Zé Tóxico – I

O Zé Tóxico é assim. Há vezes que me deixa completamente destruído, outras rei de planetas dos quais já não consigo pronunciar o nome. Por vezes oferenda-me ninfas de língua bífida, riquezas faraónicas que contemplo maravilhado, paisagens de luas mortas onde corro sem gravidade , menino brincando ao pequeno passo do homem .Por vezes as viagens são más.Chegam monstros , horrendos medos , mortes lentas de sofrimento imenso onde o meu grito de insanidade ecoa pelo sofá que fica aos fundos do laboratório do Zé. O laboratório é ilegal , o que lá se fabrica é barato , fácil de produzir e bate muito. O Zé Tóxico é rico. Dizem ser o melhor engenheiro químico do reino dos perdidos, aquele que traz à insanidade da noite todas as cores onde a mente consegue ir. Alguns ,por vezes ,não voltam dessas viagens. A mim nunca me aconteceu. Já estive perto, lá na fronteirinha da terra dos pirolitos a menos , voltei sempre. O Zé diz que o problema não é do produto dele. Mente. Ele na verdade caga bem nos que viraram a molécula cerebral, prefere os que voltam .Os que querem as suas refinadíssimas pastilhas. Os clientes dizem que ele é o Picasso da alucinação. Ele sorri e cobra mais pelo produto. Eu penso que não quero que a sua Guernica rebente dentro da minha cabeça já tão debilitada.
Eu sou a cobaia do Zé Tóxico. É o meu emprego, o meu vício, o meu prazer e medo. Será provavelmente também a minha morte. Uma embolia, as pernas esticadas de repente, o coração a implodir , paredes e artérias corroídas pela minha transfigurada circulação. Nem é uma má morte.. até lá vou fazendo estas viagens. Quase todos os dias abalo da vida sem interesse que teria se não me enchesse de aditivos; como os miúdos tomam o leite antes de ir para a cama aterro regularmente na casa do Zé Tóxico por voltas das oito . Ultimamente já nem janto, não gosto de acordar a tresandar a vómito por muito boa que seja a viagem . Mas a voltinha no carrossel dos insanos eu não dispenso. Vivemos praticamente no laboratório. Nós os três, eu , o Zé e a Zombie. Não sei o nome dela por isso resolvi dar-lhe esse nome. Ocupa a grande cama que fica do lado oposto à parede onde se encontra o meu sofá, os meus alguidares para o vómito, o desfibrilador que o Zé insiste em ter por perto juntamente com a gringa tamanho XXL carregada de adrenalina. O Zé diz que um dia vai ter que me trazer de volta. Se não o conseguir não me importo muito. A Zombie não diz nada sobre o discurso do Zé sobre a minha possível reanimação. Na verdade o raio da mulher pouco fala. Encontra-se quase permanentemente num estado de letargia profundo sobre o leito onde os lençóis nunca conheceram lavandaria. O meu sofá é igualmente nojento. A Zombie dorme enquanto eu tripo , a Zombie dorme enquanto eu esfrego em perfeito descontrole todo o meu corpo para me livrar do exército de escaravelhos que debicam todos os milímetros da minha pele (H3401) . A Zombie ressonou durante a longa noite em que algo terrivelmente quente e corrosivo (Q97R2) consumia as minhas cordas vocais e laringe ; gritei para não morrer. Quando regurgitei veio o efeito secundário do químico, os restos da minha digestão fora apresentado em tons de sangue enriquecido por lascas de tecido morto extraído do meu próprio fígado. Enquanto isso acontecia a puta da Zombie dormia.
Mas por vezes ela não dorme. O Zé Tóxico injeta-lhe algo que liberta a deusa de todas as insanas, ninfomaníaca de batimento cardíaco superior as cento e oitenta , olhos feitos globos de predadora de tudo o que a carne pede , até as coisas mais proibidas. Já fiquei muitas vezes a assistir às suas cavalgadas loucas sobre o corpo magro do Zé Tóxico. Ele parece gostar que eu veja. Uma vez , visivelmente bem disposto, emprestou-ma . Juntamente com algo a que ele chamou o Rochedo dos Deuses ( XX069) aguentei-a firme e obsceno até à manhã raiar. A seguir ela adormeceu. Quando despertou tinha de novo o mesmo olhar ausente. Já não se lembrava de mim dentro dela. Melhor assim. O que há a fazer é esquecer , limpar a mente de todas as coisas que possam na realidade ter acontecido. Apagar, viajar, dormir e voltar desperto, limpo de emoções e culpas como um lactente das bolinhas sorridentes do MDMA e derivados.

Não tenho razões para viver de outra forma , já não me importo. Todos os dias são iguais e são apenas bons aqueles onde posso esquecer o mundo que me deram e agradecer a deus por me deixar decair desta forma sorridente , uma mentira de felicidade que me leva a consciência e largas quantidades de neurónios em macaréus roubados ao mais insano que existe na tabela periódica . O Zé Tóxico diz que o messias se chamava, na verdade, Moseley ; eu não entendo do que ele fala mas há tanto sobre o qual já não consigo articular palavra que , provavelmente , ele terá razão na sua firme crença. Por vezes digo ámen quando uma pastilha especialmente feliz na sua conceção termina a sua maturação no meu ácido estomacal e , em seguida , as tais ondas gigantes por que anseio, a saliva transfigurada em sabor de fármaco e o cérebro , e os olhos . O cérebro e olhos, meu deus, fecham-se neste lento decair de lábios feitos sorriso, a derrocada da babel de tudo o que ainda é real em mim . Perco o controle de mim. Já é frequente que se contorcionem involuntariamente os membros em espasmos que tanto poderão aparentar a convulsão do orgasmo extremo ou o estertor dos últimos momentos.
Sou a prova viva que o ácido pode ser consumido por largos períodos de tempo. O Zé Tóxico diz que se legalizassem a trip eu seria apresentado como case study a sisudos executivos de farmacêuticas que salivariam para me dissecar e tecer ambiciosos planos de negócios baseado na longevidade da minha carcaça.
Hoje veste a gravata negra sobre a camisa branca . Na imaculada bata pode-se ver bordado em letra rebuscada sobre o bolso do peito ,C20H25N3O
Hoje estou um bocado preocupado. O Zé disse-me que ando a falhar no relato das minhas experiências. Que aquilo não é um negócio de droga. O tráfico apenas alimenta a ciência. Ele diz. Acho que tomou algo. Ele diz que tem que saber tudo, que tenho de lhe contar onde vou. Eu digo que o faço. Ele enfurece-se e passa no monitor de muitas polegadas a gravação vídeo da minha última entrevista. O fio de baba que me escorre do canto da boca em direção ao logótipo da HP e o meu monólogo de latidos e uivos lupinos são de facto parco contributo para a ciência.
O Zé Tóxico tira do bolso da bata uma seringa plena de um liquido cor rosa onde no interior navegam pequenas suspensões negras. Ele diz:
– Isto vai doer com’o caraças a entrar – encolhe os ombros – para a próxima a moagem será mais fina.
“Merda de Humor “ penso enquanto desaperto o punho da camisa e exponho o braço direito. O esquerdo está inutilizável. Quero saber:
– O que é essa merda ?
O Zé Tóxico olha-me fixamente e tosse um pouco antes de falar. Isso quer dizer que não tem bem a certeza do que misturou. Eu vejo a mão dele tremer. “Foda-se ,que não sabe mesmo”
A mão livre do Zé Tóxico rebusca um dos bolsos laterais e descobre um comprimido. É vermelho e negro . Ele nota a perplexidade na minha cara perante a proposta da mistura do produto injetado com a pastilha deglutida. Clarifica.
A minha péssima prestação nas mais recentes sessões de cobaia obrigou-o a criar um catalisador de memórias. Como já percebeu que não consigo falar decidiu tentar a minha capacidade de descrever os momentos que passei nas nuvens mágicas da aldeia de lá –lá- lá através da escrita. Para esse efeito serve a solução que espreita através do vidro . O embolo acaricia a sopa que está prestes a entrar em mim.
E o comprimido? Quero saber.
Abrindo-me os lábios com meiguice o ácido é depositado. Olho nos olhos do Zé e vejo um sacerdote que oferendou sacramento a um fiel. Fecho os olhos e rezo a uma boa viagem. Oiço a voz do Zé Tóxico explicar:
– Chamei-lhe “O Sepulcro do Rei “ ( RIP003) ;é uma encomenda dos góticos. Procurei um ambiente extremo de claustrofobia onde a asfixia e o medo se mesclassem com a total ausência de luz, cegueira total. A duração do produto pode ser um problema – uma pausa que já começo a ouvir ao longe – será que aguentas umas cinco horas enclausurado na sepultura? Sem veres nada , quase sem conseguir respirar?
Oiço pazadas de terra tombarem sobre a madeira que está a escassos centímetros do meu rosto. Os meus braços estão cruzados. Não posso escrever agora. Se voltar contarei.

Do Rock – The Doors

Esta noite não há concerto.
Sobre o palco decorre uma farsa. Cantam-se as canções do poeta em voz de falsete sobre a magia do laser e o vazio que ecoa em som digital. Os Doors terminaram quando a porta acolchoada do estúdio se fechou, quando na seda que revestia as paredes ficaram marcadas as impressões digitais do grande álbum de blues que Jim Morrison sonhara.

Depois veio Paris , a poesia , Campos Elísios púrpuras e a morte que o veio buscar de barba longa , purificado pelo banho.
Não se pode recriar o poeta .O rei lagarto que nos fez arder no calor tórrido do deserto da nossa alucinação apenas pode ser santificado em velas lentas em Père Lachaise.Um charro entre as lápides fugindo ao olhar do Gendarme e da viúva indignada , um bafo cedido ao coveiro para poder orar bem junto à campa do Senhor Mojo.

Esta noite não há concerto dos Doors no Atlântico.
Ícaro pedrado que voava a centímetros ácidos do piso do palco. A chuva de cigarros de marijuana e pastilhas de LSD que aterrava aos pés do profeta da longa estrada não irá acontecer esta noite em Lisboa. Jim está morto. Demasiado limpos os homens e as mulheres assistirão ao embuste. Beberricação de cervejas patrocinadas; um ocasional charro levantará os protestos de um espetador não fumador.

Esta noite não há concerto dos Doors no Atlântico.
No vazio do parapeito de um andar alto , equilíbrio precário que se compromete com o esvaziar da garrafa de mescal , balança o fantasma , arauto de mais uma vitima mortal de cabeça inquieta. A obra do poeta persiste nos rasgões de alma que destroem a noite, relâmpagos fazem brilhar supernovas nos olhos que procuram entre os filamentos da intoxicação o motivo para mudar mais uma vez. Sempre em constante mutação, camaleões que se deixam ir e dançam como habitantes de todo o planeta.

Ambrósia dos dementes, mescalina entre as dunas do deserto. Hóstia peyote , Huxley revisitado entre os cânticos do xamã e a super oito de imagem trémula , sempre a mudar a perspetiva . Sempre a chamar o comboio que leva a outro lado , sempre a procurar um ritual de purificação e a palavra declamada .

E nos arredores do pavilhão os carros passam rápidos. No banco da estação de comboios, garrafa quase vazia, sobretudo coçado e oscilante, olhos perdidos no mundo cruel , o afagar da barba , o sorriso desdenhoso pelo fim que se aproxima .
O som do espetáculo ,em formato digital e com vídeos walls exibicionistas das danças daquele que já não está connosco, ecoa tão alto que invade o espaço do terminal ferroviário.

O grande final faz-se na gare vazia, passos de dança de um profeta vomitado e re-encarnado, rodopio de braços abertos , gritos de alegria , a celebração do terminal , entranhas ardendo no fogo que destrói a noite e divide os dias entre bares e celas de prisão . Bidões ardendo , fogo fátuos feitos de fortíssima destilação , o espírito do Senhor Mojo a possuir o vagabundo , o gesticular do corpo , o tremor do queixo ,a emoção de proferir palavras sobre a vontade de foder a mãe e matar o pai. Sempre a rodopiar, sempre a rodopiar, a coronária à beira do colapso e como um asteroide o corpo tomba sobre o cimento . Redondo e morto . Isto foi o fim.

No palco do pavilhão pede-se um minuto de silêncio . A alma do poeta indignada ordena que o velório seja feito pelo restolhar das mortalhas , das gargantas a deglutir o quarto de pastilha , o gemer dos amantes , as palavras de um grande mestre trovador. Maças de Adão deglutindo a água do brilho da lua devem marcar o ritmo da cerimónia fúnebre.

À ventania de uma estrada esquecida deve ser entregue o seu espólio mortal .E as gentes que ainda se lembram de viajar nas asas de uma serpente cor de luz devem dançar em sua memória, não perante falsos deuses mas entre as linhas de uma oração americana que disse que era tempo de abrir as portas da perceção e perguntou se não havíamos ainda aprendido as negras lições de ser sano.

Do Rock – Crazy Horse

O canto do olho do Jorge Passado , meu companheiro de drogas e festivais , chamou-me para uma conferência das opções possíveis de subida aos céus em virtude das más condições climatéricas. Disse assim:

– Foda , pá , foda-se, pá . Pá, está a chover com’a merda . Então pá? O que damos pá ? (uma generosa linha de branca antes de sairmos do carro era o motivo para o atabalhoamento do seu discurso)

A minha sinusite impediu-me sempre de desfrutar a plenitude dos prazeres da senhora branca pelo que me encontrava menos afetado que o meu compincha. Apelei ao bom senso:

– Temos que meter as trips ,pá ! Já viste o que chove ? Fazer ganzas ? – Jorge acenou que não – Fazer um risco ? Jorge discordou:
– Fica tudo em papas – depois levantou a cabeça numa pergunta que era a esperança de muita alucinação naqueles olhos dementes. Eu tinha a resposta:

– As trips pá . Vamos ver os cotas com cores bonitas! – O convite agradou a Jorge Passado. Eu não imaginava a barbaridade que estava a dizer. Tomei a pastilha cerca de trinta minutos antes do início da maior tareia de rock n’roll que apanhei.

Quando Neil Young e os Crazy Horse subiram ao palco chovia copiosamente, os homens com rugas feitas de noites de guitarra ,bateria e baixo olharam as grossas gotas com desprezo . Um subiu a gola do casaco mas as mãos rudes e calejadas de eternas horas a dar no bordão da guitarra baixo não hesitaram um segundo. Tinha um trabalho a fazer. Quando a banda encarou a plateia, o grande lamaçal de Vilar de Mouros, havia o brilho de sexo , de drogas e de muita veteranice das coisas do rock. Quando as guitarras entraram Neil Young arrancou um solo que parecia dizer à borrasca que se aguentasse que agora era a hora da eucaristia do deus dos roqueiros .Um frenesim percorreu a multidão , algo mais subtil que a histeria das entradas das bandas de sucesso comercial, um “ummm”, as cabeças a abanar ligeiramente , os pés a acompanhar o bombo.
Olhei em volta, nesse momento o ácido era uma parte de pleno direito da minha corrente sanguínea pelo que ganhei aquele voyeurismo que caracteriza a viagem. Sondei com olhos plenos de relâmpagos de luz o terreiro fértil de gritos de insubordinação e grandes noites de música. Vi algumas caras conhecidas. Um dos Xutos , um antigo traficante de cavalo lá da minha terra , três tipas que gostaria de ter na minha tenda ao final da noite , um maluco que costumo ver em todos os concertos onde as guitarras são rainhas. Todos os olhares estavam siderados nos homens sobre o palco. Havia um certo drama no ar, como se no imaginário coletivo a chuva incessante fizesse que o guitarrista, dedos rápidos e alma fundida com o instrumento, arriscasse a eletrocussão num duelo entre o trovão eminente e a distorção habilmente trabalhada pelo “slide”.

Quando o tema terminou o público aplaudiu com vigor. A banda apenas agradeceu com um acenar de cabeças, como quem agradece uma imperial e arrancou logo para o tema seguinte. O baixo e bateria malharam um ritmo bem marcado até o líder da banda, o canadiano Neil Young , uma lenda viva do rock , acabar de beber o que me pareceu ser cerveja e arrancar ao breu da noite as almas dos que assistiam ao seu espetáculo. De olhos fechados, à beira do palco , a catadupa a escorrer pelo corpo da Fender Stratocaster , as cordas a brilhar , um caleidoscópio feito de notas distorcidas , a aura do grande solo. A cabeça para trás, o cabelo longo mas já sem glória, escorrido da água de Vilar de Mouros. O transe; o dele, o meu.

No lamaçal as brumas de setenta e um misturaram-se com os ácidos de Woodstock e a branca refinada e barata dos dias presentes. No centro de uma poça de água dançava uma mulher, ainda jovem , firmeza no seu busto exposto , os longos cabelos negros eram cataratas de ocultação do seus seios generosos, uma tatuagem de escorpião junto à cintura. Estendeu um braço ao homem à beira do palco. Ele viu-a.
Eu estava agora mais próximo, do palco e da jovem que chamava o velho músico. Havia algo prestes a acontecer. O ácido permitiu-me um ínfimo detalhe na minha observação. Que algum deus abençoe os engenheiros das boas químicas. Procurei nos olhos de Neil Young , um sorriso de desafio rasgou assimetricamente a boca onde os dentes conhecem o sabor de todos os fumos do mundo . Desafio. Havia um desafio feito no gesto daquela mulher de mamas ao léu que apelou a algo. Não era luxúria, era algo que aquele homem conhecia bem. Milhares de palcos, noites e noites perante multidões, trazem um carisma a alguns homens. O que sucedeu foi, no meu psicadélico entender , a honra do overdrive , o momento em que o rock se torna duro e a luxúria é ejaculada na forma de uma sequencia de cordas, torturadas ao limite , uma palheta que se assemelha a uma língua sobre a vulva, o cilindro metálico no dedo médio deslizava ao longo do braço da guitarra ; o efeito era óbvio. Ela reagiu ao homem de pernas abertas, instrumento extensão de si mesmo; a cabeça atirada para trás, a chicotada da longa cabeleira encharcada nas costas, todo o esplendor revelado; os meus olhos feitos microscópio vislumbraram o enrijecer dos mamilos perante a chuva e a música. Aquele solo era dela, aquela visão era dele.

Com um sorriso e um piscar de olho o musico voltou ao microfone, uma manta cobriu a nudez da rapariga. As palavras falavam sobre uma rapariga de canela. Olhei-a de novo, de facto o sol havia criado na sua tez o dourado apetitoso da especiaria.

Do Rock – RATM

Hoje vim bem para o espetáculo. Hoje tenho uma cabeça limpa que está muito revoltada com a situação. Quando a guitarra rasgada de Tom Morello trucida o riff que é feito para acordar consciências ergo-me e escuto a palavra. Porque há algo que está, profunda e globalmente errado e é preciso falar. Que seja feita “ la revolucion” na malha do baixo e na voz de Zack La Rocha. Raiva contra a máquina. Disseram um, dois ,três e lançaram ecos de rebelião para a multidão que se agita no terreiro. Contam-se pelos milhares, bandeiras de foice e martelo no ar , olhos de revolta , t-shirts de Che , mortalhas smoking , algum álcool. Hoje para mim, nada . Apenas água e política.
Rage Against the Machine é ,acima de tudo ,um ato politico. Uma explosiva mistura das rimas do hip-hop com o poder das guitarras distorcidas e da secção rítmica marcada a ferro. As palavras são balas. Os milhares que se agitam frente ao palco são algo diferentes das costumeiras multidões dos concertos. Existem os que estão muito malucos mas a maioria é gente de olhares zangados com o mundo. Algo está mal. Aqueles ali, aqueles em cima do palco que saltando como loucos dizem que o inimigo usa fatos caros de fazenda em elegantes cortes de três peças e que faz da manipulação e da desinformação a sua arma . Aqueles que perguntam se nos mandarem saltarem em nome de um estado que não vela por nós o que faremos ? Saltaremos ? Ou diremos não ?
A dança dos corpos também ela difere do que costumo ver pelas plateias onde o rock e todos os seus derivados impõem a sua lei. O choque existe mas é nos voadores; é nos voadores que denoto a grande diferença. Não se esmagam contra a mole humana com o intuito de causar dor a si e aos outros ; abrem os braços antes de saltar no vazio e o voo é suave para a multidão de braços que esperam o corpo de mais um anjo do mosh. Não posso de deixar de pensar nas brincadeiras duras de soldados de um mesmo exército.
Lá em cima , a voz que fala em espanhol dos subúrbios de Los Angels pergunta porque é que os snipers só abrem fogo sobre bandidos pobres enquanto executivos levam bancos a saque e saem incólumes e sorridentes , banhados em obscenas camadas de paraquedas dourados, pingando o sangue dos mais fracos dos homens chorosos que não sabem onde vão viver amanhã. E a voz lá em cima pergunta: Qual é o homem de boa-fé que impõe a premência do lucro à fome dos outros? Qual é o homem de paz que não é capaz de pegar em armas quando a sua liberdade, a sua dignidade e a sobrevivência dos seus é comprometida em nome de uma ordem mundial sobre a qual não pode sequer opinar.
Conhece o teu inimigo. Pensa claro. Faz as perguntas. Recusa e Resiste.
A guitarra ganha a dimensão de uma serra elétrica que rasga a consciência. No palco diz-se:
-Conhece o teu inimigo.
A multidão sussurra em coro com Zack de La Rocha. Já não temos paciência . Cansados , cansados das vossas mentiras.
Tempo de revolta.
A onda que acompanha a convulsão da multidão leva-me até ao centro da roda, uma clareira , uns breves segundos e o olhar de Zack La Rocha encontra a minha camisola e a minha boina desbotada de vómitos no Avante e comícios para putas e bêbados nas travessas do bairro alto.
O braço levanta-se. A multidão escuta no silêncio ensurdecedor entre temas. O grito de batalha ecoa:
– Portugal . 25 de Abril Siempre !
Observo os punhos , as mãos fechadas ,a memória de outros tempos; há uma palavra de ordem que diz “Basta!” ; há uma fonte luminosa que ressuscita como se o vento fosse Maio e o Tejo demandasse mais firmeza às fortes gentes, vítimas dos fracos líderes que delapidam o seu ânimo e engenho. Quando o ritmo marca firme ,mas algo lentamente ,o desenrolar da rima a multidão salta. Não acompanho o movimento, rodo sobre mim mesmo e procuro aqueles que me cercam ; vejo a revolta nos rostos daqueles que não serão ,devido a nascimento e condição, a nata deste pais.
Rostos de licenciados condenados a apodrecer em balcões de bombas de gasolina enquanto distantes primos de corruptos autarcas escalam uma escada de serviço público deixando para trás um rasto imundo de incompetência. Uns óculos redondos e uma barbicha recordam-me o meu professor de filosofia e pergunto o que leva cento e vinte mil às ruas enquanto o autismo engravatado distribui computadores em nome da educação de um povo esquecendo que a figura do mestre-escola é milenarmente anterior à sua presunção de mentor do progresso.
Pergunto ao contratempo do baixo e bateria se lá fora espera o esquadrão de choque que silenciará a minha ira ? Sei que a resposta é não. Custos cortados cegamente, conveniente insegurança que é cortina de fumo para maroscas de largos milhões, lei que não passa da letra morta moldada por escribas engenhosos que protegem eternamente a mesma escória . O homem pobre apodrece nas teias de um julgamento justo que nunca mais chega enquanto condenados em tribunal sorriem em aberturas de diretos televisivos cantando vitórias que enojam qualquer tentativa séria de democracia.
E o baixo contínua, marca o ritmo da palavra. Não me dobro a poderes que apenas são. Recuso e resisto nesta fé. A essência primária da vontade do povo para o bem do povo que era suposto ser o nosso modo de vida.
Volto a casa em silêncio. Leio, alimento a minha mente com as palavras de Noam Chomsky , consciência dissonante com o discurso ultraliberal dos falcões da alta finança. Ao fundo da minha alma persiste a musica dos Rage , o metralhar das suas armas de intranquilidade ecoa em mim. Pouso o livro e honro a cultura de homem livre que os meus me deram. Empunho a minha arma. O poder da palavra sem baixo e bateria , sem rimas ou métricas , sem o riff da guitarra distorcida , o poder da palavra por si só. Pelo povo para o povo.

Vassili doente

Lisete levantou a voz e dirigiu um olhar entediado à figura alta e trémula que se encontrava do outro lado do guiché:

– Preciso do cartão de utente. Está a perceber? Sem cartão não posso fazer nada.

A face, encharcada num suor pouco sadio, de um homem eslavo de meia-idade contestou, depois de rebuscar nos vocábulos do seu curto tempo em Portugal:

– Doente. Senhora. Vassili muito doente.

O turno da noite no grande hospital era o conceito de inferno para Lisete. Os bêbedos, os estropiados no asfalto , o quase cadáver octogenário que a família vinha depositar estrategicamente antes da época estival. Das centenas de milhares de lares nos concelhos assistidos por aquela unidade, os piores e mais sujos casos desembocavam sempre na porta das urgências onde o ruído das sirenes parecia ganhar uma dimensão fantasmagórica.

Eram quatro e meia . Estava cansada. Apenas aceitara voltar aos turnos de fim de semana e noite a conselho da sua amiga Elisa. Na secção de pessoal ouvira-se falar em regime de mobilidade e que era melhor ser mais pró qualquer coisa para evitar chatices. Por isso aqui estava, cheia de sono. E agora mais um chato de leste, daqueles que mal sabem falar; e sem cartão.

Dois nós de dedo delicadamente bateram no vidro insistindo:

– Senhora, por favor. Pouco tempo Portugal. Cartão não

O carrapito de Lisete espevitou-se e repetiu:

– Sem cartão não ! Niet . Percebe ?

Vassili não entendia. Crescera com pouca comida e uma vida sem grandes confortos. Mas sempre houvera médicos. As pessoas estavam doentes e havia médicos. Lá, em Kiev.
Não era um homem rude, fora educado para ser professor de música, mas os acordes da betoneira e da montagem do andaime eram mais sonoros e por isso viera, um ano depois do cunhado, para Portugal. Tinha no bolso o papel de processo que lhe custará três dias de espera no serviço de estrangeiros, mas parecia que para a senhora do hospital não servia. Falava do cartão, do cartão e ele com tanta febre, tão doente. Um abanar de cabeça resignado, os olhos de um vivo azul a implorar entre o vidro e as várias normas afixadas no guichet e daquela mulher antipática veio um bocejo que o fez sentir-se totalmente mal vindo.

Havia muitos dias que se sentia mal. Comia pouco, bebia algumas mínis e vivia num quarto com mais quatro compatriotas e um romeno. A sua disciplina férrea permitia-lhe enviar quatrocentos euros por mês para a sua esposa e filha. Mas comia pouco e aceitava sempre as horas extras. Tinha medo mas aceitava. Tinha medo desde um dia em que, no alto de um quinto andar , o andaime parecerá fugir e as pernas tremeram . Do cansaço, da fome.

Tinha ido trabalhar sempre mesmo sentindo-se mísero, tinha febre mas tentava enganar-se molhando constantemente a cabeça e o torso. O estômago era uma chaga ardente que não suportava um golo de Sagres. Começara a beber água. Os colegas riram-se dele. Hoje, ao sair do trabalho , a caminho da paragem do autocarro o vómito viera , havia pouco para sair, mas o que havia trazia sangue. Decidira vir ao hospital.

Perante a recusa permanente da funcionária hospital recuara um pouco cedendo o seu lugar a um rosto ensanguentado de uma briga de bar. Tinha cartão, entrou.
Enquanto tentava estabelecer de novo contacto visual com a ocupada funcionária, que não desgrudava o olhar do computador, uma ambulância, em sirenes de goela aberta, parou abruptamente junto à porta. Gerou-se um burburinho, um maqueiro entrou a correr levando a sua frente um jovem negro, de não mais de quinze anos, que apresentava ferimentos de bala no abdómen. O tremor nas pernas anunciava momentos finais. Atrás ,a um passo mais lento, outra maca circulava .Totalmente coberta por um lençol, encharcado em sangue, de um dos lados pendia um braço já sem vida.

Vassili baixou a cabeça em respeito aos mortos. Olhou para o átrio e percebeu que não conseguiria falar com a senhora do guiché. Uma pequena multidão de jovens vestidos em cores iguais, dois polícias e uma negra e gorda mulher em pranto incontrolável ocupavam todo o espaço do balcão. Lá fora ouvia-se o chegar de carros potentes em grande velocidade. Foi ver o que se passava.

No exterior quatro carros pintados de negro e com aspeto desportivo estavam perfilados lado a lado. Junto a eles cerca de uma dúzia de indivíduos negros olhavam em frente, de braços cruzados. Outros descreviam um vai e vem desconjuntado num curto espaço de dez, quinze metros. Um dos carros emitia uma cintilação roxa da parte inferior. Vassili notou que a cor era igual à do lenço atado à cabeça do imberbe na primeira maca. Reparou então que o roxo, de uma forma ou de outra, estava presente em todas as indumentárias do grupo. Um potente sistema de som emitia música em alto volume. O ucraniano reconheceu o ritmo do rap mas não entendia as palavras:

“ No matter yo colour or creed,
Im going to make ya bleed,
Packing my AK
I wanna see you die , today.”

Vassili sentia-se mal, cada vez pior . Quis voltar para dentro e rodou sobre os calcanhares. Ao completar os cento e oitenta graus deparou-se com um indivíduo de feições semelhantes às suas no que diz respeito à origem geográfica. O “boa noite “ em ucraniano iniciou um breve colóquio onde foi relatada a pobre condição clínica. O seu compatriota ao ser informado da falta de cartão encolheu os ombros e proferiu uma obscenidade eslava. Pousou a mão no ombro do servente exausto e explicou:

– Camarada, se queres ver médico faz o que eu dizer. Estás a ver aquele negro alto, ali junto ao carro com luz roxa ?
– Da – anuiu Vassili
– Vai lá e diz em Português , Preto do caralho .
– ch`to ?– não entendera
– Diz ao homem . Pre-to do Ca-ra-lho

Vassili repetiu em surdina ,várias vezes : Pre…to da Cara-lhu, Prieto do Caralho.
Caminhou em passo firme em direção ao negro mais alto , que parecia liderar o grupo , parou a dois metros de distância e disse :

– Boa noite.

Imediatamente vinte e quatro olhos de marfim congestionados em pequenos rios de sangue rodopiaram em sua direção. Três mãos entraram no lado esquerdo dos casacos, outra mão movimentou-se para o cós das calças.

– O que é que tu quer , pula ? Emigra ! – Foi disparado por uma voz violenta e rude. A frase foi acompanhada por um baixar de um braço com três dedos estendidos.

– Boa Noite . Pre..to do Caralhu!

A mão do gigante negro ,em menos de um instante ,empunhou uma Glock, recentemente roubada na Azinhaga dos Besouros a um agente da PSP , e proferiu dois disparos.
Os carros partiram deixando atrás de si o cheiro da borracha e a batida “Gansgta” de Dr.Dre. Correram maqueiros, o corpo estendido no chão foi rapidamente transportado para o interior.

Quando Vassili recuperou, por momentos, a consciência percebeu toda a extensão da dor. As luzes no teto ,que passavam rápidas a seus olhos ,e pela pressa com que empurravam a maca, soube que estava no hospital e que estava, realmente , muito, muito doente.

Do Rock – Sex Pistols

Só a heroína injetada é digna do momento. Em memória do Sid . Em memória dos gritos de revolta de uma Londres acordada à biqueirada de bota da tropa e guitarras pessimamente tocadas por desencantados de roupas estranhas e alfinetes de dama atravessados nos mamilos. E tanto tempo passou…tantas gringas , tantas curas , tantos que se ficaram de ferro no braço , as línguas negras , as tatuagens a perderem a tonalidade ao ritmo da alvura mortal .
E não está morto ,o punk não está morto . O tempo passou, o mercado veio e de uma certa forma teve a audácia de converter tudo em vendável. O sumo da papoila torna-me um deus perigoso perante as boas intenções dos homens, não acredito que os Sex Pistols se tenham voltado a juntar por alguma causa. Pasta , pura pasta e uma ilusão, um número de circo semelhante aos dos punks de cristas trabalhadas por horas de laca em trafalgar. Para a foto , para a pasta , para o entretenimento. Paredes de Coura , Portugal , dois mil e oito , quase trinta anos após a morte , por overdose de heroína , de John Simon Ritchie, Sid Vicious para o mundo .No palco está a envelhecida, outrora anunciada voz do punk , Joãozinho Podre .Todavia na grande maioria das camisolas envergadas pela populaça , um pogo de operários cansados e gajas magras do cavalo e desencantadas com tudo , a face que persiste estampada é do carismático baixista. Dele disseram que era a atitude do punk . Quando um gajo que diz que está tudo fodido envereda por um caminho que termina com a sua desgraça e morte propositadas não me resta nada mais que o incluir nas minhas orações que procedem o momento da injeção na veia.
O efeito pretendido não estava a funcionar. Não quis dançar na roda de pés do ar que se formou no centro do recinto. Não me deu particular vontade de lançar grossas escarradas contra os que se encontravam em meu redor. No meio da multidão nem todos pensavam assim e a minha cerveja, copo reciclável do patrocinador do festival , foi inundada por o grosso muco de um tipo de cabelo ausente e olhos reveladores de ,pelo menos, um bafo na chinesa . Encolhi os ombros e bebi. O punk não está morto .
A multidão canta os hinos para auxílio da deteriorada voz , o som é mau , tocam mal como à merda e porém tem uma multidão aos seus pés . Os netos do punk , putos alegres e bem fumados , que envergam camisolas dos green day e usam sapatilhas de alto custo . Os degradados ainda sobreviventes, incluo-me nessa categoria, gajos e gajas a quem , basicamente , a vida não trouxe nada de novo , o tal não há futuro era efetivo e não termina num caldo luminoso mas sim na fome nos limites , nos dias sem nada que fazer exceto ver a televisão mostrar vidas que não tivemos. E de facto algo não está morto. Algo fez uma multidão vir, uma manta de retalhos, mas a verdade é que vejo cá todas as tribos que povoaram a minha juventude . Os carecas , os mods , os punks de crista , os metálicos , os straight , vanguardas com ar de cadáver, cadáveres com ar de pedinte do estacionamento . No chão; seringas, pontas de charro, garrafas partidas, muito gregório e algum sangue escrevem uma complicada charada sobre os motivos que arrastaram estes homens e mulheres apodrecidos e sem esperança para o norte mais longínquo do país, para vir a Paredes de Coura fazer caralhadas uns aos outros e cantar que não há futuro .
Preciso de dar mais uma bomba. Procuro um arbusto , uma tenda vaga , um recanto qualquer onde possa ferver o caldo e dar o tiro . Por detrás de um dos barracos fechados dos comes e bebes . Anicho-me , os movimentos são serenos , a chama pequena do isqueiro , a sopinha a ferver . E depois:
Trau !! A grande luz , o martelo nos cornos . É tão forte que desfaleço por momentos, quando volto a mim encontro um rosto cinzento , um tipo de para ai uns cinquenta anos , as rugas são profundas , há algo no seu olhar que diz que já foi submetido a inúmeros internamentos , traz no esgar perdido o formol das enfermarias do manicómio . Fala :
– Só deste metade da bomba. Posso ?
Não tenho reação ao seu gesto de retirar a agulha do meu braço. Pressionar, com um lenço imundo que retira do bolso de um casaco tão degradado como o seu dono, a minha pequena hemorragia; depois , passos arrastados de buda dos drogados ; depois, qual sida , qual hepatite , dá ali mesmo à minha frente . Um direto no canal. Arrasta a cabeça para trás e deixa o corpo ir, as mãos tomam a posição do sacerdote que abençoa o seu povo , alguns espasmos evidenciam a fome saciada. Levanto-me e enfio-lhe um violento pontapé nos costados . Não há futuro !
Lá em baixo, no palco ,o hino supremo da revolta . Anarquia !
Foda-se . Corro para o centro do covil do mosh com toda a minha droga a tornar-me violento e mau.
E eu sou um anticristo. Que deus do caralho é este que me pôs assim.?E sou um anarquista . Lanço as costas contra um amontoado de corpos, alguém cai , piso-o brutalmente , não há futuro. No centro do poço destilo toda a ira que há em mim, todas as raivas , todas as baldas da vida , todas as merdas a correr sempre mal .Não há futuro .
Alguém me soca brutalmente o rosto e sorri-me em seguida , um rosto jovem , um dos netos. Fodo-lhe a tromba com uma cabeçada e ele abraça-me em agradecimento. Lá , no centro do pogo distribuo toda a porrada que a vida me tem dado. Sou as pás de um moinho de toda a deceção que a meia idade assegurou ser permanente. Junto a mim , corpos em cadeia de choque sem sentido , proliferam frustrações semelhantes à minha. Não há futuro.
Caio, alguém me chuta o lombo. Dói, Rastejo para fora da agitação, em zonas menos turbulentas dois braços ajudam a erguer-me. Dentro de mim o cavalo bombeia-me o sangue em ebulição.
Apaguei.
Voltei a mim perto da zona das tendas, como mortos vivos figuras arrastam-se pelo labirinto de canadianas. Não tenho para onde ir , nem me recordo se trouxe tenda , perdi o saco.
Junto a uma arvore avisto-a. É tão velha como eu , as bochechas flácidas , os olhos onde a excessiva maquilhagem negra não esconde uma também excessiva tristeza , o cabelo loiro foi espetado com cola , envereda uma saia de napa gasta e umas meias de rendas negras onde as malhas já rebentaram em múltiplos sítios. A lividez do seu rosto , a ausência de ser no seu perscrutar da noite revelam que já sentiu a mordidela da agulha. Encara-me, agarra-me:
– Queres foder ? Apetece-me foder .
Ali, no meio de um acampamento levanta a saia de cabedal e oferece-se sem pudor. Vira a cabeça.
– Anda.
Vou. Qual sida , qual hepatite . Entro nela como sou e demoro dois minutos a terminar. A mulher despede-se de mim enfiando uma violenta cabeçada na árvore. A última visão que tenho dela é um rosto ensanguentado e pleno de uma raiva que o sexo não amainou. Os restos de mim escorrem entre as malhas rebentadas e as botas militares. Cospe-me no rosto e parte.
Limpo o escarro
– Adeus Nancy .
Depois parto em busca de mais um recanto. Para dar o último caldo, o do dia , talvez da vida. Não há futuro.

Do Rock – AC/DC

O tipo que controla as entradas no estádio deita um olhar divertido à minha companhia.
O velho Lucas aparenta ser uma ovelha tresmalhada no grande mole humana que enche o relvado e se agita, nervosa ,perante a iminente  chegada do grande comboio de aço que a Austrália lançou a este mundo sobre o nome de AC/DC.

Sorrio ao segurança e condescendo com a cabeça a sua jocosidade. Em seguida sussurro-lhe ao ouvido :
– É o meu avô. Enrola-as mais rápido que tu

Esgueiramo-nos entre a multidão. A tez tisnada em contraste absoluto com a longa barba branca cria inesperados corredores de acesso. Há algo em Lucas que emana o respeito da tribo do rock . Talvez seja a sua boina idêntica à do vocalista , quiçá a t-shirt negra com os restos de tinta da tournée de oitenta, talvez os olhos congestionados pelo haxixe que fuma em cachimbo de prata.
“Cónicas “- explica-me amiúde vezes, antes das mortalhas e dos telemóveis , antes de ser tão fácil ir ao concerto como ir ao cinema. Relata-me os tempos de ir para Inglaterra ao tomate e aos grandes festivais de verão , as festas das garagens. O bando de rapazes a contemplar a primeira stratocaster como se da mais bela peça de arte se tratasse . Falou-me de Vilar de Mouros , falou-me do país a acordar , das raparigas a terem saias mais curtas e bambolearem as ancas. Das noites do Bairro Alto onde o som das guitarras trinou mais alto que os fadistas e a distorção fez tremer as paredes das velhas casas.

Paramos a meio da arena. Posição central . A cerca de cinquenta metros do palco. O velho Lucas faz-me sinal que se vê bem e ouve melhor. Exemplifica com um gesto de dois punhos fechados a embaterem nas orelhas. Concordo e devo mostrar alguma patética reverência à sua sabedoria pois recebo um soco no braço e um gesto impaciente para que acenda mais uma pedrinha. No sistema de amplificação o volume vai subindo, as guitarras vão  aquecendo a multidão. Tenho uma secura imensa na boca, ele mantém-se impassível, apenas os olhos indiciam a brutal congestão de cannabis . Bate o pé ao ritmo da música, a vestimenta integral de ganga e os esfarelados ténis Sanjo fazem com que muitos olhares se dirijam na nossa direcção . Lucas aproveita o facto para cravar uns bafos em droga alheia que agradece com o seu sorriso de lobo velho e os polegares voltados ao céu.

Quando a escuridão antecipa o momento de entrada em cena de Angus Young e pares o meu amigo deita  fora o charro que tinha na mão e fixa o olhar no centro do palco. Uma mão entra em jeito malandro no bolso dos jeans apertados , a outra levanta-se num punho fechado. O queixo ergue-se com se ansiasse pelo impacto do muro de concreto que vai sair das colunas dentro de alguns segundos.
Para aqueles prestes a vibrar com o rock os canhões que encimam o palco proferem uma ruidosa salva . Depois vem a banda . A explosão , as luzes que rasgam os olhos e a batida seca e sincopada da secção rítmica. Sessenta mil entram em delírio quando o homem de calções cruza o palco e a sua guitarra começa a emitir os acordes que abrem as hostilidades.

Algo de aleatório no sistema de luzes faz com que um foco caía directamente sobre o Lucas. O braço esticado , a cabeça em direcção ao solo , o capacete a abanar, o dedo mindinho e o indicador a esticarem-se na saudação que alguns dizem ser do demo. O corpo sacode-se ao ritmo do bombo . No delírio daquele homem vejo a imagem perfeita da eternidade do rock n’roll . Dou-lhe um encosto no ombro e rio-me no seu rosto . Começo aos pulos como um louco. Parece-mos os putos a alucinar. As mãos a gesticularem a pose do guitarrista, punhos fechados a rifarem na atmosfera. Cabeças a abanar. Em redor a electricidade do nosso dueto lança as pessoas num frenesim. Punhos levantados, o baixo a enrolar um grande contratempo com a bateria. A voz rasgada a dizer que soam os sinos do inferno e que nós estamos a ir para lá. A voz da multidão . Ei . Ei . Ei

Deliramos durante as duas horas do espectáculo. No fim , arrasados pelo terceiro encore, secos por dentro , encharcados até aos ossos na cerveja e no suor, saímos apoiados um no outro do estádio agora quase vazio.
No parque de estacionamento algo parece fazer reviver o Lucas. O diabo do homem vai buscar energias a não se sabe onde. Talvez ao espelho que guarda no porta-luvas e à saqueta de meia grama de branca que cheiramos para voltar a nós.
No rádio uma velha cassete toca. O Lucas, olhos de louco , serena voz de chefe índio, diz que na fronteira de Elvas há uma casa onde as coxas das mulheres são roliças e baratas . Que no meio de um caminho que não leva a lugar algum há  uma casa de luz vermelha onde vão os homens sós e os predadores do pó da estrada. Que motas cromadas e mulheres de lingerie negra esperam por nós.

– È apenas sexo , drogas e rock n’roll e eu adoro essa merda .
Lucas roda a chave e o asfalto cola-se ao rodado do carro. De janela aberta , o vento nas fuças , o velho rádio a tocar baixo , bateria e guitarra , a coca na venta e o asfalto sempre a deslizar por debaixo de nós . O pé acompanha o ritmo , o pé do Lucas leva o motor ao limite. Lá á frente a luz dos faróis e os traços da estrada consomem a escuridão. Levo aos lábios a cerveja que adquirimos na primeira estação de serviço. Muitos goles depois da paragem  Lucas sai da estrada principal , ao fundo do negrume distingo um barraco onde uma inevitável lanterna vermelha alumia a porta fechada.

No interior a noite perde o controlo e leva-me na viagem alucinante que só acaba com o anúncio da aurora.  A memória torna-se uma sucessão de polaróides instantâneos retratos que persistirão entre o vómito e a ressaca. O Lucas a subir para o andar superior com dois longos pares de pernas, o absinto a desaparecer no meu copo. Mais uma linha , mais uma canção que fala de uma mulher chamada Rosie, mulheres de lábios escarlates levam-me a lugares mais reservados. O velho Lucas a fechar o punho e a uivar como o lobo antes de entrar no quarto com as beldades. E agora , na manhã que traz uma tonelada ao cérebro e a cortiça ao palato ecoam outro tipo de gritos. Uma voz em espanhol. Gritos de aflição:

– Muerto , Lo viejo es muerto.

O Lucas, só pode ser ele .Precipito-me para o quarto onde o vi entrar. Lá dentro o corpo enrugado , a tatuagem a encolher sobre si no braço , o quarto de putas onde emanou  o último suspiro do meu amigo. Deveria chorar mas não o faço. Percorro, com a visão ainda distorcida, o leito fatal daquele que ainda há horas atrás dançava comigo . A ausência de roupa , a garrafa vazia no chão, os aparatos íntimos de duas cores distintas. Sobre a mesa-de-cabeceira duas cobras secas de látex comprovam que o Lucas partiu bem. No rádio , que toca baixinho  junto a uma imagem de uma santa , as guitarras dos irmãos Young, a voz rasgada a vício e corrosão. Apanho a boina do Lucas e apodero-me das chaves do carro.

Perante o espanto e os protestos da dona do bordel saio porta fora. Penso que se agora Deus largasse um enorme relâmpago , fogo divino que tudo levasse a cinzas ,faria um bonito enterro ao Lucas.
Entro no carro e volto ao asfalto. Ligo o rádio o mais alto possível .
Estas rodas a ganharem a estrada . Talvez esteja na auto-estrada para o inferno mas no fundo é tudo , apenas, rock n’roll.