Terra de Incas 6/6 ( Final )

Elegi o meu quarto de hotel como templo das coisas da carne e sou sacerdote rendido à deusa esplendorosa que se chama Dolores e que , com insinuação de grande profissionalismo , se desnuda perante o meu olhar ,entretanto recriado pupila gigante .O nariz escorre caramelo e tesão para dentro de mim. Como se uma nuvem negra ,em forma de vestido ,partisse, o sol de todo o esplendor da nudez é exposto. Primeiro, falsamente tímida, exibe-me o seu dorso. Uma enorme tatuagem na forma de condor enche a extensão das costas e termina na linha de onde brotam duas nádegas perfeitas.
Inquieto-me:
– O que é isso ?
Rodando sobre os calcanhares, e esmagando-me com a visão da sua nudez frontal, Dolores clarifica:
– Hanan Pacha – O mundo superior, dos céus . O seu símbolo era o grande condor dos Andes.
Detecto o meu primeiro fluxo de algum medo. Junto a clavícula esquerda uma segunda tatuagem representa o golpe da garra de um grande felino. O triunvirato é completo pela sibilante imagem de uma serpente, a cauda nascida no vale do busto , a enorme cabeça na zona do umbigo . A língua bifurcada estica-se, ostensivamente ,na direcção do sexo de Dolores.
Dentro de mim a adrenalina do medo e o feromônio do querer travam um combate de morte. As tatuagens hipnotizam o meu olhar, ela percebe e prossegue. Toca com as cabeças dos dedos a marca da garra:
– Kay Pacha – o mundo dos vivos. Nós , os dois, aqui. As garras sequiosas do puma.
O braço esquerdo e uma mão ,espalmada ,de dedos abertos, desliza com vagar ao longo do corpo da serpente até terminar num óbvio gesto onanista já dentro de si mesma:
– Ukju Pacha – o mundo lá de baixo , mundo dos pecados mortais – a língua insinua-se entre os dentes irregulares , o olhar é de meretriz suprema – Caliente !
Inclina-se, e insinua a língua e a duvida ao meu ouvido:
– Qual queres …provar?
O grande primata que há no meu código genético faz uma aliança explosiva com a droga que me inunda , tomo-a nos meus braços, derrubo-a sobre os lençóis .Cravo nos olhos verdes lascivos um olhar de predador e urro insanamente antes de afastar, abruptamente ,as coxas e dirigir-me ao incauto acto de beijar a intimidade desta mulher pública:
– Aqui , Pacha – gracejo.
Pela última vez pois tudo acontece num ápice.
Da vagina de lábios afastados pelos meus trémulos dedos um cheiro intenso e repugnante de coisas mortas mistura-se com o meu hiperactivo olfacto. A voz , lá em cima , junto à almofada ,já não é a de Dolores mas da menina assombração que avistei na catedral . A raiva gutural do mundo de lá ordena:
– Come-me o inferno.
De dentro de si duas enormes serpentes de olhos letais e mandíbulas gotejantes de veneno brotam e, com uma dentada síncrona ,amputam-me as mãos. A dor é indescritível.
De pé , gritando a agonia que brota em repuxos dos dois cotos onde agora terminam os meus braços assisto , um horror feito de dor extrema , à metamorfose de Dolores ; agora Tanta Carhua. De mulher de formas perfeitas à abominação de corpo de serpente , escamas brilhantes que deixam rasto de visco e carne putrefacta a sua passagem pelo lençóis , a cabeça de menina há muito morta mescla-se com a fauce de o grande puma das montanhas , duas enormes presas rasgam a face sem vida .Passa por mim , réptil imundo , monstro de pesadelo ,e salta pela janela do sexto andar . Antes da queda brotam de suas costas as asas do grande condor e parte em direcção às cordilheiras.
Tenho minutos antes de me esvair em sangue, o pânico apodera-se de mim. O choro convulsivo, o apelo ao pai há tanto esquecido , rezo , praguejo – Foda-se , Foda-se – o meu cotovelo emprega todo o seu esforço contra a maçaneta da porta . Há um desespero de um homem perto da morte nos meus gestos. Por sorte um dos golpes é preciso e a porta abra-se. A minha esperança de salvação dura ínfimos de segundo. Ocupando toda a extensão do meu trilho para a vida as pedras de um muro, rusticamente construído ,perfilham-se. Apenas existe um tijolo ausente na parede que fecha o meu sepulcro. Um grito insano de desespero, os cotos raspando o buraco ínfimo, o apelo a alguém que acuda.
Tudo para nada. O meu olhar encontra o olho vazado do feiticeiro que, com um gesto brusco , sela a campa. Ecoa um grito de triunfo no corredor. Uma multidão canta. Centenas de pés fazem estremecer o solo. O circulo está fechado , o sacrifício consumado, inicia-se o festim. Os tambores ecoam ao longe
Para mim, começa o fim. Perco forças rapidamente. Morro no lavatório da casa de banho “snifando” ,como um cão amputado , todo o produto que me resta. A minha última visão é o meu rosto lívido manchado do pó branco onde chafurdei o meu último inquietar. Depois vem o escuro.

Terra de Incas 5/6

Há algo de heresia no ritual dos meus preparativos para a noite que será a ultima na capital do império Inca. O cuidado ao vestir a camisa de linho branco, o lento ajuste das calças caqui de forma a não estragar o vinco ; tudo são gestos pouco comuns em mim. Demoro uma eternidade na preparação. O vagar dos gestos é contrastado com o turbilhão de pensamentos que me invade a mente. O dia que passei nas ruínas de Picchu serviu para provar duas coisas : Tudo o que vivi nos últimos dias é revelador de um elevado nível de toxicidade , permanente e residente ,e dos seus efeitos imprevisíveis na minha nada saudável mente e a percepção ; agora sem desculpas de altitudes , jet lags ou outro dos argumentos que gosto de mentir a mim mesmo, que a minha carência de drogas atingiu o nível da dependência física. Muito se passou desde o dia que abalei de Lisboa com toda a fome de divertimento deste mundo e o momento actual, onde o meu corpo massacrado por todos os prazeres obscenos e ilegais que o globo pode proporcionar pede uma pausa. No fundo sabia que este dia chegaria, isto ou uma morte repentina na pressa de um devaneio qualquer. Foi a dependência que prevaleceu. Tento recordar o rosto da mulher que não desposei em Portugal , os semblantes dos que, outrora, chamei amigos e família. Memórias ténues, neurónios mortos trazem imagens esbatidas , nada mais. Cortei as amarras em definitivo, carbonizei em opiáceos o meu passado; agora é tempo de ir limpar este sangue tão corroído em enfermarias suite de luxo lado a lado com reis do rock e estrelas da sétima arte . Todavia ,antes de tal, tenho de sair desta vida de “junkie “ em grande estilo . Resolvo que hoje me injectarei, o grande “flash” do caldo é o meu presente de despedida.
A primeira dificuldade que me advém é o facto de não possuir o equipamento necessário a diluir nas minhas artérias a consequência fervida da cocaína . Depois de inquirir ,na recepção do hotel, o paradeiro da farmácia mais próxima encaro um desconfiado farmacêutico que não parece muito convicto da minha atabalhoada divagação de diabetes e outros males de terapia injectável dos quais supostamente padeço . Graças ao santo dos agarrados estou na América do Sul , a nota de cem dólares ganha o estatuto de prescrição e cerca de uma hora depois estou de regresso ao meu santuário quarto. No caminho de regresso apenas um pequeno episódio digno de registo. Um andrajoso pedinte e o seu olhar, o acumular dos anos e da degradação de bodega haviam trazido o luzir louco dos ressabiados com a vida. O insulto nem foi extremo, mais estranho que ofensivo de facto. O homem irado proferira:
– Pizarro conquistador cabron – O articular das palavras soara a golpes fundos da faca que trazia, ostensivamente, à cinta. Apressei o passo. É muito fácil ter pressa em tais circunstâncias . A seringa na minha mão, o produto no hotel e todas as minhas artérias a pulsarem ,famintas do ferro, são poderosos argumentos para que me cresça a cadência do passo.
E aqui estou , a preparar a sopa do grande “bang” ; tenho algum tremor nas mãos , falta-me o controle dos grandes paquidermes tóxicos que se injectam com regularidade ao longo de décadas. Após a segunda tentativa dou com a veia evidenciada pelo garrote feito da extensão eléctrica da televisão.
Levanto os pés do chão alguns segundos depois. A tormenta violentíssima da grande pedra orgástica esmaga-se contra o meu cérebro como um macaréu de energia demoníaca. Ainda com o braço asfixiado no garrote miro-me no espelho , a midriase eclode transformando as minhas pupilas em dois pratos negros de urgência de perdição. Uma euforia olímpica invade-me , quando me injecto recordo sempre aquele tipo do filme do “Titanic” de braços abertos à proa a gritar que era o rei do mundo. Se levar com a maresia o fazia rei a substancia que invade todos os meus órgãos vitais coroa-me imperador da decadência universal. Preparo-me para sair quando, pelo canto do olho, deparo-me com a possibilidade de um toque de requinte na minha , já monumental , broa. A grande altitude obriga a que em todos os quartos exista uma botija de oxigénio pronta a receber a asfixia aflita de turistas mais idosos. O meu propósito é outro, aumentar a intoxicação através do aumento de oxigénio no fluxo sanguíneo. Antecedo o quase fetichista acto de colocar a máscara com mais uma ingestão de branco pó , desta vez sobre a forma de linhas gémeas em espelho de bolso.
O sucesso é monumental, ao sair do quarto não consigo evitar o “sprint” até ao elevador. Grito em plenos pulmões que sou o rei , uma perplexa empregada de andares encosta-se à parede cedendo passagem a este Obikwelu Bogotá.
A figura de passo apressado que sai, momentos depois, do átrio do hotel é um mastim geneticamente modificado para farejar antros de deboche , ávido , louco pela caça , pela busca da perdição em forma de boémia e mulheres.
O meu primeiro covil tem o nome patético de Mama Batata e rapidamente o seu ecossistema lúdico ganha o meu profundo aborrecimento. Emborco dois vodkas limão junto a um balcão apinhado de grupos turísticos organizados que se embebedam envoltos numa mesclada intrujice de grupos de folclore local , loja de souvenirs e alguma animação moderna no girar dos pratos de um “DJ” de nome Panchito Huevos cujo um néon anuncia a presença. O suor e camisa havaiana do animador conjugam perfeitamente com um “beat” remisturado de Ricky Martin.
Caçador experiente elejo o balcão como miradouro e rapidamente identifico mulheres da vida em “part-time” que estão muito longe dos meus objectivos carnais. São quatro, aparentam ter saído ao final do dia do liceu estatal para se abonecarem e virem ,horas mais tarde, à procura de uns dólares extras . Desvio o olhar do sorriso promoção que uma das miúdas me crava. Não aprecio esta raça de amadoras. Há sempre algo no acto, supostamente comercial, que cheira a esperança que um dia voltemos e as levemos para uma vida melhor. Isso incomoda-me. O que quero sempre, e especialmente nesta noite tão especial , é a grande meretriz de formas generosas que lhe vale o estatuto de puta hiper cara. Aquela mulher que posso chamar mãe , filha , Angelina Jolie ,espancar as nádegas ferozmente , chorar convulsivamente no seu colo, latir como um “Poodle” no momento do clímax que , a partir do momento que abandona o quarto com centenas de dólares entre os seios , me apaga para sempre da sua memória.
Aqui tal espécie não existe. Saio.
Procuro no bolso o papel que me havia sido rabiscado pelo porteiro do hotel. Na lista um nome chama a minha atenção. “Nazca Noche”. O trocadilho noite de narça surge-me na mente e enveredo, sempre no passo de galope que a droga me impõe, para a localização. No curto percurso tenho a sensação que, ao passar junto ao claustro de um convento abandonado ,uma figura sombria caminha entre as colunas acompanhando a minha marcha. No entanto, vários rodopios de cabeça após, não há vivalma no meu horizonte e a visão da porta do clube tranquiliza-me a alma. Tenho sede . Empurro a porta negra com um gesto lento. O espaço está pleno de fumo e de música alta , o inevitável palco para o “strip-tease”, uma bola de espelhos da era disco lança lampejos de brilho sobre as mulheres de saia curta que povoam a pista.
O meu segundo passo dentro do bar cruza-se com o deslizar insinuante de uma falsa loira de curvas esguias e vestimenta mínima que ,com um sorriso obsceno e ausência de discrição , me apalpa as nádegas . Murmura-me:
– Duzentos dólares. Tudo.
Declino-a, sei que as mais ansiosas são normalmente as que estão mais abaixo na cadeia alimentar. O inevitável “Joe Cocker” acompanha uma negra luzidia no varão do centro da pista. Peço uma bebida a uma “barmaid “ de seios expostos e mesclados de lantejoulas , é pouco generosa na porção que me serve . Vagueio pelo espaço. Existem cerca de vinte a trinta mulheres ; em mesas mais recônditas figuras masculinas trocam as primeiras carícias e negociam preços. Sou chamado , abordado, mas todas ignoro. Desço aos balneários e invado as narinas com mais um pouco. Dentro de mim a pulsação atinge ritmos elevadíssimos e as mucosas congestionam-se em todas as formas possíveis. Um imensa erecção, que cresceu após o chuto , ainda não me abandonou. Volto ao bar e vejo-a. Sozinha , ao fundo da sala , esparramada num sofá ,como uma grande rainha das putas ,está a mulher mais apetecível que alguma vez vi.
Longos cabelos negros envolvem um moreno azeitona onde brilham ,esplendorosos, dois imensos olhos verdes. O corpo apresenta toda as curvas cheias da tenra idade e da natureza de tal forma generosa que a cirurgia estética é ainda um plano de longo prazo. Todavia o que a torna soberba é a imensidão de luxúria que lhe marca toda a feição. Mulher, fêmea; exala odores de cio para o meu libidinoso pasmar .O entreabrir dos lábios carnudos , os incisivos ligeiramente afastados e a proeminência do maxilar inferior são chicotadas obscenas no mais viril que há em mim. Todos os meus fluidos corporais circulam em maior abundância perante a ideia de a possuir na posição primordial dos mamíferos.
Olha-me desafiadora. O vestido restolha quando afasta as coxas parcialmente expostas e com o dedo chama-me junto a si. É obvio que está determinada a que eu seja o homem dentro dela, o cliente . É tudo uma questão de preço, sei-o e parto para a dança nupcial dos dólares.
A voz é rouca e entoa maravilhosamente:
– Sou Dolores , muito prazer. Como te chamas ?
-Diego – minto recordando a placa do barman oleaso que dominava o balcão do bar que visitara anteriormente. O olhar divertido tolera a minha mentira e entra no jogo :
– Diego era um dos capitães de Pizarro , um conquistador de terras e corações.
A minha frieza esquizofrénica e a urgência de tocar o busto empinado encurtam o caminho da sedução:
– E o teu coração custa muito a conquistar? – Inquiro mordaz.
– Quinhentos dólares , mon capitan – o brilho nos olhos diz-me que me proporcionará uma noite que não esquecerei.
– Vamos – ordeno , quero-a bem junto a minha droga , quero-a nua na minha cama , a sua barriga lisa feito trilho de inalações múltiplas. Obedece ao meu comando pegando na pequena malinha de imitação de crocodilo e caminhando bamboleante sobre tacões agulha.
(continua)

Terra de Incas 4/6

Na manhã seguinte é um farrapo de mim que arrasta um   odor que  revela a absoluta ausência de qualquer acto de higiene   . A transpiração abundante, mistela de envenenamento de sangue, húmidas terras e horas-anos atravessadas no mais indescritível pavor. À espera que algo viesse. Noite de vigília feita  do constante sobressalto à abertura do elevador ao fundo do corredor , ao disparar do ar condicionado; o descarregar do autoclismo do quarto vizinho fizera-me saltar da cama.
Nada sucedera. O dia voltara a iluminar as ruas de Cusco .Sentado na borda da cama , mala feita para abalar, reflecti sobre o meu próximo passo. Bem revelador do desvario que me vai na mente foi, após tudo o que presenciara até ai , ter considerado e optado pela imprudência de ir a Machu Picchu. Um voo intercontinental e o ingresso no tal centro de reabilitação eram o outro peso na balança. Declinei, temor da ressaca que já me começava a notificar as articulações. A quebra do jejum foi feita sobre o lavatório. No espelho estava o pior aspecto que já havia presenciado de mim mesmo. “Farrapo”. A visão estéril do corredor do hotel despertou em mim os primeiros sinais de tranquilidade, a impessoalidade feita em tons ligeiros de azul   e material de natureza plástica era de tal maneira profunda que tive o reconfortante pensamento que em tal sitio nem coisas boas ou más poderiam florir.
Estabeleço tréguas com o mundo e devolvo alguma actividade visível ao lado lógico do meu cérebro em frente a um revigorante “buffet” americano ,onde não falta o encontro intercontinental do  Apfelstrudel   com a pequena montanha de “brownies” e “waffers”, e uma ida aos lavabos . “Para a viagem “ – murmuro visivelmente mais animado. No entanto o aspecto pouco saudável e incivilizado parece ter-se fixado no meu parecer para o resto da jornada. Não posso deixar de notar que tanto optimismo artificialmente estimulado é constantemente corrompido por idas ao canto do olho à procura de algo, um milésimo de retorno ao medo de coisas que sei viverem por perto.
O cais de embarque está pleno de uma babel do turismo global. Reformados europeus , espiritualistas de “ipod” escutam “audiobooks” sobre a pureza do espírito embalados em   flautas “dubbadas”, Woodstocks 2.0 , velhos com aspecto saudável  , americanos de olhar pasmado e excesso de calorias , aventureiros de sapatos “Timberland” novinhos em folha, um pequeno aglomerado de nipónicos que acenam as cabeças ao paragrafar de cada frase da guia turística com um cíclico “Hai”. Roço o ombro algo mais erguido, mais arrogante, mais alto por um deles e desafio, sabendo que não terei resposta:
-Ai o tanas !
.Embato acidentalmente num homem que aparenta estar muito doente e ser esta a sua ultima peregrinação. Não peço desculpa. Preciso de um lugar sentado e de encostar a cabeça . “Precisas de descansar” .  A Suiça chama por mim no tumulto que me sacode o fígado atirando a bílis para demasiado perto do palato.
Envolvo-me no meio deles, ultrapasso, furo a fila , ignoro o protesto em cinco idiomas e ganho o assento junto à janela. O meu imundo aspecto e as fragrâncias que emano são o prémio de uma família francesa retardatária. Retruco o “bonjour” com um ronco simulado. “Preciso de descansar”
A viagem de três horas de vistas deslumbrantes é percorrida sem qualquer memória. O meu corpo derrotado e o embalo do comboio oferendam-me um sono totalmente isento de sonhos e de sobressaltos. Sou devolvido à realidade por uma mão fraterna e anónima que me abana o ombro à chegada ao destino.
Quando alcanço a primeira visão da cidade perdida calo-me esmagado pelo peso da paisagem. Por breves e efémeros momentos, o vento fino que sopra entre as enormes cordilheiras limpa de mim os males que são da minha alma, e tenho a perfeita noção de belo. Mentalmente tento recordar a última vez que me sentira assim esmagado por algo; não me consigo recordar de nada , zonas obscuras da memória que , para sempre , a droga levou. Neste momento contudo não sou vicioso, não sou toxicodependente , não sou a pantomina corrosiva de cartão sem limite que a fortuna me tornou . Neste momento maravilho-me perante a grandiosidade das ruínas. Acho que sorrio sinceramente.
Embrulho-me pela segunda vez na multidão, desta vez de forma menos turbulenta, e percorro, no obediente carreiro de corações que palpitam e obturadores insaciáveis de captar o momento, a cidade que foi esplendor de outras eras. Sente-se a magia no ar , há um íman feito de memórias ancestrais, falta de oxigénio e eficiente marketing turístico que me faz sentir único e especial por pisar uma das sete maravilhas do mundo.
Num momento de descanso após duas horas de visita guiada, oculto numa sombra da  grandiosa praça ,retenho um momento para observar aqueles que me acompanham. Foco momentaneamente a atenção no peito generoso de uma loira platinada , cara metade do envelhecido otário com um boné de um clube de golfe em Kansas City , quando, entre as madeixas platinadas, lá longe , um raio de sol mais pronunciado tomba sobre uma zona onde sei que tenho de ir. Mecanicamente ergo o meu fatigado corpo e abandono a protecção do rebanho para procurar o confronto. Em cada degrau que percorro, com protesto das minhas articulações carenciadas de produto, sei que Intihuatana espera.
A quase ausência de turistas é deveras estranha junto à rocha da fundação, o centro de tudo e quase ninguém por perto. Um vigilante de idade avançada envergando trajes típicos perfilha-se com um olhar fixo no ícone do seu povo.
O meu primeiro movimento de aproximação é de receio e de reverência refrescada por lampejos das minhas memórias recentes. Contemplo-a. “É só a porra de uma pedra “. Todavia hesito antes de me aproximar. Ganho fôlego ,percorro o espaço com o olhar,  encaro o vigilante de semblante rude  .O desafio é feito no gesto lento de retirar a mão debaixo do colorido capote e esfregar ostensivamente a testa enquanto um queixo quadrado e moreno é erguido em chamariz à minha coragem.
Foi assim que começou a minha estranha viagem por terra de incas. Intihuatana , o mundo dos grandes xamãs para os puros de espírito , o acto milenar de roçar a testa no monumento e aguardar a chegada de visões etéreas .
Avanço com uma agressividade que esconde o medo e esfarelo a pele do meu osso frontal de encontro à rocha. Volto as costas ao segurança e, de braços abertos para a multidão que não me olha, bramo às cordilheiras:
– Não sou puro , Não sou puro . Nada ! Vejam ! Nada acontece
E de facto a terra não treme e coisas já mortas não interrompem a azáfama da mole humana para me vir punir. Sinto que fechei o ciclo. Agora é tempo de voltar ao mundo civilizado, oferecer-me um festim de despedida e rumar à “Detox”. Quando rodo sobre os calcanhares venho pleno de toda a arrogância que o dinheiro em excesso me ensinou e a presunção exaltou. Acto reflexo, pespego uma grossa escarrada na pedra sagrada. Miro desafiante o vigilante, rondo a pedra e o seu rosto sem expressão segue a minha trajectória. Não profere palavra, não avança um passo em minha direcção. Um desafio de pé firme ao qual não resisto, avanço para ele  pronto para esmurrar o velho. A dois metros de distância deparo-me com um olhar feito integralmente de branco cegueira que me estanca o passo e me reacende o incomodo no estômago:
– Vês-me? – Pergunto receoso.
O rosto sem expressão desdobra-se num sorriso desdentado e humilha.
– Não . Cheiras muito mal. É fácil seguir-te
Viro as costas ao ancião e rio em sonoras gargalhadas até sair do recinto. “Para o diabo com os incas , as pedras e as gajas mortas enterradas vivas “. A última noite em Cusco espera por mim, uma noite feita em tom de “até já” às drogas pesadas, um festim antes da tormenta da sobriedade. Quando o comboio pára no terminal salto para a plataforma com uma saudade imensa do que deixei no cofre do hotel a apressar-me a marcha. As primeiras trevas erguem o breu sobre a cidade, os vícios do mundo chamam por mim.
Já na privacidade do meu quarto sussurro “ Esta noite é minha”. O rosto exausto é revigorado num duche quente. Duas grossas colunas de sangue, que escorrem pelas narinas, revelam a natureza do meu “after-shower”.Kleenex e algodão estancam o dano do septo. “Esta noite é minha”.
(continua)

Terra de Incas 3/6

O resto da minha primeira manhã em Cusco dura a eternidade deste lago de suor frio e tremor incontrolável que encharca o lençol e leva o meu espírito a cavernas profundas que jamais havia percorrido. Nu, o olhar dilatado fixo no tecto e na enorme ventoinha que desta vez não é tímida em revelar todas as coisas do outro mundo que flutuam entre as suas pás ; na mão a garrafa mescal feita biberão de uma loucura que paro a curtos e repetitivos goles. Duas imagens alternam-se no intervalo de cada sombra que passa no tecto sujo de nicotina. A menos horrenda é a recordação da face do meu motorista e do seu esgazear insano. Todavia a memória que me contorce os intestinos, ao quase formalizar do estar borrado de medo, é a recordação da ultima visão que tive antes de o meu corpo, asfixiado no ar rarefeito da grande montanha ,ter sido devolvido à realidade suja do assento traseiro do táxi. Nem da primeira vez que me injectei o “flash” tinha sido tão grande. As primeiras visões que tivera esta manhã eram de algo maléfico mas que vivera outrora; no entanto o último momento que visionara era algo de amanhã. A lua cheia era recortada pelos pulsos trémulos ,unidos em pirâmide acima da cabeça do sacerdote que, envoltos em grossas pulseiras do mais resplandecente ouro, empunhavam um longo gume que apresentava vestígios de outros sangues ; à distancia escutava-se o coro composto exclusivamente por vozes masculinas que ritmava um “uhh-uhh” que gradualmente ia aumentando de cadência. O ângulo de visão que tinha de toda a cena era o da vítima cerimonial que iria, em breve, ser imolada a deuses dos quais nem sequer sei o nome. Senti que estava a viver a minha última hora. Agora esse sentimento repete-se com uma inevitável certeza de dia de amanhã; um abanar constante da cabeça em negação tenta que este ciclope que me atormenta se vá. O mescal faz os seus efeitos e sinto o ácido das minhas entranhas revirar caminho ,escalando-me numa náusea que sabe a caramelo calcinado.
O vómito arrasta-me com cinquenta por cento de sucesso até à casa de banho. Ao regressar ao quarto, contorcido sobre o meu estômago ardente, percebi que havia sido demasiado lento e que um rasto das minhas digestões de cocainómano jazia na alcatifa cinza bocejo . Sobre a mesa de cabeceira o saquinho contendo as folhas de coca provava a realidade da minha boleia matinal . Sento-me no sofá e durante longos minutos arfo ,cada vez mais lentamente. O meu instinto combate com a minha razão pouco clara mas muito activa.Reforço a frieza do raciocínio com a emocionalidade nula de um corretor da bolsa que volta à sala de mercados após uma incursão revigorante aos lavabos.
Depreendo que o problema é da excessiva pureza da droga e da frequência com que tenho consumido desde que aterrei na América do Sul. E do cansaço, afinal estou há vinte meses na estrada. Um “globetrotter”das mais refinadas formas de decadência humana. Vislumbro a vida ,tal como ela era, há quase dois anos. As filas de trânsito eternas da ponte , o carro pequeno sem ar condicionado , a licenciatura prostrada em frente aos “scripts” de um “call center” – Bom dia , tenho a honra de falar com ? – Inquiria a brutos iletrados que não conseguiam activar o serviço de “voice mail” . A engraçadinha namorada Susana , os suplementos de habitação do matutino percorridos com um dedo que rezava não se deparar com algo em conta.
Um dia tudo mudara. Dois Euros . A conversa à bica da manhã sobre o “jackpot” avivara-me a atenção e , algumas horas mais tarde , sexta-feira tornou-me no incrédulo detentor de quinze milhões de euros. Contrariamente a tudo aquilo que é afirmado pelas gentes de bem não dediquei a minha fortuna a garantir o conforto dos meus nem a qualquer acto de benevolência. Simplesmente fui-me embora. Eu , um telemóvel de número novo , um passaporte e uma carteira recheada de opulento crédito global em moeda forte. A roupa que a minha mala continha cheirava a novo e as rodas do trolley rolavam silenciosas emitindo um suave cântico de adeus. Lembro-me de que quando entrei no avião que me levaria até as delícias opiáceas e ternas do Extremo Oriente ocorrera-me à mente o grito de libertação dos Xutos – Olá ó vida malvada – murmurei entre dentre após encomendar um generoso espirituoso que emborquei com evidente deleite.
Agora não me sinto assim, este medo pode não ser nada mais que o vaticínio da insanidade, aquela a sério , psicose do narcótico , tenho de parar um bocado . Aqui , neste sofá , devolvo-me ao mundo dos aparentemente decentes prometendo a mim mesmo que, quando descer destas cordilheiras, vou direitinho à Suiça esconder-me e reciclar-me numa dessas clínicas para “rockers” famosos onde a branca é trocada por transfusões de sangue de gente limpa e aditivos químicos da mais requintada indústria farmacêutica que vedam a dor aguda da ressaca e acalmam o espírito em suaves alucinações medicamente controladas.
Mas o homem do táxi e a memória da lâmina do sacrifício persistem em mim . Tenho de sair daqui. Desencanto um fato branco de chulo que espanta os males enquanto o som máximo da MTV local sacode o piso executivo do hotel com as batidas das pistas de Londres. Antes de sair para o exterior contemplo o espelho na arrogância que reafirmei inclinado sobre o pequeno espelho – Estás a ficar maluquinho – desafio as minhas pálpebras arroxeadas e as minhas pupilas vidradas e assustadas. Alguns minutos mais tarde, oculto em lentes negras , embrenho-me no movimento das pessoas de vestes coloridas que percorrem as ruas da cidade. Viro várias vezes a cabeça para trás para me assegurar que nada nem ninguém vêm no meu encalço. O cheiro das cozinhas a céu aberto recorda-me do meu jejum e sento-me ao balcão de um destes bares de rua . Acredito pelo sorriso franco do homem que me serve que o que está no meu prato é algo de bom . De facto comprova-se. Respiro fundo pela primeira vez desde há muitas horas e atrevo converter o vigiar em olhar e admiro com tranquilidade a vida animada da antiga capital do império Inca. Completo a refeição com o gole final na cerveja e quando rodo para pedir a conta a ausência do empregado revela uma estranha e inquietante pintura dependurada nas traseiras do balcão. À primeira vista trata-se de uma réplica barata da última ceia de Cristo , todavia o mesmo está ausente do retrato ; ao fundo do quadro a paisagem revela uma encosta e o muro de pedras onde agora sei estar enterrada Tanta Carhua. Vinte dólares são depositados no balcão e caminho, mais uma vez profundamente inquieto, contra a corrente da multidão. Ao longe vislumbro as torres de uma catedral e instigo o passo em direcção ao refúgio da fé em que fui educado.
A enorme nave central está envolta na fria sombra da arquitectura espanhola , dezenas de filas de bancos encontram-se vazias. A chama trémula garante-me que esta é uma casa de Deus vivo. Deixo-me cair sobre o banco mais próximo, tremo lenta mas persistentemente ; as minhas costas tornaram-se uma cola gélida que se esmaga contra o linho da camisa. Dou por mim a rezar uma oração que nunca aprendi muito bem mas não chego a entoar cinco linhas. Uma nuvem negra encobre o vitral que é a fonte primária de luminária e , lá do fundo , do altar ; de onde supostamente repousaria a força de Nosso Senhor vejo-a chegar . A criança nua caminha , braços pêndulos sem vigor que acompanham o corpo magro e o passo firme . Os longos cabelos negros são timidamente alumiados pelas órbitas cintilantes onde, sobre o fundo negro e ausente de espírito , brilham duas pequenas luas cheias . Ao passar por mim estanca a caminhada e roda o pescoço a ângulo impossível para coisa viva. Profere:
– Hasta Luego – arranca numa corrida desenfreada em quatro patas em direcção ao exterior. Sobre a pedra secular a fuga da bestial criatura não produz qualquer ruído. O silêncio é quebrado pelo meu grito insano por Jesus.

( Continua)

Terra de Incas 2/6

O despertar soa desagradavelmente alto na minha insónia, olhos fixos na ventoinha que rodopia em sombras que me causam receios infundados. A conversa do velho causou-me esta incerteza, será que entre as pás dependuradas no tecto vagueiam almas desta gente tão antiga?
“Não. Nada disso” – levanto-me e exercito os rituais do viajante atrasado; resolvo não consumir mais drogas, por enquanto. Ainda estou cheio da velocidade da ainda há pouco, o cenário que me espera arrepia-me; o aeroporto internacional de Lima é um local nada propicio aos excessos e à indiscrição , estou seguro que o meu cartão dourado de viajante frequente afasta a atenção da segurança mas não convêm arriscar a sorte. “Voar baixo” , penso.
O percurso é feito em silêncio na companhia de um homem sem conversa e do seu táxi sem pintura. Pairo na madrugada peruviana, olhar perdido no desfalecer da visão do hotel e na recordação; aquela conversa sobre os puros ainda não parou de calcorrear as veredas onde ainda me resta emoção.
Afasto essas ideias irracionais com o vasculhar da confirmação de voo no bolso interior do meu casaco. A minha presunçãozita de europeu de liga distrital faz-me desdenhar da minha transportadora aérea. «Taca airlines , Caca Airlines» . Sinto uma ligeira irritação quando imagino um voo a bordo de um avião manhoso onde a diferença entre viajar em económica e executiva é o facto de termos, ou não, uma galinha ao colo.
Engulo a minha presunção cinquenta minutos depois quando o meu pé direito aflora a alcatifa novinha em folha de um Airbus 320 e levo uma bofetada de luva branca do sorriso belo e profissional de uma hospedeira de tez morena e enormes cabelos negros.
Nos seus olhos de índia há um brilho que suspeito conhecer a natureza. Isso faz a mulher ainda mais atraente
O voo dura cerca de hora e meia, tento dormitar após o take-off . A lotação está esgotada. Lá atrás ,na zona do povo, um grupo de reformados italianos prepara-se alegremente para ir conhecer a asfixia de grande altitude. Acordo quando começamos a aproximação. Vou à casa de banho e inspiro uma pequena linha. No regresso à fila dois excedo o contacto devido com a tripulante apetitosa. Algo dentro da camisa de seda diz que a firmeza é natural, algo no seu olhar diz nunca; parte rebolando as generosas nádegas empinadas; a segunda bofetada do dia.
Quando acabo de apertar o cinto e fixo o olhar no exterior fico perfeitamente esmagado pela visão das enormes cordilheiras, o ninho do grande condor. Ventos laterais fazem a aeronave chocalhar um pouco ; do cockpit o piloto responde com a mestria de um pouco mais de potência. De cabeça encostada à janela assisto, em encantado transe, ao nosso pássaro de aço aproximar-se e afagar com seus pneus a terra milenar .Uma paz apodera-se de mim , contrariando os tóxicos que ingeri o bater do meu coração ameniza-se ; ao sair o meu olhar pede uma desculpa envergonhada à hospedeira. Um sorriso amistoso diz-me que nada se passa.
A sola do meu sapato toca a terra de Cusco com um estranho sentimento de pureza no meu espírito. Agora soam diferentes as palavras do velho « puros , sagrada , Intihuatana».
O primeiro contacto com o exterior revela uma cidade de construção baixa , raros são os edifícios que ultrapassam os quatro andares. Um táxi leva-me em direcção ao centro . Contrariamente a Lima o tráfego flui sem paragens , o carro que me transporta é moderno mas , independentemente de todas as mordomias da engenharia alemã, facto é que a minha respiração aumenta gradualmente de dificuldade , um ligeiro mal-estar instalou-se no meu estômago e um suor que me diz a palavra doente encharca-me a camisa de linho. Pelo retrovisor os olhos do motorista apercebem-se do meu estado e em silêncio a mão direita dirige-se ao porta-luvas e entrega-me um saco de plástico cheio de folhas secas. Dirige a mão à boca convidando-me a ingerir, a mascar.
– Es legal – uma risada franca notifica-me que já percebeu que sou um utilizador muito frequente de outros formatos mais refinados da substância que me oferece.
O braço musculado que sai da manga cava exibe-se num músculo considerável.
– La masco desde los quinze . Tengo cuarenta
De facto.não deve fazer muito mal. Encho um punhado generoso e sacio a minha asfixia na chiclete do alento. Os locais destes sítios caminham longas marchas de trinta quilómetros em terreno montanhoso sobre o efeito da folha de cocaína mascada. Encosto os olhos ao tecto do veículo antes de os fechar e deixar que esta dor imensa de cabeça tenha um pouco de dó da minha pobre condição de homem mal dormido.
Passados uns minutos a voz do taxista devolve-me à realidade.
– Mejor? – inquire . Tenho dificuldade em vislumbrar-lhe o rosto devido ao grande chapéu que usa. Dependurado no espelho baloiça ,na ponta de um rosário, uma pequena cabeça mumificada . Cabelos longos de mulher jovem.
O motorista percebe a minha curiosidade e diz:
– Uma das virgens do Sol.Tanta Carhua
Subitamente a falta de oxigénio e a saliva calibrada que desliza por mim tem o seu primeiro sério efeito cerebral. Imagens brutais , fragmentos de um horror de há muito imiscuíssem com a monumental enxaqueca , espasmos musculares e alguns vómitos são o acompanhamento físico de quatro momentos de dolorosa e realista alucinação.
Um.Tanta Carhua , dez anos
Dois, O corpo de criança serve a gula fanática e animalesca dos grandes sacerdotes. Uma pasta branca é aspirada pelos santos homens ,incenso do fanatismo e dos actos horrendos. À vez afadigam-se sobre ela…
Terceiro, Tanta Carhua é sepultada viva sobre um sólido muro de pedra que veda eternamente o recanto da montanha. A ultima pedra , a ultima visão de Tanta Carhua é o olhar do supremo sacerdote. O olho vazado brilha inerte sobre a luz das grandes fogueiras.

Junto à sagrada Intihuatana o círculo dos sacerdotes regozija pelo feito.

E volto ao assento de cabedal , as ruas cheias de gente de roupas coloridas. Má viagem é a conclusão. Então o carro estanca . Uma travagem brusca .
– Su Hotel
A seguir vem o medo. Ao inclinar-me para tirar a carteira vislumbro a mão esquerda que segura o volante. Ou melhor , o gancho que com o seu abraço letal faz a vez do membro que lá não está. A mão que ainda é de gente retira o chapéu e encara-me.
Ignoro a bagagem e corro pelo lobby numa cavalgada de pânico necessitado em direcção ao bar. Preciso de um Rusty Nail.
Não sei o que mais me aterrou. A falta do membro , o olhar zarolho muito idêntico ao do meu terceiro “flash” ou a chaga putrefacta que cobria toda a testa. Uma obsessão doentia, o ritual dos fanáticos junto à pedra de Intihuatana brilhava insano no olho ainda vivo.
O mal que vi chamava por mim das terras altas de Machu Picchu.
(continua)