Lewis – Post Mortem

Os funcionários do município não tiveram grandes dificuldades em varrer os restos mortais de Lewis. O pequeno monte de cinza que restava no soalho do cubículo 135-A foi arrastado para um saco de plástico por um temporário que aproveitou a deixa para escarrar a sua raiva de salário mínimo nos despojos. Surripiou o PDA de última geração e atirou o saco para o carrinho da empresa de trabalho precário. Os restos de Lewis aconchegaram-se, num murmurar de derivado de petróleo em baixa cotação, aos despojos de um analista de mercados que ardera no piso quatro e ao saco selado pela polícia com banda amarela. Lá dentro os restos de uma longa barba negra que fora encontrada junto à porta principal do edifício de escritórios lançavam suspeitas islâmicas sobre a origem da carnificina.
Enquanto as cinzas de Lewis eram transportadas para o velório um administrador de sistemas, aborrecido pelas horas extras a que era forçado, activou quinhentas e noventa e duas notificações de “Out of the Office” eternas no servidor de correio da empresa. Um cliente irado apresentou uma reclamação, a morte do seu corretor não era argumento aceitável perante o dano no seu portfolio.
O velório de Lewis decorreu só pois os seus familiares já não se lembravam que ele existia e os seus amigos não puderam comparecer. Em Tóquio os rácios de liquidez da banca comportavam-se anormalmente . A única visita foi a ex-namorada que vasculhou a cinza à procura da chave do apartamento onde deixara uma peça de lingerie pela qual nutria grande estima. Furiosa por não encontrar o objecto sussurrou para dentro da pequena urna que todos os orgasmos que tivera haviam sido falsos e que , by the way , o membro erecto do porteiro do condomínio de luxo onde Lewis vivia saciara a pequenez com que ele a presenteara durante os quatro longos meses da relação. Depois saiu, os tacões dos sapatos de quinhentos dólares deixaram um eco na capela que durou até ao sol raiar.
Mais tarde, talvez meia hora antes do mercado voltar a abrir, os restos mortais de Lewis foram objecto de acesa discussão entre o cangalheiro e o agente imobiliário escandalizado pelo baixo rendimento que os quinze centímetros quadrados, ou mais correctamente os zero virgula quinze metros quadrados da eterna morada, iriam proporcionar. O cangalheiro cego sentiu um bafo nauseabundo assolar-lhe o olfacto enquanto os protestos sobre os milhares de dólares que os mortos não potencializavam ecoavam no ar. Encolheu os ombros e prosseguiu com a sessão fúnebre. A falta de visão era compensada por um ouvido aguçado. Entre os ciclos de motor do potente veículo topo de gama do agente escutou os gritos de “Atirem os mortos ao Hudson mas não desvalorizem o solo de Manhattan”
O funeral de Lewis demorou os exacto quatro minutos e meio que a sua apólice de seguros descriminava na cláusula numero nove bê. A cerimónia foi entoada por um sacerdote apressado que pousara a bíblia para que o polegar pudesse estar livre na roda do Blackberry que seguia em tempo real a sessão de futuros do Nasdaq. O padre-nosso foi entoado em pequenas prestações pois uma ordem de venda urgente tomou precedência perante as coisas de Deus. O pão-nosso de cada dia foi substituído por uma imensa obscenidade quando a comissão do mercado de valores suspendeu a negociação do fundo onde estavam aplicadas as esmolas da paróquia.
A alma de Lewis, de tão fraca que estava, não conseguiu ascender aos pisos celestiais. Pairou para sempre nos céus da grande cidade . Os olhos inquietos foram condenados eternamente a perscrutar os céus. Os medos dos homens diziam-lhe para estar atento. Não fossem os aviões voltar, sedentos de outras torres.

Lewis

O resultado de ter mesclado o especial do Starbucks com um ácido foi desastroso para o dia de Lewis. O mercado adquiriu tons rosa no monitor do seu computador e os dedos clicaram ,violenta e aleatoriamente, nas zonas que apresentavam tons mais psicadélicos. Essa acção perfeitamente sem nexo conduziu a transacções nos mercados. Os futuros dispararam como loucos e nas salas de mercados ninguém percebeu muito bem o que aconteceu quando a voz monótona do broker principal e a azáfama dos celulares foram substituídas por uma batida marada que fez com que os bonds de transacções que se amontoavam no chão se transfigurassem em selos impregnados de alucinação.
Sentado á sua secretária Lewis havia colocado os óculos escuros e arriscava sete processos por assédio sexual pelos piropos infames proferidos às maiores belezas da empresa. Uma delas , uma cinquentona  secretária de administração , apercebeu-se   que era o primeiro elogio que o seu peito  recebia em dez anos e trocou a indignação da queixa formal pela desenfreada masturbação no cúbico destinado a outras intimidades. Na carteira o telemóvel vibrava insistentemente a irritação do seu chefe. A secretária deu outro uso à inquietação do aparelho.
Lewis teve sede . Deglutiu com evidente prazer três enormes golos da garrafa de água que se encontrava junto ao monitor onde, agora , os caleidoscópios da loucura globalizada haviam dado lugar ao imenso vazio do negro ;um negro onde persistiam os indicadores dos índices principais .  Dow Jones jurava, amargurado, no ombro do Footsie que sempre quisera ser , na verdade , algo mais pequeno. Como uma viagem negativa ao saciar da sede de Lewis os homens e as mulheres na sala de mercados sentiram toda a secura que existia no seu âmago. Fieis seguidores do insaciável ultraliberalismo choraram sem controlo a sua imensa perdição ; choraram como se as lágrimas durassem para sempre . A sua luxúria nas coisas tristes da vida fez com um mar de fel alastrasse pela vida dos homens que estão para lá da sala de mercado. Nos monitores apenas piscavam os índices principais.
Lewis teve então uma intensa vontade de morrer. E caminhou para a janela. Na sua cabeça escutava, como uma última maldição ,os sussurrares de todos os dias em que adormecera exausto numa cama fria . Todas as vezes que escutara “Adeus” daquelas podiam ter sido a tal cravavam-se nos seus últimos instantes como chagas de uma vida passada a transaccionar o que agora parecia não existir. Os saldos abastados, as manigâncias em off-shore, os tempos do tubarão transformaram-se em fumo. Lewis quis saltar.
Mas não quis ir só.
E tal foi essa vontade que se imolou em chamas que consumiram tudo à sua passagem. Vibrantes e letais brilharam, com cheiro a querosene e desvario, nos pisos inferiores às salas de mercado. Os marionetistas dos fios trocados deste mundo ponderaram que talvez fosse melhor saltar . Fizeram análises, previsões , projecções orçamentais da dor da morte e concluíram que era preferível o vazio. Deram as mãos e ,ao som da buzina do fecho de sessão, pularam em direcção ao pavimento.

Alta Finança para Dummies – High Flyer 2/2

Entretanto, no décimo nono piso do Hyatt de Atlanta, John Goodwill tenta repousar depois dos oito workshops nos quais mentiu sobre o portal que ainda não existe e papagueou figuras e tabelas redigidas pelo seu anjo empresarial. Ao canto da sala, ausente da luz do púlpito e da radiação do vídeowall, Evermore toma notas. Goodwill é hesitante no discurso. No vidro tátil “ Mais agressividade comercial. Contratar VP de Marketing”.
John sua, o nó da gravata foi rudemente alargado como se de aguilhão incandescente se tratasse. A garrafa de vinho é consumida com a voragem de alguém que sabe que tem muito que fazer, a infernal tournée de angariação de investimento está a sugar-lhe o tempo para o seu projeto. A aflição é imensa; envia uma mensagem privada a Evermore. “Precisamos de começar a desenvolver. Preciso de voltar “
Minutos depois, Evermore em pessoa, partilha o conteúdo de uma caixa de prata com Goodwill. Ainda atordoado pela pureza da matéria recebe a visita de Conchita . Evermore retira-se, ao fechar a porta adverte :
-Foda mas não se atrase para o jantar com o congressista.
Durante os meses seguintes John Goodwill fodeu as Conchitas de vinte e nove estados, comprou um Porsche e passou a ter a sua própria caixa de prata que fazia par com um elegante aspirador em platina. No espelho que cobria o interior via frequentemente os seus lábios ganharem a rigidez de uma linha. Desenfreado pela proximidade da IPO e pela acumulação de capital mudou-se para um elegante loft em Manhattan e tornou-se popular nos clubes mais sofisticados. No quadro de empregados da Goodwill apenas vigora o seu nome e as empregadas de limpeza que removem o pó das secretárias e das estações de trabalho abandonadas à inexistência da corporação.
Então, exatamente quinze dias antes do lançamento em bolsa, John Goodwill foi chamado com urgência ao escritório do seu tutor. Pareceu-lhe que a mesa que o separava de Evermore era maior de que outrora, o nó de gravata do investidor estava mais apertado que o costume, as mãos abriram-se, um tom de condescendência misturou-se com o olhar de lobo faminto:
– John. Tens duas semanas para nos mostrar qualquer coisa da tua plataforma. Está na altura de começares a escrever código
Num primeiro ímpeto encorajado pela cocaína, John aceitou o feito referindo a necessidade de uma equipa de desenvolvimento de quarenta elementos que trabalhasse num regime de vinte e quatro horas. Uma pequena risada antecedeu o primeiro corte orçamento da Goodwill Inc:
– Sabes quanto isso custa? Tens nove programadores, dezoito horas por dia. Mostra-me algo bom John – A mão acenou o final da reunião – Os olhos cravados nas costas de Goodwill reiteraram o aviso:
-Quinze dias para fazer algo de jeito que justifique o interesse dos investidores.
Durante as duas semanas seguintes várias coisas aconteceram.
Um enlouquecido e paranoico John Goodwill berrava ordens contraditórias de depuração de um código que parecia uma babel saída dos dedos inábeis de programadores de baixo custo. A pressão que sentia na nuca era uma dor que aliviava com frequência nos lavabos. Em seguida percorria o espaço aberto em passo acelerado, olhar demente sobre os ecrãs onde um desastre iminente tinha apenas página de entrada e um script de subscrição.
Todos os dias, exatamente dez minutos após o fim do horário contratado com os programadores, Evermore visitava as instalações. Aprazia-se pelas secretárias estarem vazias e, portanto, os custos controlados. A presença de John à secretária era eternizada pelo café em formato extra gigante e a sanduíche embrulhada em papel pardo. A pergunta de como estavam a correr as coisas era meramente retórica. Evermore reconhecia nas múltiplas gotas de suor que cobriam a testa de John Goodwill os sinais do vício e do fracasso.
No dia seguinte Evermore teve uma longa chamada em conferência. Para um tipo branco, republicano e com um PAR invejável o seu mandarim era surpreendente.
Cego às dificuldades de Goodwill o mercado atacou o título como um bando de piranhas em jejum forçado quando o mesmo surgiu nos monitores de transações. No Iowa, num confortável sofá, mãos enrugadas esfregavam-se de contentamento e a quilha de um veleiro começava a sair das brumas do sonho.
Ao nono dia de mercado a valorização bolsista superava os oitocentos pontos percentuais, os corretores berravam incansavelmente “compro, compro” ao papel da Goodwill. Na Internet o portal colapsava após o primeiro milhão de acessos.
No último piso de uma torre de escritórios com vista para o buraco imenso do chão zero, o sobrolho de Evermore encurvou-se e percecionou que era hora de agir. Consultou rapidamente os relógios presos na parede e confirmou que iria acordar alguém em Pequim. Marcou o número e desta vez o seu mandarim confundiu-se com o esperanto da linguagem de negócios e a palavra patente foi assegurada várias vezes.
Após a linha intercontinental se ter cerrado a mão de Evermore dirigiu-se ao teclado e libertou para o mercado uma enxurrada de ações da Goodwill a quarenta por cento do valor atualmente cotado. Neste gesto efetuou uma mais-valia de noventa e oito milhões de dólares e lançou a bomba fatal à Goodwill Inc. O mercado entrou em pânico, na sala de servidores da companhia um tresloucado John arrancava os cabelos e pontapeava um armazenamento de rede profícuo em luzes vermelhas de erro.
Na manhã seguinte a Goodwill entrou no mercado como um cão espancado quase até à morte. Transacionava na casa dos cêntimos. No Iowa as mãos enrugadas agarraram a cabeça em desespero e os pés saíram dos quentes chinelos e conheceram o frio do soalho, como se soubessem que o resto do Inverno iria ficar.
Uma semana depois dois advogados de uma das obscuras empresas de Evermore voaram em primeira classe para a China. Ao mesmo tempo John Goodwill foi notificado da sua destituição e informado que a patente industrial do portal que havia cedido nos termos do acordo com Evermore havia sido transacionada por valores confidenciais. Os termos e condições do seu contrato auferiram-lhe quatrocentos mil dólares de compensação, um seguro de saúde por mais dois anos e um selar de lábios eterno. John Goodwill assinou, uma das suas gotas de suor tingiu uma cláusula. Robert Evermore aconselhou:
-É melhor ires à casa de banho. Sujas-me o contrato.
Em seguida partiu para sempre da vida de John Goodwill.
Em Pequim, trinta minutos após a assinatura do contrato para o desenvolvimento do portal, noventa e dois programadores atiraram-se ao código com a fúria dos tigres. Cinco dias depois estavam online.
Cinco dias depois, pela noite nova-iorquina, John Goodwill sentado perante a janela panorâmica do seu apartamento parecia não sentir a labuta de uma Conchita de Queen’s.
Insatisfeito, incapaz, dispensou os serviços da prostituta e esperou que os saltos deixassem de martelar o mármore frio por onde se entrava em sua casa.
Abriu o jornal e encontrou a cotação da sua empresa, o ticker GWL, nas ruas da amargura empresarial. Um artigo de opinião acusava-o publicamente de uma incompetência atroz que manchava a perceção e confiança globais no empreendedor americano. Na página catorze passou desapercebido a John uma pequena notícia que dava conta do grande sucesso de um portal de empreendedorismo desenvolvido na China com financiamento de capitais de risco das sociedades Evermore.
Na página das cotações a Goodwill valia quatro cêntimos. Numa casa no Iowa uma voz de mulher envelhecida e plena de raiva acusava o seu esposo de como pudera atirar ao lixo todas as poupanças de uma vida, mãos trémulas pediam clemência.
O vidro quebrou-se e John Goodwill foi, tal como alguns dias atrás a sua empresa o tinha sido, um “high flyer”. A sua queda de anjo durou a brevidade do seu sucesso e terminou com aquela ideia que tinha tido em Des Moines mesclada e esquecida na massa encefálica que cobria o asfalto. Legalmente aquela ideia já não devia ali estar. Era patente de uma sociedade sino-americana com sede nas Bermudas.
No Iowa, mãos teceram o nó. Na manhã seguinte um corpo abanava na árvore em frente à casa. Os ventos do mercado embalavam o cadáver.
[sub][i]*Alta Finança p Dummies – Acrónimo usado para otimizar o tempo de leitura.
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Entretanto, no décimo nono piso do Hyatt de Atlanta, John Goodwill tenta repousar depois dos oito workshops nos quais mentiu sobre o portal que ainda não existe e papagueou figuras e tabelas redigidas pelo seu anjo empresarial. Ao canto da sala, ausente da luz do púlpito e da radiação do vídeowall, Evermore toma notas. Goodwill é hesitante no discurso. No vidro tátil “ Mais agressividade comercial. Contratar VP de Marketing”.John sua, o nó da gravata foi rudemente alargado como se de aguilhão incandescente se tratasse. A garrafa de vinho é consumida com a voragem de alguém que sabe que tem muito que fazer, a infernal tournée de angariação de investimento está a sugar-lhe o tempo para o seu projeto. A aflição é imensa; envia uma mensagem privada a Evermore. “Precisamos de começar a desenvolver. Preciso de voltar “Minutos depois, Evermore em pessoa, partilha o conteúdo de uma caixa de prata com Goodwill. Ainda atordoado pela pureza da matéria recebe a visita de Conchita . Evermore retira-se, ao fechar a porta adverte :

-Foda mas não se atrase para o jantar com o congressista.Durante os meses seguintes John Goodwill fodeu as Conchitas de vinte e nove estados, comprou um Porsche e passou a ter a sua própria caixa de prata que fazia par com um elegante aspirador em platina. No espelho que cobria o interior via frequentemente os seus lábios ganharem a rigidez de uma linha. Desenfreado pela proximidade da IPO e pela acumulação de capital mudou-se para um elegante loft em Manhattan e tornou-se popular nos clubes mais sofisticados. No quadro de empregados da Goodwill apenas vigora o seu nome e as empregadas de limpeza que removem o pó das secretárias e das estações de trabalho abandonadas à inexistência da corporação.Então, exatamente quinze dias antes do lançamento em bolsa, John Goodwill foi chamado com urgência ao escritório do seu tutor. Pareceu-lhe que a mesa que o separava de Evermore era maior de que outrora, o nó de gravata do investidor estava mais apertado que o costume, as mãos abriram-se, um tom de condescendência misturou-se com o olhar de lobo faminto:
– John. Tens duas semanas para nos mostrar qualquer coisa da tua plataforma. Está na altura de começares a escrever código
Num primeiro ímpeto encorajado pela cocaína, John aceitou o feito referindo a necessidade de uma equipa de desenvolvimento de quarenta elementos que trabalhasse num regime de vinte e quatro horas. Uma pequena risada antecedeu o primeiro corte orçamento da Goodwill Inc:
– Sabes quanto isso custa? Tens nove programadores, dezoito horas por dia. Mostra-me algo bom John – A mão acenou o final da reunião – Os olhos cravados nas costas de Goodwill reiteraram o aviso:-Quinze dias para fazer algo de jeito que justifique o interesse dos investidores.
Durante as duas semanas seguintes várias coisas aconteceram.Um enlouquecido e paranoico John Goodwill berrava ordens contraditórias de depuração de um código que parecia uma babel saída dos dedos inábeis de programadores de baixo custo. A pressão que sentia na nuca era uma dor que aliviava com frequência nos lavabos. Em seguida percorria o espaço aberto em passo acelerado, olhar demente sobre os ecrãs onde um desastre iminente tinha apenas página de entrada e um script de subscrição.Todos os dias, exatamente dez minutos após o fim do horário contratado com os programadores, Evermore visitava as instalações. Aprazia-se pelas secretárias estarem vazias e, portanto, os custos controlados. A presença de John à secretária era eternizada pelo café em formato extra gigante e a sanduíche embrulhada em papel pardo. A pergunta de como estavam a correr as coisas era meramente retórica. Evermore reconhecia nas múltiplas gotas de suor que cobriam a testa de John Goodwill os sinais do vício e do fracasso.
No dia seguinte Evermore teve uma longa chamada em conferência. Para um tipo branco, republicano e com um PAR invejável o seu mandarim era surpreendente.Cego às dificuldades de Goodwill o mercado atacou o título como um bando de piranhas em jejum forçado quando o mesmo surgiu nos monitores de transações. No Iowa, num confortável sofá, mãos enrugadas esfregavam-se de contentamento e a quilha de um veleiro começava a sair das brumas do sonho. Ao nono dia de mercado a valorização bolsista superava os oitocentos pontos percentuais, os corretores berravam incansavelmente “compro, compro” ao papel da Goodwill. Na Internet o portal colapsava após o primeiro milhão de acessos.No último piso de uma torre de escritórios com vista para o buraco imenso do chão zero, o sobrolho de Evermore encurvou-se e percecionou que era hora de agir. Consultou rapidamente os relógios presos na parede e confirmou que iria acordar alguém em Pequim. Marcou o número e desta vez o seu mandarim confundiu-se com o esperanto da linguagem de negócios e a palavra patente foi assegurada várias vezes. Após a linha intercontinental se ter cerrado a mão de Evermore dirigiu-se ao teclado e libertou para o mercado uma enxurrada de ações da Goodwill a quarenta por cento do valor atualmente cotado. Neste gesto efetuou uma mais-valia de noventa e oito milhões de dólares e lançou a bomba fatal à Goodwill Inc. O mercado entrou em pânico, na sala de servidores da companhia um tresloucado John arrancava os cabelos e pontapeava um armazenamento de rede profícuo em luzes vermelhas de erro.
Na manhã seguinte a Goodwill entrou no mercado como um cão espancado quase até à morte. Transacionava na casa dos cêntimos. No Iowa as mãos enrugadas agarraram a cabeça em desespero e os pés saíram dos quentes chinelos e conheceram o frio do soalho, como se soubessem que o resto do Inverno iria ficar.
Uma semana depois dois advogados de uma das obscuras empresas de Evermore voaram em primeira classe para a China. Ao mesmo tempo John Goodwill foi notificado da sua destituição e informado que a patente industrial do portal que havia cedido nos termos do acordo com Evermore havia sido transacionada por valores confidenciais. Os termos e condições do seu contrato auferiram-lhe quatrocentos mil dólares de compensação, um seguro de saúde por mais dois anos e um selar de lábios eterno. John Goodwill assinou, uma das suas gotas de suor tingiu uma cláusula. Robert Evermore aconselhou:
-É melhor ires à casa de banho. Sujas-me o contrato.
Em seguida partiu para sempre da vida de John Goodwill. Em Pequim, trinta minutos após a assinatura do contrato para o desenvolvimento do portal, noventa e dois programadores atiraram-se ao código com a fúria dos tigres. Cinco dias depois estavam online.Cinco dias depois, pela noite nova-iorquina, John Goodwill sentado perante a janela panorâmica do seu apartamento parecia não sentir a labuta de uma Conchita de Queen’s.Insatisfeito, incapaz, dispensou os serviços da prostituta e esperou que os saltos deixassem de martelar o mármore frio por onde se entrava em sua casa. Abriu o jornal e encontrou a cotação da sua empresa, o ticker GWL, nas ruas da amargura empresarial. Um artigo de opinião acusava-o publicamente de uma incompetência atroz que manchava a perceção e confiança globais no empreendedor americano. Na página catorze passou desapercebido a John uma pequena notícia que dava conta do grande sucesso de um portal de empreendedorismo desenvolvido na China com financiamento de capitais de risco das sociedades Evermore.Na página das cotações a Goodwill valia quatro cêntimos. Numa casa no Iowa uma voz de mulher envelhecida e plena de raiva acusava o seu esposo de como pudera atirar ao lixo todas as poupanças de uma vida, mãos trémulas pediam clemência.
O vidro quebrou-se e John Goodwill foi, tal como alguns dias atrás a sua empresa o tinha sido, um “high flyer”. A sua queda de anjo durou a brevidade do seu sucesso e terminou com aquela ideia que tinha tido em Des Moines mesclada e esquecida na massa encefálica que cobria o asfalto. Legalmente aquela ideia já não devia ali estar. Era patente de uma sociedade sino-americana com sede nas Bermudas. No Iowa, mãos teceram o nó. Na manhã seguinte um corpo abanava na árvore em frente à casa. Os ventos do mercado embalavam o cadáver.

[sub][i]*Alta Finança p Dummies – Acrónimo usado para otimizar o tempo de leitura.[/i][/sub]

Alta Finança para Dummies – High Flyer 1/2

High Flyer

Termo que define uma ação excessivamente valorizada num curto espaço de tempo e cuja cotação é altamente especulativa perante o plano de negócios que, na verdade, é baseado em pressupostos não verificados ou sequer efetivados.

Este tipo de “stock” (é uma forma mais elegante de dizer ação e poderá eventualmente impressionar um não-leitor de “Alta Finança para Dummies”) foi altamente popular durante a denominada era das “dot.com” (pronunciar dotecome) e, na fase atual do mercado, tem alguma dificuldade em singrar dentro do espaço comunitário devido à fraca fluidez dos mercados e as restrições de tesouraria de potenciais investidores. Todavia são fenómeno ainda notório no seio das empresas tecnológicas cotadas no Nasdaq (não confundir com Nascar que são aqueles bólides americanos que circulam em pistas ovais) e nas praças financeiras dos mercados emergentes BRIC…

Brasil, Rússia, Índia, China.

Algo confuso , caro leitor ?

Se sim a metodologia adaptada pela “AFD”* é da dar corpo aos complexos termos financeiros usando a simbologia das parábolas, das histórias dos empreendedores, especuladores, operadores de mercado e toda a restante trupe de fazenda cinzenta que constituem a galáxia dos negócios. De forma a não o aborrecer recorremos frequentemente a pequenos episódios muito semelhantes às novelas às quais o seu limitado cérebro está tão acostumado. De forma a garantir o seu entretenimento garantimos que nestas páginas poderá encontrar emoção, amor, sexo, muita devoção e luxos obscenos. Todos estes estados de espírito orientados, única e exclusivamente, para a maximização do lucro.

Contemos então como se cria um “high flyer”, uma ação baseada na ideia que John Goodwill teve no último ano na Universidade de Des Moines (Cabe informar que usamos os nomes originais das personagens pois localizar o elenco e a narrativa ao território nacional é assaz difícil Simplesmente não existe o capital e jamais alguém financiaria um tipo chamado João Boa Vontade)

Regressando a Des Moines. No dormitório onde uma festa de finalistas do curso de engenharia informática era pródiga nas drogas, sexo desprotegido, bebedeiras colossais e todos os estereotipados quadros que compõem a mitologia destas instituições de ensino onde se moldam os futuros senhores do mundo, podemos encontrar John a visualizar um portal de internet que procura investidores às ideias que os seus membros lhe submetem usando um modelo de proteção de patentes e um inovador método de financiamento baseado em contribuição viral. Visiona-se como um evangelista dos grandes inventores, o homem que faz as coisas acontecer. O pensamento é interrompido pelo borbotar conseguido por Samantha Lee, aluna de primeiro ano há quase uma década, cuja reputação labial sobre as glandes finalistas era já uma lenda do “campus”. Depois dos “Kleenex “ o projeto empresarial volta a ocupar a mente de John Goodwill. Uma aura de entusiasmo febril invade-o, tal é o seu empenho, que o retorno de Samantha Lee ao leito trazendo pela mão outra conviva é ignorado. Fixos estão os olhos de John no ecrã do computador portátil onde, sobre as células de uma folha de cálculo, o seu sonho começa a ganhar vida.

Passados cinco meses um John Goodwill envergando um fato de três peças embala-se em casos de negócio, slides com projeções, estudos, a gravata tem um nó que revela não ser ainda um hábito diário. Do outro lado da mesa, cabelo grisalho, um nó imaculado que revela anos ao mogno da mesa de reuniões, mãos perfeitamente arranjadas. Um grosso anel de puro ouro revela a solidez familiar, acompanha-o a marca de prata de duas décadas e meia de seu puritanismo branco, protestante, anglo-saxónico No bolso interior do casaco da mais cara fazenda um PDA contêm os endereços de vinte e sete prostitutas, quatro senadores, um médico que receita tudo e presidentes de vários bancos.

O “business angel” dá pelo nome de Robert Evermore. Detentor maioritário de vários fundos de risco tem uma reputação de membro superior da cadeia alimentar, mexe milhões com a cadência de um malabarista mais entusiasta, do mendigo mais necessitado de uma dose. Frenéticos, quatro monitores indicam os comportamentos das praças, o seu olhar divide-se entre a apresentação de John e os “tickers”. O seu método consiste em financiar empresas de uma forma a garantir uma renda generosa altamente compensadora do risco. Se o sucesso existir Evermore lucrará largas somas pelo simples facto de ter clicado a ordem inicial que permitiu a nascença da sociedade que envergará o nome de Goodwill como CEO. A estrutura de voto da assembleia geral está sobre total controlo de Evermore. Ele decidirá quando é que se abrirão ou cerrarão as comportas do crédito e quem se sentará nos cadeirões negros do conselho de administração.

Mãos apertam-se, a palma de Evermore é maior que a de Goodwill, envolve o jovem empreendedor como um afago sem retorno. Goodwill engole em seco quando encontra os olhos que cerram o acordo.

O patrono do jovem empresário estende a sua rede de influências, o PDA é agora frequentemente requisitado. Passadas poucas semanas, encontramos John Goodwill num campus de empresas do conhecimento envergando um polo com as cores e o motto da companhia. Os restantes lugares do espaço pensado para trinta almas estão vazios, o saldo capitalizado da Goodwill Computer, Inc, é superior a cinquenta milhões de dólares. Até agora nada foi criado, existem apenas os planos de negócios iniciais e uma agressiva campanha de marketing arquitetada por Evermore que lança o sistema financeiro na voragem de uma IPO que promete retornos explosivos. Tocam telefones, furiosas mensagens de correio eletrónico dão ordens de compra, mensagem instantânea incentivado a subscrição de preferências de compra. Só se fala na “Initial Public Offer”.

Para si, estimado leitor, IPO significa Ilusão para otários. Pequenos investidores usados por fundos de risco que brincam com o capital alheio como bobos loucos de uma corte onde todos querem transcender o lucro do trimestre passado. Os telefones tocam, queixos algo inseguros que veem pouco rendimento do seu fundo de pensões aceitam o abandono do porto seguro da poupança para poder aceder ao título da Goodwill. Do outro lado da linha a voz avisa que a taxa de rateio é pesada pois pelo mundo inteiro há inteligentes pessoas, iluminados seres que procuram um perfil menos conservador de investimento. Esses seres maravilhosos que desfrutam um futuro risonho, cruzeiros na Florida, morte assistida em inexistente dor, alguns amores, as viagens há tanto sonhados. Esse pequeno investidor que perante a promessa do retorno de mais de quatrocentos pontos percentuais condescende em contrariar uma dívida a uma taxa de juro promocional para a IPO da Goodwill. Do lado de lá da linha a voz do operador diz vinte e oito, no sofá confortável de uma casa do Iowa uma mão treme, um segundo hesitante. Depois o aceitar das condições. Quando a chamada termina uma pequena oração ecoa no salão.

Alta finança para Dummies – Intro

Caro leitor,

Se múltiplas vez se questionou sobre os mecanismos internos dos mercados globais, as suaves subtilizas que fazem os índices deslizar como répteis que injetam um veneno tóxico nas suas poupanças está no local aconselhado para desfazer tais angústias que consomem a sua digestão num ardor imenso. Anime-se, está a um passo de ser um pobre mais bem informado.

Se amiúde se inquietou   (de facto sentiu-se  algo ignorante) perante as páginas plenas de pequenos dígitos onde a cotação do titulo mais badalado se entrecruza com um “junk Bond” e, de forma alguma, consegue entender a razão de um milhão de  títulos de dívida nacional de estados soberanos ser achincalhado por uma suposta entidade classificadora está perante uma ferramenta preciosa na compreensão dos motivos que o votam, inevitavelmente, à categoria dos que nunca se safarão.

Em suma, será repetida e insistentemente explorado por governos de diferentes partidos, democracias de cifrão, mercados globais onde o seu salário é , terá que ser , esfomeadamente menor ,de forma a não comprometer níveis de rentabilidade e , portanto , manter os acionistas satisfeitos.

Em mais suma ainda, fodido. É o que você está

Se o seu quotidiano monótono , feito de lides esmorecidas  e uma carteira lacónica, é atormentado pelos efeitos nefastos da crise do crédito global encontrou o local onde poderá encontrar uma explicação em linguagem apropriada ao seu nível educacional e ao seu estrato social , a sua extirpe que certamente engloba a palavra baixa . A extensão do texto é pensada nos cidadãos de vidas ocupadas em apertos constantes e que não querem perder pitada do campeonato de futebol ou confundir as suas mentes limitadas em textos demasiado elaborados.

Sejam então bem-vindos à Alta Finança para “dummies”, Totós, Otários, gente sem importância, ínfimo investidor, cidadão contribuinte; utilizador sempre pagador, credor do FMI, peça espremida na imensa maquinaria dos mercados oscilantes de todos os receios.

Em pequenas definições acompanhadas de exemplos claros como o balanço de uma empresa de capitais de risco será o leitor confundido neste universo tão dinâmico, tão vibrante mas onde, infelizmente, apenas alguns prosperam. Tranquilize-se, esse não será o seu caso.

Leonardo

Leonardo está apavorado. Sabe.

Eles , os colegas , também parecem pressentir a vergonha que se anuncia. Seus olhares dedicam meio ciclo do processador de índices de mercado à busca de sinais de enfraquecimento do homem cujo o tremor sobre o teclado é , facto raro , de origem não opiácea .Convulsões que deitam pelo ar gelado da sala de transações uma eletricidade que parece querer sempre mais do amontoado de homens que não conhecem outra forma de vida que a inquieta existência do deve e do haver .

Leonardo sabe e um medo profundo invade-lhe as entranhas.

Um ansiolítico para parecer mais sereno ou uma linha para denunciar mais proatividade carnívora sobre os portfolios?

Leonardo duvida de si mesmo. Os seus números são péssimos. Se esta sessão não for a criadora de um milagre espera por ele o calvário da demissão.
Os colegas sentem a presença moribunda do homem que é o primeiro a tirar o casaco. Doze minutos após a abertura do mercado . O primeiro a verter uma gota de suor. Um “hedge fund” promete um retorno brutal . O risco é imenso.

Hesita. Tem medo

Nervosos os outros corretores gritam as ordens ao telefone e esmagam com vigor os teclados. Para eles o momento de incerteza é inexistente. São melhores, vão ficar.

O dedo de Leonardo não dá a ordem.

É o primeiro da sala a dirigir-se, apressado, aos lavabos. Demora mais tempo do que o costume a regressar. Os olhos dos outros especuladores entrecruzam-se. Sabem que houve algo para lá do espelho

De facto Leonardo, seguidamente à soltura do pânico , chorou sobre a linha .Achou o facto inaceitável . Reforçou a carga. Durante a lavagem dos olhos congestionados e do rosto ,onde a dormência reforçara a impavidez requerida às transações de risco, lembrou-se de rezar. Ao princípio a ideia incomodou-o de tal forma que procurou o frasco da solução alcoólica que imuniza dos vírus e dos medos. Lembrou-se de Fátima mas não sabia nenhuma reza. Santo António e São João eram também ausências no seu oratório. Então Leonardo compôs a gravata e voltou à secretária entoando entre dentes o único credo que dizia seu. Entre os lábios anestesiados a ladainha:

– Faz-me rico , Faz-me rico, Faz-me Rico. Santa Maria , Mãe de Deus , enche-me de dinheiro.

Como se fosse um ato divino recompensador da sua devoção o seu olhar , agora esbugalhado entre as batidas de coração de alazão, tombou sobre uma aplicação quase sem atividade. Uma procura desesperada de financiamento por parte da Fundação das Aparições Marianas. Um lixo de terceira categoria financeira que permanecia imóvel e sem qualquer brilho que o levasse a figurar em qualquer rodapé noticioso. Um papel de cêntimos com uma imensidão bíblica de títulos disponíveis .
Perante o espanto do mercado Leonardo lançou uma oferta de aquisição a uma larga parcela do capital social. Outros investidores captaram o seu movimento e, por cautela, lançaram aquisições zelosas de garantir o rápido retorno no caso de Leonardo ter recebido alguma dica de um analista confidente.

E foi então, perante o espanto das praças financeiras, rodopiando vertiginosamente nos cabeçalhos e abrindo noticiários por todo o globo que , em pleno centro do quadrado dourado da City , não sobre uma azinheira mas no topo de um outdoor de última geração de uma conhecida marca de refrigerantes ; não perante o olhar ranhoso de três pastores analfabetos mas perante os olhares esbugalhados dos corretores que surgiu , brilhando como outrora , a figura de Nossa Senhora de Fátima.

E no trade disse-se Hossana , magos da finança em fatos de fazenda de três peças caíram sobre os joelhos e , na ausência de um rosário no seu espólio , empunharam carteiras da mais pura pele onde a opulência das notas de muitos cifrões debatia-se por uma melhor visão da aparição com os cantos carcomidos pela cocaína de cartões American Express de face platinada.

Leonardo soube então que estava rico .

O suor foi engolido perante o grito de vitória que acompanhava o disparo da valorização da Fundação das Aparições Marianas. Um casino insano , um jackpot maná dos céus . Tal era o rodopio dos dígitos no seu ecrã que Leonardo se urinou de emoção. Sobre as suas espáduas tombavam as palmadas daqueles que até há pouco o excomungavam da tribo dos eleitos . Ao canto da sala a rolha de uma garrafa de champanhe lançou o seu estalido seco, alguém disse Aleluia. Do claustro de mármore e cabedal do conselho de administração o patriarca desceu e encafuou nos lábios ainda dormentes de Leonardo um volumoso cubano.

Lá fora , perante milhares de câmaras e transmissões ao vivo para toda a rede ,a impávida senhora flutuava com o seu santo semblante esboçando um ligeiro sorriso. A mão que afagou o messias no seu ventre sagrado revelou-se ,mas , contrariamente à expectativa de uma bênção ao sagrado mundo da finança , empunhou serenamente a santíssima figura do seu dedo médio e desvaneceu-se em fumo.

O silêncio durou alguns segundos. Um pasmo global que calou um planeta onde há tanto tempo não aconteciam milagres.
Leonardo estremeceu , antevendo algo de horrendo.

As más novas vieram em tempo real do outro lado do Atlântico , pelas oito horas e trinta da costa leste um mártir chamado Amir correu envolto em C4 pelos corredores de Wall Street , infrutíferos os disparos da segurança .No centro da sala de operações ,Amir disse algo ao seu deus e detonou.
Leonardo tombou no chão , espezinhado pela azáfama, babel de transações ,o delírio fanático dos gritos de “Vende , Vende, Vende “ .
Ainda não tinha vertido a primeira lágrima quando uma mão rude lhe arrancou das beiças o Gran Corona que ardia como um círio de um milagre já esquecido.

Admirável Mundo de Merda

Ao entrar no elevador deparo-me com uma das empregadas da empresa de serviços ( leia-se trabalho precário ) que, diariamente, garantem a limpeza dos nossos escritórios. O meu «Bom dia» é devolvido com sotaque do Nordeste Brasileiro. Durante os breves segundos que dura a ascensão ao décimo segundo piso, o silêncio perdura. Ambos focamos o olhar em pontos vagos. Eu na placa que garante a segurança do equipamento e a sua carga máxima em tonelagem e pessoas; ela em algo no piso antiderrapante da cabine.

Ao chegarmos ao destino coloco a minha mão na célula de segurança, aquela que impede o fecho inadvertido das portas, e cedo passagem. A face de surpresa ao meu gesto é tal que também caio no pasmo. Então, três passos percorridos no átrio gelado e desumano de mármore, algo mais acontece. Do bolso da farda azul, onde um dorsal em tamanho XXL anuncia o nome do seu carcereiro laboral, um telemóvel cai. Por instinto dobro-me e apanho o aparelho devolvendo-o à sua dona. A face de surpresa que mencionei multiplica-se, transfigura-se em algo colonialista, sinto vergonha; sou o Coronel que dá de beber à escrava na roça, o misericordioso senhor.

Patético mundo este, onde um fato e uma gravata se tornaram sinónimos de arrogância e desdém pelo próximo; supostamente inferior na fauna de Alfas e Épsilones que Huxley tão bem descreveu. Apenas dois gestos de cortesia , apenas dois gestos de cortesia …

Admirável Mundo de Merda.