Desobediência civil

Não sentes as forças a fugirem ?O ânimo que faz o apertar do nó da gravata assemelhar-se  ao gesto do suicida antes de pontapear o banco , o pequeno salto para um vazio onde a agonia tenha um nome certo e não seja feita dos  dias da fome de pão e de fé ?

Que hercúlea força te faz levantar a cabeça e enfrentar o enfado de gazes poluentes e buzinas melancólicas pela vastidão milimétrica da segunda circular. Ao lado direito o templo dos deuses do futebol , se tivesses algo para chamar de vitória talvez erguesses os braços em sinal de triunfo. Todavia os membros tombam , mecânicos , complacentes na impaciência de quem nada espera. Ao teu lado a mulher que nunca foi bela agita o rímel numa oração que nunca viverá para lá do milagre do espelho retrovisor.

Atrás , perto , demasiado perto , iminência de choque em cadeia , acotovelam-se na cabine de uma carrinha de caixa aberta os corpos magros de estrangeiros que demandaram terras lusas em busca de uma vida melhor. O baixar do vidro , o escarro para o piso , merda de dentro cuspida para o piso onde os pneus cantam a serenata daqueles que não irão a lugar algum.

Na rádio, o ministro e o administrador , sonhos de poder , milhões num mês que nunca ganharás na porca da vida , pantomina nas tuas barbas , homens de fato cinzento que mentem em sorrisos de “prime time”. Tu, escutas , calas , engoles , insultas aquele que mudou de faixa sem sinalizar , encolhes os ombros e agitas o dedo na procura da estação de rádio que transmite música dos tempos onde ainda acreditavas que te safavas. O indicador alivia o nó da gravata , badalo de carneiro , ferro de escravo . O punho  cerra-se , pune o plástico do tablier , queres chorar por ti e já não consegues , queres chorar pelo teu país, olhas em redor e numa varanda longínqua agita-se o farrapo de uma bandeira esquecida , um despojo da última vez que te sentiste parte de um Portugal que tinha um nome, uma história , quimeras de impérios , algum orgulho na cara.

E se a  fúria do teu soco tocasse alto como um tambor chamando à guerra um povo tão amargurado que só lhe resta o fim entre sangue e barricadas por uma dignidade devorada por falcões patéticos de uma democracia que só acontece em discursos de desresponsabilização ?

E se perguntasses, alto , tão alto como uma Maria da Fonte , como uma voz esmagada entre as grades de uma Pide de gestos dissimulados em legitimidade constitucional  , se perguntasses bradando aos céus onde teus antepassados cobrem o rosto da vergonha , se o urro da fúria inquire-se ; que merda é esta ?

O que farias se um canto de ódio ecoasse , como um milagre de Fátima entre os despojos da dignidade e te chamasse a honrar a herança de Viriato perante o opressor, o tirano , o filho da puta que te leva tudo e ainda se ri na tua cara prometendo que se te sacrificares até as entranhas te doerem de jejum mais uma instituição financeira encontrará a viabilidade.

O que farias se entre os prédios cinzentos desta cidade repicassem  os sinos , chamando-te a ti , aos pretos da Buraca , aos esfomeados do vale do Ave, às mulheres malabaristas na conta do supermercado , aos taxistas de bancos traseiros vazios , aos olhos tristes que miram o vazio de uma montra onde se expõe o sonho de uma civilização de barriga vazia?

Caminharias na marcha do silêncio , lembrarias que um dia houve Abril e que Grândola fica mesmo ali , que os vampiros comem tudo e que um homem digno levanta os punhos e caminha , resolutamente ,   para São Bento ? Bandeiras negras, vermelhas , brancas de uma paz que já não pode ser perante o impudor destes bastardos que ousam afirmar que nos governam em nome de uma estabilidade que só acontece em livros de contabilidade e mesas vazias.

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