Dos altos da Serra de Sintra

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se escutava , o uivo do lobo cinzento veio. Desceu as encostas lesto, levado pelos nevoeiros e pelo frio que vinha do oceano. Entrou em primeiro lugar nos condomínios plantados à beira do “green” . Olhos de feições corrigidas e ganância inelutável fitaram em pânico o teto temendo a derrocada dos mercados. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam, o apelo da alcateia inquietou orçamentos curtos e dívidas em crescendo eterno. No quarto de poucos metros quadrados a menina percebeu que amanhã o pai também não teria trabalho; o grande lobo que descia a avenida deixava marcas de garras em carros ainda de prestação longa, os canais rodavam lentos nas televisões, dedos do medo de amanhã a tudo tentar esquecer.

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se sentia , desceu uma fome de gente saloia minguando aos poucos . O obsceno cheiro a caviar das mansões repeliu-a como um vómito largado por um pedinte, chefe de família desonrado, na ruela que leva às casas de mesas parcas. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam ,o cheiro a privação apertou, ainda mais , cintos em barrigas algo crescidas de fome. Rufando por portas de vergonha , de decência mostrada e não sentida ,a míngua entrou nos bandulhos de tantos, como há tanto neste reino não se via.

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Do Rock – Crazy Horse

O canto do olho do Jorge Passado , meu companheiro de drogas e festivais , chamou-me para uma conferência das opções possíveis de subida aos céus em virtude das más condições climatéricas. Disse assim:

– Foda , pá , foda-se, pá . Pá, está a chover com’a merda . Então pá? O que damos pá ? (uma generosa linha de branca antes de sairmos do carro era o motivo para o atabalhoamento do seu discurso)

A minha sinusite impediu-me sempre de desfrutar a plenitude dos prazeres da senhora branca pelo que me encontrava menos afetado que o meu compincha. Apelei ao bom senso:

– Temos que meter as trips ,pá ! Já viste o que chove ? Fazer ganzas ? – Jorge acenou que não – Fazer um risco ? Jorge discordou:
– Fica tudo em papas – depois levantou a cabeça numa pergunta que era a esperança de muita alucinação naqueles olhos dementes. Eu tinha a resposta:

– As trips pá . Vamos ver os cotas com cores bonitas! – O convite agradou a Jorge Passado. Eu não imaginava a barbaridade que estava a dizer. Tomei a pastilha cerca de trinta minutos antes do início da maior tareia de rock n’roll que apanhei.

Quando Neil Young e os Crazy Horse subiram ao palco chovia copiosamente, os homens com rugas feitas de noites de guitarra ,bateria e baixo olharam as grossas gotas com desprezo . Um subiu a gola do casaco mas as mãos rudes e calejadas de eternas horas a dar no bordão da guitarra baixo não hesitaram um segundo. Tinha um trabalho a fazer. Quando a banda encarou a plateia, o grande lamaçal de Vilar de Mouros, havia o brilho de sexo , de drogas e de muita veteranice das coisas do rock. Quando as guitarras entraram Neil Young arrancou um solo que parecia dizer à borrasca que se aguentasse que agora era a hora da eucaristia do deus dos roqueiros .Um frenesim percorreu a multidão , algo mais subtil que a histeria das entradas das bandas de sucesso comercial, um “ummm”, as cabeças a abanar ligeiramente , os pés a acompanhar o bombo.
Olhei em volta, nesse momento o ácido era uma parte de pleno direito da minha corrente sanguínea pelo que ganhei aquele voyeurismo que caracteriza a viagem. Sondei com olhos plenos de relâmpagos de luz o terreiro fértil de gritos de insubordinação e grandes noites de música. Vi algumas caras conhecidas. Um dos Xutos , um antigo traficante de cavalo lá da minha terra , três tipas que gostaria de ter na minha tenda ao final da noite , um maluco que costumo ver em todos os concertos onde as guitarras são rainhas. Todos os olhares estavam siderados nos homens sobre o palco. Havia um certo drama no ar, como se no imaginário coletivo a chuva incessante fizesse que o guitarrista, dedos rápidos e alma fundida com o instrumento, arriscasse a eletrocussão num duelo entre o trovão eminente e a distorção habilmente trabalhada pelo “slide”.

Quando o tema terminou o público aplaudiu com vigor. A banda apenas agradeceu com um acenar de cabeças, como quem agradece uma imperial e arrancou logo para o tema seguinte. O baixo e bateria malharam um ritmo bem marcado até o líder da banda, o canadiano Neil Young , uma lenda viva do rock , acabar de beber o que me pareceu ser cerveja e arrancar ao breu da noite as almas dos que assistiam ao seu espetáculo. De olhos fechados, à beira do palco , a catadupa a escorrer pelo corpo da Fender Stratocaster , as cordas a brilhar , um caleidoscópio feito de notas distorcidas , a aura do grande solo. A cabeça para trás, o cabelo longo mas já sem glória, escorrido da água de Vilar de Mouros. O transe; o dele, o meu.

No lamaçal as brumas de setenta e um misturaram-se com os ácidos de Woodstock e a branca refinada e barata dos dias presentes. No centro de uma poça de água dançava uma mulher, ainda jovem , firmeza no seu busto exposto , os longos cabelos negros eram cataratas de ocultação do seus seios generosos, uma tatuagem de escorpião junto à cintura. Estendeu um braço ao homem à beira do palco. Ele viu-a.
Eu estava agora mais próximo, do palco e da jovem que chamava o velho músico. Havia algo prestes a acontecer. O ácido permitiu-me um ínfimo detalhe na minha observação. Que algum deus abençoe os engenheiros das boas químicas. Procurei nos olhos de Neil Young , um sorriso de desafio rasgou assimetricamente a boca onde os dentes conhecem o sabor de todos os fumos do mundo . Desafio. Havia um desafio feito no gesto daquela mulher de mamas ao léu que apelou a algo. Não era luxúria, era algo que aquele homem conhecia bem. Milhares de palcos, noites e noites perante multidões, trazem um carisma a alguns homens. O que sucedeu foi, no meu psicadélico entender , a honra do overdrive , o momento em que o rock se torna duro e a luxúria é ejaculada na forma de uma sequencia de cordas, torturadas ao limite , uma palheta que se assemelha a uma língua sobre a vulva, o cilindro metálico no dedo médio deslizava ao longo do braço da guitarra ; o efeito era óbvio. Ela reagiu ao homem de pernas abertas, instrumento extensão de si mesmo; a cabeça atirada para trás, a chicotada da longa cabeleira encharcada nas costas, todo o esplendor revelado; os meus olhos feitos microscópio vislumbraram o enrijecer dos mamilos perante a chuva e a música. Aquele solo era dela, aquela visão era dele.

Com um sorriso e um piscar de olho o musico voltou ao microfone, uma manta cobriu a nudez da rapariga. As palavras falavam sobre uma rapariga de canela. Olhei-a de novo, de facto o sol havia criado na sua tez o dourado apetitoso da especiaria.

Do Rock – Manowar

Já regrediste ? Já voltaste , por uns momentos , a tempos que já foram , ao corpo que conteve a tua imortal alma ?

Sentiste o apelo das armas entre os ventos fortes das montanhas das terras a norte ? Ouviste o baixo poderoso a marcar o passo da legião que se aproxima, o respirar tranquilo dos teus irmãos de armas, silenciosos entre o arvoredo, nos punhos os machados e as adagas que bem conhecem a carne romana.

Debaixo dos meus pés o solo do Dramático de Cascais desfez-se perante a carga que ecoava no bombo duplo e no grito guerreiro. Entre a muralha sonora, a congestão dos sentidos e os danos cerebrais algo encontrou o caminho para me levar dali , aos primórdios , às fileiras dos primeiros orgulhosos do seu Luso nome.

Na minha cabeça ecoava a ordem que escutara antes da partida.
O poder de matar com toda a fúria que existe neste afiado cutelo que empunho. A saliva seca.

No desfiladeiro surge a águia romana. Os meus irmãos encostados aos enormes pedregulhos arquejam as costas. Imediatamente atrás deles os arqueiros e os homens da funda . Depois a minha linha , combate corpo a corpo , correremos lestos a ladeira para acabar com os romanos que restarem da chuva de pedra e aço que, em breve, se irá abater sobre eles.
Conto os momentos com o pé a marcar o ritmo de uma canção que não é destes tempos.

Então soa a trompa de Viriato e o inferno desaba sobre os homens de César. As pesadas rochas traçam clareiras de sangue e osso esmagado nas linhas ordeiras da legião. Ferro temperado nas fogueiras dos castros silvam através dos ares e desmantelam a tentativa de formação de um quadrado defensivo. O inimigo está confuso. É o nosso momento
Ergo os punhos ao céu e apelo aos deuses que forjaram o metal nas minhas mãos que este cause morte extrema no inimigo. O grito de guerra , primitivo português mas a palavra , sim , essa já existia . Grito-a enquanto corro como louco liderando a carga da infantaria :
Morre ! Morre !

Invoco os nossos Deuses forjados do aço e do sangue dos nossos antepassados e trespasso o primeiro inimigo com um firme golpe ao pescoço desprotegido de elmo. O sangue encharca-me a face . Limpo a visão e encaro um decurião de espada empunhada, está cercado dos nossos mas é a mim que me encara. Faço o gesto aos meus irmãos de armas para que recuem. Será combate de homem com homem, invasor contra homem da terra onde o sangue se derramará. Mano a mano.

O romano bate-se com valentia mas termina decapitado pelo manejo rápido do meu machado forjado nos fornos de Lusitânia e abençoado pelas montanhas da lua e as falas dos anciões. Ergo meu troféu perante o horror dos restantes soldados inimigos que , rapidamente , depõem as armas mas, para sua má fortuna , nenhum poderá viver em nosso território . Todos passamos à lâmina.

No final do dia os seus corpos ardem numa pira erguida no campo de batalha. Os brados de triunfo, a cidra corre livre . A vitória de um povo inala-se nos corpos mortos dos seus inimigos e nos seus bravos cantos de glória

Do Rock – Fado Negro do Sangue ( Moonspell )

Inspirando as fragrâncias dos fumos sagrados de Quibir, olhos cerrados nas lágrimas da derrota. Valorosos cavaleiros tombados ao devaneio de um imberbe governante. Fortes gentes dizimadas, gritos de São Jorge, pela mãe que está lá tão longe, debandada na areia escaldante. Pela cimitarra passaram, um por um , até só restar aquele que traria as novas da grande desgraça que se abatera sobre o Reino de Portugal e dos Algarves .

Séculos após a vergonha retorna, desviai vossos olhos senhores de Avis e Bragança . A profecia da fome e morte que o frade louco proferiu na ermida onde as cruzes se inverteram chega hoje. Correm demónios pelos caminhos e as veredas, arautos de um Adamastor vingativo ecoam as trombetas do castigo daqueles que se esqueceram do mar. Para seu grande castigo, o peso da terra europeia pune seu piáculo .

Das profundezas Poseídon chama às suas vagas os seus , os homens que rasgavam a crista do oceano em seus hábeis navios. Seu único remendo, com os filhos a morrerem de uma fome que oficialmente não existe, é ir buscar às redes o saciar dos seus. Apertam-se gorros, afagam-se as mãos e bebe-se algo que traga calor e mande embora o medo daquele ventos frios que dançam sobre as águas chamando a si para o descanso azul dos afogados. Pés descalços na areia, mulheres de negro acenam na praia. Trinam as primeiras notas do fado negro do sangue.

Na cidade que recebia, com um sorriso da sua luz única, as especiarias vindas das Índias sombras negras enchem o rosto dos homens, enchem-se de novo os balcões das tabernas .Dos estômagos vazios e cabeças confusas nascem rixas que a navalha resolve. Do alto do castelo Satanás chama o ódio , vingança , obscuros tempos de humilhação de um povo.
Mulheres velhas colocam xailes de fadista e cortam os pulsos escutando a imortal voz de Amália , apartamentos velhos e carcomidos ganham o último silêncio . Na cadeira dourada jaz, olhos incrédulos a um fim tão lento. Sobre a renda que cobre a mesa escorre, negro ,o sangue ;nas águas livres estremece a guitarra que já não quer chorar baixinho
.
Do Tejo levanta-se uma bruma que o orgulho dos antepassados enviou e traz nos seus farrapos fantasmagóricos o cheiro das mulheres frescas dos outros oceanos e o calor da aguardente que afoga o pavor e o escorbuto.
Nos apartamentos tremem as janelas como em cinquenta e cinco de setecentos , pânico , passos apressados correm as calçadas de Lisboa , carros colidem em série nas avenidas apinhadas , no solo as frinchas reclamam as suas primeiras vitimas , mandíbulas de vulcano engolem grande parte da Baixa Pombalina . De uma voz que quase se esquecera de ecoar o pregão grita-se a plenos pulmões

Ao rio , ao mar , ventos lestos levem-nos de volta à rota da nossa glória.

Aos barcos que já não navegam o Tejo , desmantelados os mensageiros da nossa memória por agiotas de terra firme , negro fado que nos exiges o sangue. As guitarras trinam no aço que já não se forja , o vento procura enfunar as velas que se tornaram lençóis de homens sujos e a sua fúria traz a voz de trovão. Sonata negra que demanda nossa submissão.

Do Rock – Sepultura

O bófia à minha frente quer ficar com o último charro.
Isto, hoje, não deveria acontecer.
Numa situação normal tal facto significaria um pequeno aborrecimento que terminaria com o afastar do policial sem vontade de preencher imensos impressos e o meu desgosto pelo facto do produto ter sido confiscado.
Hoje é diferente.
Hoje há speed de cristal no canal
O bófia tem aquela vermelhidão ainda não carcomida pelos fumos da grande cidade. Um campónio. O cabrão é um maçarico campónio que me quer ficar com a ganza e levar dentro.
Hoje não.
Hoje há Sepultura .
A arma na sua cintura é desafio minúsculo perante a raiva que cresce em mim. Mar ácido que me queima o estômago e me sobe pelo esófago. Este sabor que só se saciara com a vitória esmagadora. E ele diz:
– Você está preso!
A mão procura o par de algemas mas a sua presunção da minha não resistência termina quando o meu punho rude , arma do homem das tabernas e das lutas de rua, lhe esmaga a cana do nariz como se de um ossinho de frango ,triturado pelas mandíbulas de um horrendo monstro ,se tratasse.
Cai, a face ganha rapidamente a cascata do sangue. A sua visão seguinte, o terror que se ergue na boca que se escancara num “Não”, a mão em ordem de alto que não vai acontecer é barreira que a minha bota trespassa com toda a velocidade que esta imensa vontade de matar me traz.
Rebenta. O crânio encontra a borda do passeio. O azul da farda já pouco existe.
A arma no chão
Pego nela
Aponto. O speed de cristal diz que dispare
“Mata o bófia” diz a minha insanidade química que me faz palpitar o coração como um cavalo de corrida.
No fundo da minha mente ergue-se o muro sónico da guitarra de Max e o bombo duplo do seu irmão. A canção diz -“ Algum dia cairás e eu estarei à espera “.
Detenho o gesto
A consciência retorna, aos poucos, aos olhos do polícia.
É um miúdo. Não deve ter saído do curso da formação há muito. Azar.
O seu medo cintila entre os olhos semicerrados pelos hematomas e pela cortina vermelha da sua imensa derrota que se encontra nos primeiros estados de coagulação. O silêncio da rua , a falta de apitos e de gritos de “Quieto” e “Mãos ao ar” comprovam que os reforços não existem. Azar
Está nas minhas mãos. Agita-se um pouco sobre a poeira da rua. Lá ao fundo o pavilhão. Oiço passos. Não são botas de monos, são o passo acelerado do batalhão dos condenados. Uma milícia de insanos. Vestes negras, longos cabelos, baixa condição. Anunciação da violência extrema,
Se deixo o bófia ficar ali estendido irá certamente morrer sobre a chuva de biqueirada que o vai rebentar por dentro. E se me estiver a cagar? Azar
O tipo estende a mão, o gesto do afogado ao seu maior inimigo
Na minha cabeça o bombo duplo persiste. Daqui a pouco uma muralha apocalíptica de som irá ecoar do sistema de amplificação. Quero lá estar. Para tal não posso matar agora.
Atiro a arma para longe e dou a mão ao tipo. Cambaleante, talvez agradecido por o fim que lhe evitei, não profere palavra durante todo o caminho. No rádio que ainda traz pendurado à cintura o chefe do carro patrulha chama pelo agente Reis.
Então , como se o diabo me tivesse sussurrado ao ouvido, decido que o agente Reis vai conhecer os prazeres do grande tubarão insano que nos devora os tímpanos. O senhor agente vai rodar a mil à hora no covil da biqueirada. Tiro o casaco e cubro a camisa azul. À força enfio-lhe entre os dentes ( poucos ) que restam duas cápsulas de anfetaminas.
Duas nuvens de negro sobre o meu olhar, a imensa excitação que sinto ao avistar a sala escura , o fumo a cobrir o palco ,uma marcha marcial que diz à multidão que é hora de ser brutal . As hostilidades iniciam-se quando o quarteto surge em palco. Pendurada no bombo da bateria a omnipresente bandeira verde e amarela. A canção chama-se “raízes “ e toda a multidão volta aos estados primitivos da humanidade e convulsiona-se com fervor caótico , ossos quebram-se , feridas espirram , botas e corpos em espancamento coletivo. No centro a grande roda , lugar dos xamãs da agressão. Avanço para lá. Sobre o meu punho o agente Reis sente o efeito da bomba que lhe pus no corpo e grita insano, tenta libertar-se. Luta, quer sair do meu jugo. Empurro-o com desprezo para o centro do “mosh pit” , a última vez que o vejo está a rebentar à cabeçada a fronha de um puto para ai com dezasseis anos que lhe apareceu pela frente. Subo ao palco e mergulho em celebração à grande sinfonia do mal que ecoa em meu redor.

Do Rock – RATM

Hoje vim bem para o espetáculo. Hoje tenho uma cabeça limpa que está muito revoltada com a situação. Quando a guitarra rasgada de Tom Morello trucida o riff que é feito para acordar consciências ergo-me e escuto a palavra. Porque há algo que está, profunda e globalmente errado e é preciso falar. Que seja feita “ la revolucion” na malha do baixo e na voz de Zack La Rocha. Raiva contra a máquina. Disseram um, dois ,três e lançaram ecos de rebelião para a multidão que se agita no terreiro. Contam-se pelos milhares, bandeiras de foice e martelo no ar , olhos de revolta , t-shirts de Che , mortalhas smoking , algum álcool. Hoje para mim, nada . Apenas água e política.
Rage Against the Machine é ,acima de tudo ,um ato politico. Uma explosiva mistura das rimas do hip-hop com o poder das guitarras distorcidas e da secção rítmica marcada a ferro. As palavras são balas. Os milhares que se agitam frente ao palco são algo diferentes das costumeiras multidões dos concertos. Existem os que estão muito malucos mas a maioria é gente de olhares zangados com o mundo. Algo está mal. Aqueles ali, aqueles em cima do palco que saltando como loucos dizem que o inimigo usa fatos caros de fazenda em elegantes cortes de três peças e que faz da manipulação e da desinformação a sua arma . Aqueles que perguntam se nos mandarem saltarem em nome de um estado que não vela por nós o que faremos ? Saltaremos ? Ou diremos não ?
A dança dos corpos também ela difere do que costumo ver pelas plateias onde o rock e todos os seus derivados impõem a sua lei. O choque existe mas é nos voadores; é nos voadores que denoto a grande diferença. Não se esmagam contra a mole humana com o intuito de causar dor a si e aos outros ; abrem os braços antes de saltar no vazio e o voo é suave para a multidão de braços que esperam o corpo de mais um anjo do mosh. Não posso de deixar de pensar nas brincadeiras duras de soldados de um mesmo exército.
Lá em cima , a voz que fala em espanhol dos subúrbios de Los Angels pergunta porque é que os snipers só abrem fogo sobre bandidos pobres enquanto executivos levam bancos a saque e saem incólumes e sorridentes , banhados em obscenas camadas de paraquedas dourados, pingando o sangue dos mais fracos dos homens chorosos que não sabem onde vão viver amanhã. E a voz lá em cima pergunta: Qual é o homem de boa-fé que impõe a premência do lucro à fome dos outros? Qual é o homem de paz que não é capaz de pegar em armas quando a sua liberdade, a sua dignidade e a sobrevivência dos seus é comprometida em nome de uma ordem mundial sobre a qual não pode sequer opinar.
Conhece o teu inimigo. Pensa claro. Faz as perguntas. Recusa e Resiste.
A guitarra ganha a dimensão de uma serra elétrica que rasga a consciência. No palco diz-se:
-Conhece o teu inimigo.
A multidão sussurra em coro com Zack de La Rocha. Já não temos paciência . Cansados , cansados das vossas mentiras.
Tempo de revolta.
A onda que acompanha a convulsão da multidão leva-me até ao centro da roda, uma clareira , uns breves segundos e o olhar de Zack La Rocha encontra a minha camisola e a minha boina desbotada de vómitos no Avante e comícios para putas e bêbados nas travessas do bairro alto.
O braço levanta-se. A multidão escuta no silêncio ensurdecedor entre temas. O grito de batalha ecoa:
– Portugal . 25 de Abril Siempre !
Observo os punhos , as mãos fechadas ,a memória de outros tempos; há uma palavra de ordem que diz “Basta!” ; há uma fonte luminosa que ressuscita como se o vento fosse Maio e o Tejo demandasse mais firmeza às fortes gentes, vítimas dos fracos líderes que delapidam o seu ânimo e engenho. Quando o ritmo marca firme ,mas algo lentamente ,o desenrolar da rima a multidão salta. Não acompanho o movimento, rodo sobre mim mesmo e procuro aqueles que me cercam ; vejo a revolta nos rostos daqueles que não serão ,devido a nascimento e condição, a nata deste pais.
Rostos de licenciados condenados a apodrecer em balcões de bombas de gasolina enquanto distantes primos de corruptos autarcas escalam uma escada de serviço público deixando para trás um rasto imundo de incompetência. Uns óculos redondos e uma barbicha recordam-me o meu professor de filosofia e pergunto o que leva cento e vinte mil às ruas enquanto o autismo engravatado distribui computadores em nome da educação de um povo esquecendo que a figura do mestre-escola é milenarmente anterior à sua presunção de mentor do progresso.
Pergunto ao contratempo do baixo e bateria se lá fora espera o esquadrão de choque que silenciará a minha ira ? Sei que a resposta é não. Custos cortados cegamente, conveniente insegurança que é cortina de fumo para maroscas de largos milhões, lei que não passa da letra morta moldada por escribas engenhosos que protegem eternamente a mesma escória . O homem pobre apodrece nas teias de um julgamento justo que nunca mais chega enquanto condenados em tribunal sorriem em aberturas de diretos televisivos cantando vitórias que enojam qualquer tentativa séria de democracia.
E o baixo contínua, marca o ritmo da palavra. Não me dobro a poderes que apenas são. Recuso e resisto nesta fé. A essência primária da vontade do povo para o bem do povo que era suposto ser o nosso modo de vida.
Volto a casa em silêncio. Leio, alimento a minha mente com as palavras de Noam Chomsky , consciência dissonante com o discurso ultraliberal dos falcões da alta finança. Ao fundo da minha alma persiste a musica dos Rage , o metralhar das suas armas de intranquilidade ecoa em mim. Pouso o livro e honro a cultura de homem livre que os meus me deram. Empunho a minha arma. O poder da palavra sem baixo e bateria , sem rimas ou métricas , sem o riff da guitarra distorcida , o poder da palavra por si só. Pelo povo para o povo.

Medicação para um

Medicação para um paciente apenas. Alinhados no tampo da mesa perfilham-se como soldados de um exercito de maltrapilhos de cores diversas . Prevalece o branco e a forma arredondada. A grande maioria dos corpos tem um sulco ao meio que é o local do corte para a designada meia-dose. Algo que está fora da minha dieta .
Medicação auto prescrita. Lista do inevitável sossego, este desejo de dormir por mil anos como um faraó alheio ao passar dos tempos, as brilhantes areias que trariam o esquecimento.
A minha mente retêm apenas três palavras do discurso anterior .
Sossego ,

Dormir,

Esquecimento .

Tamborilo o tampo onde medicação psiquiátrica conjuga um verbo que só um especialista , um rei que dorme em fofas nuvens de medo ausente , consegue percecionar a beleza . O serenar a percorrer a cadeia sanguínea, os dedos escolhem os paladinos que enfrentarão todos os medos que me assolam
Sossego é Wellbutrin, agrada-me particularmente a nota de rodapé da bula :
“Wellbutrin é um antidepressivo. Atua ao nível do cérebro para tratar a depressão. Desconhece-se como funciona exatamente devido ao caráter inovador do produto . Estudos especializados garantem que não potencia tendências suicidas nem de automutilação”
Engulo duas doses em conjugação com Effexor , verdadeiro guardião dos pavores e Mellaril .
O doce Mellaril que , mágicas artes da indústria , simplesmente me leva para uma estratosfera onde só perdura o sorriso que perdi algures nos tempos tristes a que me tenho acostumado chamar de vida.
O conforto do sofá virado de costas para a janela que persiste em chamar para o deslumbramento da paisagem que existe entre o sétimo andar e o passeio pejado de automóveis. O som final seria uma amálgama de vidro estilhaçado e carroçaria amolgada. Descaio os músculos que começam a sentir o apregoado relaxamento entre as almofadas e deixo que os sons de um noturno de Chopin encham o ar que começa a ganhar cores apaziguadoras. Do subir e descer do meu peito nascem pequenos fogos-fátuos que brincam um pouco na boca do meu estômago antes de partirem em direção ao candeeiro . Há uma aurora boreal a pairar em meu redor. Pianíssimo, dedos a deixarem de existir absorvidos pela cicuta entorpecedora, Pianíssimo, abano lentamente a cabeça e deixo que o peso das pálpebras se torne um desaguar de ânsias sobre as minhas cavidades oculares tão exaustas de tanto verem. Um pequeno suspiro, aconchego de uma manta que cobre os pés .
Quando o repouso parecia ser o trilho da noite eles retornam.
c. As minhas unhas sujas acariciam a testa. O suor congela quando o espetro me acaricia a face e , voz de alguém que foi próximo , ordena :

-Estás todo sujo . Cobre-te a face uma lama fétida . Fedes , Limpa-te!

Aumento o ritmo e a intensidade da coceira, o ardor é atenuado pelo que só perceciono a intensidade do dano quando o acre do sangue me toca a boca .
Vejo-te ainda, ganhaste forma humana , aí junto ao cortinado , queres que vá à janela . Não irei , não te quero ver , não quero o vazio de um passo a mais , não perecerei perante teu apelo. Cravo as garras na periferia do globo ocular e escavo para que te desvaneças. Para que não sejas mais rotina de todos os crepúsculos