Subway

Um tipo que o mundo quis conhecer por Chris estava com pressa. As suas mãos acompanhavam nervosas o ritmo da secção rítmica que ecoava em volume elevado no reprodutor de música digital. Na parede da estação , entre os trabalhos do spray negro e a publicidade, a placa anunciava que aquele era o campo dos despertos  . Tal não acontecia , a carruagem apinhada do metro nova-iorquino era uma pradaria de rostos ensonados , hálitos de porcelana a prestações, jornais amarrotados em sovacos de odor intenso, primeiros cachimbos de crack nos olhos mais esbugalhados da turba matinal.

Chris , embora não tivesse embrulhado os seus lábios bem desenhados no canudo de metal que traz a nuvem tóxica, suava abundantemente . No mostrador digital anunciava-se o atraso de nove minutos em relação à abertura do mercado. O dedo polegar manipulou violentamente o ecrã tátil mas a ausência de rede impediu-o de efetuar qualquer transação. Dez minutos.

A mulher gorda , chamada Deborah Smith , embora não tivesse consumido qualquer tipo de estupefaciente , cheirado , fumado  ou picado ; apresentava uma transpiração digna de , em volume e pestilência , qualquer irmão perdido do Harlem. No alto do seu carrapito de funcionária da biblioteca municipal dançava o esquecimento a que uma mulher pode ser abandonada. Deborah é uma mulher só . O tempo esqueceu-se de a deixar bonita, rica , algo mais que o amargo dos dias . Ausente , permanentemente, de companhia. Miss nada , nunca comida , nunca elogiada, nunca chamada de doce ou querida. A linha de cronos dos cento e dois quilos de carne totalmente americana é preenchida em deboches de uma boca escancarada ,ansiosos gestos  na gula erótica que sente ao abarcar um whopper. Duplo . com bacon e extra queijo, tacos , geleias , fritos de cores variadas e sabores condensados em múltiplas aplicações químicas , bastantes partes de um galão em formato de refrigerante.

Deborah Smith não ri , come. Não fode ,come,   vê tv , come ; por vezes brinca por detrás do fecho das calças tamanho oito vezes xis, come , deglute, vê tv .Acorda no vómito do que já não cabia no seu largo estômago  . Na cozinha os frigoríficos já são dois.

Duas são as paragens que faltam para que Deborah Smith possa arrastar os membros de paquiderme , nádegas de Vénus do Neandertal em direção à plataforma. Contorcer o seu tamanho entre os espaços apertados da multidão incomodada. Apressar , tarefa aparentemente impossível , o passo em direção ao néon que anuncia uma refeição rápida por apenas cinco dólares . Deborah Smith empunha dez. Demora oito minutos a digerir. Nos avisos em letra pequena as calorias são às centenas.

Tyronne treme tentando ser o mais pequeno possível , o menos visível a que pode aspirar um negro com dois metros de altura, uma cicatriz horrenda na face e as cores de uma tribo na cabeça. Ele , Tyronne, fumou um bom cachimbo antes de começar a entrega. São às centenas. Na sua mochila apinham-se quatro mil dólares , preço do bairro , de bolinhas para queimar os pulmões dos cabeças de crack.

Na carruagem , do lado oposto , apresentando uma alienação idêntica a todos os outros passageiros está o Agente Reed. Olha em frente , como todos sua , uma gota mais atrevida escorregou pelo crachá do departamento de policia de nova Iorque. Reed não vê Tyronne.

Todavia não é essa a crença do homem imenso que se tenta acocorar perante a surpresa e o protesto de alguns passageiros. Um olhar irado dos olhos raiados de produto e o volume de uma coronha na parte traseira da camisa dos Giants cala a indignação. Em nova Iorque sabe-se que o tiro chega sempre antes do novecentos e onze.

Todavia Tyronne não quer abater ninguém . Quer que o porco do policia não o veja , quer que não haja drama , não quer voltar ao bairro com o lenço das suas cores cobrindo-lhe o rosto. O olhar procura o mapa da rede subterrânea .

Sete minutos depois Tyronne sai numa estação que não era a sua . O medo afaga-o ,mão na cabeça e o corpo que rodopia procurando um ponto de referencia perante o desnorte que a necessidade potencia. Tyronne acalma-se no cubículo sujo dos amores dos maricas e das necessidades dos velhos vagabundos . É luminosa a chama do cachimbo. Seis minutos depois , doze bafos de acalmia devolveram a Tyronne o olhar de um filho da puta tramado. Rola de novo ao ritmo dos seus últimos dias.

E a rima do bairro diz

O relógio tiquetique , contagem descrente para o fim .

Atónito , o puto Joe , recebeu , há seis minutos atrás , no visor luminoso do telefone negro com uma maça , a notificação que Sarah o havia trocado por um grupo de abomináveis serem que sem divertiam em trocas de casais , amores entre iguais , cabedal , urros animais .

O puto Joe , atleta , sorriso feito a fio dental , limpinho . All american boy. Encornado e notificado em 3G .

Sarah, a menina bonita do liceu que virou puta com as narinas cheias de pó nos clubes . Ele ficava a descansar pois na manhã seguinte tinha treino de futebol.

A cabeça abana , lábios de peixe no pasmar perante a honra ferida . Alguém espreita por cima do seu ombro e ecoa uma gargalhada de escárnio perante a imagem que enche o visor. No vidro tátil , bem pixelada , encontra-se Sarah . A roupa é obscena, a companhia múltipla. Traçado a grandes letras vermelhas sobre a superfície do ficheiro

“És pequeno e rápido”

O puto Joe usualmente tão confiante de si mesmo encolheu-se entre as cabeças da multidão e , por breves minutos , tentou imaginar  que não era ele.

A cinco filas de passageiros de onde se encontra o puto Joe está , em simbiose com Deus , o pastor Terrence. A sua gola branca já não ganha o respeito de outrora e é espezinhado e empurrado com a mesma dureza de outros concidadãos . Sua gola branca , hoje acinzentada do suor misturado com o ansiolítico. Para ter calma , para não ter tesão. Para não aproveitar o aperto das gentes para roçar o corpo dedicado ao senhor nas suas adoradas criancinhas. Meninos , Meninas , tudo excita o pastor Terrance. O odor de higiene parca cai em grossos pedaços pelas costas obesas. Nos lábios a oração. Porque ele é o meu pastor .

O rebanho de deus , mochilas escolares , saias curtas , nádegas ainda não de mulher , pélvis delicados.

E o mal não temerei.

O olhar predador , escondido em óculos de massa e um cabelo com muita fixação para a homilia matinal , encontra os traços perfeitos do rosto do puto Joe . Uma inicial emoção perante a angelical linha do queixo depressa se desvaneceu no rosto congestionado de desejo do Pastor. As duas décadas de vida bem evidentes na largura dos ombros eram excessivas para os evangelhos de Terrance.

Saiu perto de Hell’s Kitchen . Olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para ser a hora de os homens falarem com Deus. O volume nas calças era indigno daquele que em breve iria empunhar os salmos.

White Stripes

Um bombo roufenho .

Naif

O bombo e a guitarra a transbordar distorção nas ondas do éter. O condutor, subitamente, corta-me a viagem e muda a estação .No rádio ecoa agora  uma algazarra em espanhol da Califórnia .Na caixa aberta do furgão que se dirige a Tijuana falo simples com o diabo . Só eu , ele e uma garrafa de mescal. No fundo o gusano espera por mim. Juan Ramirez diz que por quinhentos dólares posso ser o primeiro a ter a sua filha ,Conchita .Antes que os homens da zona norte a lancem às ruas por um preço muito superior. Confrontado com os meus duzentos dólares e o meu pronunciar, lábios ao retardador na palavra do ébrio – Fiesta! . La Fiesta! – cala-se, ri e encolhe os ombros. Um sorriso com muitas crateras de cáries percebe que me dirijo para o braseiro de quarenta graus e infinita tequila pelos prazeres da alucinação e não para chafurdar nos rios de mucosas prostitutas que ocupam , literalmente , as vielas onde o calor derreteu o asfalto e a sede se mata com golpes bruscos de bebidas geladas

Na cabina da furgoneta a minha companheira de viagem está ensanduichada entre dois suados mexicanos. Pela inclinação da sua cabeça e pelo arquejar da sua respiração decerto que um , talvez mesmo ambos , estão a acaricia-la por baixo da longa saia. Através da pequena janela vem o fedor de um grande cigarro de marijuana. Estendo o braço para o interior e recolho o meu troféu. A minha amiga roda a cabeça e por detrás dos espelhos fora de moda dos Ray-ban insulta-me com um sorriso de menina suja:

– És tão drogado.

Lanço uma gargalhada e molho a boca em mais um trago do veneno do cacto , retribuo-o

– Sim , minha putinha do rock n´roll

A gargalhada é interrompida pois o orgasmo é conseguido por um dos panchos que a ladeiam , pela guinada que nos faz ir á berma suspeito  foi o condutor o autor da proeza.

Levanto-me e ,perante o espanto de um grupo de liceais em procura do fim da virgindade às mãos hábeis das prostitutas mexicanas , grito aos céus como o coiote louco do cio e do calor do deserto.

Algumas horas depois despedimo-nos de Juan Ramirez , sua filha e os dois hábeis indicadores , segundo o relato da minha parceira .Os casinos da grande avenida e o odor das enchilladas lembram-nos que não comemos há horas. Drogas e mescal são a nossa dieta e travamos uma breve discussão se devemos ou não comer. A única conclusão a que chegamos é que iremos vomitar ,como ignóbeis descendentes dos grandes deuses do rock, o chili e a tequila. Tal não nos parece mal, acompanhamos os tacos com muitos shots.

Pum-pum. Guitarra , bateria , tarola desafinada.

Garagem

O concerto dos White Stripes vai ter lugar numa sala apinhada de meninos de olheiras enormes e raparigas que só pensam em drogas e sexo. Os seus corpos são magros, as suas vestes tem, na sua grande maioria, as marcas da lama das ruelas de Tijuana. Nos rostos as congestões são extremas. Olhos raiados de toda a perdição. Lá em cima , no palco ,são dois.

A distorção flui em ondas de raiva  rasgadas pela figura magra e profundamente pálida da Jack White. Por detrás das peles da bateria a figura algo anafada, onde uns olhos de junkie com distúrbios mentais quase tocam a franja direita e bastante fora de moda, da baterista Meg.

Olho para ela , olho para a minha amiga ,que já está de olhos fechados e cabeça atirada para trás a entrar na alucinação que o bombo alto e repetitivo traz ao interior do peito, e sinto que devia ter bebido mais um pouco, censuro-me por os mais pulmões terem ainda alguns alvéolos não navegantes na nuvem de marijuana que enche o tecto da sala. Aspiro o ar, procuro a garrafa no bolso do casaco. Alguém me estende um enorme charro fumegante. Em troca , uma mão de um tipo que também não está nada bem , pede-me a bebida branca que queima o esófago. Permuto e danço entre os corpos magros , roupas sujas e pobres , roupas caras e sujas , todos os  olhares perdidos no confim do inferno de decadência que é Tijuana. A guitarra riffa , a voz aguda lembra-me que ainda há pouco estava numa caixa aberta de furgão. Naif , burgesso , básico como o caralho devo ser. Como a guitarra e a bateria. Apenas , rock que nasceu e quis ficar na garagem. A tarola é batida com uma crença tal que as falhas ocasionais nos tempos são perdoados na noção da grande broa da baterista. Está tudo alto , muito alto. Muita gente , também estou aqui, perdido pião emborrachado . fígado na merda , pedra nos cornos, guitarras , mais guitarras . Meg , dá-lhe. Danço no meio desta gente muito embebida em tudo o que tira os pés do chão. E danço , rodopio embalado nos quarenta graus do álcool. A queda no solo não traz dor. Apenas o riso. Muito mal. Muito bem . Assim estou.

A minha amiga ressurge junto a mim. A sua ausência foi três temas, portanto três marmelos que a beijaram e apalparam até ao limite possível dentro de uma sala de espectáculo. Nas casas de banho algum poderá ter tido um pouco mais de sorte. Traz uma acesa. Passa-me. Diz-me ao ouvido:

– Acho que perdi o juízo e apetece-me fazer coisas doidas

Sinto-me pouco surpreendido. O fazer coisas doidas era algo que sempre conhecera nesta companheira da estrada das grandes bandas. Coca, porrada , acidentes de carro, detenções , dinheiro falso , tráfego de bilhetes, atravessar fronteiras com tampões de ácidos e anfetaminas eram , entre outras , actividades normais no quotidiano desta amiga que só chamo por doida pois qualquer outro nome lhe ficaria extremamente mal.

O concerto aproxima-se do fim e o tema actual é demasiado lento para provocar a alegria pelo que sinto interesse pelo que ela tem a propor.

– Diz lá

Ela pega-me pela mão

Beija-me na boca e lança os dados da perdição:

– Esta noite somos lixo branco

Esta noite , estas guitarras que ainda ficaram cá dentro , as riscas brancas das roupas , as linhas brancas no nosso espelho. Mais um gole para acalmar o caramelo que escorre pelo canal. Rio lento de esbugalhar.

E ela não quer parar , é uma abelha louca no centro das rodadas mais generosas. E a música do bar está alta. As notas rasgam o ar , catadupas de álcool, inúmeras idas ao banheiro. Mais uma , somos lixo branco. -Basura Blanca – alguém bendiz entre o fumo e a distorção do olhar. A minha amiga grita, levanta o copo de tequila ao alto e emborca de uma vez. Depois , os olhos que agora são – meu deus será que estou assim também ? – Diamantes forjados na fornaça infernal, alteram o plano da noite.

Ela quer ir mais a norte. Algo a guia.

Ela diz

Lixo branco, só se droga , bebe e fode

Ela inquire-me com o olhar

O que falta?

Debaixo dos jeans gosto da ideia

Na avenida onde todas as mulheres são putas surge a figura andrajosa de Juan Ramirez na sua demanda em tirar rendimento da pele lisa de Conchita.

A louca regateia por breves minutos, Juan Ramirez tem pressa, aceita o preço. Do recato do soutien surgem as notas que asseguram que Conchita, já mais barata do que na furgoneta devido ao adiantar da noite, será o nosso final de noite .  Juan Ramirez tem uma má mão para pagar. Nos seus olhos assustados há uma navalha que facilmente o castrará. Nos olhos de Juan duzentos e cinquenta chegam. O resto paga a pensão e mais umas garrafas. Abduzimos Conchita para os lençóis onde as baratas deixaram os ovos, do colchão o fedor imenso dos suores e das goteiras dos corpos.

No rádio fanhoso surge de novo a guitarra distorcida, um riff do lagarto louco que corre pelo braseiro do deserto . O olhar vicioso da louca acompanha-me os movimentos do primeiro corpo dentro de Conchita mas é da língua adornada por uma bola de metal que nasce o primeiro gemido de prazer da jovem mexicana. Como uma palheta hábil o toque faz tilintar o mamilo ; no lençol , no que resta do branco, escorre a linha vermelha do fim da novidade de Conchita.

Do Rock – Motorhead

O nevoeiro envolve a cidade tal como é suposto ser por estas bandas. Embebedo-me nas docas de Londres a partir das primeiras horas da tarde. Os bares estão repletos, uma fauna de cabelos compridos e blusões de cabedal. As gangas são apertadas e as balas enfeitam numerosos cinturões. Nas cercanias da sexta cerveja começo a sentir que o tempo começou a andar para trás , que estamos algures nos idos anos oitenta e que as franjas do mau gosto actual nada mais que são que o último grito da moda de outrora. Os cânticos entoam-se ,pelo Arsenal e pelo Chelsea, o machismo operário ganha o ar congestionado de arrotos de cevada e bufas nauseabundas que a comida gordurosa colou aos intestinos. Sinto-me algo zonzo ; ao meu lado ,cantando qualquer coisa sobre os de Manchester serem todos uns cabrões, alguém emite o metano da sua digestão. Afasto-me , desejo que a hora do concerto chegue. Foi  para a explosão que marca o arranque das hostilidades em formato baixo, bateria e guitarra   que viajei de Lisboa para uma pensão manhosa , uma cama curta e um pequeno almoço estéril que foram o meu acordar na capital de sua majestade ; a rainha da Inglaterra, a gaja que os punks mandaram foder em trafalgar e nos clubes apinhados.

Esta manhã as anfetaminas da véspera tiraram-me da cama cedo e levaram-me a deambular pelas cercanias do palácio , aquela coisa dos guardas reais , o cenário aborreceu-me , vi as horas , ainda faltava tanto para que o ribombar do bombardeiro ecoasse na minha alvoroçada cabeça. Abalei. Passei o resto da manhã a calcorrear o chão sagrado de hammersmith.

Numa ruela onde uma chinesa me pediu vinte libras pela sua boca encontrei uma estranha casa de tatuagens. O homem que traçava as peles era de feições rosadas . Os olhos azuis e os cabelos ruivos confirmavam a casta, um directo descendente dos rudes saxões ; as ilustrações que cobriam a totalidade dos seus braços transbordavam agressividade em cores de negro e sangue. Olhou-me de alto a baixo como que se ponderasse a minha dignidade, ou falta dela , para ser marcado pela sua mão. O azul das terras mais a norte encontrou o negro da minha t-shirt e o nome da banda nela estampado. Acenou em aceitação. Um braço musculado onde o punho estava coberto por uma larga pulseira negra estendeu-se. O cabedal indicou o caminho da cadeira, num sistema estéreo os riffs rápidos e a pedaleira dupla enchiam de metal todo o espaço.

O saxão perguntou-me:

– Tens alguma ideia ?

Abri o frasco das anfetaminas e engoli a profilaxia da dor que ai vinha. Ordenei ,tirando o blusão e levantando a manga da camisola:

– Aqui. O ás de espadas.

Um sorriso encheu o rosto do artista da tinta e da pele:

-Também vou lá estar – depois calou-se e tatuo-me em perfeição , o pé direito marcava o ritmo do mais poderoso formato daquilo que o mundo chama de rock ;no ar persistia o duplo bombo e o cheiro impregnado da marijuana.

Vai lá estar, na academia de Brixton , o concerto dos vinte e cinco de carreira dos Motorhead, o trio infernal liderado pela verruga mais nojenta do rock n’roll , Lemmy , um súbdito da casa de Windsor que presta a sua vassalagem na distorção de um baixo poderoso e de uma voz onde todas as longas noites feitas de solos estridentes e suor de cerveja  se misturam numa rouquidão profunda.

O ar do bar está cada vez mais denso, a necessidade de um cigarro obriga-me a procurar o ar frio de Outubro, tusso um pouco quando a humidade e o smog me invadem os pulmões. Ela também se encontra no exterior do bar. Sentada num barril de cerveja , o esgar na boca diz muito sobre si. É ordinária, pobre,  algo boa e muito fácil e também tem o ás de espadas tatuado algures em si, mais provavelmente na alma. Nascida para perder, um cigarro no canto da boca e um olhar desdenhoso pela turba mal-educada. Uma rainha suja; de cabedal, speed e o conhecimento de muitos homens que haviam acabado em si. Uns por dinheiro , outros por cerveja e droga. Outros porque gostava ,simplesmente, de os sentir, cavalos de aço , dentro de si.

O seu olhar carregado de maquilhagem negra rodopia à velocidade do relâmpago para o meu. Durante longos minutos trocamos olhares congestionados de acasalamento onde deixamos prolongar o gosto pela caça. Como predadores que somos sabemos da supremacia do prazer da caçada ao acto da captura. Sabemos ambos que esta noite já estamos condenados a gritar sujos e drogados em lençóis imundos enquanto ratos e baratas coscuvilham pelas frinchas das paredes. Esta noite seremos pornografia de vermes .Depois de o urro cruzar os nossos tímpanos e o bombo duplo infernal de um tema que se chama sacrifício nos ter rasgado em suor, imersos no delírio violento  de um turba enlouquecida; seremos casal de horas , seremos imensamente desavergonhados  e sujos .

Mas antes do acasalamento terá que vir a coma, misto de álcool e anfetaminas. O speed não mata depressa. Cristais diluídos em água destilada que se cravam entre os traços da tatuagem. Respiração de cavalo da Ascot, olhares de podengo faminto do sangue da raposa, lázaros cáusticos da electricidade que flui em descargas de raiva e bílis de nossos fígados triturados pela onda ácida. Grito como um insano, até às cordas vocais perderem o pouco que lhes resta ,afectadas pelo frio nada salutar da cerveja. A sala está cheia; gerações de vampiros e gentes rudes .  Punks que perderam a crista , headbangers derrotados pela calvície, miúdos ainda em lua-de-mel com as guitarras cheias de  betão que lhes  rebentam no focinho. Lá em cima , magnânimos, Motorhead .Chegaram , viram e venceram. O concerto foi iniciado em luz plena, três homens pegaram nas guitarras ; o vocalista baixista dirigiu-se ao microfone revirado para o solo e anunciou:

– Somos Motorhead. Tocamos Rock n´roll

Depois veio o poderoso cavalgar que enche as longas faixas de asfalto ardente. E pensei em anjos do inferno e noites de médios longos na estrada que atravessa o deserto de fogo . Dentro do meu peito o massacre é imenso, o coração violentamente bombeado , impregnado na minha aorta o cristal do speed acompanha o ritmo. Chego junto ao palco , cheira ao mais puro que o rock tem , no meio de uma roda que se forma fecho os olhos e deixo-me levar por um segundo a dez mil pés de vertigem. Depois vem o mosh e sou sacudido para uma zona lateral do palco.

Perdi-a de vista , a minha fêmea desta noite sumiu-se na onda humana que atravessa toda a largura da plateia. Vasculho o horizonte no sacrilégio de virar as costas ao palco. Um pé embate-me violentamente nos rins e aceito com resignação o castigo pela minha heresia. Devolvo-me ao concerto e danço até as pernas me lançarem ao chão e a tontura tirar vómito de dentro de mim. Mas até lá  esmago-me e incendeio-me no fogo desta música a que chamo suprema. Os dedos formando os chifres do diabo, o pescoço dorido do rebentamento voluntário do cérebro contra as paredes cranianas.

A gaja que se foda.

Duas horas e meia após os primeiros acordes encontro-me de novo na rua e não olho para a direita quando atravesso a passadeira. O guinchar da travagem devolve-me a consciência e os milímetros separam o meu pé do rodado da HarleyDavidson .Sentado aos comandos deparo-me, simultaneamente assustado e agradecido, com o rosto familiar do saxão tatuador. Enverga um blusão de cabedal e o capacete tem o formato da infantaria alemã de trinta e nove  quarenta e cinco. Não profere palavra. Um gesto de cabeça convida-me a ocupar o lugar do pendura. Deito um último olhar pela multidão que dispersa em busca da minha , por breves momentos , companheira. Vejo-a ao longe , dependurada num grupo de três miúdos altos e guedelhudos. Não a posso censurar por ser vadia.

Monto e com a mão bato nas costas do homem que guia a chopper indicando que estou pronto para a viagem. No dorsal do blusão o ás de espadas e a frase “Nascido para perder” relembram-me quem sou. Uma gargalhada e um charro rodam do lugar da frente da moto. Quando o potente motor a dois tempos martela a noite londrina lanço aos céus o urro gutural daquele que eternamente vagueia pelo negro da vida. Partimos a toda a brida para a insanidade que Londres tem.

Do Rock – Lou Reed

Este primeiro cheiro de natal tem um gosto especial. É o gosto de estar sem ti , sem virgem Maria ,sem casa e sem emprego . Estar sem  qualquer coisa  que tenha cognome de certeza . É especial estar aqui, em Nova Iorque , e não seres mais nada que o primeiro número que apaguei do telemóvel quando embarquei na porta catorze da Portela. Tu querias-me dar amor e dizias “Seremos felizes” e eu só pensava nas coisas que se perdiam na vida chata que tínhamos, nas mulheres fáceis de olhos viciosos e em seringas com êmbolos de ouro. Ao fundo soava a guitarra ligeiramente distorcida e a voz cavernosa de Lou Reed. E tu dizias que era uma música estranha e eu dizia que um dia o iria ver no seu covil. Tu rias-te e dizias que eu já não tinha idade. Tu não vias que o animal do rock vive sempre inquieto na minha alma. E decidi que de ti já bastava. Já não eras a minha Julieta, eu nunca serei Romeu de ninguém. Gosto demasiado das caves negras plenas de fumos de naturezas mil, os amplificadores ao fundo da sala ,o homem velho junto ao microfone que  transpira grossas gotas de heroína e redenção. E tu , não foste minha vida , nem minha mulher mas ela esta noite foi. Como é bom caminhar na almofada do lado selvagem da grande maça carregando em nossas veias o mais puro “smack”. Bomba de vidro e as guitarras lá ao fundo na sala. No lavabo , com o garrote ainda apertando o meu batimento cardíaco sem amada ou pressa de vida , leio que a Amanda faz ao natural  por cem  dólares e que o Diamond , a Terry e alguém chamado Lee Jean brincaram jogos porcos de agulhas e bocas gulosas naquele cubículo . Alguém disse nesta porta de urinol que Deus nunca se esquece de Nova Iorque , alguém disse que na quinta avenida vai ser lançada uma linha de lingerie para pervertidos e gente sórdida. A guitarra, a voz lá dentro , alguém com a autoridade inegável de ser o sobrevivente mais perfurado do rock n’roll .Gasto , o corpo de Lou Reed está tão gasto mas a voz  não está cansada de contar as histórias que só as guitarras podem contar e os braços injectados escutar. E todavia não consigo ainda sair desta casa de banho. Vim ver o grande animal, o trovador dos urinóis onde exércitos de berlinenses se caldaram num novo holocausto e , ironia da vida , a heroína dentro de mim congela-me e não deixa que  presencie a música que tem o seu nome.

E fechado aqui neste esterco imundo onde tanta merda , tanto grego , leites e sangues contaminados se propagaram , sinto-me capaz  , sei que sou filho de Jesus. E, quando o ferro sai novamente do canal, contemplo mais um escrito na parede. É uma mensagem do criador , é talvez apenas uma frase tonta para um homem tonto mas , com esta merda toda dentro da cabeça, acredito que vi a letra da salvação e ela diz. “todas as meninas doces e os sorridentes rapazes venham dançar”

E liberto-me, fujo do lavabo e emerjo na plateia que se oscila ao ritmo lento e aparentemente sem controlo dos opiáceos injectados. Acho que toda a gente que dança comigo esteve algures num lavabo a dar uma bomba. E agora sou tão livre e acho que não sei nem me importo que esta seja a minha última noite. Esta noite de escuridão, de perdição nas vielas mais sujas onde os agarrados do crack se acariciam a si mesmos e à sua imensa privação. Enquanto ardem os bidões por debaixo dos viadutos outros drogados mais afortunados viverão festas em luxuosos apartamentos onde a arte e as seringas convivem na mais amena simbiose de pecado. Sucedem-se as telas, as odes declamadas  e as colheres a ferver o caldo da morte. E as guitarras dos homens de óculos escuros distraem-me momentaneamente de quem agora sou . Procuro de novo o teu nome. Tu que te chamavas o que? Sei que não eras nada. Um pouco de jet lag e bastante heroína apagaram-te. És uma pegada sem importância na maior avenida desta cidade onde ainda cheira a mortos das torres e aos hambúrgueres do velho Jimmy Lee que morreu baleado numa disputa entre bandos rivais na esquina da cinquenta e dois .

Nova Iorque tem Lou Reed e milhões de outras coisas que te perdem sempre a acontecer. Nunca se dorme, há sempre qualquer vício para alimentar e para as fomes dos homens a grande cidade do mundo tem todas as respostas. E esqueci-te, e já não voltarei. Espera-me o sobretudo roubado e imundo do vagabundo pleno de cirrose; braços com tromboses múltiplas. Talvez não seja assim e me espere uma tipa gira que gosta de ver os Knicks . Ou restam-me dois minutos de dança louca , quiçá o calor quente da cama de uma mexicana que acredita em jogar na bolsa. As Vénus de peles e saltos altos correm paralelas às ruas mais escuras e um polícia que se chama Jim Nova fala-lhes de deus e que há um caminho para a salvação. A puta mais velha escarra-lhe que ele é um cliente que não paga por foder as mulheres da rua. Jim Nova não sabe se ela falava dele ou do senhor.

E com tantas valsas de dias tão negros a apodrecer à sombra dos grandes arranha-céus que roubam a luz do sol aos homens e mulheres de passo apressado porquê haveria de ter saudade de ti? Aqui aprende-se a matar a saudade com inquietação e pó castanho. Aqui há tantos estranhos para chamar meu amor que apenas um rosto já não tem sentido. Em Nova Iorque todos podemos ser alguém ou optar pela queda sem que ninguém nos impeça. Ninguém terá pena de mim pois os corredores das estações de metro estão cheias de seres trémulos que pedem um níquel para o cachimbo ou para a garrafa ou para apenas mais uma rodada no póquer dos casinos sem nome e sem néon. Aqui há tudo a acontecer tão depressa que te podes esquivar entre a chuva monótona da vida e seres mil criaturas de óculos negros e rosto cravado no chão que a pele macilenta e alva comprovam a eterna vivencia nocturna.

No palco uma guitarra malandra que ainda tem um vago tom do rock n´roll que fazia abanar salas de liceu e clubes clandestinos diz que está farta de ti . E eu concordo e roço a pélvis nas nádegas malandras de alguém que só por não seres tu me cria uma excitação imensa. Erecção feita a ópio e lá em cima o senhor lento da voz grossa diz que somos todos uma estranha experiencia. E fala no zoo e eu sinto que o cio chegou no formato de uma canção. A pressão das nádegas de uma mulher sombria de maquilhagem carregada diz que também o sente e eu estou farto de ti e abendiçoo a vadia que me caiu na sorte.

Junto ao microfone Lou Reed diz-me que a algeme e lhe dê a experimentar caminhos proibidos. Fala em roupas negras e bocas amordaçadas e depois relembra que tudo é permitido nos hotéis baratos de Hell’s Kitchen onde a policia só entra depois de ter havido disparos. Dou a mão aos longos dedos que tremem, talvez de tesão talvez da necessidade de mais uma injecção , da mulher que não quero saber como  se chama.  Será apelidada de  querida e isso chega. O solo da guitarra diz que é tempo de colchões onde já gritaram muitos e já morreram alguns. E no dedilhar lento de uma escala que decerto foi escrita num quarto negro e sem ar puro penso pela última vez em ti e em como gostaria que estivesses presente. Para ver ; eu e ela e as coisas tão obscenas que faremos. Que visses, que entendesses que o amor breve e porco é  tão delicioso como o caramelo de heroína a derreter-se na prata.

Do Rock – Nightwish

Hoje o concerto surge na noite como se um pedaço de magia tivesse sido liberto por um grande feiticeiro. Talvez esteja lá em cima no palco, atrás dos teclados que levam os espíritos da plateia onde o negro gótico e as vestes longas predominam. Estou com alguém de quem não sei o verdadeiro nome. Para ela sou Draknet , ela chama-se Delanoche. É a primeira vez que nos vimos ; os portais obscuros da rede fizeram que com que nossos desejos se cruzassem. Ela é bela , não tão bela como a diva que atrai todos os olhares , muitos deles maquilhados. A figura imperial de Tarja Turunen parece atravessar o palco sem que seus pés toquem o solo , os longos cabelos negros ondulam embalados pela ventilação fazendo com que as roupas largas e vaporosas se colem momentaneamente ao corpo revelando as suas linhas .E todavia toda a multidão , servos da grande diva dos perdidos , está hipnotizada pela voz que entoa um canto que só julgávamos possível nas fadas de uma infância tão longínqua. Delanoche encosta-se ao meu braço , é grande a nossa diferença de estrutura assim como é abismal o fosso que tempo que se cavou entre nós . Desde a primeira noite em que os nossos teclados se cruzaram a sua meninice ainda não distante e o meu declínio em longos cabelos grisalhos não lhe pareceram fator de estranheza. Durante longas horas falamos de coisas da tumba e do lado que fica para lá, dos poemas que nos fazem desejar a faca atravessando as entranhas , das vozes dos que já cá não estão a sussurrar-nos aos ouvidos. Ela disse que veio de outro tempo para me recordar a minha caminhada entre os vivos, ela disse que na noite certa as minhas presas trespassariam seu pescoço e eu seria também banquete da sua voraz fome de sangue. E depois seriamos, para todos os momentos que restam à eternidade, amantes e cúmplices de um pecado maior. Viemos juntos ao concerto dos Nightwish , ela disse que era um ritual , uma missa para aqueles que não tem nome. ; eu sei do que ela fala. Há algo nesta música, há algo na sincronia e simbiose entre a musica poderosa e épica e a voz lírica de Tarja que nos faz recordar as vidas que já tivemos. Delanoche puxa a minha cabeça para baixo, precisa de me dizer algo, quer ir para a bancada. A frase é – Está na hora de viajar mais além Algo a contragosto acompanho-a para longe do palco. Delanoche alheia-se do concerto e procura um lugar discreto e vago nas bancadas que não estão ,de forma alguma, completas. Senta-se a meu lado e os seus olhos grandes encontram os meus. Anuncia solene enquanto tira uma pequena garrafa do bolso do longo casaco de cabedal. -Hoje é a noite onde os nossos prevalecerão. Proferindo uma reza dos antigos abre a tampa e deposita na minha boca generosos goles de algo que sei ser altamente alucinogénio. Algo de droga , algo de alquimia escorre para dentro de mim. Perco a visão , essa cegueira faz com que a minha capacidade de sentir com mais intensidade a música que sai pela amplificação seja geometricamente explosiva. Um baú negro de encantamentos desperta na minha memória há tanto adormecida. Nada vejo mas sinto na face a brisa fresca da manhã e cheiro na neblina o medo dos homens e a excitação dos cavalos. A última sensação que tenho deste mundo é a língua bífida de Delanoche a sentir a grossura da minha jugular e o seu sussurro, já em voz rouca de algo há muito morto: – Volta a casa . Vence ou tomba com os teus Ao fundo a voz , a voz da senhora que os deuses mandaram para me embalar de volta a um tempo em fui valoroso , vai-se desvanecendo nos confins da eternidade. O duelo entre a guitarra distorcida e os dedos hábeis do teclista ergue-se guerreiro, épico , um hino de batalha. Digo adeus ao tempo de agora. Agora sei que Delanoche teve outro nome , é a ela e ao amor que outrora lhe tive que lanço a minha oração de amaldiçoado. Tece um rendilhado de malha que proteja a minha carcaça das lanças inimigas. Invoca os sete ventos dos nossos antepassados, reis gloriosos de outra eras . Oferenda a tua mais secreta entrada aos ávidos homens de armas que tombaram por este reino. A hora da refrega aproxima-se, as trombetas chamam as nossas fiéis lanças e os valorosos braços de briosos guerreiros. O sol ilumina o campo onde pelejarão nossos alazões, oremos aos nossos deuses de guerra para que não nos deixem vacilar na estocada final , invoquemos nossos mais negros demónios para que mil fins horrendos sulquem as fileiras do inimigo , invasor do norte , que se perfila do outro lado da planície. Oiço a tua voz, minha dama, minha senhora de olhos grandes e cabelos negros como o breu. Oiço o teu apelo de fada da tundra e meu corcel resfolga da saudade que sinto de ti. No vento que desfralda o meu pavilhão de armas brilha o azul dos teus olhos. Escuto o teu chamamento do alto das muralhas inexpugnáveis da nossa grande fortaleza, onde os mortos chegarão sobre os escudos e os feridos sararão suas chagas .Invocas ,na voz que um deus grande e generoso te concedeu, a coragem e honra do nosso povo. Cerro a viseira quando o grito de batalha de nosso soberano atravessa as primeiras linhas de arqueiros e uma chuva de morte abate-se sobre aqueles que atravessaram as nossas searas e aldeias deixando um rasto de infâmia , fogo e fome. Agora é a hora de reclamar tal desonra ao nosso nome. É chegada a hora de enegrecer nossas couraças com o sangue de nossos inimigos. Do alto da torre, onde o sol apenas toca no solstício ,vejo-te nua e desafiante. A tua visão paira sobre as fileiras dos vilões e sei que a única forma de tocar novamente teu corpo de feiticeira é sobreviver a este dia. Sei que para sentir de novo o calor dos teus encantos a descer em forma de beijo ao longo do meu corpo, urge ser feitor de tal chacina que não reste vivalma no amontoado de bastardos que agora inicia a carga. Empunho a lança e golpeio o cavalo com as esporas que meu senhor me oferendou após a primeira batalha. O grito de mil homens de armas ecoa a meu lado; meus irmãos , morte e honra a galope. Contigo no pensamento trespasso o inábil cavaleiro que carregava em minha direção e mergulho na refrega. A espada brilha ao sol e o encantamento dos teus olhos de água anima a lâmina. Por ti mato com uma fúria que até agora só conhecera dentro de ti, minha senhora de delícias mil. Do alto de tua torre , possessa de olhos carmim ,invocas os poderes dos heróis da nossa raça que guiam a minha arma na morte daqueles que violaram nossas casas. Feitiços mais velhos que a neve eterna das montanhas tornam-me mensageiro da ceifeira. Do alto da tua torre amaldiçoas, olhos agora em sangue , presas aguçadas , , corpo traçado pelas unhas longas. Com a língua que o diabo te deu proferes pragas que trazem o mais negro pavor aos infantes inimigos que debandam atabalhoadamente. Nossas espadas, nossos machados, o tiro certeiro de nossos besteiros aniquila-os, um por um , até que ;no alto da colina que fica agora tão perto, apenas restar o pavilhão amedrontado do rei que tanto odiamos. Que honra me dás minha amante, minha bruxa, minha tragédia a dois. Gritando teu nome batalho como o homem louco se debate nas águas revoltas do rio que o matará. Ergo aos céus o coração estripado do maior dos invasores e reclamo o prémio dos teus amores.