Juro

Três da manhã na estrada que liga o Cacem a Porto Salvo. Uma daquelas noites horrivelmente quentes de Verão em que se deixa a janela do carro toda em baixo para podermos sentir o fresco limpar a cortina de suor que persiste em cegar os olhos e trazer o sabor do sal à boca.
Viu-o a andar pela berma, com as costas voltadas ao sentido do trânsito. Imprudente.
Uma T-Shirt cheia de cores momentaneamente aclaradas pelos máximos.
Um alvo fácil.
Inverteu a marcha, algures numa das muitas estradas que levam às obras do novo parque da tecnologia. Observou-o uma segunda vez. Encadeado, uma mão levantou-se a proteger os olhos da luz demasiado intensa. Oscila no seu passo, bêbedo, talvez.
É negro. Apenas uma constatação, já que ao condutor isso não provoca qualquer motivo de ódio ou simpatia Sabe bem que todos os homens são iguais, no seu íntimo, nas suas necessidades básicas. Idênticos. Sem qualquer distinção de cor, sexo ou qualquer outro factor. Nos momentos primordiais do primeiro choro que limpa os canais respiratórios e na réstia de ar que percorre pela última vez os mesmos, são mesmo todos iguais. De qualquer forma talvez prefira matar pretos e drogados.
O homem ao volante conhece o momento que se aproxima. No seu corpo sente já o frenesim da caça. A sensação suprema que invade o corpo dos grandes felinos quando se preparam para abater a vitima. Surgindo do escuro. Rápidos e letais.
Corre agora pela berma. O carro está escondido numa das muitas entradas do estaleiro do Tagus Park. Um daqueles onde não há vigilantes e onde as marcais deixadas pelos pneus, são inidentificáveis. Vigia constantemente o horizonte, à noite é extremamente fácil detectar qualquer carro que se aproxime. Sente-o cada vez mais próximo. O passo torna-se cauteloso.
Na mão uma moca de Rio Maior, arma genuinamente Portuguesa.
Vê-o e subitamente tudo acontece depressa. À primeira pancada não morre, cambaleia surpreso; tenta gritar mas a boca apenas é um  monte de lascas de dente e pedaços de gengiva. Pontapeado violentamente nos testículos rebola para a berma. Ainda levanta as mãos num último gesto de piedade antes da sua cabeça se tornar alimento para as plantas que crescem em redor. Vermelho no Verde. Portugal. O homem do carro estacionado no Tagus park sorri e lembra-se que a selecção nacional joga na próxima Quarta.
È importante sair do local rapidamente. Não largar a arma, não tocar em nada. Voltar ao carro usando os mesmos cuidados. Liga o motor e volta para casa usando caminhos secundários. Sabe que a probabilidade de se deparar com uma operação Stop é extremamente reduzida. Faz aquela estrada todos os dias e sabe que em dias idênticos da semana e aproximadamente à mesma hora apenas vira por duas vezes a Policia e sempre no itinerário principal.
Uma mulher que já foi nova e, o que se pode considerar, bonita, acolhe-o com um grunhido de Lornenine e a cedência de espaço estritamente necessário no leito que se pretende matrimonial. Não se dá conta do suor que lhe encharca o corpo . De verdade também já não dá conta dos cheiros alheios, quer dos bares, quer das putas, das amantes ocasionais, da tareia no futebol ou das lágrimas que ocasionalmente chora ou daquele fedor de morte que vez em quando traz para casa. A vida para ela. Helena, após dezassete anos de dinheiros e actos  curtos  tornou-se num lento desfilar de dias insignificantes. O revolver maquinal do casa-trabalho sem grande sentido. O homem da moca de Rio Maior lembra-se como ela recebeu pela primeira vez o seu sémen, estática, apenas a vagina palpitando e naqueles grandes olhos verdes, um olhar de redenção. Como se recebesse dentro dela todo o sentido da vida.
Os putos dormem nos seus quartos. Por vezes o mais velho faz os ferros da cama bater contra a parede na cadência rápida e repetitiva das primeiras masturbações. Há coisas que nunca mudam por muitos séculos que passem; pívias de putos ,o fado de tantas mulheres, viverem numa perfeita normalidade, sem cedências a qualquer tipo de instinto, secas de desejo. Por muito que ele tente nunca imagina Helena a gritar de prazer ou a espumar pela boca enquanto vê a vida a sair de um corpo.
A excitação persiste. Não consegue dormir. Dirige-se em cuecas para a sala. Folheia as primeiras páginas, passa para a secção de desporto. O Benfica pode vender o goleador.
– Filhos da puta só fodem a equipa – Lembra-se do Coluna e do Simões, do gigante Torres e do rei Eusébio. Está cada mais excitado, e sente-se gorduroso. As gotas de suor deslizam pelas costas abaixo, em grossos rolos de cerveja, merda e poeira, até ao rego do cú. “Se não fosse tão evidente “.
Levanta-se vai à cozinha, resolve beber pouco .
– Uma minizita – Em pé , descalço no escuro, e o raio de um frio no chão. Faz-lhe passar a tusa, volta ao sofá. Na televisão só existe chuva e um brasuca da IURD na SIC.
– Filho da Puta, Cabrão – Tem desejo de escarrar no vidro do televisor. Não vale a pena. “ Manter o controlo “ respira fundo. Vai dormir!  Volta ao quarto . Ao puxar os cobertores para entrar na cama deslumbra os contornos das mamas da mulher anichados contra a camisa de noite. Fica grande, Quer e vai fazer. Sacode-a e acordo-a, encena um beijo patético, baixa as cuecas.
Ela sabe ao que ele vem. Abre as pernas, olhando-o por um instante. Sabe-o selvagem mas também sabe que é rápido. Ele entra e move-se , a ela dói-lhe a intrusão em terrenos áridos .
– Filha, Filha –  Está quase . Um movimento brusco, um urro de porco com aroma a Sagres e está feito. Podem agora ambos dormir o sono dos gordos, sinfonia de roncos e grunhidos, lutas titânicas, meio a dormir meio acordado, por um bocado de lençol, já só com raiva.
Emanuel. a mãe chamou ao homem da moca de Rio Maior ,Emanuel. Como um rei qualquer dos Italianos. Os cabrões dos Italianos que a  ele só lembram Máfia e equipas de Futebol poderosas que esmagam a sangue frio o Benfica e a merda das Pizzas que parece ser o único alimento que satisfaz os filhos.
Não gosta de falar sobre si, a sua infância ou qualquer pormenor mais intimo. A única coisa que sabe que o distingue da amalgama de gajos gordos, meio carecas, meia idade, meia vida fodida, meia por foder que habitam aos molhos este cantinho à beira mar plantado é o facto de vez em quanto sentir aquele impulso incontrolável de  correr atrás de pessoas para as matar( de preferência pretos e drogados). Confessa a sim mesmo que afinal faz diferença prefere mata-los a eles, os turras como lhe chamava, cheio de medo e de malária, agachado no mato com as balas a voarem por todo o lado. A voz do alferes Pedrosa a chorar pela mãe enquanto agarrava os bocados que saiam do corpo desfeito por uma mina. Nunca podíamos ganhar, os gajos tinham melhores armas que nós, tinham os Russos, tinham mulheres enquanto nos íamos aos pelotões descarregar numa preta que nem saia da cama de palha que cheirava ao esperma do Exercito Português. E os putos que vinham da Escola de Oficias Milicianos não ajudavam nada a mudar o rumo das coisas e faziam que a moral dos homens que ainda acreditavam em Portugal  ( Uno e Indivisível  do Minho a Timor ) andasse mesmo em baixo. Os cabrões sempre a falar de política a tentar fazer com que os coirões não ficassem no capim e à noite sempre a fumar aquilo que os pretos fumavam.
Drogados, os malditos drogados. Já matou vários mas , uma única vez deglutira a sua vítima .Recorda com prazer o momento em que arrancou fatias grossas dos braços cheios de picadas e as digeriu . Sozinho, sentado num dos rochedos junto ao Castelo dos Mouros em Sintra. Aquele corpo tão magro, com um meio-tom de cor entre a vida e a morte. O sangue sabia a lixívia, a veneno.
Pensa um pouco mais em coisas que não recorda na manhã seguinte quando o despertador traz a voz nos noventa ponto tal que não quer ouvir. Hoje está de serviço.
A última coisa que vislumbra antes de adormecer é o brilho das divisas da farda iluminadas pelo candeeiro lá fora. Cai o torpor que o invade após a caça.
Volta a África, aos gritos do Pedrosa , às palavras em frente à bandeira:
-Juro…
O restante discurso de fidelidade a memória já extinguira mas , imediatamente após  reiterar a promessa com a Pátria , os chamamentos da morte alheia falaram. Estiveram  com ele toda a noite.

Três da manhã na estrada que liga o Cacem a Porto Salvo. Uma daquelas noites horrivelmente quentes de Verão em que se deixa a janela do carro toda em baixo para podermos sentir o fresco limpar a cortina de suor que persiste em cegar os olhos e trazer o sabor do sal à boca. Viu-o a andar pela berma, com as costas voltadas ao sentido do trânsito. Imprudente.Uma T-Shirt cheia de cores momentaneamente aclaradas pelos máximos.Um alvo fácil.Inverteu a marcha, algures numa das muitas estradas que levam às obras do novo parque da tecnologia. Observou-o uma segunda vez. Encadeado, uma mão levantou-se a proteger os olhos da luz demasiado intensa. Oscila no seu passo, bêbedo, talvez. É negro. Apenas uma constatação, já que ao condutor isso não provoca qualquer motivo de ódio ou simpatia Sabe bem que todos os homens são iguais, no seu íntimo, nas suas necessidades básicas. Idênticos. Sem qualquer distinção de cor, sexo ou qualquer outro factor. Nos momentos primordiais do primeiro choro que limpa os canais respiratórios e na réstia de ar que percorre pela última vez os mesmos, são mesmo todos iguais. De qualquer forma talvez prefira matar pretos e drogados.O homem ao volante conhece o momento que se aproxima. No seu corpo sente já o frenesim da caça. A sensação suprema que invade o corpo dos grandes felinos quando se preparam para abater a vitima. Surgindo do escuro. Rápidos e letais.Corre agora pela berma. O carro está escondido numa das muitas entradas do estaleiro do Tagus Park. Um daqueles onde não há vigilantes e onde as marcais deixadas pelos pneus, são inidentificáveis. Vigia constantemente o horizonte, à noite é extremamente fácil detectar qualquer carro que se aproxime. Sente-o cada vez mais próximo. O passo torna-se cauteloso.Na mão uma moca de Rio Maior, arma genuinamente Portuguesa.  Vê-o e subitamente tudo acontece depressa. À primeira pancada não morre, cambaleia surpreso; tenta gritar mas a boca apenas é um  monte de lascas de dente e pedaços de gengiva. Pontapeado violentamente nos testículos rebola para a berma. Ainda levanta as mãos num último gesto de piedade antes da sua cabeça se tornar alimento para as plantas que crescem em redor. Vermelho no Verde. Portugal. O homem do carro estacionado no Tagus park sorri e lembra-se que a selecção nacional joga na próxima Quarta. È importante sair do local rapidamente. Não largar a arma, não tocar em nada. Voltar ao carro usando os mesmos cuidados. Liga o motor e volta para casa usando caminhos secundários. Sabe que a probabilidade de se deparar com uma operação Stop é extremamente reduzida. Faz aquela estrada todos os dias e sabe que em dias idênticos da semana e aproximadamente à mesma hora apenas vira por duas vezes a Policia e sempre no itinerário principal.
Uma mulher que já foi nova e, o que se pode considerar, bonita, acolhe-o com um grunhido de Lornenine e a cedência de espaço estritamente necessário no leito que se pretende matrimonial. Não se dá conta do suor que lhe encharca o corpo . De verdade também já não dá conta dos cheiros alheios, quer dos bares, quer das putas, das amantes ocasionais, da tareia no futebol ou das lágrimas que ocasionalmente chora ou daquele fedor de morte que vez em quando traz para casa. A vida para ela. Helena, após dezassete anos de dinheiros e actos  curtos  tornou-se num lento desfilar de dias insignificantes. O revolver maquinal do casa-trabalho sem grande sentido. O homem da moca de Rio Maior lembra-se como ela recebeu pela primeira vez o seu sémen, estática, apenas a vagina palpitando e naqueles grandes olhos verdes, um olhar de redenção. Como se recebesse dentro dela todo o sentido da vida.

Os putos dormem nos seus quartos. Por vezes o mais velho faz os ferros da cama bater contra a parede na cadência rápida e repetitiva das primeiras masturbações. Há coisas que nunca mudam por muitos séculos que passem; pívias de putos ,o fado de tantas mulheres, viverem numa perfeita normalidade, sem cedências a qualquer tipo de instinto, secas de desejo. Por muito que ele tente nunca imagina Helena a gritar de prazer ou a espumar pela boca enquanto vê a vida a sair de um corpo.A excitação persiste. Não consegue dormir. Dirige-se em cuecas para a sala. Folheia as primeiras páginas, passa para a secção de desporto. O Benfica pode vender o goleador. – Filhos da puta só fodem a equipa – Lembra-se do Coluna e do Simões, do gigante Torres e do rei Eusébio. Está cada mais excitado, e sente-se gorduroso. As gotas de suor deslizam pelas costas abaixo, em grossos rolos de cerveja, merda e poeira, até ao rego do cú. “Se não fosse tão evidente “.Levanta-se vai à cozinha, resolve beber pouco .- Uma minizita – Em pé , descalço no escuro, e o raio de um frio no chão. Faz-lhe passar a tusa, volta ao sofá. Na televisão só existe chuva e um brasuca da IURD na SIC.- Filho da Puta, Cabrão – Tem desejo de escarrar no vidro do televisor. Não vale a pena. “ Manter o controlo “ respira fundo. Vai dormir!  Volta ao quarto . Ao puxar os cobertores para entrar na cama deslumbra os contornos das mamas da mulher anichados contra a camisa de noite. Fica grande, Quer e vai fazer. Sacode-a e acordo-a, encena um beijo patético, baixa as cuecas. Ela sabe ao que ele vem. Abre as pernas, olhando-o por um instante. Sabe-o selvagem mas também sabe que é rápido. Ele entra e move-se , a ela dói-lhe a intrusão em terrenos áridos .   – Filha, Filha –  Está quase . Um movimento brusco, um urro de porco com aroma a Sagres e está feito. Podem agora ambos dormir o sono dos gordos, sinfonia de roncos e grunhidos, lutas titânicas, meio a dormir meio acordado, por um bocado de lençol, já só com raiva.

Emanuel. a mãe chamou ao homem da moca de Rio Maior ,Emanuel. Como um rei qualquer dos Italianos. Os cabrões dos Italianos que a  ele só lembram Máfia e equipas de Futebol poderosas que esmagam a sangue frio o Benfica e a merda das Pizzas que parece ser o único alimento que satisfaz os filhos. Não gosta de falar sobre si, a sua infância ou qualquer pormenor mais intimo. A única coisa que sabe que o distingue da amalgama de gajos gordos, meio carecas, meia idade, meia vida fodida, meia por foder que habitam aos molhos este cantinho à beira mar plantado é o facto de vez em quanto sentir aquele impulso incontrolável de  correr atrás de pessoas para as matar( de preferência pretos e drogados). Confessa a sim mesmo que afinal faz diferença prefere mata-los a eles, os turras como lhe chamava, cheio de medo e de malária, agachado no mato com as balas a voarem por todo o lado. A voz do alferes Pedrosa a chorar pela mãe enquanto agarrava os bocados que saiam do corpo desfeito por uma mina. Nunca podíamos ganhar, os gajos tinham melhores armas que nós, tinham os Russos, tinham mulheres enquanto nos íamos aos pelotões descarregar numa preta que nem saia da cama de palha que cheirava ao esperma do Exercito Português. E os putos que vinham da Escola de Oficias Milicianos não ajudavam nada a mudar o rumo das coisas e faziam que a moral dos homens que ainda acreditavam em Portugal  ( Uno e Indivisível  do Minho a Timor ) andasse mesmo em baixo. Os cabrões sempre a falar de política a tentar fazer com que os coirões não ficassem no capim e à noite sempre a fumar aquilo que os pretos fumavam.Drogados, os malditos drogados. Já matou vários mas , uma única vez deglutira a sua vítima .Recorda com prazer o momento em que arrancou fatias grossas dos braços cheios de picadas e as digeriu . Sozinho, sentado num dos rochedos junto ao Castelo dos Mouros em Sintra. Aquele corpo tão magro, com um meio-tom de cor entre a vida e a morte. O sangue sabia a lixívia, a veneno.Pensa um pouco mais em coisas que não recorda na manhã seguinte quando o despertador traz a voz nos noventa ponto tal que não quer ouvir. Hoje está de serviço.

A última coisa que vislumbra antes de adormecer é o brilho das divisas da farda iluminadas pelo candeeiro lá fora. Cai o torpor que o invade após a caça.Volta a África, aos gritos do Pedrosa , às palavras em frente à bandeira:-Juro…O restante discurso de fidelidade a memória já extinguira mas , imediatamente após  reiterar a promessa com a Pátria , os chamamentos da morte alheia falaram. Estiveram  com ele toda a noite.

Desobediência civil -II

Entre os fogos de verão, entre as cinzas que asfixiam o respirar da tua subsistência alguém chora uma glória que não sucedeu nos relvados da negra África. E a ti o que isso importa ?

Tirou-te a fome o petardo da Jabulani que encontrou o ferro ? O protesto da substituição que roubava a hipótese de vitória foi tão maior que aquele que proferes perante o pão que se transfigura de saloio em escasso à tua mesa. Todavia nada dizes, encolhes esses olhos encovados em direção ao jornal e folheias a página de classificados com esperança que vai pouco além da distribuição de publicidade porta a porta. Talvez seja melhor argumento convencer a amada a fazer oral ao natural ou atenderes cavalheiros que ainda dispõem de capital para ejacular o teu esfíncter em troco de remuneração.

Na rádio alguém, incauto , quiçá subversivo aos interesses da estabilidade económica, lançou a agulha sobre a voz de Zeca Afonso. Comem tudo aqueles que, decerto, não fazes parte da prole. A palavra é contenção, realismo na despesa, o ronco no teu estômago traduz restrição orçamental em fodido. E na gaveta tens a arma que compraste um dia porque o dinheiro era fácil e podias ter problemas. Agora que os tens reservas as balas para a tua têmpora ou ainda consegues inscrever nelas o nome de um ex-ministro? Mais um arquiteto não responsabilizado da tua penúria que anuncia aos microfones da nação que ,em nome da estabilidade ,devíamos assinar o óbito da esperança em redução salarial que nos faria tão competitivos como eslavos esfaimados que agora já não se ofuscam  numa cortina que outrora foi de ferro  mas  que , nos dias de hoje , sucumbem à  férrea vontade da economia livre dos homens opulentos e das métricas que pouca melhorias trazem á vida dos comuns.

Encontras o que resta da tua dignidade nos rotos bolsos da veste coçada ou na inveja pelo polimento da viatura do vizinho que, cada vez mais dias , mês após mês, fica estacionado à porta ? Cospe o asco que te sabe ao pequeno-almoço que cedeste aos teus primogénitos e recorda a arma que repousa envolta no veludo. Olhos raiados de faminta frustração retornando ao lar ,dedos trémulos de poucos euros afagar rodam o tambor e ao final da volta aleatória o ferro encontra o palato , pensas no ministro e , no momento imediato antes de premires o gatilho , concluis que não tens munição suficiente para abater todos os obreiros da merda de vida que está prestes a ir . Fodido , fodido.

Noturno de Chopin

Medicação para um paciente apenas. Alinhados no tampo da mesa perfilham-se como soldados de um exercito de maltrapilhos de cores diversas . Prevalece o branco e a forma arredondada. A grande maioria dos corpos tem um sulco ao meio que é o local do corte para a designada meia-dose.  Algo que está fora da minha dieta .

Medicação auto prescrita. Lista do inevitável sossego, este desejo de dormir por mil anos como um faraó alheio ao passar dos tempos, as brilhantes areias do tempo que trariam o esquecimento.

A minha mente retêm apenas três palavras do discurso anterior .

Sossego ,

Dormir,

Esquecimento .

Tamborilo o tampo onde medicação psiquiátrica conjuga um verbo que só um especialista , um rei que dorme em fofas nuvens de medo ausente , consegue percecionar a beleza . O serenar a percorrer a cadeia sanguínea, os dedos escolhem os paladinos que enfrentarão todos os medos que me assolam

Sossego é Wellbutrin, agrada-me particularmente a nota de rodapé da bula  :

“Wellbutrin é um antidepressivo. Atua ao nível do cérebro para tratar a depressão. Desconhece-se como funciona exatamente devido ao caráter inovador do produto . Estudos especializados garantem que não potencia tendências suicidas nem de automutilação”

Engulo duas doses em conjugação com Effexor , verdadeiro guardião dos pavores  e Mellaril .

O doce Mellaril que , mágicas artes da indústria , simplesmente me leva para uma estratosfera onde só perdura   o sorriso que perdi algures nos tempos tristes a que me tenho acostumado chamar de vida.

O conforto do sofá virado de costas para a janela que persiste em chamar para o deslumbramento da paisagem que existe entre o sétimo andar e o passeio pejado de automóveis. O som final seria uma amálgama de vidro estilhaçado e carroçaria amolgada. Descaio os músculos que começam a sentir o apregoado relaxamento entre as almofadas e deixo que os sons de um noturno de Chopin encham o ar que começa a ganhar cores apaziguadoras. Do subir e descer do meu peito nascem pequenos fogos-fátuos que brincam um pouco na boca do meu estômago antes de partirem em direção ao candeeiro . Há uma aurora boreal a pairar em meu redor. Pianíssimo, dedos a deixarem de existir absorvidos pela cicuta entorpecedora, Pianíssimo, abano lentamente a cabeça e deixo que o peso das pálpebras se torne um desaguar de ânsias sobre as minhas cavidades oculares tão exaustas de tanto verem. Um pequeno suspiro, aconchego de uma manta que cobre os pés .

Quando o repouso parecia ser o trilho da noite eles retornam.

No ouvido esquerdo o sussurro frio de um fantasma recomeça tudo de novo . Abano a mão , enxoto a memória de alguém que já cá não está . Em seguida encolho-me em posição fetal e cubro o rosto com as mãos. As minhas unhas sujas acariciam a testa. O suor congela quando o espetro me acaricia a face e ,  voz de alguém que foi próximo , ordena :

-Estás todo sujo . Cobre-te a face uma lama fétida . Fedes , Limpa-te.

Aumento o ritmo e a intensidade da coceira, o ardor é atenuado pelo que só perceciono a intensidade do dano quando o acre do sangue me toca a boca .

Vejo-te ainda, ganhaste forma humana , aí junto ao cortinado , queres que vá à janela . Não irei , não te quero ver , não quero o vazio de um passo a mais  , não perecerei perante teu apelo. Cravo as garras na periferia do globo ocular e escavo para que te desvaneças. Para que não sejas mais rotina de todos os crepúsculos