Lanço uma gargalhada e molho a boca em mais um trago do veneno do cacto , retribuo-o

– Sim , minha putinha do rock n´roll

A gargalhada é interrompida pois o orgasmo é conseguido por um dos panchos que a ladeiam , pela guinada que nos faz ir á berma suspeito  foi o condutor o autor da proeza.

Levanto-me e ,perante o espanto de um grupo de liceais em procura do fim da virgindade às mãos hábeis das prostitutas mexicanas , grito aos céus como o coiote louco do cio e do calor do deserto.

Algumas horas depois despedimo-nos de Juan Ramirez , sua filha e os dois hábeis indicadores , segundo o relato da minha parceira .Os casinos da grande avenida e o odor das enchilladas lembram-nos que não comemos há horas. Drogas e mescal são a nossa dieta e travamos uma breve discussão se devemos ou não comer. A única conclusão a que chegamos é que iremos vomitar ,como ignóbeis descendentes dos grandes deuses do rock, o chili e a tequila. Tal não nos parece mal, acompanhamos os tacos com muitos shots.

Pum-pum. Guitarra , bateria , tarola desafinada.

Garagem

O concerto dos White Stripes vai ter lugar numa sala apinhada de meninos de olheiras enormes e raparigas que só pensam em drogas e sexo. Os seus corpos são magros, as suas vestes tem, na sua grande maioria, as marcas da lama das ruelas de Tijuana. Nos rostos as congestões são extremas. Olhos raiados de toda a perdição. Lá em cima , no palco ,são dois.

A distorção flui em ondas de raiva  rasgadas pela figura magra e profundamente pálida da Jack White. Por detrás das peles da bateria a figura algo anafada, onde uns olhos de junkie com distúrbios mentais quase tocam a franja direita e bastante fora de moda, da baterista Meg.

Olho para ela , olho para a minha amiga ,que já está de olhos fechados e cabeça atirada para trás a entrar na alucinação que o bombo alto e repetitivo traz ao interior do peito, e sinto que devia ter bebido mais um pouco, censuro-me por os mais pulmões terem ainda alguns alvéolos não navegantes na nuvem de marijuana que enche o tecto da sala. Aspiro o ar, procuro a garrafa no bolso do casaco. Alguém me estende um enorme charro fumegante. Em troca , uma mão de um tipo que também não está nada bem , pede-me a bebida branca que queima o esófago. Permuto e danço entre os corpos magros , roupas sujas e pobres , roupas caras e sujas , todos os  olhares perdidos no confim do inferno de decadência que é Tijuana. A guitarra riffa , a voz aguda lembra-me que ainda há pouco estava numa caixa aberta de furgão. Naif , burgesso , básico como o caralho devo ser. Como a guitarra e a bateria. Apenas , rock que nasceu e quis ficar na garagem. A tarola é batida com uma crença tal que as falhas ocasionais nos tempos são perdoados na noção da grande broa da baterista. Está tudo alto , muito alto. Muita gente , também estou aqui, perdido pião emborrachado . fígado na merda , pedra nos cornos, guitarras , mais guitarras . Meg , dá-lhe. Danço no meio desta gente muito embebida em tudo o que tira os pés do chão. E danço , rodopio embalado nos quarenta graus do álcool. A queda no solo não traz dor. Apenas o riso. Muito mal. Muito bem . Assim estou.

A minha amiga ressurge junto a mim. A sua ausência foi três temas, portanto três marmelos que a beijaram e apalparam até ao limite possível dentro de uma sala de espectáculo. Nas casas de banho algum poderá ter tido um pouco mais de sorte. Traz uma acesa. Passa-me. Diz-me ao ouvido:

– Acho que perdi o juízo e apetece-me fazer coisas doidas

Sinto-me pouco surpreendido. O fazer coisas doidas era algo que sempre conhecera nesta companheira da estrada das grandes bandas. Coca, porrada , acidentes de carro, detenções , dinheiro falso , tráfego de bilhetes, atravessar fronteiras com tampões de ácidos e anfetaminas eram , entre outras , actividades normais no quotidiano desta amiga que só chamo por doida pois qualquer outro nome lhe ficaria extremamente mal.

O concerto aproxima-se do fim e o tema actual é demasiado lento para provocar a alegria pelo que sinto interesse pelo que ela tem a propor.

– Diz lá

Ela pega-me pela mão

Beija-me na boca e lança os dados da perdição:

– Esta noite somos lixo branco

Esta noite , estas guitarras que ainda ficaram cá dentro , as riscas brancas das roupas , as linhas brancas no nosso espelho. Mais um gole para acalmar o caramelo que escorre pelo canal. Rio lento de esbugalhar.

E ela não quer parar , é uma abelha louca no centro das rodadas mais generosas. E a música do bar está alta. As notas rasgam o ar , catadupas de álcool, inúmeras idas ao banheiro. Mais uma , somos lixo branco. -Basura Blanca – alguém bendiz entre o fumo e a distorção do olhar. A minha amiga grita, levanta o copo de tequila ao alto e emborca de uma vez. Depois , os olhos que agora são – meu deus será que estou assim também ? – Diamantes forjados na fornaça infernal, alteram o plano da noite.

Ela quer ir mais a norte. Algo a guia.

Ela diz

Lixo branco, só se droga , bebe e fode

Ela inquire-me com o olhar

O que falta?

Debaixo dos jeans gosto da ideia

Na avenida onde todas as mulheres são putas surge a figura andrajosa de Juan Ramirez na sua demanda em tirar rendimento da pele lisa de Conchita.

A louca regateia por breves minutos, Juan Ramirez tem pressa, aceita o preço. Do recato do soutien surgem as notas que asseguram que Conchita, já mais barata do que na furgoneta devido ao adiantar da noite, será o nosso final de noite .  Juan Ramirez tem uma má mão para pagar. Nos seus olhos assustados há uma navalha que facilmente o castrará. Nos olhos de Juan duzentos e cinquenta chegam. O resto paga a pensão e mais umas garrafas. Abduzimos Conchita para os lençóis onde as baratas deixaram os ovos, do colchão o fedor imenso dos suores e das goteiras dos corpos.

No rádio fanhoso surge de novo a guitarra distorcida, um riff do lagarto louco que corre pelo braseiro do deserto . O olhar vicioso da louca acompanha-me os movimentos do primeiro corpo dentro de Conchita mas é da língua adornada por uma bola de metal que nasce o primeiro gemido de prazer da jovem mexicana. Como uma palheta hábil o toque faz tilintar o mamilo ; no lençol , no que resta do branco, escorre a linha vermelha do fim da novidade de Conchita.

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