Céus de Londres

Estão extraordinariamente límpidos os céus de Londres.

Se fosse hoje quarenta veríamos a sua aproximação. Os bombardeiros.

O enxame do pássaro ariano a ensurdecer as ruas apinhadas da grande cidade .Seu zunido imenso , uma alcateia de lobos alados que das entranhas despejavam a demolição do mundo como o conhecíamos. Pepitas de fumo negro encheriam o espaço onde costumam estar as nuvens. Os rapazes da antiaérea por vezes estripavam uma asa ao Heinkel e um imenso “urrahh” ecoava entre os sacos de areia plantados sobre os telhados. As sirenes feriam os ouvidos. Ecoavam já as primeiras detonações e o Senhor Pickelberry caminharia no mesmo passo sereno em direcção ao abrigo. Gingando a bengala, a última edição do Times sobre o braço , o caminhar não acelerava um pouco perante a percepção das bombardas de quatrocentos quilos que já caiam no quarteirão.

Se hoje fosse quarenta as entranhas quentes dos subterrâneos chamariam à recolha. Em ordeira marcha, certos que um dia Monty desforraria a afronta ao grande império, os londrinos invadiriam as estações do metro. Lá em cima os homens da Luftwaffe deixavam todo o chumbo que traziam desde França descer em direcção ao solo. O guincho da queda dos projécteis invadiria ambas as margens do Tamisa. A grande catedral ergueria, no entanto , a sua cúpula imaculada. Nem o louco cabo austríaco ousara ordenar a destruição da casa de deus e portanto do rei.

Em Biggin Hill a sirene ecoaria, o grito aflito , “Scramble, Scramble”. Os homens exaustos , vigílias de farda posta, apressados , olhos raiados de sangue e preces para que os seus não estivessem a arder nas ruas de Londres. Ansiosos para ir cuspir o fogo estariam seus corcéis de metal. Em Biggin Hill a azáfama dos mecânicos em fazer rodopiar os rotores , os caças trémulos sobre o final da manhã prontos a ir largar a morte horrenda de um cilindro de aço em combustão interna entre as hostes de Goering.

Se fosse hoje…Se fosse hoje morreriam muitos entre a movimentação frenética de gentes apressadas que atolam os largos passeios de Oxford Circus e seus arredores. As lojas de alta costura iriam ser pulverizadas, rolariam para as sarjetas obscenas pulseiras de diamantes que na etiqueta do preço ostentam o alimento de muitos anos para alguns. Homens e Mulheres de todas as raças pereceriam. Parado em frente ao grande armazém miro o céu e penso que , independentemente da sua raça , nação ou credo, o agressor cometeria o acto contranatura de matar os seus tal é a babel de todas as cores do mundo que fervilha nestas ruas.

Seria inevitável.
A japonesa que fotografava cada fragmento de rua, como se tivesse que se esquecer rapidamente o porquê respirava por detrás da mascara cirúrgica, faria um belo e contrastante cadáver à figura negra, rei de uma savana que jamais conhecera , do rapper que diariamente se perdia nos loops marados que ecoam nos clubes do West End. Fecho os olhos e tento percepcionar os primeiros disparos das grandes armas antiaéreas. Apenas escuto o ronronar dos táxis negros e os passos ,ao fundo o zurrar de mil idiomas. Farejo os céus de Londres e não me vem às narinas qualquer odor das asas onde a suástica brilhava.
Todavia , ao colocar o pé no primeiro degrau que me leva às profundezas da linha do Jubileu sinto a ferroada amarga do meu inquietar . Os fumos , as bombas que explodiram lá em baixo. O aroma vitorioso dos bravos rapazes dos spitfires é rapidamente substituído pelo aroma suave que tinha Jane posto no pescoço e nos punhos quando , sem aviso , um homem de mochila gritou a despedida e a levou no sopro de uma guerra que não se abate dos céus mas que nasce sobre os nossos próprios pés.
Das entranhas do mundo vejo ascenderem ao solo os fantasmas dos que pereceram nos túneis naquela manhã de Julho. Vejo os seus gestos inúteis de pegar nos telefones e tentar dizer ao grande silêncio que se abatera sobre os céus de Londres que queriam ir para casa. E do lado de lá o nada. O moribundo sinal das redes móveis não disse sussurro algum aos que esperavam por palavra daqueles que arderam nas galerias e carruagens.

ZZ Top

Ausente de coerção , ausente de impedimento, não há horário de sítio algum, nem lugar onde o relógio ecoe o meu nome agora devotado ao esquecimento. Os minutos não são nada mais que a contagem do tempo das faixas que ecoam sem pausa no rádio do carro, o volume foi levado aos dígitos máximos da sua capacidade, o retrovisor vibra em sincronia com o som mais grave , dentro da minha cabeça o pensamento não consegue formular duas linhas que não sejam interrompidas pelo refrão da canção, pela frincha entreaberta da janela a estrada zumbe-me todos os marcos que me levam para mais longe de onde não quero voltar. Não tenho piedade pelo que deixei para trás, embrulhei o tempo de ser quem estava cansado de fingir e troquei-o pelo braseiro ardente do deserto, pela infinidade deste pais onde o meu nome não é nada mais que uma estatística nas entradas de estrangeiros e o meu paradeiro agora incerto visto há muitos dias ter abandonado a espelunca onde originalmente me registei.

A estrada chamou, não a velha sessenta e seis que agora só existe a espaços e que, como qualquer mito do mundo atual, está inundada de recantos de Merchandising e alcateias sedentas de memórias que se adquirem por razoáveis dólares. Vasculhei entre os quadrantes perdidos do mapa onde pequenas estradas aborrecem a condução , retas de asfalto carcomido pelo esquecimento e pelos rodados dos camiões que levam comida aos lugares mais esquecidos da América.

O próximo lugarejo fica a vinte milhas e dá-se pelo profético nome de cidade do dia novo. Deito um olhar ao manómetro do combustível e resolvo que é tempo de atestar a benzina e a cerveja. Pelo canto do olho os vestígios mortais do pacote de “Bud’s” dizem-me da sua míngua enquanto o metal aquece sobre o sol trespassante que atravessa o ar e encharca-me o rosto pouco higienizado onde a escanhoada é memória longínqua . Pingas gordurosas que rolam como cascavéis da minha desidratação. Os olhos ardem do estio por detrás do negro dos óculos de sol , o odor do meu corpo relembra aos ainda existentes restos de civilidade que estamos em terra de feios , porcos e maus e manda os fragmentos remanescentes do homem que fui encostar na berma para aliviar a bexiga e tatear no porta luvas mais um pedaço de erva e um analgésico para a dor de cabeça que suponho ser feita de todas as minhas antigas memórias a mesclarem-se com o solo do Texas . Como numa banda desenhada dos tempos de uma meninice há tanto ida a caveira de um animal que secou sobre o fogo da estrela solitária encara-me e diz que não posso ficar a mirar a imensidão que me cerca. No ar os abutres descrevem um círculo expectante ao meu eventual colapso.

New Day Town é o nome pomposo para um amontoado de barracas largadas a espaços nas bermas da antiga interestadual. A inevitável bomba da Texaco e a espelunca imunda de gordura onde os assentos de plástico disputam ,no seu vermelho comido pelo sol ,alguma companhia. Ao balcão há refeições pouco saudáveis e um jarro de café frio que ganha o encanto de uma bebida divina quando confrontado com a imensa fealdade da empregada obesa e carrancuda cuja placa de identificação ironiza com o nome de Joy. Os poucos ocupantes da cafetaria olham-me com o misto de desconfiança e curiosidade que os fragmentos do sonho americano deixaram na borda do prato mais sujo. Decerto na parte inferior do balcão existirá calibre quarenta e cinco para punir gestos bruscos e insolências de forasteiros.

Opto , incautamente , por tentar estabelecer algum diálogo com um fato macaco imundo onde o boné dos Dallas Cowboys já perdeu toda a cor , o nome é Joe. Talvez Doe , talvez não tenha apelido. Olha-me com um desprezo orgulhoso quando levo a conversa para o novo presidente e para o eventual renascer do orgulho ianque. A grossa escarrada que aterra na cuspideira de latão traz o tom da resposta:

– Ele diz que pode , ele diz que podemos . Nós , aqui neste buraco de merda não queremos saber . O Bush pelo menos cresceu no Texas – uma segunda cuspidela ,que falha o alvo e aterra em fragrâncias pouco suaves de verde no soalho , é acompanhada por um lampejo de ódio – e era branco!

Concordo com um sucinto “sim” pois temo que qualquer discordância possa terminar com a versão moderna do linchamento do “desperado” . Compro dois pacotes de cigarros e cerveja para as milhas que se avizinham, despeço-me tocando com os dedos a imaginária aba de um chapéu que não tenho.

Rodo a chave na ignição e afasto as imagens do meu corpo a espernear na ponta da corda deixando-me embalar no ronronar de dinossauro adormecido dos oito cilindros. Por muitos quilómetros remeto-me ao silêncio, o radio calado, apenas o tamborilar amarelado da nicotina sobre o volante. Entre dedos o cigarro que outros tempos diziam ser a escolha dos vaqueiros .Não posso deixar de sorrir ao recordar a imensidão de morais que se sucederam desde o mito inicial do homem do Marlboro, o seu olhar mulherengo que brilhava azul entre o fumo e as apaixonadas enrabadelas sobre as estrelas dos rapazes de Brokeback Mountain .

A noite começa a cair sobre a pradaria e oferece ao meu deslumbramento um monumental pôr-do-sol. Procuro na circunferência amarela a sombra do cavaleiro solitário que parte assobiando mas, em compensação ao desejo de postal ,a estrada oferece-me o estranho quadro de uma altíssima loura envergando uns minúsculos calções de ganga esfarelados . Ao peito uma placa diz. “Houston – Concerto”.

O polegar estendido é um apelo demasiado forte . Encosto á berma e ,abrindo a janela ,inquiro qual o concerto . A mulher , algures na fronteira entre a devassidão da juventude e a maturação da existência galdéria , deita-me um sorriso divertido e colmata a minha ignorância abrindo a camisa ,onde os colarinhos terminam em pontas metálicas , revelando na pele ainda lisa dos opulentos seios duas enormes tatuagens . Dois zês que lhe concedem o acesso ao banco do pendura , o rádio volta a ecoar alto , guitarras tocadas com uma moeda de dólar.

Agora não é apenas o espelho que vibra, palpita-me o peito quando a minha parceira recosta o banco e deixa-me vislumbrar , pilares magníficos saindo das farripas da ganga , toda a extensão das suas pernas. Agradeço a Deus pela caixa de velocidade automática e deslizo a mão direita em direção a ela.
Algures na jornada através da noite texana, talvez efeito da cevada e da erva , talvez combalido pela cabeça que se afadiga no meu colo , juro vislumbrar na berma a figura barbuda de três homens de óculos escuros. Acenam em concordância aos meus propósitos e os seus braços rodopiam, em perfeita sincronia, indicando a rota .
No rádio o uivo do coiote , o V8 cola a sua potência ao asfalto. No horizonte as luzes de Houston rasgam o breu.

LA

O dicionário diz decadente.

Aquele que enfraquece, abatido, corroído pelos dias feitos de ressaca , noites a brilhar como um cometa feito de opiáceos . O dicionário não tem palavra para os patéticos homens de pupilas feitas cabeça de agulha que se sentam nos seus cabelos longos e descuidados nas esplanadas do Sunset Boulevard. Braços cobertos de tatuagens berrantes de rosas , mulheres nuas e armas fumegantes. Camuflagem das ferradas da seringa, óculos espelhados protegem a congestionada retina, anéis de nobreza ausente, pulseiras de cabedal e ferro fora de moda.

Santos de pó emitem sorrisos embevecidos no bourbon à passagem da patinadora de seios grandes e biquíni curto. Um deles grita que ela é um relâmpago que o faria em cinzas no conchego do cetim . Quem fala é aquele que cheirou mais , aquele que ainda não conheceu o sono e para o qual a presença do sol é apenas um incómodo momento de luz que se atravessa na espera pelo néon que brilha, os carros potentes descerão a avenida com os woofers a rebentarem no bombo duplo a fúria de uma canção. A letra diz que é hora de ligar os reatores e deixar a vida implodir em laivos de nitroglicerina ; hora de esquecer o amor pois isso é coisa de crentes demasiado lentos.

E ela sorri para trás , olhos feitos da vontade de ser a babe suprema da sinfonia de insanidade ,fatos lustrosos de cabedal e lantejoulas. Uma multidão a gritar, as nádegas do guitarrista expostas pelo antiquado desenho das calças. A plateia cheia, mulheres encharcadas em shots e cheiros levantam as camisolas e mostram o peito. Há de tudo , grandes , pequenas, a cair de uso , a cair de esperar que alguém as aperte. Algumas tatuadas, algumas recauchutadas.

A viver o sonho de ser a estrela que jamais serão .

O sol de Los Angels a fazer brilhar as ancas perfeitas, os peitos musculados dos atletas , todos sorriem , todos são ausente de gordura. Queimam-na em ginásios, nos clubes limpam os últimos resíduos da obesidade nas danças e na faina dos narizes.
Sobre as luzes da ribalta os veteranos da incúria de si mesmo. As prisões , as fotos íntimas tornadas tráfego colossal de internet , as canções por vezes esquecidas , o piroso levado ao limite do rímel em olhos de homem ,vestes apertadas que revelam membros sempre eretos no deboche químico .

Os homens velhos , o esmorecer esclerosado na expressão do guitarrista que só à força de bombas de anfetaminas consegue dedilhar o solo daquele que foi , outrora , o êxito numero um das tabelas. A bateria a disfarçar no reverb as falhas de coordenação entre o pedal do bombo e o prato de choque, E todavia , quando os homens velhos sobem ao palco nas suas ridículas fatiotas , passos hesitantes de profunda comoção, quando a bota de tacão brilhante toca a madeira do palco, o tempo do rock é generoso com eles
O vocalista louro ecoa , camiseta de veterano do Vietname , tatuagens ainda com pinga de sangue ; o grito de guerra perante os cinquenta mil que enchem o estádio. As musas que vivem nos elementos ativos do bom ácido e da pouco cortada cocaína atiram-se à turba como um cardume de piranhas famintas do suor fresco daqueles que agora gritam , daqueles que erguem os punhos , o puto de cinquenta anos a tripar um grande solo entre os cabelos brancos e a gigantesca barriga . As mamas de Sally , mãe de três , cinco abortados , caídas ao solo à vista de todos , imenso esgar de vagabunda no canto do lábio.

A tatuagem diz “ Fode-me , sou fácil”.

O sistema de amplificação lança a canção doente do amor que se quer de só uma noite e de posições pouco ortodoxas, gritos de prazer fingidos que são o oculto e real segredo de mais uma noite com a realidade forasteira que se diluirá nos vapores do matinal esquecimento.
Vida que acaba entre noites de borga com o fígado corroído e as artérias revestidas por dentro de uma espessa camada de todos os vícios que se pode por no corpo. Sacrifício grupal, corpos em queda , em chamas , incinerados por esta cidade que tem demasiados clubes , demasiadas mulheres , homens de hábitos de Sodoma e Gomorra , demasiado crédito , demasiados traficantes e noites que exigem para pagamento da sua grandeza imensos pedaços de alma.

O baixo cheio de efeito a marcar o tempo a que os corpos se deixam ir uns para os outros, homens de suor no rosto acariciam-se mutuamente, duas esculturais groupies entrecruzam as línguas de cascavel no cio. No centro da arena já é numeroso o amontoado de criaturas que trocam carícias mais intimas. A canção diz que o devemos fazer durante toda a noite. Alguém toma mais um comprimido procurando alento. Outros correm para a casa de banho, as fitas que usam na testa fazem belos garrotes.

Circo do lixo branco em plena ebulição .Quem que é se preocupa com o que se passa nesta arena? Neste coliseu de imperadores do caos e gladiadores de todas as perversões que os homens conseguem fazer uns aos outros. Como um coração que bate depressa demais e sente a glória dos seus dias dourados a partir no fôlego que se perdeu nas entrelinhas da insanidade, o som da canção atravessa o ar e entra sobre as frinchas caladas de Sunset Boulevard. Pouco tempo depois ecoam os gemidos e ais daqueles que dormiam até que a lengalenga ,que fala de uma mulher de cócoras e um homem desejoso de a ter ,os desperta e reaviva os esquecidos libidos que a noite é feita para as coisas da carne e só quando o sol queimar os corpos de forma insuportável devem os convivas do hedonista festim recolher aos seus covis. Que quando caírem sobre os lençóis sujos da cama não devem ir sós, que Sally dirá que os amará até lhe doerem os ossos. Algumas horas depois, quando voltar à consciência, a devassa mulher perguntará a seus amantes quais seus nomes pois só os relembra pelo ímpeto e tamanho.

O sol a raiar de novo sobre a grande avenida.

Em passos arrastados regressam os jeans rasgados , rostos enrugados em noites brancas retornam às suas suites de motel e aos seus sonhos de uma mansão que as dívidas esfumaçaram. Junto a um bistro, que tem ótimas comentários nas revistas e serve doses minimalistas ,a outrora bomba sexual de busto gigantesco discute com um agente entediado se pode relançar a carreira fazendo porno .O homem cansado do pó sem brilho que enche os decotes das estrelas decadentes encolhe os ombros e relembra que não há parte do seu corpo que não esteja disponível para descarga eletrónica .

Um pestanejar dos longos artifícios antecede o esgar do estrogénio e inquire sobre alternativas. Talvez uma religião das vadias esquecidas , um programa numa cadeia regional de baixa audiência , um combate de wrestling na lama , um trio ao vivo num reality show, um filho de uma celebridade mais fresca. A lista termina com um grito de impaciência que algo seja feito para o seu bem-estar.

Novamente encolhendo os ombros o empresário sugere o suicídio mas, três segundos após a inicial afirmação , corrige-se perante a vulgaridade do facto entre as vielas que vão até Beverly Hills .
As unhas longas da mulher que enverga joalharia falsa e um vestido curto escarlate entrelaçam o músculo tonificado que se esconde sobre um casaco da coleção de dois mil e dois. Falsos diamantes de sentimento escorrem pela bochecha inchada. O agente relembra que há uma década atrás eram milhentos os homens que imaginavam o seu prepúcio afagado por tal cavidade. Decide que o único facto de relevância comercial e pública da sua cliente foi apenas o exagero das suas curvas , a beldade esculpida em serras que acertam ossos ,a tesão hedionda que a sua falta de vergonha ( e o facto de fazer garganta funda) despertou na populaça masculina. Resignado, aceita a ideia da película com triplos xis. Exige uma choruda comissão e ,pelo menos, um trio multirracial e uma ousada cena lésbica. Tem no seu portfolio quinze candidatas de silicone a necessitar retoque sequiosas de rolarem na cama tamanho de rei sobre os focos quentes e os grandes planos das depilações.

As mãos trémulas e pintalgadas pelo vento seco dos tempos e o exagero de solário rebuscam a carteira procurando uma esferográfica que assine o contrato. Quer falar de promoção e das entrevistas em prime time. Ellie Foxx nada encontra exceto um isqueiro que alumia cigarros longos e apressados , uma lamela de barbitúricos quase no fim e um espelho que a cada dia se torna mais difícil de encarar.

Estas Ruas

Estas ruas. Este incessante desfilar de casas pobres onde moram os peixes mais pequenos do oceanário da ganância. Estas ruas pedem ao natal que se esqueça delas para que não seja maior ainda a sua vergonha. Nestas parcas mesas engolem-se consoadas curtas de salários atrasados e muitas bocas para alimentar. As armas estão encostadas à arvore; nos presépios de alguns a manjedoura do menino é usada para esconder a dose que vai ser dada à hora da missa do galo. José desejava tanto ser um desses , um que tivesse algo para dar . Todavia tal não sucedia.
E era noite de Natal e não havia bucha para encher o bandulho das pequenas e não havia um resto de pó para acalmar a ânsia. José tremia junto à mesa, Maria tremia sobre o colchão. As frágeis pernas da mulher eram bambus descontrolados bafejados por uma má ventania , joelhos feitos castanholas a tiritar a falta do produto. E era noite de Natal e as pernas não se iriam abrir para os euros suficientes que acalmariam a fome do estômago e da veia. Esta noite seria infrutífero caminhar a avenida à espera dos homens dos carros escuros, do vidro que descia revelando um olhar sem amor e com pressa. Hoje eles trariam as esposas e as crianças. Não podiam parar para um broche ; a cama da pensão mais triste da cidade ficaria órfã do arfar dos senhores sérios e das putas agarradas .
A Maria só lhe restava esperar que a cena do José fosse verdade. Que não fosse mais uma tanga , que não fosse mais uma das constantes mentiras de quotidiano do agarrado. As coisas que nunca aconteciam, o tipo que nunca aparecia , o cavalo que era mal aviado. A cena que não dava e não havia nada para dar. Maria entre duas convulsões do estômago ,antes da cãibra que subiu desde a planta do pé, lembrou-se que era natal. A seguir ressacou mais um bocado.
E José esperava. E esperava com a ansiedade que a heroína cria no corpo dos seus filhos; cada segundo uma eternidade ,cada minuto mais um pedaço de dor. A camada de suor que lhe escorria pela testa sabia a todos os fedores que um corpo pode comportar. Os olhos de José tremelicavam a rua, esperavam as luzes do carro que o Galego tinha ido buscar. Para irem fazer a cena. Para irem à bomba. Rapinarem a bomba para depois darem bombas. O Galego dissera “Porque hoje é natal quero caldar um grande peru”.

Mas era noite de natal e não havia nada para dar.
E lá do canto, onde ficavam os colchões mais limpos, uma voz veio. A mais velha ; fruto do amor de Maria e de um agarrado qualquer que já cá não estava. Da sombra o vulto magro inquiriu:
– Hoje é Natal. O que vamos comer?
O punho de José ergueu-se e puniu a insolência da trémula figura de uma criança que sabia mais da miséria que da brincadeira, que se chamava Sara e que agora sangrava do canto da boca. O padrasto; olhos esgazeados , saliva e raiva expelidas a curtos centímetros do pequeno rosto :
– Cala-te caralho ou fodo-te a puta da tromba
E lá do colchão sujo , Maria nada dizia. A filha nem ousou desperdiçar um canto de olhar em direção à figura de tez acinzentada que se contorcia ignorando o código genético mais básico. Sara sabia que não tinha mãe que a acudisse. Afastou-se. O silêncio dos olhos no chão. A manga da camisola de fato de treino estancando a ferida. José voltou a olhar pela janela. Onde é que estaria o Galego?
Um silêncio, entrecortado em respirações ofegantes e calafrios, durou alguns segundos:
– Pai?
Era mais de menina pequena a voz que agora vinha do canto das crianças. Por alguns segundos a abstinência de José fez uma pausa e ele conseguiu sorrir ao vislumbrar a figura da filha. Da genuína, o fruto do ventre que ele havia ejaculado sem cuidados uns dias após conhecer Maria . Filipa era um tiro falhado na roleta russa que se joga com seringas e peles cruas. Filipa ainda tinha no rosto e nos olhos resquícios daquele que havia sido o seu pai antes dos dias do cavalo. José pegou com evidente dificuldade a criança ao colo. Um passo rápido para a frente impediu a queda. O seu centro de gravidade estava a duas gramas de distância. E o Galego nunca mais aparecia. A menina disse
– Pai . O Pai Natal vem cá hoje?
E Filipa quis saber
– E entra por onde se não temos chaminé?
Na janela da barraca piscaram uns sinais de máximos. “Um , dois , um, dois” contou José já abstraído da criança ao seu colo. Desculpou-se, enquanto pousava apressado a filha e dirigia-se, com evidente nervosismo, à porta:
– Filha , ouve , o Pai tem que bazar mas … o pai natal , entra pela porta . Deixa dinheiro e coisas fixes . Se abrires os olhos só um bocadinho consegues vê-lo. É um senhor de vermelho
E abalou , a porta fechada com estouro arrancou alguma consciência em Maria que se arrastou para a sanita . Antes de gorgolejar réstias das suas entranhas enxotou a filha de volta ao seu canto.

– Estas ruas..puta de merda ..tanta luz…vamos! – as frases eram proferidas por um José encharcado em suor , olhos vítreos de vontade , mãos tremulas afagando a shotgun que o Galego lhe passara no percurso que se fizera num silêncio apenas rasgado pelos esgares de dor da necessidade de mandar um caldo. O Galego acelerava , José ressacava. As unhas ganhavam contornos de sangue tal era o vigor da coceira com que procurava excomungar a aflição do seu corpo. “Nunca mais lá chegamos”, o pé batia insistentemente no chão como que se a procura de uma maior velocidade fosse profilaxia patética da cãibra que cravava suas garras afiadas na barriga da perna.”Nunca mais lá chegamos”
Lá era a bomba de gasolina que se perfilava na sombra do estádio onde hoje, certamente ,não ecoariam os gritos de golo. Lá era onde estava o dinheiro que permitia comprar a heroína, lá em baixo do morro a grande área de serviço acolhia os carros apressados para a noite de consoada que atestavam os depósitos num frenesim de pagamentos automáticos e buzinadelas , nos vidros das portas traseiras os bafos ansiosos das crianças criavam quadros de vapor onde anjos de asas partidas ganhavam forma. No céu uma enorme estrela brilhava. A José pareceu que a mesma cintilava mesmo por cima dos néones que anunciavam menos um cêntimo no diesel.
O carro roubado travou com uma chiadeira de pneus que revelam a pouca mestria do condutor. José e Galego saltaram dos bancos empunhando as armas e entraram pelo espaço onde as manchetes anunciavam que a estrela da TV havia aumentado o peito e que bica e croissant custavam apenas um euro. A caixa multibanco não entregava talões e o óleo de última geração garantia um menor consumo. José também ele queria consumir e para tal estava disposto a tudo , o grito veio
-Todos no chão ,caralho ,ou levam um tiro
No escaparate os últimos títulos de Hollywood apresentavam os olhares duros dos heróis. Nos filmes todos se deitariam no chão, todos trocariam o tremelicar do seu pavor pelo tiritar frenético que abraçava a caçadeira de José. As armas reluziam perante o espanto dos dois empregados de serviço. José insistiu – Todos nos chão ou morrem !! – a voz a esganiçar-se na aflição que lhe fazia palpitar o coração em grande estrondo .
Mas as noites de Lisboa não são cenas de filmes e os brandos costumes tem vindo, aos poucos, sendo trocados pela capacidade de retaliação. Se um dos empregados havia congelado no pasmo da sua camiseta cor-de-laranja que dizia que ele também acreditava , o outro; um rosto rude onde se adivinhavam o cansaço da existência e as mazelas de anos de pequenas violências urbanas tomou outro tipo de postura. A pistola surgiu entre o canto do mostrador onde ficavam as gomas e os volumes de tabaco. O movimento denotava destreza, como um relâmpago o braço estendeu-se e duas retrações do indicador decretaram a morte do Galego. Para ele não haveria mais ânsias, a cabeça explodiu como uma melancia atingida por um potente zagalote. Depois , num terror que parecia ter feito abrandar o tempo , a boca da arma dirigiu a sua fome de morte à figura de José. Este , pasmado na visão do corpo descarnado de crânio do seu parceiro que tombava sobre o soalho, perdera o tempo de vantagem que os dois primeiros disparos lhe tinham concedido. Um milésimo de segundo de hesitação, um pensamento traidor que lhe disse que não tinha verificado se a arma estava carregada , um piscar de olhos para afastar o suor que era uma catarata acre na sua perturbada visão feita de pupilas enormes ditou que os dedos sobre os gatilhos da shotgun e da pistola de nove milímetros sincronizassem o seu canto , como um coro que cantava hossanas os dois disparos foram simultâneos. O vermelho do sangue encheu o espaço, o gasolineiro voou empurrado pelo coice do disparo contra o distribuidor automático de cigarros, de peito escancarado pelo efeito da queima-roupa escorregou ao longo do balcão enquanto a maquina irónica o soterrava numa chuva de maços vermelhos e azuis onde a inscrição “fumar mata” adquirira o caráter de uma piada final. José sentiu que a morte passara através de si. A sua perceção do chumbo quente a entrar pequeno no seu abdómen e a sair , qual bola de golfe, pelas suas costas foi de tal forma vincada que ainda o projétil não atingira o solo e José já sabia que estava a viver os seus momentos finais.
Então ( talvez por os milagres nem sempre serem coisas boas ou então simplesmente por ser hora de prestar contas e o medo do criador existir em um dos neurónios ainda vivos ) a mente atolada em pensamentos de seringas, meias gramas , torniquetes e todas as variantes do universo da droga largou tais preceitos e uma aflição ,que não era feita da necessidade de injetar-se , mas sim do canto final da sua ainda existente consciência correu rápida e insistentemente pelo cérebro calcinado de José.
“A minha filha , a minha filha” era este o único pensamento que o assolava agora .Já não queria dar , já não queria cavalo ,já não tinha fome porque o seu estômago era órgão dilacerado pela violência da cidade que não sabia que esta noite era santa. Apenas dizia, a ladainha do moribundo – Filipa , Filipa – o braço livre arrebatava insano o conteúdo da caixa registadora enquanto a mão esquerda era compressa ineficaz sobre a chaga que descarregava catadupas carmim que pingavam o chão e tingiam a t-shirt que ,aos poucos ,começava a esquecer a sua alvura tal era a intensidade da hemorragia
“Filipa , Filipa “ era a oração da condução aos ziguezagues que evitou, sem saber como, a colisão com um monovolume do interior do qual vieram os gritos de “bêbado imundo” e o dedo irado do condutor . Mas José nem os viu . Dobrado sobre si , a escorrer aos bocados cada vez maiores, os olhos na estrada – “Filipa , Filipa” – o bairro , o choque contra o muro – “Filipa , Filipa” -ser rastejante , caracol da morte que transfigura baba em pasta de sangue enquanto desliza , a perna direita já sem forças arrastada como uma muleta , o casaco que já não pode aquecer jogado ao chão, a luz do último candeeiro alumia o torso se cobriu da pasta vermelha que escorre do fundo das suas entranhas , o cheiro nauseabundo no ar revela que os intestinos lançam pela cratera aberta pela bala a sua carga pestilenta.
Lá ao fundo a barraca imunda que pela primeira vez sentia como casa, o olhar a fugir à vida, a névoa a descer sobre o semblante .Junto ao contentor do lixo a silhueta da ceifeira acenou-lhe, com um riso estridente abriu a mão descarnada e mostrou cinco dedos. Cinco minutos, José sabia, tinha que ver a filha – “Filipa , Filipa”
A porta aberta, escancarada deixando entrar o frio da noite , o silêncio do sono tranquilo das crianças , o luto do sono toxicodependente de Maria que desfalecera no soalho imundo. José só tinha olhos para cortar a penumbra na procura da visão da menina – “Filipa , Filipa”
A visão dela, como sempre irrequieta no seu sono, o pequeno pé rebelde que fugia desde a tenra idade ao calor das cobertas, o subir e descer do peito num ritmo regular contrastavam com o arquejo aflito da tremula figura do seu pai . José sentiu-se tentado a beija-la pela ultima vez mas o frio subiu e ele entendeu que estava a viver , na verdadeira aceção da palavra, o último minuto da sua vida. Com gestos trémulos despojou sobre a mesa o espólio do assalto e, inundando da vergonha do elefante moribundo, arrastou-se para o baldio que ficava nas traseiras da barraca. Morreu entre seringas e preservativos usados, a sua face encontrou última morada a meros centímetros de uma colher carbonizada , o seu derradeiro suspiro não foi escutado por ninguém.
Quando a manhã de natal raiou Filipa abriu os olhos estremunhados, na pequena face estava plantada a mescla da curiosidade e do encanto. Quando os seus olhos se depararam com as notas espalhadas pelo chão e pela mesa o sorriso sem preço do seu rosto sem malícia rasgou-se de orelha a orelha. Afinal não tinha sonhado. Numa pausa do seu sono de criança, quando os olhos se haviam entreaberto por breves momentos a figura que avistara não era afinal criatura dos seus sonhos. O homem de vermelho viera realmente visitá-la. O pai não mentira.

Rage Against the Machine

Hoje vim bem para o espectáculo. Hoje tenho uma cabeça limpa que está muito revoltada com a situação. Quando a guitarra rasgada de Tom Morello trucida o riff que é feito para acordar consciências ergo-me e escuto a palavra. Porque há algo que está, profunda e globalmente errado e é preciso falar. Que seja feita “ la revolucion” na malha do baixo e na voz de Zack La Rocha. Raiva contra a máquina. Disseram um, dois ,três e lançaram ecos de rebelião para a multidão que se agita no terreiro. Contam-se pelos milhares, bandeiras de foice e martelo no ar , olhos de revolta , t-shirts de Che , mortalhas smoking , algum álcool. Hoje para mim nada . Apenas água e política.
Rage Against the Machine é ,acima de tudo ,um acto politico. Uma explosiva mistura das rimas do hip-hop com o poder das guitarras distorcidas e da secção rítmica marcada a ferro. As palavras são balas. Os milhares que se agitam frente ao palco são algo diferentes das costumeiras multidões dos concertos. Existem os que estão muito malucos mas a maioria é gente de olhares zangados com o mundo. Algo está mal. Aqueles ali , aqueles em cima do palco que saltando como loucos dizem que o inimigo usa fatos caros de fazenda em elegantes cortes de três peças e que faz da manipulação e da desinformação a sua arma . Aqueles que perguntam se nos mandarem saltarem em nome de um estado que não vela por nós o que faremos ? Saltaremos ? Ou diremos não ?
A dança dos corpos também ela difere do que costumo ver pelas plateias onde o rock e todos os seus derivados impõem a sua lei. O choque existe mas é nos voadores; é nos voadores que denoto a grande diferença. Não se esmagam contra a mole humana com o intuito de causar dor a si e aos outros ; abrem os braços antes de saltar no vazio e o voo é suave para a multidão de braços que esperam o corpo de mais um anjo do mosh. Não posso de deixar de pensar nas brincadeiras duras de soldados de um mesmo exército.
Lá em cima , a voz que fala em espanhol dos subúrbios de Los Angels pergunta porque é que os snipers só abrem fogo sobre bandidos pobres enquanto executivos levam bancos a saque e saem incólumes e sorridentes , banhados em obscenas camadas de pára-quedas dourados, pingando o sangue dos mais fracos dos homens chorosos que não sabem onde vão viver amanhã. E a voz lá em cima pergunta: Qual é o homem de boa-fé que impõe a premência do lucro à fome dos outros? Qual é o homem de paz que não é capaz de pegar em armas quando a sua liberdade, a sua dignidade e a sobrevivência dos seus é comprometida em nome de uma ordem mundial sobre a qual não pode sequer opinar.
Conhece o teu inimigo. Pensa claro. Faz as perguntas. Recusa e Resiste.
A guitarra ganha a dimensão de uma serra eléctrica que rasga a consciência. No palco diz-se: Conhece o teu inimigo.
A multidão sussurra em coro com Zack de La Rocha. Já não temos paciência . Cansados , cansados das vossas mentiras.
Tempo de revolta.
A onda que acompanha a convulsão da multidão leva-me até ao centro da roda, uma clareira , uns breves segundos e o olhar de Zack La Rocha encontra a minha camisola e a minha boina desbotada de vómitos no Avante e comícios para putas e bêbados nas travessas do bairro alto.
O braço levanta-se. A multidão escuta no silêncio ensurdecedor entre temas. O grito de batalha ecoa:
– Portugal . 25 de Abril Siempre !
Observo os punhos , as mãos fechadas ,a memória de outros tempos; há uma palavra de ordem que diz “Basta!” ; há uma fonte luminosa que ressuscita como se o vento fosse Maio e o Tejo demandasse mais firmeza às fortes gentes, vítimas dos fracos líderes que delapidam o seu ânimo e engenho. Quando o ritmo marca firme ,mas algo lentamente ,o desenrolar da rima a multidão salta. Não acompanho o movimento, rodo sobre mim mesmo e procuro aqueles que me cercam ; vejo a revolta nos rostos daqueles que não serão ,devido a nascimento e condição, a nata deste pais.
Rostos de licenciados condenados a apodrecer em balcões de bombas de gasolina enquanto distantes primos de corruptos autarcas escalam uma escada de serviço público deixando para trás um rasto imundo de incompetência. Uns óculos redondos e uma barbicha recordam-me o meu professor de filosofia e pergunto o que leva cento e vinte mil às ruas enquanto o autismo engravatado distribui computadores em nome da educação de um povo esquecendo que a figura do mestre-escola é milenarmente anterior à sua presunção de mentor do progresso.
Pergunto ao contratempo do baixo e bateria se lá fora espera o esquadrão de choque que silenciará a minha ira ? Sei que a resposta é não. Custos cortados cegamente, conveniente insegurança que é cortina de fumo para maroscas de largos milhões, lei que não passa da letra morta moldada por escribas engenhosos que protegem eternamente a mesma escória . O homem pobre apodrece nas teias de um julgamento justo que nunca mais chega enquanto condenados em tribunal sorriem em aberturas de directos televisivos cantando vitórias que enojam qualquer tentativa séria de democracia.
E o baixo continua, marca o ritmo da palavra. Não me dobro a poderes que apenas são. Recuso e resisto nesta fé. A essência primária da vontade do povo para o bem do povo que era suposto ser o nosso modo de vida.
Volto a casa em silêncio. Leio, alimento a minha mente com as palavras de Noam Chomsky , consciência dissonante com o discurso ultraliberal dos falcões da alta finança. Ao fundo da minha alma persiste a musica dos Rage , o metralhar das suas armas de intranquilidade ecoa em mim. Pouso o livro e honro a cultura de homem livre que os meus me deram. Empunho a minha arma. O poder da palavra sem baixo e bateria , sem rimas ou métricas , sem o riff da guitarra distorcida , o poder da palavra por si só. Pelo povo para o povo.

Jantar dos Sós

I

Esta era uma noite em que a cidade iria dormir mais tarde. Era a noite das noites e o tráfego corria apressado entre as ruas molhadas e a ansiedade da época. A rádio anunciava longas filas nas saídas para as pequenas aldeias e que já quatro haviam morrido antes de ser natal.
Numa rua da parte velha da cidade o frio e a bátega eram infrutíferas contra o vapor que se formara nas grandes vitrinas encobrindo, em circunspecção e calor, os convivas. A porta, onde uma elegante lanterna ancestral alumiava um menu que desconhecia os preços de um só dígito, abria-se ocasionalmente para deixar entrar alguém. O restaurante seria apenas mais um dos inúmeros que se espalhavam pela urbe se não tivesse a particularidade de ser o único aberto na noite de Natal. Esse inusitado horário de funcionamento criara, inicialmente, algum burburinho nos meios mais conservadores da cidade. Falara-se de pecado e de ignobilidade, de gentes de fés estranhas e hábitos indesejados. Mas, todavia, o restaurante aliava a uma gastronomia refinada um cumprimento escrupuloso de todas as leis do país e do município pelo que ninguém pode impedir que ,na noite mais santa das noites ,a chaminé continuasse a fumegar largando pela vizinhança o aroma de açafrões de outras paragens e da mestria do chefe. Então , estando vazias de argumento a lei e a ordem , restou aos habitantes da cidade vilipendiar os comensais que não cumpriam o massivo ritual da família e do peru . Risos de escárnio haviam baptizado o evento de “Jantar dos sós”. Havia-se urdido, às mesas dos normais, que era lugar de gente sem família, de loucos , de amantes do mesmo género e de adoradores do demo. Que decerto conscritos da indecência se sentavam aquelas mesas cobertas do mais branco linho que terminava, com uma elegância voluptuosa, a exactos dois centímetros do soalho de madeira antiga onde os passos dos garções ecoavam como prelúdios da sonata que o serviço de prata maciça entoaria retalhando as exclusivas criações de um chefe cujo nome tinha a pronúncia das grandes delícias do oriente longínquo onde o Cristo nado esta noite não era adorado. Invejados eram os homens e mulheres que se sentavam aquelas mesas onde a fragrância do vinho ancestral pairava entre a porcelana e as narinas. Uma maré forte feita do suor e do amor dos homens e mulheres , há tantos mortos , que haviam vindimado , pisado , feito sangue de Cristo aquelas uvas .Crisálidas do palato que convidavam as bocas a serem meigas e lentas em redor do bocal e da deglutição. A maledicência que se proferia sobre aquele restaurante tinha, todavia, alguns fundamentos. Num canto, numa mesa discreta sobre a sombra e um velho óleo de um mestre holandês, os olhos serenos de dois amantes terminais dançavam o tango do adeus. Dois homens, outrora belos agora carcomidos pelo vírus, afagavam com o néctar das vinhas da Nova Zelândia o sabor dos láudanos que aliviam as dores. Em outra mesa a amante secreta do ministro engolia o prato mais caro com a voracidade das putas de rua , à sua frente o lugar estava vazio.
As conversações tinham-se em tom baixo , como se as palavras não quisessem ir mais altas que a chama que ardia no topo dos candelabros .Escutavam-se vários idiomas , a seda e o negro predominavam entre os ocupantes do restaurante. O espaço não era de grandes dimensões mas combatera o acanho do solo com o esplendor do pé alto onde um magnificente lustre de cristal vianense brilhava como um olho de uma dama que apenas revela uma pequena parte do seu fulgor. As paredes estavam cobertas de pinturas. Os óleos predominavam, a espaços uma peça mais moderna dizia aos que estavam sentados entre o linho e o veludo que a arte era bem-vinda aquela casa. Talvez fosse por isso que o mais ilustre escultor da cidade elegera o espaço para a sua noite sem azevinho e presépio. Velho , decrépito , tremores de Parkinson que o faziam viver apenas da fama pois a sua arte ,o seu punho guiado pelo fantasma do grande mestre , havia parado. Isso enlouquecera-o, fizera-o envelhecer como a folha de papel que não recebe a palavra e acaba por definhar em esquecimento. As ideias, as ideais que o assolavam incessantemente e as malditas musas maléficas que lhe relembravam quem não podia voltar a ser através de um punho em eterna convulsão . Compensara isso com o mais debochado aproveitamento das admiradoras do sexo feminino. Mulheres que acreditavam que seus corpos tonificados mereciam a goiva. Mulheres que eram belas até ao excesso, tal como a companheira do escultor nesta noite, onde nada de santo e sagrado pairava pela alma atormentada do artista. A mente pedia que o recorte perfeito das linhas da jovem mulher fosse eternizado na pedra, a baba que escorria ao canto da boca orava a um deus qualquer que lhe desse um bocado de tesão esta noite.
Encontrava-se vago o lugar de topo da mesa de onde estavam sentados os quatro homens. Uma primeira rodada de aperitivos era acariciada com alguma impaciência pelas falanges que envolviam os cristais. Decerto quem esperavam era alguém importante. Ou talvez apenas tivessem fome.
A posição da mesa, junto à enorme lareira onde um fogo reconfortante ardia , dava especial destaque às silhuetas das quatro figuras. Quem entrasse pela porta principal, decerto seria atraído pela imagem, algo demoníaca, de quatro vultos negros sobre a parede de chamas. De uma área reservada, no canto oposto ao dos pederastas , da mesa ocupada exclusivamente por homens de trajes antigos e barbas fora de moda escutou-se a saudação dos Riedel e a troca de votos de vida longa aos cavaleiros de uma ordem há muito extinta. Os risos e a bazófia dos hereges despertaram leves sorrisos em dois dos homens da mesa que esperava alguém.
No exterior o silêncio da rua foi entrecortado por um táxi que levava um coração aflito às urgências hospitalares. Poucos minutos depois a noite silenciosa foi rasgada pelo som dos cascos.
A invulgar aparição de dois negríssimos corcéis que puxavam uma carruagem, onde o cetim das madeiras brilhava mais intenso que o negrume da noite ,não foi vista por ninguém. Nenhum dos vizinhos assomou à janela, tão entretidos que estavam com o especial televisivo e a algazarra das crianças, para vislumbrar o trote elegante dos alazões, o troar do longo chicote empunhado pelo cocheiro embuçado.
Um puxão forte nas rédeas deteve os cavalos junto à porta do restaurante. Sem revelar um centímetro do seu rosto o cocheiro desceu de seu assento e abriu a porta; dois degraus retrácteis esticaram-se em direcção à calçada. O primeiro deles foi pisado pelo altíssimo tacão de um sapato de mulher , o tornozelo que o usava era belíssimo , uma longa capa onde o arminho era exibido sem pudor encobria o resto do corpo e o rosto da figura feminina que, lestamente ,entrou no restaurante. A cartola do porteiro descobriu-se com a naturalidade que a nobreza do passo da mulher obrigava. Uma mão, onde algumas rugas faziam conjunto com um anel brasonado cujos quilates e delicado cunho atestavam ser de longa linhagem, estendeu-se para que o empregado pudesse recolher o agasalho. O intolerável som do silêncio invadiu a sala de jantar quando a porta se abriu e a delgada e alta figura da mulher se perfilou na ombreira. Dezenas de olhos, escravizados pelo magnetismo do longo vestido negro colado ao corpo ainda extraordinariamente firme e esbelto da mulher de enormes olhos verdes , prestaram a vassalagem que a sua beleza imperava . O passo fazia balouçar ligeiramente os seios e as ancas. A justeza do vestido e a delicadeza do tecido não apresentavam qualquer traço revelador de roupa íntima. O enorme decote, que terminava num vale generoso era adornado por uma enorme corrente de ouro onde uma esmeralda fulgurante trespassava o pasmo dos comensais como se de um terceiro olho se tratasse. Ao fundo da sala, junto ao fogo, os quatro homens que esperavam levantaram-se e compuseram os casacos. O gesto de respeito acentuou-se quando as quatro cabeças se inclinaram ligeiramente.
A luz rubescente do fogo revelou que o rosto da recém-chegada já há muito passara a juventude e que aceitara o cair das rugas com uma firmeza na postura que a autenticava com a palavra “Senhora “ que ecoou das gargantas dos homens que haviam, intranquilamente, aguardado pela sua presença. Um pequena pausa fez-se até que o empregado completasse o gesto de a sentar à cabeceira da mesa .Depois os rostos permitiram-se a encará-la; e que belos eram os rostos dos homens que saudavam a mulher mais velha que se sentara no lugar de honra.

II

Sem proferir uma única palavra, com um sorriso irónico e misterioso, ela encarou, um por um , aqueles que a haviam aguardado. A rigidez dos ombros e o comprimento do pescoço davam especial relevo ao ritual de encarar firmemente cada um dos seus companheiros e ,em seguida, inclinar o queixo em jeito de assentimento. O gesto tinha a duração exacta do agradecimento a um acto de vassalagem.
Eram todos mais jovens. Visivelmente mais jovens. Quatro variações de uma palidez que tanto trazia de mau prenúncio como da resplandecência marmórea das estátuas gregas. Os caprichos do fogo e da luz que dançavam na grande lareira presenteavam a anfitriã com a lisura que ainda existia nos seus rostos. Excepto um. Aquele cujo cabelo era desgrenhado e rebelde, a esse sulcava o rosto uma longa cicatriz cuja extensão e fundura do corte mostravam que quem golpeara a face esguia, onde predominavam uns olhos verdes plenos de astúcia e traição, odiava profundamente. À sua esquerda os largos ombros do mais atlético homem do grupo. O pescoço largo e a enorme proeminência do maxilar inferior tinham o formato que as câmaras do cinema de acção apreciam. Envergava um nada discreto fato claro que destoava com o negrume das vestes dos restantes ocupantes da mesa. Os olhos da anfitriã censuraram-no, um pequeno toque dos lábios em que era óbvio o comentário ao mau gosto do atleta.
O cerimonial silencioso foi interrompido pela chegada, junto à cabeceira da mesa, de Amir. Um quase imperceptível burburinho atravessou a sala. A presença do famoso dono do restaurante na sala era , sabiam todos os que conheciam aquele local , privilégio dos mais afortunados; dos grandes “gourmets” que atravessavam quilómetros , por vezes mesmo as fronteiras do pais , para chegar junto aos repastos que haviam granjeado tal fama à cozinha de Amir. Este inclinou-se respeitosamente numa vénia que tanto tinha de teatral como de costume do seu país longínquo. Um amplo gesto de cortesia do homem que envergava uma jaleca de cozinheiro e um garrido turbante. Os olhos de imenso azul eram contrastantes com o trigueiro profundo da sua pele e os traços de corsário malaio. Saudou:
– Minha senhora, distintos cavalheiros. Amir agradece a preferência dada à nossa humilde oficina dos sabores. Poderei sugerir, a vossas senhorias, uma entrada de delicadíssimos cogumelos Matsutake seguidos de fresquíssimas trutas em cama de amêndoas?
Foi evidente a repulsa sentida pelo homem mais velho do grupo. As farripas iniciais que lhe visitavam a fronte em forma de cinzenta prata indicavam que teria entre os trinta e os trinta cinco anos. O seu esgar foi acompanhado pelo riso quase feminino do homem que menos o parecia daqueles quatro. Os olhos enormes, onde o cinzento imperava ,estavam delineados a traço negro. O brilho dos lábios revelava alguma cosmética e as roupas de sede e cabedal reforçavam a androginia daquele que era decerto o mais jovem de todos . A mulher ao topo da mesa sorriu ligeiramente e encarou Amir. Com uma voz forte declinou a oferta .O dono do restaurante foi , por um milésimo de segundo, cegado pelo brilho da pedra preciosa dependurada no pescoço da mulher. Recuou um inquieto passo acatando a ordem:
– Apenas as carnes mais sanguinolentas e o vinho mais espesso e generoso de vossa adega.
Foram lestos os homens de Amir a cumprir tal desejo. Fumegantes, cheirando ainda à madeira onde haviam ardido e à carícia com as especiarias haviam sido aplicadas, as iguarias chegaram em travessas de prata . O jantar daqueles cinco decorreu em quase absoluto silêncio, as frases trocadas em sussurro eram imperceptíveis, os copos de cristal tocaram-se algumas vezes. Quando o grande relógio de pé, que ocupava lugar de destaque junto a uma das colunas que sustinha o alto tecto, bateu as dez e meia uma intranquilidade invadiu os gestos de alguns elementos da mesa. A maquilhagem foi retocada, os dedos passaram duas vezes pelas têmporas grisalhas em penteares nervosos. A mulher ao topo apercebeu-se da inquietação e sussurrou algo apontando na direcção do relógio.
Ainda a sobremesa não tinha sido servida quando, sem aviso prévio, a mulher se levantou. A azáfama vexada dos empregados foi serenada com o empunhar de uma larga quantidade de notas. O cortejo encabeçado pela bela mulher atravessou a porta principal e entrou no átrio de entrada quando a primeira badalada das onze ecoava nas torres da cidade.
Os agasalhos foram recolhidos e ,mais uma vez, a generosidade de senhora demonstrada. Quando o tacão elegante tocou o pavimento da rua a carruagem, que anteriormente a havia transportado, surgiu em trote moderado. O porteiro do restaurante embasbacou-se, amaldiçoou o vinho e o seu vício. Estava quase capaz de jurar que os cavalos haviam surgido da sombra que ficava numa ruela próxima e que os seus olhos haviam brilhado de fogo quando iniciaram a viragem para a frente do restaurante.
A moeda que lhe aterrou na luva estendida era pesada e granjeou-lhe auto censura por ter tido tais ideias de gente tão requintada. Todavia, quando levantou a cabeça para agradecer, a carruagem e os seus cinco ocupantes haviam desaparecido do seu campo de visão. Desta vez o porteiro teceu pragas à idade que o começava a fazer perder qualidades. Não havia escutado o galope dos alazões negros.

III

Ainda o pasmo do porteiro persistia, em pequenas réstias de assombro, e já os eixos das rodas do landó calcorreavam os paralelepípedos de uma avenida antiga. Um grande passeadoiro, onde outrora senhores de casaco negro e damas de chapéu caminhavam de braço dado nas tardes de primavera , que perdera o seu fulgor ; ao fundo o edifício da antiga estação de caminhos-de-ferro.
O cocheiro , dobrado sobre si , era lesto no uso do chicote que mantinha o galope dos cavalos .Dentro da carruagem os semblantes eram pesados, sombras cada vez mais negras alojavam-se nos rostos que haviam parecido joviais umas horas antes. A tensão adquirira agora um silêncio tenso feito de rápidos cruzamentos de impaciências e consultas frequentes aos relógios. Apenas a mulher mantinha a mesma serenidade que conduzira a sua postura ao longo do serão. Lá fora a carruagem derrapou um pouco sobre a superfície molhada dos carris. Um puxão firme da rédea direita fez com que a trajectória fosse corrigida, uma chispa soltou-se dos rodados.

Dois vagabundos que vasculhavam os contentores sentiram um vento frio e, quando se voltaram ,foram surpreendidos pelo negro veículo que cruzava a estrada com um ruído ensurdecedor. Eram velhos os mendigos, tiveram medo . O mais sensato entre eles disse:
– Vamos embora. Ali não vai coisa boa.
O outro, movendo-se com dificuldade sobre uma muleta improvisada, relembrou-se do gesto da cruz e aquiesceu a ideia.

No escuro habitáculo da carruagem aquele que apresentava o rosto sulcado pelo gume perdera toda a compostura. Os olhos verdes eram um poço efervescente de ira. Dirigiu-se com veemência à mulher:
– Dê-nos agora ! Por favor! Um pouco !
Dito isto a mão dirigiu-se ao interior das coxas da mulher. Procurou afastar as pernas. As unhas longas da mão que envergava o anel brasonado golpearam a insolência deixando mais uma marca na pele do atrevido mancebo. A voz ordenou, intolerante, indiscutível.
– Ainda não é chegada a hora , nem o local !
A cabeça virou-se lesta em direcção ao exterior, o olhar fixou-se na longínqua torre da catedral:
– Ainda há tempo – Em seguida fez soar duas vigorosas pancadas no tecto forrado a cabedal. De imediato o cocheiro acatou a ordem levando os corações dos corcéis ao limite do esforço. Pelas bocas das bestas espumava a pressa que a mulher impusera ao seu condutor. O chicote já não conhecia descanso. Os raios das rodas eram apenas borrões de negro rápido.

No horizonte, cada vez maior, cada vez mais perto , o edifício da estação . Uma glória da cidade que havia sido recentemente encerrada para dar lugar a um terminal mais jovem mas certamente menos imponente e mais vazio das memórias dos homens. O vapor calara-se, as azáfamas dos bagagistas haviam cessado, o apito que anunciava a marcha da locomotiva havia sido esquecido. Junto ao grande arco da porta principal já não surgiam os vultos dos passageiros, de rosto coberto de fuligem, que iam a descanso e banhos ao agora quase extinto esplendor do hotel que ficava do outro lado da grande praça. A carruagem deu a volta e deteve a sua marcha junto à porta rotativa. No interior os globos dos candeeiros estavam velhos e sujos e iluminavam o átrio de forma deficiente. A alcatifa estava gasta. O mármore do balcão da recepção há muito que não era polido. O bronze da placa que anunciavam a existência de televisão a cores no salão de hóspedes havia ganho verdete com o descuido dos funcionários e as voltas do tempo.

Por detrás do balcão a figura grisalha, que envergava uma sobrecasaca verde, sobressaltou-se pelos dois momentos distintos que a sua mente percepcionou. Como se o tempo entre dois actos não tivesse acontecido. Pestanejou com vigor, como querendo devolver a si a percepção da lógica dos movimentos. Entre o momento de paragem do landó e o surgimento no lobby do hotel do grupo liderado pela mulher, que aparentava bastante idade nas profundas rugas e nos olhos que ganhavam a vermelhidão dos moribundos, apenas um breve milésimo de segundo havia decorrido. Atrás da figura matriarcal quatro homens cujos rostos eram máscaras de ansiedade cobertas em suor. Os seus peitos arfavam. Os punhos cerrados demonstravam que nada deteria a sua marcha.

O recepcionista estava no hotel há muito tempo , tudo vira enquanto estendia as chaves aos hóspedes e sorria uma boa-noite que por vezes não o era. Vira ministros enfurecidos após a perca de uma eleição desfazerem à cintada as nádegas das coristas , os vultos que haviam caído dos andares mais altos e deixado manchas de desespero no passeio, homens que amavam o cheiro do charuto e da urina das prostitutas baratas. Distintas senhoras de sociedade que faziam das suítes do hotel as alcovas onde os arruaceiros urravam que elas eram grandes vadias. Houvera, também, tempos do esplendor .Quando as locomotivas enchiam o terreiro com as suas sonoras chegadas por aqueles corredores e quartos com água quente haviam passado glórias da cidade. Presidentes e senhores embaixadores, o ministro da guerra antes da mesma começar. Dormira ali o homem que venceu a maratona, havia mostrado com orgulho o ouro olímpico da varanda que ficava sobre a porta principal. Uma multidão enorme atirara os chapéus ao ar. Na suíte real o maestro fizera um violino calar todas as pedras do terminal ferroviário. Os êmbolos haviam amansado o seu trepidar, os maquinistas as suas obscenidades. Da janela do seu aposento o virtuoso dedilhava com mestria todo o ar da grande gare.
A sua experiência feita da ascensão e queda daquele estabelecimento identificou rapidamente os hóspedes. Tipo problemático. “Despachar” – disse a si mesmo. Estendeu a chave e não deu especial importância ao preenchimento de qualquer formulário. Também não deu especial relevo às insinuações que poderiam surgir ao que fariam quatro homens e uma mulher numa suíte de hotel em plena noite de natal. Com um sorriso encolheu os ombros. Já tudo vira.Só esperava que não sujassem muito o quarto pois às mulheres da limpeza, que chegariam pela manhã, iriam decerto pesar as varizes e os abusos da consoada.

No elevador, o último da cidade que era operado por mão serviente, perfilhava-se a figura do ascensorista. Seu nome já era parte do mecanismo de roldanas e pesos que transportava, piso acima piso abaixo, a pesada cabine metálica onde as portas gradeadas se abriam e fechavam ao toque de uma alavanca. Ao canto , o homem que contava por décadas o tempo que manobrava a máquina , o ascensor como outrora o haviam chamado ,recebia os hóspedes com um sorriso e um interrogação sobre o seu destino. Quando o grupo entrou engoliu em seco. As suas já fracas pernas tremeram um pouco. Encostou a anca sobre a parede da cabina a fim de acautelar a lassidão que sentia nos joelhos. A força era cada vez menos. Na verdade o ascensorista morria ali e estava ciente do facto. Quando lhe havia sido anunciada a doença fatal limitara-se a escutar em silêncio e a pensar que não tinha sítio para ir morrer em braços amigos. Só conhecia o canto do elevador onde toda uma vida decorrera em farda de paquete, que o tempo tornara coçada e patética, operando com a destreza de um símio amestrado o manípulo . No dia em que soubera que estava a morrer o ascensorista apresentara-se ao serviço como era seu hábito. Fez duas moedas e uma nota de gorjeta.
Agora, embora a sua condição fosse já muito débil, sentia que nos bafejos daqueles cinco seres havia algo que aspirava dos aflitos alvéolos pulmonares sérias réstias de existência. Aqueles que iam ao sexto piso ignoravam o rosto pálido cada vez mais similar ao linho da mortalha, o tremor dos lábios, as farripas de cabelo eriçadas . Todos o ignoravam, excepto aquele que usava coisas de mulher. Esse contemplava-o com um gozo mórbido pespegado na expressão. O ascensorista sentiu-se incomodado. O homem que tinha os olhos pintados não desviou ao olhar. Quando chegaram ao andar de destino o homem que operava o ascensor sentiu necessidade de desculpar-se ao hóspede pelo seu paupérrimo estado. Disse com os olhos cravados no chão:
– Não posso viver para sempre.
As mãos cuidadas, onde o verniz negro engalanava finos dedos cobertos de anéis, levantaram o rosto do ascensorista e beijaram com ternura os lábios que já pouca vida tinham. A mão acariciou o rosto, as unhas incomodaram a face . O velho sentiu um ligeiro ardor. O homem jovem despediu-se:
– Não queiras. Feliz Natal !
Quando se preparava para sair revirou a cabeça e o ascensorista horrorizou-se ao verificar que, nos breves instantes que haviam decorrido, o rosto envelhecera mais de uma década. A maquilhagem esborratava-se no rosto, as pálpebras pendiam pesadas , uma papada formara-se debaixo do queixo onde um tremor persistia. A voz mantinha-se fina mas tinha agora a enfatuação dos cabarés e das noites de absinto. Zombou:
– Este é o teu último.

Em seguida a porta do alojamento fechou-se com incrível violência. Caminharam até à sala. A mulher ao centro. Um circulo de cinco rostos onde a carência aflitiva tomava a forma de um envelhecimento brutal a cada segundo que passava.
As mãos da mulher tocaram a jóia que trazia ao pescoço. Algo foi murmurado. Em seguida o seu rosto que se aproximava a passos lestos do estado da decomposição ergueu-se e proferiu:

Centrum est obscurus. Tenebrae respiratus

A mão dirigiu-se à presilha do vestido e este escorregou em direcção ao soalho . A queda do negro pano exibia um corpo que contrastava em firmeza e juventude com o rosto daquela que começava, aos poucos, a abandonar a sua condição humana.
Os homens corresponderam ao gesto removendo as vestimentas e aninhando-se no chão em posição fetal. Das suas gargantas começou a sair uma estranha ladainha, uma canção de embalar de um idioma que se falava nas entranhas da terra.
As mãos da mulher, onde as unhas começavam a contorcer-se em garras , acompanharam as linhas perfeitas da sua própria silhueta. Deslizaram ao longo da curva das ancas ,cuja largura denotava o conhecimento das coisas da maternidade, antes de dirigirem ao triangulo negro e violentamente afastarem os lábios do seu sexo . Invocou:

Orior , Oriri , Ortus

Das profundezas do seu íntimo surgiram quatro tentáculos, quatro extensões da mulher que, de braços estendidos ao céu, fazia o fogo eclodir na lareira da suíte e as lâmpadas de todo o quarteirão explodirem. As membranas , feitas de uma carne há muito morta , atravessaram a carpete como se de víboras translúcidas se tratassem. Cravaram-se com violência nos umbigos dos homens prostrados no solo. O urro que ecoou nas suas gargantas era de tal forma animalesco que os cães vadios que faziam da velha gare seu covil fugiram apavorados.

Quando as carnes dos tentáculos se fundiram com as carnes dos homens uma massa viscosa, sangue dos malditos ,cheiro fétido feito das muitas mortes violentas que o compunham ,deslizou do interior da criatura que se metamorfoseava em alado pavor e alimentou os seus demoníacos filhos.

A hiper-dilatação das íris cobria de um integral negro a cavidade ocular , as fauces haviam se estendido para dar espaço ao florescer dos aguçados caninos. Theofania Delasombra , Rainha dos Callicantzari mirava com orgulho o renascer da sua linhagem. No solo os homens que haviam sido belos davam lugar às quatro aberrações que em breve saciariam a sua fome de um ano inteiro. Reclusos das grutas negras onde a sua maldição os obrigava a subsistirem com os restos cada vez mais putrefactos do banquete do natal anterior. Na torre da grande catedral o sino caminhava as doze badaladas para o nascimento do Cristo que não salvaria muita da gente daquela cidade.

Os tentáculos desvaneceram-se consumidos pelos restos ácidos da cataplasma que Theofania fizera brotar de dentro de si. As janelas abriram-se. Como crianças esfaimadas os quatro monstros voaram para a escuridão da noite. A matriarca dos comedores de homens observou ,orgulhosa, o voo da sua prole. Dividiram-se em dois grupos. O primeiro afastou-se em direcção às zonas mais povoadas da cidade, o segundo par iniciou o mergulho sobre a multidão que se concentrava junto à grande catedral para assistir à missa do galo. O seu banquete foi luxuriante.

No alto do telhado da grande estação de comboios Theofania estendia as suas longas orelhas de morcego embevecendo-se dos horrores que seus filhos semeavam pela cidade. Os gritos eram imensos , velhos , homens feitos e tenros infantes , todos pereciam às mandíbulas vorazes dos Callicantzari.

A grande vampira aspirou o ar da noite. Era a sua vez de se alimentar.
As fossas nasais alargaram-se, entre as enormes presas uma língua bífida acariciou a boca; havia detectado um cheiro que lhe agradava particularmente. Perscrutou o horizonte, farejando, as orelhas atentas ao ruído que procurava associar ao seu instinto olfactivo. Então os seus olhos encontraram o seu destino. Ao fundo, a alguns quarteirões de distância, brilhavam as luzes da maior maternidade da cidade. Salivou um pouco mais quando ao seu aguçado escutar chegaram os ruídos que vinham do berçário.

IV

Fome.

A sofreguidão da horrenda Theofania Delasombra atravessou o frio da noite. As chaminés emitiam o fumo do aconchego. No ar os aromas da refeição dos pacatos cidadãos misturava-se com o odor a talco e os ruídos pequeninos que ocasionalmente ecoavam no berçário. A rainha dos Callicantzari incomodou-se com a perturbação que os restos do peru e os fritos traziam ao seu olfacto maravilhado nas fragrâncias das peles lisas e tenras que se agitavam no sono dos primeiros dias de vida. As suas presas entreabrirem-se para proferir uma obscenidade que só o demónio entendia. Sacudindo as asas negras cerrou os olhos e inclinou a cabeça para trás. Os longos cabelos escorriam iluminados pelo céu onde a lua persistia em alumiar tão nefasta criatura. As narinas abertas contorciam-se perante a predição da abundância das jovens presas que estavam a curtos minutos de voo. A bífida língua acariciava as fauces, Theofania agachou-se no preparo do salto para o vazio, o enfunar das asas efectuou-se numa velocidade cerimonial.
A necessidade não apressava os gestos da morte alada que iniciou a carga sobre a casa de Deméter.

Fome.

O mais pequeno, aquele que havia nascido antes do tempo ser tempo de vida , agitou-se um pouco na incubadora. Os olhos verdes , raiados do sangue da vigília e do cansaço dos anos de Zana Glastings procuraram o relógio que estava sobre a porta da sala onde as crianças dormiam. Eram três , um deles precisava de especial atenção. Estava com fome.
A forma como a sonda foi ministrada para encher o pequeno estômago de pele ténue demonstrava o longo saber feito a cuidar dos outros. Após a refeição a mão enrugada de Zana invadiu o espaço interior da incubadora para afagar o bebé. Os movimentos dos pequenos pés demonstravam que tinha cócegas na barriga. A velha enfermeira sorriu.
Em seguida passou junto aos restantes berços ocupados para acautelar o aninho da coberta. Os seus pés, que não faziam qualquer ruído sobre o solo de cerâmica, detiveram-se contemplando a cidade que se estendia em todo o redor das janelas panorâmicas do piso. Zana gostava daquele local de dia , do sol a inundar de luz e calor as fileiras do berçário. Todavia a noite sempre a inquietara. Recordava-se muitas vezes da Velha e das coisas que com ela aprendera. Antes da guerra, quando ainda as rosáceas das suas faces redondas e bem-dispostas se estendiam crentes no bem dos homens.
Todavia viera uma nação hostil , os homens haviam sido chamados aos campos de peleja, novas armas abriram clareiras de vida entre as tropas de infantaria. O homem de Zana morrera entre tantos outros que seus nomes foram rapidamente esquecidos na azáfama de matar o próximo.

A Velha e a Guerra haviam sido os momentos cruciais da existência já sexagenária de Zana Glastings. Enfermeira de campanha condecorada com a maior distinção que se pode dar a uma não combatente. Ela todas as noites recordava o dia . O dia da bravura, o dia em que usara seriamente pela primeira vez as coisas que a Velha lhe ensinara, o dia em que o medo a fez correr para a terra de ninguém ao resgate do capitão de lanceiros que gritava por ajuda e por deus perante a visão e a dor dos seus membros amputados . Uma metralhadora cobria a zona. O barulho das carnes dos mortos, retraçadas inúmeras vezes pela munição de elevado calibre, fazia lembrar uma chuva de pingos malévolos . Zana correu , os seus largos ombros de mulher de trabalho haviam erguido com facilidade o desmembrado oficial. A cabo-socorrista Glastings iniciou a marcha de regresso às suas fileiras quando a metralhadora se calou por um instante. Os olhos de Zana esbugalharam-se de horror . O artilheiro fazia pontaria a ela. Estava a passos de ser dilacerada pelo fogo dos canos rotativos. Então falou uma das lengalengas que a Velha lhe havia ensinado nas noites onde o luar inexistente ocultava os sussurros da anciã e o olhar atento e reverente da sua discípula.
A língua era a dos antigos , o chamamento à protecção de uma entidade cujo nome já não habitava as rezas dos homens. Na sua agonia o capitão de lanceiros percepcionou algo que julgou ser fruto da dor intolerável que lhe pingava das rótulas mas, quando a fila de balas entrou na arma inimiga e o chumbo foi cuspido , o oficial percebeu, pelos ruídos do ricochete na aura de luz lilás que cobria todo o corpo de Zana e sua carga , que estava a ser salvo por algo maior do que aquela socorrista corajosa que persistia na seu caminho de regresso.
Quando , já na trincheira cheia de homens de suas fardas , Zana pousou o oficial este teve a clara percepção que iria viver e que necessitava , para todos os dias que lhe restavam , de agradecer esse facto ao Deus que cuidava do seu lado do mundo. Para lá das lancinantes dores que o trespassavam a percepção e a fé que tinha estado aos ombros de uma enviada de algo bom confirmaram-se quando seus olhos se encontraram. Havia algo a brilhar no fundo das pupilas de Zana , o quase moribundo lanceiro agarrou-se à centelha e sobreviveu. Voltou a casa, cuidou dos seus .

Uma prece aos protectores saiu dos lábios de Zana quando avistou a criatura alada que se aproximava. As longas asas , a Velha falara-lhe do que ali vinha. A enfermeira recuou dois passos. Hesitou um breve instante, na sua mente a recordação do conhecimento das fraquezas do inimigo demoníaco e aflição pelos pequenos estrangularam-lhe a garganta. A voz dentro de si disse:

– Chão sagrado

Zana estendeu os braços e com gestos rápidos , quiçá demasiado bruscos para a sua idade , abraçou as duas crianças que dormiam sonos não assistidos e correu pelo corredor em direcção à capela da maternidade. A cabeça virou-se algumas vezes , o prematuro ainda ficara no berçário. Estava à mercê da fome da Callicantzaro.

No céu a vampira distinguira movimento no berçário. No seu olfacto a delicadeza das carnes da criança apressou o bater das asas.
Zana pousou com brusquidão os meninos no solo da capela e retomou a corrida desesperada ,agora em direcção oposta. De volta ao berçário onde a horrorosa criatura assomava. O focinho roçou a janela, os seios da fêmea esmagaram-se e dos seus mamilos uma cataplasma negra escorreu pelo vidro. Em seguida entrou. No mesmo instante a porta dupla escancarou-se, Zana prostrou-se do outro lado da sala . Os seus olhos percorreram em palpitações milimétricas de pavor o espaço a meia luz. Sobre uma mesa alguém erguera um presépio, uma vela ardia a seu lado. As coisas que a Velha ensinara precipitaram Zana para o objecto ardente e ,em seguida, para a pequena estufa onde a criança era mantida em cuidado. Um gesto apressado abriu a tampa, a chama pousou sobre a planta do pé direito do bebé. O grito de dor foi imenso , Zana lembrou-se dos gritos do capitão de lanceiros e, tal como outrora, sabia que não podia parar. Dirigiu a tortura de fogo para o outro pé.
Entre as fileiras de berços garganteou o guincho de raiva de Theofania Delasombra . De novo transfigurada, agora algo que se assemelhava a uma mulher de linhas generosas onde todo o corpo estava coberto de uma imunda pelagem negra. Os olhos famintos, raivosos ; a boca escancarada onde os caninos salientes sabiam que não poderiam morder a criança. A mulher velha junto à maquina sabia das debilidades da raça Callicantzari . Injuriada , sequiosa de vingança ,a vampira caminhou rapidamente entre as camas vazias , os cascos onde terminavam suas pernas ecoavam por todo o berçário.
A mulher com uniforme branco e touca estendeu o braço. A marcha da Theofania deteve-se . O braço estendido, o gesto da cruz. A vampira reconheceu os gestos do inimigo.As hordas que , desde os confins do tempo , se digladiavam com a sua espécie .As guardiãs dos homens que patrulhavam a noite tentando travar os intentos dos grandes predadores alados. Anatematizou a linhagem de Zana e das anciãs.

A enfermeira transferiu o queimamento para as pequenas mãos contorcidas em dor. O braço que se estendia em direcção à devoradora de inocentes rodopiou no sentido em que o mundo gira. A voz da Velha falou pelos lábios de Zana. Sabia a oração de guerra dos homens da fé . A dor das palavras sagradas feriu os ouvidos de Theofania:

– Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii

A investida da vampira deteve-se pelos instantes suficientes ao fecho do círculo ritual de Zana. As chagas chamuscadas nas mãos e pés da criança tornavam-na imune à sofreguidão da rainha dos Callicantzari. A velha enfermeira sabia que os seus dons e as rezas que a Velha lhe ensinara não eram suficientes para deter eternamente a fúria demoníaca. Sabia que ia morrer, sabia que a criança prevaleceria.

Lembrou os tempos da guerra, lembrou-se do capitão de lanceiros. Sorriu quando viu a face da Velha a pairar no ar e calculou que salvara duas vidas ao longo da sua existência . Preparou-se para o instante derradeiro.
Theofania desfraldou as garras longas da sua mão e , num golpe de cutelo, trespassou o esterno de Zana. O rasgar do osso , a firmeza do gesto indicavam que o monstro procurava o coração da velha. Enterrada até ao pulso a manápula da criatura da noite vasculhou as entranhas ainda vivas de Zana. Esta soube a dor que o capitão havia sentido.
Então a Callicantzaro encontrou o que palpitava.
E sentiu a dor que não antecipava. A luz veio dos últimos batimentos do coração de Zana. Alastrou-se, uma monção de dor e petrificação trepou pelo braço da assassina. A luz tinha o fogo azul-cobalto da arma do Arcanjo. Os gritos de Theofania Delasombra eram os de um animal raivoso que via uma das suas extremidades arder e tombar em cinza sobre o soalho. A corrosão apenas terminou por altura do ombro, a perplexidade inundou , pela primeira vez em séculos , o rosto da rainha vampira quando , indo buscar forças a algo que já pairava a caminho dos céus, o braço de Zana lhe agarrou o pescoço e puxou o rosto da besta para junto das rugas onde a lividez se estendia como uma cortina de fim . Zana Glastings bafejou uma nuvem de luz e morreu . O rosto de Theofania desfigurou-se quando o último suspiro da velha calcinou até ao osso as carnes, a fauce mista de mulher e morcego ganhou feições ainda mais medonhas. A vaidade de mulher que ainda restava a Theofania humilhou-a no grito de retirada que ecoou pelos telhados das casas onde os Callicantzari prosseguiam a caçada. O bando retirou para as entranhas das cavernas que ficam no mais fundo da terra, a fome de Theofania seria imensa , as chagas abertas empolgariam o apetite dos outros vampiros.

O corpo de Zana desfaleceu junto à incubadora. Por desígnio das sortes as suas mãos terminaram o movimento junto ao bebé.
Quando a descobriram na manhã seguinte a respiração serena da criança pousava na concha das mãos de Zana. O raiar do primeiro sorriso atravessava o pequeno rosto.
Na cidade a nova correu as ruas, entre as lamúrias dos mortos e os gritos daqueles que nunca esqueceriam o horror, ouviu-se dizer que o menino estava bem. Que o mal que viera da noite não perturbara o seu sono. Que alguém bravo tombara por ele.

Naquela manhã, que ainda assim era Natal , os passos dos homens da cidade foram mais serenos. As mãos dos sobreviventes apertavam-se mais fortes umas nas outras. Os chapéus dos mendigos encheram-se de moedas e as missas estiveram cheias até à porta. Na mais antiga igreja da cidade, uma família entrou já o padre iniciara a oração. Em silêncio os fiéis contemplaram o fervor no olhar do homem que liderava o pequeno grupo que atravessava a nave. No absoluto recato que precede as palavras da salvação apenas se escutava o chiar das rodas da cadeira do capitão de lanceiros.

Frinchas

– Quanto ?

Uma mão passa pelo vidro entreaberto. Punho fechado , lá dentro cinco, pacotes bem aviados . A nota de cinquenta é recolhida para o bolso . O passo gingão de volta ao passeio , sempre a olhar , a controlar o movimento . Em seu redor outros olhos , a sua tribo , a sua crew , os niggaz do bairro. Sempre a aviar quartas e meias , sempre a fazer escoar o produto de outros niggaz que tem armas grandes e carros rápidos.

Outro carro , mais um lixivia e a sua namorada boa. Quanto ?

Duas .

Voltarão no próximo fim de semana, depois dia sim dia não . Depois , depois chamam-se clientes. Enquanto houver dinheiro para trazer alvura ao espelho , uma bolinha que arde no cachimbo movido a amoníaco , até lá tudo bem. Se faltar dinheiro o crédito é desconhecido. Por vezes , um dos grandes traficantes gosta das pernas da compradora que nada mais tem para dar que o esgaçar de si num sofá sujo , a batida do corpo contra a sua fome de produto , arfar prazer por uma dose grátis. E na rua os putos continuam a traficar. Sempre a rodar , os carros , matriculas em continuo desfile pelo bairro, ao fundo de cada lado da avenida há outros putos , telefones alerta , olhos abertos . À espera da bófia que raramente aparece.
Não se passa nada. Sempre a fluir. O traficante que lhes dá os pacotes diz sempre :

– Os clientes são todos tão negros como nós. Com eles nunca se passa nada . Nunca

A ordem tem calibre quarenta e cinco que recorda os nomes de outros que já nada mais são que tags nos muros. Aniquilados com um disparo á queima-roupa numa esquina escura , a justiça para quem açambarca produto para dar no cachimbo , preço de quem fila um carro de quem quer comprar o bom pó . Quem tem miolos segue a batida do bairro , rola pelo passeio , entre as frinchas das janelas de carros apressados faz negócio.

As roupas largas ocultam corpos magros e ferro com bala na câmara, por vezes no asfalto existe drama. Alguém muito aceso pela baforada sai com uma arma na mão . Diz que é o pior filho da puta , dispara para o ar e os fregueses afastam-se assustados. Então tocam os telefones dos putos para os apartamentos barricados entre o labirinto da habitação social e da barraca ainda não demolida . Os telefones dizem ,

Problema.

A voz que já engatilha a pistola metralhadora diz – Baza – e os putos correm , para os contentores e para os baldios. Ao fundo da avenida surge o carro que traz alguém dependurado na janela. O louco do crack encena um gesto lento em direção aos máximos que o encadeiam. A sua mão trémula é escudo débil para a saraivada de balas que o abate como um cão. O atirador escarra-lhe no cadáver e poucos minutos depois o corpo rebola para o fundo de um esgoto a céu aberto.

O alcatrão ganha pouco a pouco o seu aspeto normal quando , um a um , os rodados dos carros calcorreiam de novo a avenida e param junto aos passeios. Nos seus porta luvas os pacotes , entre as frinchas entreabertas os sussurros da quantidade de dose. Partem de cabeça cheia levando nas estrias dos seus pneus o sangue fresco de mais um que se tornou um tag esquecido nos muros .