A Sul

Esta noite rasgo tudo o que erigi em patética adoração ao deus do capital e do enriquecimento. Esta noite vomito em grossas golfadas a normalização do meu ser e ,em plenos pulmões ,perante teu espanto que nada gera mais que desprezo e asco grito :
– A Sul!!!
Lembras-te do Tim todo congestionado a urrar ao microfone? “É hoje dia primeiro de Agosto e tudo em mim é um fogo posto” ? Claro que não ! Claro que isso são coisas de tempo de miúdos, arrumadas numa gaveta de vergonha , incompatíveis com os seres decentes que temos que ser . Lembras-te do pavilhão do Restelo a pingar suor do teto e nós, putos marados , a bebermos cada acorde ? Obviamente que é uma memória que se secundarizou na fona da vida adulta.
Sabes que mais ? Que se foda . A sul !!! Eu vou a Sul. Hoje, independentemente da puta da merda da folha gregoriana, da data de sistema, da hora legal que o locutor da rádio anuncie; hoje para mim é dia um de Agosto. E “É tanto o sol pelo caminho, que vendo um não me sinto sozinho” . Tu não és um caminho . A estrada , o grande asfalto chama por mim O diabo que carregue a europeia A2 e as suas zonas de serviço asséticas onde alentejanas usurpadas ao campo-mãe impingem sandes preservativo mistas de nada . A Canal Caveira ;sandes de carne assada gordurosa , prostitutas velhas de berma e camionistas com posters do Benfica na traseira da cabine do TIR , linhas de coca com motoqueiros alucinados que garantem uma hora do Canal a Albufeira. A Sul !! Deslizar pela estrada velha e parar para vomitar nas curvas da Serra iluminado pelos faróis dos grandes camiões .A Sul , às aguas quentes do Barlavento .A sul ;a bares repletos de operárias britânicas de Sheffield que nos engolem entre duas cervejas e o cântico do Manchester United . Sémen feito Tantum branco de gargantas saxónicas ; olhar vago nunca correspondido por olhos azuis congestionados do escaldão estival e do “Ecstasy “ bem elaborado.
A Sul .Apenas com alucinação e promessas de caos na bagageira do carro. Tua memória e de todas outras responsabilidades abandonadas como um rafeiro morto , estropiado , na berma da grande estrada. A janela aberta a chutar para dentro do mim o calor do Alentejo , no estéreo aquela batida marada que faz os corpos suarem até à exaustão. Esta simpatia pelo diabo , ..é apenas” rock n´roll “ mas eu adoro-o .
A sul ! Acordar com a pancada do bófia no vidro do carro e, em óculos escuros e sorriso de ódio, pedir uma desculpa que não sentes. Na alma um Charles Manson que gostaria de mutilar.
A sul , o Atlântico com sabor mediterrânico a beijar-me as canelas e a encharcar os “jeans” sujos de óleo de motor e resíduos da noite que foi. O olhar posto no horizonte e este sol, que tudo de mau queima ,a trespassar a pele como um solo de uma grande guitarra a fundir-se na lava da distorção .
A sul!

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Noites Lisboetas

Ontem percorri bares que nunca frequento. Para observar como vivem outros que em nada são semelhantes a mim. Disfarcei-me com roupas de que não gosto .Suficientemente ordenadas para não atrair as antipatias dos porteiros, os primatas da noite ; suficientemente mal combinadas e antiquadas para afastar eventuais desejos; hetero ou gay .
Ocultei-me em cantos de balcão , copo de whisky suspenso na mão percorrendo com o olhar as existências que circulavam em redor. Felizmente era Sábado à noite. A emergência de divertimento que o fim de semana traz fazia com que os líquidos escorressem velozes das garrafas manipuladas por” barmen “, ora de sorriso circunstancial, ora de animação extrema . Este facto trabalhou em meu favor. O álcool e outros aditivos a circularem rapidamente no sangue daqueles que me rodeavam fizeram que os seus olhos e corpos se tornassem mais expressivos permitindo que eu pudesse observar mais intensamente as suas vivências.
Houve um momento em que senti vergonha. Senti-me vampiro de emoções. Demasiado vazio das mesmas ao ponto de ver-me forçado a ir beber a fonte alheia. Tal e qual como as donas de casa ressequidas que transferem as suas esperanças para os quarenta minutos da novela brasileira das oito da noite.
Esta retração deu-se exatamente entre o quarto e o quinto copo, na altura em que observava ,atentamente, a dúvida invadir uma rapariga de para aí uns dezanove anos e o seu vacilar entre o desejo de um Casanova de fim de semana e o olhar, misto de álcool mal digerido e censura, de uma amiga extraordinariamente feia que a seguia em movimentos de central de marcação nas tentativas de aproximação ao indivíduo
Desviei por momentos os olhos daquele ato da pantomina desta noite e enfrentei de novo o sorriso inexistente do homem do bar para mais uma rodada na minha auto festa.
O sentimento de arrependimento é diluído em quatro golos vigorosos e uma ida aos sanitários. Entre o embalo do álcool e a urgência do opiáceo decido intervir na pantomina que presenciava. Posso ir dançar e ser ridículo, assentar como um abutre no balcão, esperando por um cruzar de olhares fulcral que abra promessas de luxúria. No entanto opto por repor a ordem natural das coisas.
Em movimentos discretos e aproveitando-me da minha transparência respeitável de executivo em tom casual despejo, em três gestos perfeitos, algumas gotas do frasco maravilha que me vendera um velho conhecimento da universidade que se dedicara a tempo inteiro à indústria do entretenimento.
A feia controladora, a pita com tusa e o rei da pista são abençoados.
Metilenodioximetanfetamina. Que belo ! O nome extenso tem o som profano de uma oração, uma invocação a este trio que goza agora o “ménage” do êxtase , da insanidade e da morte.
Aguardo os minutos suficientes para que os jogos da noite se iniciem.
O batoque é a primeira a perder o tino. Entende que o olhar da amiga já se focou no movimento repetitivo das ancas do seu potencial parceiro e que nada poderá fazer. Não quer ficar para trás . O aumento da batida do DJ torna-a num artefacto de loja chinesa em super promoção que se lança à pista. Disponível, Fácil . Alguém a coma!
O afastamento da amiga faz com que a Isolda X ganhe alguns metros de proximidade daquele que aumentou o bambolear e fixou o olhar . Por vezes as mãos simulam que agarra uns quadris. Ela sorri e gosta.
Saio do meu lugar de observação e passo bem junto a ela. Cheira a fêmea . Esta noite gritará quando o látex quase explodir dentro dela.
Caminho para a saída . Passo ,em ultimo lugar, pelo elemento masculino do trio . Cruzo o olhar com ele, está fixo, nem me vislumbra. Digo-lhe boa sorte em silêncio e parto para outro bar.
No táxi decido que o meu terapeuta escusa de ouvir esta noite. O dia já levanta uma ligeira sobrancelha sobre o Tejo. Ainda há tempo. Ainda há tempo para mais uma dose. Lisboa é generosa com os olhos congestionados. Bares de portas caladas afadigam-se após as horas para que o festim prossiga .

Mama Sume

19 de Setembro 1965 , algures perto do Lago Niassa.

Uma rajada voou por cima da minha cabeça. Encolhi-me para metade de mim e rastejei até uma pequena pedra que era o único abrigo visível no meu curto campo de visão . « Merda do capim ».Algures uns vinte metros à minha esquerda, a voz do Sargento Tristão :
- Não responder ao fogo . Poupar munição , poupar munição – Depois um grito que apelava a alguém que já não iria responder – Matos ! Matos ! Onde é que estás com o cabrão do rádio?
Do flanco da linha veio a voz minhota do Paixão, antecedida por um grosso escarrar e um disparo da G3:
- O Matos foi-se Sargento. Meteram-lhe uma bala no bandulho – o tom forte da sua voz atrai mais uma rajada proveniente das árvores a nossa frente – foda-se.... turra de um cabrão ! – Um disparo . A voz do Sargento mais uma vez autoritária: - Não abrir fogo sem ordem !
Do lado oposto a Frelimo responde com apenas dois tiros. « Devem estar a ficar secos » - alegro-me um breve segundo - « tal como nós». No bolso apalpo a carta do adeus, tenho-a sempre comigo desde que vim para Africa. Penso que o cabrão do Salazar e o filho da puta que organizou esta saída pela picada é que deviam estar aqui, colados ao solo, imóveis , rezando que ,entre um tremular do capim embalado pelo vento do fim da tarde, a nossa cabeça não se torne visível a um atirador. Somos o que resta de um grupo de combate da 28º Companhia de Comandos. Dos vinte cinco homens que marcharam pela manhã restam menos de uma dezena. As minas, a falta de apoio aéreo e uns mapas de merda meteram-nos na boca do lobo.
- O rádio ?? Onde é que está o cabrão do rádio? – A impaciência do homem mais graduado . Nunca o ouvi tão irado.
- Foda-se Sargento, está com o Matos ! – Replica de novo o Paixão. Deve haver algo de muito incomodativo na sua voz densa e agressiva. Deve soar a colonialista pois os pretos abrem de novo fogo. De ambos os lados escuto o ruído dos corpos a minguarem misturados com a terra.
- Então vai lá buscar! Onde é que está?
- Vinte metros atrás de mim, Sargento – Algum desconforto no Paixão. É obvio que será ele a fazer uma viagem arriscada.
- Duas salvas de fogo de cobertura – a voz do duro homem que lidera a minha equipa é tão determinada que sinto que nada pode correr mal. Engatilho a arma, tiro manual. Dois disparos à voz de comando.
-Preparar . Fogo - a voz é firme na ordem. Os elementos que restam levantam-se em posição ajoelhada e fazemos fogo simultâneo sobre a linha de árvores onde se oculta o inimigo. Vejo com agrado a queda, já mortos, de dois turras mais descuidados que estavam demasiado expostos. O fogo foi preciso. Somos elite.
- Rádio – grita o Paixão. Está vivo. Bom para todos.
- Preparar! Fogo – a segunda rajada é mais difícil. O inimigo está precavido. Ao surgir das nossas figuras em ponto de fogo ripostará. Assim tal acontece.
À minha direita escuto um “Ahhh “ e tomba mais um soldado. O Ribeiro, atleta, pugilista. K.O em Moçambique. Por detrás de mim o restolhar do corpo do Paixão a rastejar para a posição do sargento. Rodo sobre mim e vejo-o:
- Paixão. Estás bem?
A resposta que recebo é um mero aceno atarantado de um rosto incrédulo de ainda existir. Rodo de novo para a posição de tiro.
Durante uns minutos persiste o silêncio. Quase absoluto, todos os sons da grande África calaram-se . Ocasionalmente um desafio:
- Português. Tu vai morrreeer - Após este final esganiçado ecoa da floresta um coro; “Uh!Uh!” e um tambor guerreiro. Aperto com força a coronha contra o ombro. Não há movimento. Voam apenas palavras na trincheira improvisada.
- Foda-se! Merda de material – pelo som é obvio que o Sargento está a desfazer à porrada um rádio inoperacional. Estamos tramados. Engulo em seco. Começo a ganhar a perfeita noção que de amanhã não passarei. Os primeiros sinais da estrelada noite do mato aproximam-se.
O Sargento passa palavra. Tentar retirar recuando – Devagar; muito devagar – aconselha.
Pelas 22h05 iniciamos o movimento. Como lagartos de camuflado deslizamos ,na lentidão que aprendemos no lodo. Olhos atentos e rastejar suave. Quero ser invisível. E sou-o.
O deflagrar de uma mina, a menos de quinze metros da minha direita , atira com restos do Paixão para cima de mim. Já cansado de ter visto tanta morte ao longo do dia não me sinto particularmente afectado pela perna que pousa perto do meu rosto.
Estamos encurralados. Atrás um campo de minas, em frente a desconhecida força hostil . À esquerda, o rio. O flanco direito, por onde chegamos ,é a linha de união entre a seara de explosivos e a capacidade de fogo do inimigo.
Alguém me sussurra, perto, muito perto:
- Viste aquilo pá ? O Paixão foi-se – era o Loureiro, o elemento mais estranho do meu grupo de combate. Filho de gente importante, finalista de teologia , abandonara tudo para ingressar na tropa mais dura , nós , os Comandos. Dele só nos rimos ao principio, era tão rijo como qualquer um de nós. Rezava todas as noites. Muitas vezes em silêncio a caserna escutava. Como se o menino do papá orasse por todos nós. Pela unidade.
Aceno que sim, que vi o Paixão morrer. Pergunto:
- Quantas balas tens?
O olhar preocupado responde:
- Quatro . Estamos bem fodidos, não estamos?
Embora o medo me inunde por todos os poros respondo com a frieza que aprendi na recruta:
- É fodido ser Comando – olho-o para ver se encontro alguma coragem – Comandos não morrem, Reagrupam-se no Inferno
Coberto pela escuridão conseguimos rastejar até junto uns dos outros. Somos sete. Dividi-mos munição; cinco tiros cada homem. O Sargento é o ultimo pai que iremos conhecer, por isso escutamo-lo em reverência atenta:
- Os gajos vão carregar pela primeira luz. Devem estar com pouca munição. Há duas horas que não disparam – o olhar percorre-nos com dureza. Uma ordem que não gosta de dar – Armar baionetas.
O treino militar corta o breve segundo de assombro e receio que nos invade. Com gestos precisos as nossas lâminas brilham ao parco luar e são colocadas junto à boca da arma.
Passam-me horas. Creio ter dormitado um pouco. Acordo sobressaltado pelo canto de um pássaro que ousou voltar às copas. Uma baixa neblina cobre o mato dando-lhe um aspecto de cemitério. Lembro-me de um filme de terror onde mortos caminhavam. A bruma era a mesma. Ocultava apenas a metade inferior do corpo. Os meus olhos alarmados percorrem o fino fumo, gélido como a morte que sinto a vir, procuro vultos , catanas no ar.
O tambor recomeçou. Pancadas graves e muito perto de nós.
Momentos depois, embrulhado em dois archotes surge um velho, o corpo pintado , o aspeto tribal é obvio . É um feiticeiro. Na mão agita o rabo ,ainda sangrando ,de uma cabra. Não me contenho. Tenho um bom ângulo e arrisco o disparo. Não acerto. «É impossível» penso horrorizado. «Nunca falho um tiro destes». O feiticeiro vira a sua atenção para onde estou. Tem um olhar insano. Os dentes foram afiados com limas. Aponta na minha direção. A névoa traz uma voz intemporal e assustadora:
- Tu! Tu não mata – A cauda de cabra é agitada no ar.
Muito perto de mim o Loureiro ajoelha-se e faz fogo. Desta vez está lixado. O tipo é o nosso melhor atirador.
- Como é que? – Atónito o Loureiro mira a arma traidora.
Brusco o bruxo avança quatro passos determinados. Os que o acompanham com os archotes avançam. Estão desarmados, os seus olhos transtornados estão fixos no horizonte, para lá das nossas costas. De novo a cauda é agitada:
- Tu . Morre!!
Ergue os braços ao céu e brada algo numa língua ancestral. Dezenas de vozes negras entoam “ Noyi , Noyi , Noyi” O ritmo do tambor acelera. Eles começam a sair. Em passo lento, há algo de doentio e fanático no seu andar. Os corpos adornados para a batalha , longas laminas na mão. Vem para nós. Querem-nos trinchar. Preparo-me.
- Fogo! – A voz do Sargento faz-me saltar como uma mola e descarregar as quatro munições que me restam. São tiros que não causam baixas. Pelo coro de “foda-se” e “o que é esta merda? “ que escuto as nossas balas não atingiram um único alvo. Só nos resta a baioneta. Instintivamente procuro um companheiro. Encontro o Loureiro. Largou a arma. De joelhos, prece cravada no céu , reza alto. Sacudo-o:
- Atenção Comando! Ataque inimigo!
Duas mãos de unhas mal cortadas e imundas cravam-se no meu rosto. Os olhos têm a insanidade dos mártires:
- Tu não vês? Só Ele nos pode salvar. Só Ele!!!
As mãos voltam à posição de reza deslizando pelo meu rosto; cavando socalcos de sangue que ardem em contacto com o suor.
A voz do meu irmão de armas é a única voz que escuto. Dentro de mim o silêncio, preparo-me nas linhas do Padre Nosso para encontrar o meu fim.
Um grito de agonia corta o meu momento de fé. Vem do outro lado. Não entendo. Esforço o olhar pela neblina e parece-me ver um vulto de vestes longas correndo entre nós e os pretos.
De súbito ,outro grito, em língua de turra ;e outro , e outro. Brados de óbito começam a manar do lado inimigo. Pela quantidade o Sargento percebe que algo está a acontecer. Ordena numa voz de Marte:
- Comandos . Carga ! Mama Sume!
Gritando como loucos , baionetas caladas , passo de carga encontramos apenas dois pretos ainda vivos , furamo-los com rudes golpes. De resto tudo morto, a decepagem de membros , os profundos cortes não foram feitos pelas nossas laminas. São golpes de gládio bem maior.
Vagueamos por entre o que resta desta tropa superior em número. Não acredito no que vejo, não acredito ainda estar vivo.
Do fundo, já dentro do arvoredo, ecoa a voz de demónio do feiticeiro. Magia negra, ódio de escravo. Benzo-me:
- Noyi ! Noyi – desafia à distância.
Outra voz, esta lusitana, brada mais alto.
- Por El-Rei – o grito do bruxo cala-se
Ainda mais confuso olho em redor e procuro o Loureiro. Não está entre os que patrulham entre os bocados de turra. Volto a correr à nossa posição inicial. Encontro-o vivo, ainda em fervorosa oração. Tenho uma pergunta que me está a sufocar. Ajoelho-me e puxo-lhe o rosto para junto do meu :
- Ele quem ?? Loureiro . Ele quem ????
Uma catarata de lágrimas tomba sobre os lábios trémulos. Abraça-me junto a si, a força dos sobreviventes. Beija-me a cabeça e sussurra-me ao ouvido.
- O Condestável. O nosso Santo Condestável.
Há perplexidade em mim . Levanto-me e uso a mira telescópica ,que tenho direito como atirador especial, para vasculhar o horizonte. Já há muito dia no ar. Procuro, procuro e quando o encontro ajoelho-me.
Ao longe, em passo lento ,um homem de barba caminha . Enverga um traje de monge. À cinta balouça uma enorme espada cujo gume não brilha devido à pasta de sangue que o cobre. Vira-se em minha direção e levanta um braço em saudação. O hábito, rasgado na zona do peito, revela uma cota de malha que reluz perante os primeiros raios de Sol.

Lewis – Post Mortem

Os funcionários do município não tiveram grandes dificuldades em varrer os restos mortais de Lewis. O pequeno monte de cinza que restava no soalho do cubículo 135-A foi arrastado para um saco de plástico por um temporário que aproveitou a deixa para escarrar a sua raiva de salário mínimo nos despojos. Surripiou o PDA de última geração e atirou o saco para o carrinho da empresa de trabalho precário. Os restos de Lewis aconchegaram-se, num murmurar de derivado de petróleo em baixa cotação, aos despojos de um analista de mercados que ardera no piso quatro e ao saco selado pela polícia com banda amarela. Lá dentro os restos de uma longa barba negra que fora encontrada junto à porta principal do edifício de escritórios lançavam suspeitas islâmicas sobre a origem da carnificina.
Enquanto as cinzas de Lewis eram transportadas para o velório um administrador de sistemas, aborrecido pelas horas extras a que era forçado, activou quinhentas e noventa e duas notificações de “Out of the Office” eternas no servidor de correio da empresa. Um cliente irado apresentou uma reclamação, a morte do seu corretor não era argumento aceitável perante o dano no seu portfolio.
O velório de Lewis decorreu só pois os seus familiares já não se lembravam que ele existia e os seus amigos não puderam comparecer. Em Tóquio os rácios de liquidez da banca comportavam-se anormalmente . A única visita foi a ex-namorada que vasculhou a cinza à procura da chave do apartamento onde deixara uma peça de lingerie pela qual nutria grande estima. Furiosa por não encontrar o objecto sussurrou para dentro da pequena urna que todos os orgasmos que tivera haviam sido falsos e que , by the way , o membro erecto do porteiro do condomínio de luxo onde Lewis vivia saciara a pequenez com que ele a presenteara durante os quatro longos meses da relação. Depois saiu, os tacões dos sapatos de quinhentos dólares deixaram um eco na capela que durou até ao sol raiar.
Mais tarde, talvez meia hora antes do mercado voltar a abrir, os restos mortais de Lewis foram objecto de acesa discussão entre o cangalheiro e o agente imobiliário escandalizado pelo baixo rendimento que os quinze centímetros quadrados, ou mais correctamente os zero virgula quinze metros quadrados da eterna morada, iriam proporcionar. O cangalheiro cego sentiu um bafo nauseabundo assolar-lhe o olfacto enquanto os protestos sobre os milhares de dólares que os mortos não potencializavam ecoavam no ar. Encolheu os ombros e prosseguiu com a sessão fúnebre. A falta de visão era compensada por um ouvido aguçado. Entre os ciclos de motor do potente veículo topo de gama do agente escutou os gritos de “Atirem os mortos ao Hudson mas não desvalorizem o solo de Manhattan”
O funeral de Lewis demorou os exacto quatro minutos e meio que a sua apólice de seguros descriminava na cláusula numero nove bê. A cerimónia foi entoada por um sacerdote apressado que pousara a bíblia para que o polegar pudesse estar livre na roda do Blackberry que seguia em tempo real a sessão de futuros do Nasdaq. O padre-nosso foi entoado em pequenas prestações pois uma ordem de venda urgente tomou precedência perante as coisas de Deus. O pão-nosso de cada dia foi substituído por uma imensa obscenidade quando a comissão do mercado de valores suspendeu a negociação do fundo onde estavam aplicadas as esmolas da paróquia.
A alma de Lewis, de tão fraca que estava, não conseguiu ascender aos pisos celestiais. Pairou para sempre nos céus da grande cidade . Os olhos inquietos foram condenados eternamente a perscrutar os céus. Os medos dos homens diziam-lhe para estar atento. Não fossem os aviões voltar, sedentos de outras torres.

Lewis

O resultado de ter mesclado o especial do Starbucks com um ácido foi desastroso para o dia de Lewis. O mercado adquiriu tons rosa no monitor do seu computador e os dedos clicaram ,violenta e aleatoriamente, nas zonas que apresentavam tons mais psicadélicos. Essa acção perfeitamente sem nexo conduziu a transacções nos mercados. Os futuros dispararam como loucos e nas salas de mercados ninguém percebeu muito bem o que aconteceu quando a voz monótona do broker principal e a azáfama dos celulares foram substituídas por uma batida marada que fez com que os bonds de transacções que se amontoavam no chão se transfigurassem em selos impregnados de alucinação.
Sentado á sua secretária Lewis havia colocado os óculos escuros e arriscava sete processos por assédio sexual pelos piropos infames proferidos às maiores belezas da empresa. Uma delas , uma cinquentona  secretária de administração , apercebeu-se   que era o primeiro elogio que o seu peito  recebia em dez anos e trocou a indignação da queixa formal pela desenfreada masturbação no cúbico destinado a outras intimidades. Na carteira o telemóvel vibrava insistentemente a irritação do seu chefe. A secretária deu outro uso à inquietação do aparelho.
Lewis teve sede . Deglutiu com evidente prazer três enormes golos da garrafa de água que se encontrava junto ao monitor onde, agora , os caleidoscópios da loucura globalizada haviam dado lugar ao imenso vazio do negro ;um negro onde persistiam os indicadores dos índices principais .  Dow Jones jurava, amargurado, no ombro do Footsie que sempre quisera ser , na verdade , algo mais pequeno. Como uma viagem negativa ao saciar da sede de Lewis os homens e as mulheres na sala de mercados sentiram toda a secura que existia no seu âmago. Fieis seguidores do insaciável ultraliberalismo choraram sem controlo a sua imensa perdição ; choraram como se as lágrimas durassem para sempre . A sua luxúria nas coisas tristes da vida fez com um mar de fel alastrasse pela vida dos homens que estão para lá da sala de mercado. Nos monitores apenas piscavam os índices principais.
Lewis teve então uma intensa vontade de morrer. E caminhou para a janela. Na sua cabeça escutava, como uma última maldição ,os sussurrares de todos os dias em que adormecera exausto numa cama fria . Todas as vezes que escutara “Adeus” daquelas podiam ter sido a tal cravavam-se nos seus últimos instantes como chagas de uma vida passada a transaccionar o que agora parecia não existir. Os saldos abastados, as manigâncias em off-shore, os tempos do tubarão transformaram-se em fumo. Lewis quis saltar.
Mas não quis ir só.
E tal foi essa vontade que se imolou em chamas que consumiram tudo à sua passagem. Vibrantes e letais brilharam, com cheiro a querosene e desvario, nos pisos inferiores às salas de mercado. Os marionetistas dos fios trocados deste mundo ponderaram que talvez fosse melhor saltar . Fizeram análises, previsões , projecções orçamentais da dor da morte e concluíram que era preferível o vazio. Deram as mãos e ,ao som da buzina do fecho de sessão, pularam em direcção ao pavimento.

Do Rock – Placebo

Corta-me a guitarra plena de vício com a voz efeminizada, corta-me a ansiedade do caramelo que se desfaz nas mucosas com o ansiolítico que impede o salto do andar alto.
Sê minha amiga , mãe , conselheira  embalada em clarividência de papoila a  vinte pisos do asfalto onde os transeuntes correm a corridinha dos ratos loucos no labirinto do compromisso. Não me fales de nós ou abato-te com o ferro que o lado mais incerto da vida me deu .

Dá-me uma manhã pura onde os lençóis cheirem a sémen e fumos ilegais, privilegia-me com a tua nudez andrógina onde os seios são pequenas ameixas da mulher que aparentas ser e as seringas repousam, fatigadas do amor , na mesa de cabeceira.
Não te preocupas comigo sei-o bem , sou mais um triunfo da tua idade precária , sou mais um que gritou o nome da deusa imunda  entre tuas coxas. Sou o cinzeiro pleno de beatas de infusões várias, sou o coração tão quebrado que deixou de existir nos sorrisos falsos , sou a caixa dos sapatos que usaste apenas uma vez e disseste serem feios . Não há nada mais a fazer . És todos os seres que podias fingir e iludes-me na canção. E eu sei-o , deixo-me ir , olhos de pupilas pequenas , coração que bate rápido por interacção química que simula a emoção e sobrevive no contentamento das duas gramas diárias.

Dança  nua , talvez, apenas, o quimono que mãos de crianças destinadas à morte teceram  em rocas sem fusos e vidas sem usos. Inquires-me , entre as insinuações do teu corpo magro , se gosto de homens e se a minha ânsia de ti não é apenas uma mentira à minha inversão.
Silencio-te, dois dedos na boca ,” chiu chiu “, rompo-te as entranhas intestinais para te dar a ilusão que te enganas e grito dentro de ti com o meu cabeleireiro no pensamento.

E quando a manhã raiar vamo-nos rir da insanidade e de como a morte se veste de guitarra baixo. Ou talvez não passemos desta noite , quiçá nos findemos no colapso coronário da anestesia para equídeos , talvez as nossas almas se desprendam da gravidade que o mundo dos homens de postura graves nos deu, nossos insustentáveis ferrolhos de insanidade.
Cairemos em direcção à tumba como cometas de tonalidades roxas numa chuva estival que ninguém tem nome para dar .  Gosto tanto de ti  mas pareces durar de mais e o néon que vem da rua traz-te rugas de mulher velha aos trinta anos . Escoras a respiração, e amaldiçoas os meus olhos negros da noite e da desmesura de tudo o que dissimula a tristeza.  

O céu chama por nós e tu , dançando nua no quimono  que as crianças teceram , relembras que a cada palpitação mais um menino de costelas reviradas para fora pela fome se foi e que ,aos pés da cama, persistem os sapatos que curtiu antes de morrer. E ris-te , e dás-me a arma e digo que não te consigo odiar tanto. E a seda que os imberbes teceram cai no chão , teus pés de maldição percorrem a curta distância entre nós e dizes “chiu,chiu “ e levas-me para dentro de decadência que tens húmida da vontade de ser um pouco viva.

A guitarra rasga mais um acorde que me leva para o mundo a cair aos bocados e , subitamente , relampejo os olhos à consciência. Na penumbra do quarto de pensão que alugamos após o concerto aspiro o cheiro do teu anonimato. Percorro com os olhos os resíduos da noite e não deslumbro prevenção. Em bicos de pés acaricio-te o cabelo revolto e agradeço-te pelo filho ou pela doença que plantamos na noite que parecia ser de querubins alucinados em cloridrato de cetamina e agracio-me com a tua última visão antes de procurar a janela que leva ao abismo. Digo-te adeus na brisa que sopra dos lados do rio e salto.

Do Rock – AC/DC

O tipo que controla as entradas no estádio deita um olhar divertido à minha companhia.
O velho Lucas aparenta ser uma ovelha tresmalhada no grande mole humana que enche o relvado e se agita, nervosa ,perante a iminente  chegada do grande comboio de aço que a Austrália lançou a este mundo sobre o nome de AC/DC.

Sorrio ao segurança e condescendo com a cabeça a sua jocosidade. Em seguida sussurro-lhe ao ouvido :
– É o meu avô. Enrola-as mais rápido que tu

Esgueiramo-nos entre a multidão. A tez tisnada em contraste absoluto com a longa barba branca cria inesperados corredores de acesso. Há algo em Lucas que emana o respeito da tribo do rock . Talvez seja a sua boina idêntica à do vocalista , quiçá a t-shirt negra com os restos de tinta da tournée de oitenta, talvez os olhos congestionados pelo haxixe que fuma em cachimbo de prata.
“Cónicas “- explica-me amiúde vezes, antes das mortalhas e dos telemóveis , antes de ser tão fácil ir ao concerto como ir ao cinema. Relata-me os tempos de ir para Inglaterra ao tomate e aos grandes festivais de verão , as festas das garagens. O bando de rapazes a contemplar a primeira stratocaster como se da mais bela peça de arte se tratasse . Falou-me de Vilar de Mouros , falou-me do país a acordar , das raparigas a terem saias mais curtas e bambolearem as ancas. Das noites do Bairro Alto onde o som das guitarras trinou mais alto que os fadistas e a distorção fez tremer as paredes das velhas casas.

Paramos a meio da arena. Posição central . A cerca de cinquenta metros do palco. O velho Lucas faz-me sinal que se vê bem e ouve melhor. Exemplifica com um gesto de dois punhos fechados a embaterem nas orelhas. Concordo e devo mostrar alguma patética reverência à sua sabedoria pois recebo um soco no braço e um gesto impaciente para que acenda mais uma pedrinha. No sistema de amplificação o volume vai subindo, as guitarras vão  aquecendo a multidão. Tenho uma secura imensa na boca, ele mantém-se impassível, apenas os olhos indiciam a brutal congestão de cannabis . Bate o pé ao ritmo da música, a vestimenta integral de ganga e os esfarelados ténis Sanjo fazem com que muitos olhares se dirijam na nossa direcção . Lucas aproveita o facto para cravar uns bafos em droga alheia que agradece com o seu sorriso de lobo velho e os polegares voltados ao céu.

Quando a escuridão antecipa o momento de entrada em cena de Angus Young e pares o meu amigo deita  fora o charro que tinha na mão e fixa o olhar no centro do palco. Uma mão entra em jeito malandro no bolso dos jeans apertados , a outra levanta-se num punho fechado. O queixo ergue-se com se ansiasse pelo impacto do muro de concreto que vai sair das colunas dentro de alguns segundos.
Para aqueles prestes a vibrar com o rock os canhões que encimam o palco proferem uma ruidosa salva . Depois vem a banda . A explosão , as luzes que rasgam os olhos e a batida seca e sincopada da secção rítmica. Sessenta mil entram em delírio quando o homem de calções cruza o palco e a sua guitarra começa a emitir os acordes que abrem as hostilidades.

Algo de aleatório no sistema de luzes faz com que um foco caía directamente sobre o Lucas. O braço esticado , a cabeça em direcção ao solo , o capacete a abanar, o dedo mindinho e o indicador a esticarem-se na saudação que alguns dizem ser do demo. O corpo sacode-se ao ritmo do bombo . No delírio daquele homem vejo a imagem perfeita da eternidade do rock n’roll . Dou-lhe um encosto no ombro e rio-me no seu rosto . Começo aos pulos como um louco. Parece-mos os putos a alucinar. As mãos a gesticularem a pose do guitarrista, punhos fechados a rifarem na atmosfera. Cabeças a abanar. Em redor a electricidade do nosso dueto lança as pessoas num frenesim. Punhos levantados, o baixo a enrolar um grande contratempo com a bateria. A voz rasgada a dizer que soam os sinos do inferno e que nós estamos a ir para lá. A voz da multidão . Ei . Ei . Ei

Deliramos durante as duas horas do espectáculo. No fim , arrasados pelo terceiro encore, secos por dentro , encharcados até aos ossos na cerveja e no suor, saímos apoiados um no outro do estádio agora quase vazio.
No parque de estacionamento algo parece fazer reviver o Lucas. O diabo do homem vai buscar energias a não se sabe onde. Talvez ao espelho que guarda no porta-luvas e à saqueta de meia grama de branca que cheiramos para voltar a nós.
No rádio uma velha cassete toca. O Lucas, olhos de louco , serena voz de chefe índio, diz que na fronteira de Elvas há uma casa onde as coxas das mulheres são roliças e baratas . Que no meio de um caminho que não leva a lugar algum há  uma casa de luz vermelha onde vão os homens sós e os predadores do pó da estrada. Que motas cromadas e mulheres de lingerie negra esperam por nós.

– È apenas sexo , drogas e rock n’roll e eu adoro essa merda .
Lucas roda a chave e o asfalto cola-se ao rodado do carro. De janela aberta , o vento nas fuças , o velho rádio a tocar baixo , bateria e guitarra , a coca na venta e o asfalto sempre a deslizar por debaixo de nós . O pé acompanha o ritmo , o pé do Lucas leva o motor ao limite. Lá á frente a luz dos faróis e os traços da estrada consomem a escuridão. Levo aos lábios a cerveja que adquirimos na primeira estação de serviço. Muitos goles depois da paragem  Lucas sai da estrada principal , ao fundo do negrume distingo um barraco onde uma inevitável lanterna vermelha alumia a porta fechada.

No interior a noite perde o controlo e leva-me na viagem alucinante que só acaba com o anúncio da aurora.  A memória torna-se uma sucessão de polaróides instantâneos retratos que persistirão entre o vómito e a ressaca. O Lucas a subir para o andar superior com dois longos pares de pernas, o absinto a desaparecer no meu copo. Mais uma linha , mais uma canção que fala de uma mulher chamada Rosie, mulheres de lábios escarlates levam-me a lugares mais reservados. O velho Lucas a fechar o punho e a uivar como o lobo antes de entrar no quarto com as beldades. E agora , na manhã que traz uma tonelada ao cérebro e a cortiça ao palato ecoam outro tipo de gritos. Uma voz em espanhol. Gritos de aflição:

– Muerto , Lo viejo es muerto.

O Lucas, só pode ser ele .Precipito-me para o quarto onde o vi entrar. Lá dentro o corpo enrugado , a tatuagem a encolher sobre si no braço , o quarto de putas onde emanou  o último suspiro do meu amigo. Deveria chorar mas não o faço. Percorro, com a visão ainda distorcida, o leito fatal daquele que ainda há horas atrás dançava comigo . A ausência de roupa , a garrafa vazia no chão, os aparatos íntimos de duas cores distintas. Sobre a mesa-de-cabeceira duas cobras secas de látex comprovam que o Lucas partiu bem. No rádio , que toca baixinho  junto a uma imagem de uma santa , as guitarras dos irmãos Young, a voz rasgada a vício e corrosão. Apanho a boina do Lucas e apodero-me das chaves do carro.

Perante o espanto e os protestos da dona do bordel saio porta fora. Penso que se agora Deus largasse um enorme relâmpago , fogo divino que tudo levasse a cinzas ,faria um bonito enterro ao Lucas.
Entro no carro e volto ao asfalto. Ligo o rádio o mais alto possível .
Estas rodas a ganharem a estrada . Talvez esteja na auto-estrada para o inferno mas no fundo é tudo , apenas, rock n’roll.