12 de Novembro – Prova Criminal I

A chanceler olhou , entediada , os rostos magros dos homens que se perfilavam em silêncio ao longo da avenida por onde o cortejo oficial deslizava.
Cansada , adormeceu uns minutos. Sobressalto , na janela ainda as longas fileiras de homens calados. “Todos iguais” pensou . Em seguida passou-lhe pela ideia que talvez devessem ser tatuados com números de série.

Londres – Shots de uma revolta I

Fechado nesta cave , este cachimbo esta chama que me leva para o céu triste londrino , este cachimbo que chama com uma raiva inaudita. Para as ruas, capuzes , mãos nos bolsos , contentores , montras de chinocas e começa a chover e começam os tiros , ardem contentores , ardem casas , já tenho uma consola , sapatos novos . No bolso os móveis chamam para outros lados antes que a porcaria apareça nos seus coletes verdes e no seu passo hesitante de tanta civilização. Há bendita Commonwealth que nos tornas tão difíceis prisioneiros. Mais uns polegares , mais uns focos de incêndio e se me perguntares a razão tal não existe . é tudo tão confuso nesta cidade que anda tão depressa, toupeiras apressadas de gabardines de tons escuros , sapatos desportivos , atletas de auscultadores aspirando o smog , taxa de congestão, congestão dos meus sentidos na ponta do vidro. Smack em soho. E continuamos a corrida da pura destruição. Queremos e levamos , ao meu lado duas miúdas que devem conhecer há pouco a menstruação espancam a pontapé os restos de um mostrador Armani,;na rua contígua morrem dois coreanos , imolados em seus negócios familiares.
Gritamos :
Urrahhhh.
Urrrrahhhh .
Urrrahhhh !!!!!!

Terra de Incas – 1/6

Calor , muito calor , uma humidade imensa feita de suores pobres e das grossas nuvens de poluição que chegam a Lima vindas da grande cintura de indústria pesada. Um esgar mais profundo e conhecedor das narinas detecta as suaves fragrâncias dos ácidos e solvências oriundos de laboratórios clandestinos onde se fabrica a mais alta das alucinações . No táxi que me leva ao hotel admiro as gentes e lugares desta cidade ( embora na minha mente…) . A dimensão do engarrafamento é tal que ouso uma saída para ir buscar duas cervejas a uma “bodega” , o meu motorista agradece o gesto e desenrola a língua sobre as misérias da vida. Quando sabe que sou de Portugal recorda-se do Cubillas e dos dribles que embriagavam o antigo estádio das Antas . Fala-me do filho ,também taxista, e da filha que se perdeu. Com um encolher de ombros ironiza:
– No soy hijo de puta pero padre de puta.
Resigno-me em silêncio durante o resto do percurso ( Não consigo deixar de pensar nela) . O homem, José dissera chamar-se, fixou o olhar negro no fluxo do trânsito e cantarola algo triste que passa no rádio fanhoso do velho Ford.
É com alívio e uma gorjeta de dez dólares que me despeço e entro na bolha de estilo de vida que é o meu habitat. Ar condicionado, uso de desodorizante ; um bar onde se sirva um “Rusty Nail” decente.
No grande espaço do bar do hotel o meu interesse hesita, durante quatro pulsações apressadas, entre as bronzeadas prostitutas e o indivíduo de fato com uma solidão de traficante eternizada no olhar frenético. O constante sobressalto entre a venda e a chegada da polícia. Opto pelo consumo dos opiáceos aos prazeres da carne ( Estou a salivar, mais do que o costume ). O meu interlocutor revela uma pressa que me cria desconfiança.
– Quanto ? – Indaga, o rosto bexigoso de fuinha continua a varrer o espaço do “lobby”. Parece-me excessivamente directa a abordagem. Deve estar a vender produto fraco, está agarrado, quer enganar um otário e fazer-se à vida.
Ignoro-o com esforço da minha vontade e peço um “Rusty Nail” ao barman de olhar impávido e sorriso de cadáver. Quando se debruça para me servir a bebida murmura em voz circunspecta:
– La buena la tiene lo Capitan – o braço discretamente aponta uma mesa ao fundo da sala onde um homem só me convida com um gesto magnânimo do único braço que lhe resta. Pendendo do lado esquerdo do fato branco o vazio da manga faz o casaco descair quanto baste para revelar a coronha de um revólver de elevado calibre. O rosto tem a cor dos primeiros destas terras, o nariz forte , os olhos; esses não consigo vislumbrar, estão ocultos nuns óculos “Ray-ban” de lentes espelhadas que devem ter feito furor pelos finais da década de setenta. As lentes estão manchadas das grossas gotas feitas de suor e dos excessos da camada pastosa que lhe cola o cabelo negro e comprido ao crânio. A voz é educada mas contém uma aspereza que foi aprendida nas celas da penitenciária:
– Senhor , que posso fazer por si ? – Os dedos emoldurados em pirosos anéis de chuleco agarram o copo de gin e emborcam-no com sofreguidão.
Este homem é um profissional, sabe que vim comprar e quer vender . Vê pelo meu aspecto que tenho dinheiro, pelo meu olhar decerto vislumbrará a imensa ânsia.
Vejo pelo seu vagar que já fez isto milhares de vezes. Esse facto acalma-me. Abro as mãos sobre o tampo da mesa:
– Diez
O traficante grasna uma gargalhada com som a escarro de desprezo:
– Gringo loco ! – Depois propõe o seu preço.
Concordo com os duzentos dólares. O negócio não será feito aqui. É-me indicado o caminho dos balneários. O maneta levanta-se e arrasta as botas texanas até aos urinóis.
Espero um minuto e sigo-o.
Lá dentro tudo se passa rápido, contra a entrega de quatro notas com a cara do general Grant recebo dois generosos pacotes que albergam, de certeza absoluta ,as gramas que transaccionei. O comerciante parte e eu quase corro para os cubículos. Gestos atabalhoados conseguem constituir a primeira linha da noite e em poucos minutos levanto os pés do chão; sou um rei do mundo que sente escorrer pelas mucosas um caramelo infernal.
Quando regresso ao átrio os meus passos deslizam galopantes em direcção ao meu quarto. Guardo no cofre todos os meus bens mais preciosos excepto um dos pacotes , mil dólares em dinheiro e a minha identificação. Mudo de roupa dançando ao som da MTV, dou mais uma linha, não gosto da camisa amarela , mudo , desço, volto acima , dou mais uma linha, uma bebida do mini-bar , abro a janela , Lima jaz aos pés do meu olhar brilhante.
No bar de novo , as mulheres são agora mais belas , escolho duas , as com ar mais obsceno , bebo um vodka antes de sairmos à rua. Digo-lhes
– Quero fiesta
Elas dizem sim
Digo :
– Quiero la noche loca
Elas levam-me,a dançar, encharco-me em álcool e no aroma dos corpos generosos emanando feromonas e outros vapores do cio. O som está altíssimo. A noite é um carrossel de mãos que me apalpam e levam mais uma nota de cinco dólares entre os seios , fugas ao lavabo , mais , sempre mais. O meu primeiro pacote é generosamente partilhado com as minhas companheiras. Na pista de dança constato que as duas mulheres que me ensanduicham num roçar explícito não são as mesmas com que sai do hotel. Isso é indiferente, excepto ser um excelente motivo para convidar as novas amigas a darem uma linha.
Y.M.C.A é a banda sonora da primeira luxúria da noite. Nos lavabos – mais uma vez , um hábito preocupante – a minha oferenda às novas ninfas é acompanhado de um ajoelhar agradecido.
A partir desse momento a minha única ânsia é partir , esparramar na cama “King Size” do meu quarto todas as promessas que foram inaladas em grande pureza por tão badalhocas damas.
Pago muito por um táxi que guincha veloz entre as avenidas sempre movimentadas da movida latina . No banco de trás retemperam-se as forças sobre o pequeno espelho de maquilhagem , firmam-se as vontades de deboche no jogo réptil de mãos e bocas escancaradas com línguas de fora.
No hotel a selvajaria perdura até às quatro da manha.
Educadamente acompanho as poldras, balançando nos seus sapatos plataforma, até à porta principal do hotel onde um táxi as leva para sempre da minha vida.
Dirijo-me ao recepcionista. É um velho, as mãos tem desenhado um mapa que deve ter começado muito longe de Lima . Peço um despertar para as sete, sem motivo informo; talvez para conversar um bocado sem ter que pagar.
– Vou a Machu Picchu- estou excitado com a ideia e a minha voz treme como a de um adolescente.
O olhar do velho censura-me. Adverte:
– Cuidado lá senhor, é forte , muito forte – pigarreia – alguns mudam
Surpreendo-me com o tom do discurso e contraponho
– Forte ? Como assim ?
O velhote sorri-me:
– Nunca ouviu falar da sagrada Intihuatana?
Desconheço totalmente do que fala. Levanto a mão pedindo uma pausa e regresso ao bar , grato pelo seu fornecimento de álcool vinte e quatro sobre sete , peço mais uma bebida . Regresso para junto do balcão e enceto conversa com o velho recepcionista. Noto que lhe estou a retardar uma tarefa e que isso não o parece importar sobremaneira:
– O que é a Inti-tu hua..ta?
– A pedra Intihuatana está lá desde tempos imemoriais, senhor. Nasci lá perto e sempre ouvi falar dela , todos os avós de os nossos avós escutaram sobre a sagrada pedra dos nossos Ancestrais. Dizem que é mágica,senhor.
O excesso de envenenamento do meu sangue traz um frio desconfortável no exacto momento em que noto que a mão direita do meu interlocutor é incompleta de dois dedos.« Puta de terra de manetas » . O discurso do velho prossegue:
– Dizem , os velhos , que quem for puro e esfregar com fé a sua testa na sagrada pedra verá o mundo espiritual , tal como o viram os grandes xamãs . O senhor acha que é puro ?
Perante a ironia da pergunta lanço uma gargalhada que ecoa no mármore polido do átrio. «O velho está a gozar comigo!. Ninguém com os olhos neste estado pode parecer puro a alguém » – A camisa está algo suja de uma pequena hemorragia, a minha respiração acompanha o frenesim que vai em toda a extensão do meu corpo. Respondo muito arrogantemente:
– Não sou puro e vou esfregar a testa na tua pedra e nada vai acontecer. Nada!
O velho encolhe os ombros.
– Talvez não senhor, mas se acontecer será coisa que os puros não merecem.

( continua)

Na América – Rosemary

Rosemary não saiu à rua quando viu o noticiário. Embrulhada na sua manta de um sofá só, sentiu as lágrimas virem sem controlo. Lá fora as primeiras buzinas, os gritos de América, América , a vitória a descer de Queens e de Long Island . Até da longínqua Jersey ecoam os urros , estrelas e listras ao vento.

Sobre a TV a foto de Paul, vítima oficial número mil oitocentos e quarenta nove do chão zero, consumido no querosene rápido que varreu em fogo o piso onde exercia a função de mediador de seguros. A companhia fora generosa, o dinheiro , todavia , não a impedira de desmoronar como as torres. Fechada noite e dia perante uma televisão e um computador portátil, escuridão, internet , encomendas de antidepressivos, tequila , tacos , chinelos do canal oitenta e dois , um dildo que pouco uso teve , comida , uma lingerie para belas e enormes mulheres , comida a jorros , álcool , mais comprimidos, prescrição online . Um cartão de crédito recheado traz tudo à sua porta.

Tudo menos os passos arrastados do seu Paul . Seu marido , feito cinza , mescla com betão em fusão e restos de outros mortos. Os grupos de apoio das vítimas , os círculos de cadeiras , eu sou John , eu sou Rosemary, eu sou Lou , eu sou Dee-X , eu sou Alfonso , eu sou, eu sou… ,Eu perdi .
Eles , meu Paul , meu querido filho Albert , pai , o meu pai; mi amor , a voar pela janela a arder , eu sei ,era ele.

O baque no pátio interior dos corpos a saltarem . Pum . Pum . Pum . O enlouquecido Sargento Garcia da NYPD em pé no circulo a gritar , mãos a arrancarem pedaços de pele , esgravatando para o crânio . Os baques , os baques , pum , pum , os saltadores do dia onze.

Rosemary abandonara os grupos pois era-lhe inadmissível que alguém sofresse mais que ela. Tornou-se a viúva ermita, gere um fórum online , tem alguns vídeos guardados no seu disco rígido de mensagens de adeus de outros e outras que , tal como ela , haviam entrado na espiral descendente. Esses , aqueles que lhe haviam enviado os vídeos com a arma na mão , com a tigela de veneno no ângulo visível da webcam , soluçando e deixando a vida ir pelos punhos abertos. Esses não haviam vivido para escutar a nova da morte do inimigo. Do homem que chamara os aviões e os loucos.
As lágrimas de Rosemary não são pela morte de Osama , são pelo seu Paul , do qual nada resta exceto a foto para onde o corpo de cento e quarenta quilos se arrasta. Um afago na moldura.

Singela Avenida

Nesta singela avenida onde outrora se cruzaram os chapéus dos cavalheiros e as sombrinhas das donzelas são outros os costumes. Boné no chão, algumas moedas, fome na cara.

O transeunte ignora o gesto, o cartão rabiscado é irrelevante. Sida , fome, filhos famintos , cegueira , tudo é motivo para o gesto apressado do não se, por má sorte, os olhos daquele que passa se cruzarem naqueles que esperam pouco.

Em um certo momento a memória daquele que se move em passo apressado identifica no homem ajoelhado no chão ,apelando à boa-fé perante a sua imunodeficiência, imensas similaridades com o invisual que percorre a linha de Sintra pela manhã e o pedante risonho e fanfarrão de um café manhoso junto à estação de Rio de Mouro.

A esta singela avenida impõe-se o regresso da bengala. Um belo bastão de punho de sólida prata. Empunhada pelo pé faria a vara justiça sobre os costados do miserável. Ah , raça indigente! A bengala pune repetidas vezes o malandrim. Os seus gritos de socorro são tão ignorados pela restante populaça como eram indiferentes os seus apelos à caridade. Quando o sangue jorra a tareia para.

O vagabundo corre rua acima, para trás o cartão rabiscado a marcador , um boné e quatro euros e vinte cêntimos. A bengala esfuma-se no ar depois de ter apelado que se marchasse a São Bento para punir outros pulhas. Apenas encontrou o silêncio da multidão e vergonha do Tejo.

Desobediência civil -II

Entre os fogos de verão, entre as cinzas que asfixiam o respirar da tua subsistência alguém chora uma glória que não sucedeu nos relvados da negra África. E a ti o que isso importa ?

Tirou-te a fome o petardo da Jabulani que encontrou o ferro ? O protesto da substituição que roubava a hipótese de vitória foi tão maior que aquele que proferes perante o pão que se transfigura de saloio em escasso à tua mesa. Todavia nada dizes, encolhes esses olhos encovados em direção ao jornal e folheias a página de classificados com esperança que vai pouco além da distribuição de publicidade porta a porta. Talvez seja melhor argumento convencer a amada a fazer oral ao natural ou atenderes cavalheiros que ainda dispõem de capital para ejacular o teu esfíncter em troco de remuneração.

Na rádio alguém, incauto , quiçá subversivo aos interesses da estabilidade económica, lançou a agulha sobre a voz de Zeca Afonso. Comem tudo aqueles que, decerto, não fazes parte da prole. A palavra é contenção, realismo na despesa, o ronco no teu estômago traduz restrição orçamental em fodido. E na gaveta tens a arma que compraste um dia porque o dinheiro era fácil e podias ter problemas. Agora que os tens reservas as balas para a tua têmpora ou ainda consegues inscrever nelas o nome de um ex-ministro? Mais um arquiteto não responsabilizado da tua penúria que anuncia aos microfones da nação que ,em nome da estabilidade ,devíamos assinar o óbito da esperança em redução salarial que nos faria tão competitivos como eslavos esfaimados que agora já não se ofuscam  numa cortina que outrora foi de ferro  mas  que , nos dias de hoje , sucumbem à  férrea vontade da economia livre dos homens opulentos e das métricas que pouca melhorias trazem á vida dos comuns.

Encontras o que resta da tua dignidade nos rotos bolsos da veste coçada ou na inveja pelo polimento da viatura do vizinho que, cada vez mais dias , mês após mês, fica estacionado à porta ? Cospe o asco que te sabe ao pequeno-almoço que cedeste aos teus primogénitos e recorda a arma que repousa envolta no veludo. Olhos raiados de faminta frustração retornando ao lar ,dedos trémulos de poucos euros afagar rodam o tambor e ao final da volta aleatória o ferro encontra o palato , pensas no ministro e , no momento imediato antes de premires o gatilho , concluis que não tens munição suficiente para abater todos os obreiros da merda de vida que está prestes a ir . Fodido , fodido.

Thais preparada

Aquela música que começa assim:

“Fé em Deus, Dee jay “

O Senhor Jesus que vela pelo Rio de Janeiro virou o rosto e mirou uma gostosa na calçada de Copacabana pois aquela que sobe é vergonha de gente boa , é nome que se não se diz em famílias  que murmuram o exorcismo da suja que vai calcando o fim do asfalto , fronteira entre os pobres e os ricos da cidade . Aquela que vai subindo é Thais .

Lá em cima está aquele que manipula os pratos e coloca uma batida bem safada.

Vai preparada e cheirada. Esta noite é de baile proibido, é terreiro tórrido  onde  mulher e chamada de égua , cachorra , vadia e puta a que todos dá. Thais adora ouvir tais impropérios. Os insultos fazem com que os seus fluidos circulem quase tão quentes como a noite de dezembro. O seu passo sobre os sapatos plataforma é curto e toldado pela justeza da quase inexistente saia. O roçar do tecido na pele é agradável. Lá em cima, zona sul , morro do Vidigal , o ritmo que já corta a algazarra dos botequins onde o chope escorre a jorros e todas as cabeças se viram para mirar o rebolar do passo de Thais . Excitam-na  as palavras ditas por bocas onde faltam dentes e onde a saliva é abundante , as mãos afagam os copos , alguns falam alto. Thais sorri e continua subindo, rebola e deixa que todos vejam entre a finura e brancura do tecido quanto nada existe para lá dele.

Thais adora ser cachorra, sempre agitando o corpo , cheirando pó , inalando maconha. Perde-se , cheia dos demónios que habitam a praia e que um dia lhe inundaram as entranhas trazendo esta  fome , este  querer , o inebriante desejo de se sujeitar à maior sujeira . Os olhos grandes estão tresloucados pelo cio, a cocaína traz um brilho especial ao olhar sedento. Entre dentes : “Copa da Putaria”.

O sinal negro junto ao canto esquerdo de sua boca está quente, palpita , acontece sempre assim . Sempre que a diaba da praia volta a chamar por si entre os risos e a música que invadem permanentemente o ar do Rio , Thais veste sua saia minimal , seu decote , seus peitinhos bem moldados pelo cetim e bota a cara de padroeira  de todas as vadias . Esquece seu nome , seus estudos , só sente esta vontade de se oferendar aos bandidos e aos sujos do morro , de querer escória no seu útero , de tremer de prazer nas mãos que já mataram outros homens. No seu olhar toldado o sangue , o prazer e o calor de uma bala perfurando o corpo se entrecruzam numa coisa que nada pode ter de bom.

Nas noites onde Thais se perde , o redentor baixa o olhar , mãe de santo sabe que Exu subiu à favela e tomou conta da menina que se ginga , provocadora , agitadora das massas , sussurrando ao ouvido de uma comparsa “ Dança da cadeira “ .Excitados os bandidos se perfilam , pau na mão , ferro trinta e oito na outra . As luzes se extinguem  , negrume sobre o negrume da cidade , a voz de Thais chamando à carga as fêmeas que ao seu lado se perfilam , filhas da mesma bruxaria , nádegas desnudas deslizando para glandes expectantes de camisa ausente . Thais é a primeira a investir sobre o desconhecido que espera pelo seu calor ;fecha os olhos , murmura uma maldição e se rebola um pouco para apressar as golfadas quentes  e se poder  entregar  ao próximo , grita. Thais diz “dá , dá “ e o segundo homem dentro de si despeja  tudo com um rugido imenso e o disparo de duas salvas ao ar . O som é de tal forma alto que ninguém se apercebe do fogo de calibre de guerra.

Quando a música termina a luz volta. O solo está impregnado daquilo que existe  dentro dos homens e das mulheres. O ritmo torna-se cada vez mais alucinante, suor em rios , corpos de olhares ofegantes , línguas lascivas sobre gengivas dormentes do pó , ancas proeminentes , ancas rebolando. Mãos que afagam a pele, os mais recatados fogem para as vielas e o fazem contra a parede, os mais safados mesmo ali , no terreiro . E o homem do microfone chama de novo pela fé em Deus e pelo homem que controla o batuque.  Thais , ainda cheia de homem , ainda querendo mais , profere , uma vez mais entre dentes ,“Deus o caralho !”

Thais escolhe. Macho alfa, seu nome não importa, apenas o exotismo da cicatriz que sulca o rosto , o corpo marcado pelo terceiro comando , homem de arma de guerra em punho , olhar desafiante  e o brilho do ouro num dos seus dentes. Ela o chama a si e ele não hesita.

Num quarto de barraco a morena da última transa é enxotada dos lençóis impregnados de cheiros e de imundice, o ar está pleno do fumo da maconha . Thais inspira sofregamente o cachimbo deixando que as mãos calejadas do gatilho descubram os caminhos que a levam ao arquejo do torso, a chamada ao sítio onde a diaba diz que todos os homens tem de chegar. Sobre o solo está a arma, a madeira range sobre o peso dos corpos que se entrecruzam. O som do baile . ali mesmo ao lado , abafa os gritos ; os olhos dos dançarinos nos corpos uns dos outros não espreitam pelas frinchas e admiram  Thais assumindo a posição dominante .  No sistema de amplificação o refrão diz que está na hora de ser uma boa cadelinha. Quando pressente a antecipação do primeiro fluxo daquele em si a mão de Thais dirige-se ao solo e, num gesto rápido, empunha a arma e faz fogo. A destruição do sistema nervoso central faz com as convulsões finais acertem num ponto que agrada profundamente a Thais. Coberta de sangue  goza em conjunto com as almas penadas que subiram com ela ao morro.