12 de Novembro – Prova Criminal I

A chanceler olhou , entediada , os rostos magros dos homens que se perfilavam em silêncio ao longo da avenida por onde o cortejo oficial deslizava.
Cansada , adormeceu uns minutos. Sobressalto , na janela ainda as longas fileiras de homens calados. “Todos iguais” pensou . Em seguida passou-lhe pela ideia que talvez devessem ser tatuados com números de série.

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Zé Tóxico – I

O Zé Tóxico é assim. Há vezes que me deixa completamente destruído, outras rei de planetas dos quais já não consigo pronunciar o nome. Por vezes oferenda-me ninfas de língua bífida, riquezas faraónicas que contemplo maravilhado, paisagens de luas mortas onde corro sem gravidade , menino brincando ao pequeno passo do homem .Por vezes as viagens são más.Chegam monstros , horrendos medos , mortes lentas de sofrimento imenso onde o meu grito de insanidade ecoa pelo sofá que fica aos fundos do laboratório do Zé. O laboratório é ilegal , o que lá se fabrica é barato , fácil de produzir e bate muito. O Zé Tóxico é rico. Dizem ser o melhor engenheiro químico do reino dos perdidos, aquele que traz à insanidade da noite todas as cores onde a mente consegue ir. Alguns ,por vezes ,não voltam dessas viagens. A mim nunca me aconteceu. Já estive perto, lá na fronteirinha da terra dos pirolitos a menos , voltei sempre. O Zé diz que o problema não é do produto dele. Mente. Ele na verdade caga bem nos que viraram a molécula cerebral, prefere os que voltam .Os que querem as suas refinadíssimas pastilhas. Os clientes dizem que ele é o Picasso da alucinação. Ele sorri e cobra mais pelo produto. Eu penso que não quero que a sua Guernica rebente dentro da minha cabeça já tão debilitada.
Eu sou a cobaia do Zé Tóxico. É o meu emprego, o meu vício, o meu prazer e medo. Será provavelmente também a minha morte. Uma embolia, as pernas esticadas de repente, o coração a implodir , paredes e artérias corroídas pela minha transfigurada circulação. Nem é uma má morte.. até lá vou fazendo estas viagens. Quase todos os dias abalo da vida sem interesse que teria se não me enchesse de aditivos; como os miúdos tomam o leite antes de ir para a cama aterro regularmente na casa do Zé Tóxico por voltas das oito . Ultimamente já nem janto, não gosto de acordar a tresandar a vómito por muito boa que seja a viagem . Mas a voltinha no carrossel dos insanos eu não dispenso. Vivemos praticamente no laboratório. Nós os três, eu , o Zé e a Zombie. Não sei o nome dela por isso resolvi dar-lhe esse nome. Ocupa a grande cama que fica do lado oposto à parede onde se encontra o meu sofá, os meus alguidares para o vómito, o desfibrilador que o Zé insiste em ter por perto juntamente com a gringa tamanho XXL carregada de adrenalina. O Zé diz que um dia vai ter que me trazer de volta. Se não o conseguir não me importo muito. A Zombie não diz nada sobre o discurso do Zé sobre a minha possível reanimação. Na verdade o raio da mulher pouco fala. Encontra-se quase permanentemente num estado de letargia profundo sobre o leito onde os lençóis nunca conheceram lavandaria. O meu sofá é igualmente nojento. A Zombie dorme enquanto eu tripo , a Zombie dorme enquanto eu esfrego em perfeito descontrole todo o meu corpo para me livrar do exército de escaravelhos que debicam todos os milímetros da minha pele (H3401) . A Zombie ressonou durante a longa noite em que algo terrivelmente quente e corrosivo (Q97R2) consumia as minhas cordas vocais e laringe ; gritei para não morrer. Quando regurgitei veio o efeito secundário do químico, os restos da minha digestão fora apresentado em tons de sangue enriquecido por lascas de tecido morto extraído do meu próprio fígado. Enquanto isso acontecia a puta da Zombie dormia.
Mas por vezes ela não dorme. O Zé Tóxico injeta-lhe algo que liberta a deusa de todas as insanas, ninfomaníaca de batimento cardíaco superior as cento e oitenta , olhos feitos globos de predadora de tudo o que a carne pede , até as coisas mais proibidas. Já fiquei muitas vezes a assistir às suas cavalgadas loucas sobre o corpo magro do Zé Tóxico. Ele parece gostar que eu veja. Uma vez , visivelmente bem disposto, emprestou-ma . Juntamente com algo a que ele chamou o Rochedo dos Deuses ( XX069) aguentei-a firme e obsceno até à manhã raiar. A seguir ela adormeceu. Quando despertou tinha de novo o mesmo olhar ausente. Já não se lembrava de mim dentro dela. Melhor assim. O que há a fazer é esquecer , limpar a mente de todas as coisas que possam na realidade ter acontecido. Apagar, viajar, dormir e voltar desperto, limpo de emoções e culpas como um lactente das bolinhas sorridentes do MDMA e derivados.

Não tenho razões para viver de outra forma , já não me importo. Todos os dias são iguais e são apenas bons aqueles onde posso esquecer o mundo que me deram e agradecer a deus por me deixar decair desta forma sorridente , uma mentira de felicidade que me leva a consciência e largas quantidades de neurónios em macaréus roubados ao mais insano que existe na tabela periódica . O Zé Tóxico diz que o messias se chamava, na verdade, Moseley ; eu não entendo do que ele fala mas há tanto sobre o qual já não consigo articular palavra que , provavelmente , ele terá razão na sua firme crença. Por vezes digo ámen quando uma pastilha especialmente feliz na sua conceção termina a sua maturação no meu ácido estomacal e , em seguida , as tais ondas gigantes por que anseio, a saliva transfigurada em sabor de fármaco e o cérebro , e os olhos . O cérebro e olhos, meu deus, fecham-se neste lento decair de lábios feitos sorriso, a derrocada da babel de tudo o que ainda é real em mim . Perco o controle de mim. Já é frequente que se contorcionem involuntariamente os membros em espasmos que tanto poderão aparentar a convulsão do orgasmo extremo ou o estertor dos últimos momentos.
Sou a prova viva que o ácido pode ser consumido por largos períodos de tempo. O Zé Tóxico diz que se legalizassem a trip eu seria apresentado como case study a sisudos executivos de farmacêuticas que salivariam para me dissecar e tecer ambiciosos planos de negócios baseado na longevidade da minha carcaça.
Hoje veste a gravata negra sobre a camisa branca . Na imaculada bata pode-se ver bordado em letra rebuscada sobre o bolso do peito ,C20H25N3O
Hoje estou um bocado preocupado. O Zé disse-me que ando a falhar no relato das minhas experiências. Que aquilo não é um negócio de droga. O tráfico apenas alimenta a ciência. Ele diz. Acho que tomou algo. Ele diz que tem que saber tudo, que tenho de lhe contar onde vou. Eu digo que o faço. Ele enfurece-se e passa no monitor de muitas polegadas a gravação vídeo da minha última entrevista. O fio de baba que me escorre do canto da boca em direção ao logótipo da HP e o meu monólogo de latidos e uivos lupinos são de facto parco contributo para a ciência.
O Zé Tóxico tira do bolso da bata uma seringa plena de um liquido cor rosa onde no interior navegam pequenas suspensões negras. Ele diz:
– Isto vai doer com’o caraças a entrar – encolhe os ombros – para a próxima a moagem será mais fina.
“Merda de Humor “ penso enquanto desaperto o punho da camisa e exponho o braço direito. O esquerdo está inutilizável. Quero saber:
– O que é essa merda ?
O Zé Tóxico olha-me fixamente e tosse um pouco antes de falar. Isso quer dizer que não tem bem a certeza do que misturou. Eu vejo a mão dele tremer. “Foda-se ,que não sabe mesmo”
A mão livre do Zé Tóxico rebusca um dos bolsos laterais e descobre um comprimido. É vermelho e negro . Ele nota a perplexidade na minha cara perante a proposta da mistura do produto injetado com a pastilha deglutida. Clarifica.
A minha péssima prestação nas mais recentes sessões de cobaia obrigou-o a criar um catalisador de memórias. Como já percebeu que não consigo falar decidiu tentar a minha capacidade de descrever os momentos que passei nas nuvens mágicas da aldeia de lá –lá- lá através da escrita. Para esse efeito serve a solução que espreita através do vidro . O embolo acaricia a sopa que está prestes a entrar em mim.
E o comprimido? Quero saber.
Abrindo-me os lábios com meiguice o ácido é depositado. Olho nos olhos do Zé e vejo um sacerdote que oferendou sacramento a um fiel. Fecho os olhos e rezo a uma boa viagem. Oiço a voz do Zé Tóxico explicar:
– Chamei-lhe “O Sepulcro do Rei “ ( RIP003) ;é uma encomenda dos góticos. Procurei um ambiente extremo de claustrofobia onde a asfixia e o medo se mesclassem com a total ausência de luz, cegueira total. A duração do produto pode ser um problema – uma pausa que já começo a ouvir ao longe – será que aguentas umas cinco horas enclausurado na sepultura? Sem veres nada , quase sem conseguir respirar?
Oiço pazadas de terra tombarem sobre a madeira que está a escassos centímetros do meu rosto. Os meus braços estão cruzados. Não posso escrever agora. Se voltar contarei.

Londres – Shots de uma revolta I

Fechado nesta cave , este cachimbo esta chama que me leva para o céu triste londrino , este cachimbo que chama com uma raiva inaudita. Para as ruas, capuzes , mãos nos bolsos , contentores , montras de chinocas e começa a chover e começam os tiros , ardem contentores , ardem casas , já tenho uma consola , sapatos novos . No bolso os móveis chamam para outros lados antes que a porcaria apareça nos seus coletes verdes e no seu passo hesitante de tanta civilização. Há bendita Commonwealth que nos tornas tão difíceis prisioneiros. Mais uns polegares , mais uns focos de incêndio e se me perguntares a razão tal não existe . é tudo tão confuso nesta cidade que anda tão depressa, toupeiras apressadas de gabardines de tons escuros , sapatos desportivos , atletas de auscultadores aspirando o smog , taxa de congestão, congestão dos meus sentidos na ponta do vidro. Smack em soho. E continuamos a corrida da pura destruição. Queremos e levamos , ao meu lado duas miúdas que devem conhecer há pouco a menstruação espancam a pontapé os restos de um mostrador Armani,;na rua contígua morrem dois coreanos , imolados em seus negócios familiares.
Gritamos :
Urrahhhh.
Urrrrahhhh .
Urrrahhhh !!!!!!

Do Rock – The Doors

Esta noite não há concerto.
Sobre o palco decorre uma farsa. Cantam-se as canções do poeta em voz de falsete sobre a magia do laser e o vazio que ecoa em som digital. Os Doors terminaram quando a porta acolchoada do estúdio se fechou, quando na seda que revestia as paredes ficaram marcadas as impressões digitais do grande álbum de blues que Jim Morrison sonhara.

Depois veio Paris , a poesia , Campos Elísios púrpuras e a morte que o veio buscar de barba longa , purificado pelo banho.
Não se pode recriar o poeta .O rei lagarto que nos fez arder no calor tórrido do deserto da nossa alucinação apenas pode ser santificado em velas lentas em Père Lachaise.Um charro entre as lápides fugindo ao olhar do Gendarme e da viúva indignada , um bafo cedido ao coveiro para poder orar bem junto à campa do Senhor Mojo.

Esta noite não há concerto dos Doors no Atlântico.
Ícaro pedrado que voava a centímetros ácidos do piso do palco. A chuva de cigarros de marijuana e pastilhas de LSD que aterrava aos pés do profeta da longa estrada não irá acontecer esta noite em Lisboa. Jim está morto. Demasiado limpos os homens e as mulheres assistirão ao embuste. Beberricação de cervejas patrocinadas; um ocasional charro levantará os protestos de um espetador não fumador.

Esta noite não há concerto dos Doors no Atlântico.
No vazio do parapeito de um andar alto , equilíbrio precário que se compromete com o esvaziar da garrafa de mescal , balança o fantasma , arauto de mais uma vitima mortal de cabeça inquieta. A obra do poeta persiste nos rasgões de alma que destroem a noite, relâmpagos fazem brilhar supernovas nos olhos que procuram entre os filamentos da intoxicação o motivo para mudar mais uma vez. Sempre em constante mutação, camaleões que se deixam ir e dançam como habitantes de todo o planeta.

Ambrósia dos dementes, mescalina entre as dunas do deserto. Hóstia peyote , Huxley revisitado entre os cânticos do xamã e a super oito de imagem trémula , sempre a mudar a perspetiva . Sempre a chamar o comboio que leva a outro lado , sempre a procurar um ritual de purificação e a palavra declamada .

E nos arredores do pavilhão os carros passam rápidos. No banco da estação de comboios, garrafa quase vazia, sobretudo coçado e oscilante, olhos perdidos no mundo cruel , o afagar da barba , o sorriso desdenhoso pelo fim que se aproxima .
O som do espetáculo ,em formato digital e com vídeos walls exibicionistas das danças daquele que já não está connosco, ecoa tão alto que invade o espaço do terminal ferroviário.

O grande final faz-se na gare vazia, passos de dança de um profeta vomitado e re-encarnado, rodopio de braços abertos , gritos de alegria , a celebração do terminal , entranhas ardendo no fogo que destrói a noite e divide os dias entre bares e celas de prisão . Bidões ardendo , fogo fátuos feitos de fortíssima destilação , o espírito do Senhor Mojo a possuir o vagabundo , o gesticular do corpo , o tremor do queixo ,a emoção de proferir palavras sobre a vontade de foder a mãe e matar o pai. Sempre a rodopiar, sempre a rodopiar, a coronária à beira do colapso e como um asteroide o corpo tomba sobre o cimento . Redondo e morto . Isto foi o fim.

No palco do pavilhão pede-se um minuto de silêncio . A alma do poeta indignada ordena que o velório seja feito pelo restolhar das mortalhas , das gargantas a deglutir o quarto de pastilha , o gemer dos amantes , as palavras de um grande mestre trovador. Maças de Adão deglutindo a água do brilho da lua devem marcar o ritmo da cerimónia fúnebre.

À ventania de uma estrada esquecida deve ser entregue o seu espólio mortal .E as gentes que ainda se lembram de viajar nas asas de uma serpente cor de luz devem dançar em sua memória, não perante falsos deuses mas entre as linhas de uma oração americana que disse que era tempo de abrir as portas da perceção e perguntou se não havíamos ainda aprendido as negras lições de ser sano.

Dos altos da Serra de Sintra

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se escutava , o uivo do lobo cinzento veio. Desceu as encostas lesto, levado pelos nevoeiros e pelo frio que vinha do oceano. Entrou em primeiro lugar nos condomínios plantados à beira do “green” . Olhos de feições corrigidas e ganância inelutável fitaram em pânico o teto temendo a derrocada dos mercados. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam, o apelo da alcateia inquietou orçamentos curtos e dívidas em crescendo eterno. No quarto de poucos metros quadrados a menina percebeu que amanhã o pai também não teria trabalho; o grande lobo que descia a avenida deixava marcas de garras em carros ainda de prestação longa, os canais rodavam lentos nas televisões, dedos do medo de amanhã a tudo tentar esquecer.

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se sentia , desceu uma fome de gente saloia minguando aos poucos . O obsceno cheiro a caviar das mansões repeliu-a como um vómito largado por um pedinte, chefe de família desonrado, na ruela que leva às casas de mesas parcas. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam ,o cheiro a privação apertou, ainda mais , cintos em barrigas algo crescidas de fome. Rufando por portas de vergonha , de decência mostrada e não sentida ,a míngua entrou nos bandulhos de tantos, como há tanto neste reino não se via.

Do Rock – Crazy Horse

O canto do olho do Jorge Passado , meu companheiro de drogas e festivais , chamou-me para uma conferência das opções possíveis de subida aos céus em virtude das más condições climatéricas. Disse assim:

– Foda , pá , foda-se, pá . Pá, está a chover com’a merda . Então pá? O que damos pá ? (uma generosa linha de branca antes de sairmos do carro era o motivo para o atabalhoamento do seu discurso)

A minha sinusite impediu-me sempre de desfrutar a plenitude dos prazeres da senhora branca pelo que me encontrava menos afetado que o meu compincha. Apelei ao bom senso:

– Temos que meter as trips ,pá ! Já viste o que chove ? Fazer ganzas ? – Jorge acenou que não – Fazer um risco ? Jorge discordou:
– Fica tudo em papas – depois levantou a cabeça numa pergunta que era a esperança de muita alucinação naqueles olhos dementes. Eu tinha a resposta:

– As trips pá . Vamos ver os cotas com cores bonitas! – O convite agradou a Jorge Passado. Eu não imaginava a barbaridade que estava a dizer. Tomei a pastilha cerca de trinta minutos antes do início da maior tareia de rock n’roll que apanhei.

Quando Neil Young e os Crazy Horse subiram ao palco chovia copiosamente, os homens com rugas feitas de noites de guitarra ,bateria e baixo olharam as grossas gotas com desprezo . Um subiu a gola do casaco mas as mãos rudes e calejadas de eternas horas a dar no bordão da guitarra baixo não hesitaram um segundo. Tinha um trabalho a fazer. Quando a banda encarou a plateia, o grande lamaçal de Vilar de Mouros, havia o brilho de sexo , de drogas e de muita veteranice das coisas do rock. Quando as guitarras entraram Neil Young arrancou um solo que parecia dizer à borrasca que se aguentasse que agora era a hora da eucaristia do deus dos roqueiros .Um frenesim percorreu a multidão , algo mais subtil que a histeria das entradas das bandas de sucesso comercial, um “ummm”, as cabeças a abanar ligeiramente , os pés a acompanhar o bombo.
Olhei em volta, nesse momento o ácido era uma parte de pleno direito da minha corrente sanguínea pelo que ganhei aquele voyeurismo que caracteriza a viagem. Sondei com olhos plenos de relâmpagos de luz o terreiro fértil de gritos de insubordinação e grandes noites de música. Vi algumas caras conhecidas. Um dos Xutos , um antigo traficante de cavalo lá da minha terra , três tipas que gostaria de ter na minha tenda ao final da noite , um maluco que costumo ver em todos os concertos onde as guitarras são rainhas. Todos os olhares estavam siderados nos homens sobre o palco. Havia um certo drama no ar, como se no imaginário coletivo a chuva incessante fizesse que o guitarrista, dedos rápidos e alma fundida com o instrumento, arriscasse a eletrocussão num duelo entre o trovão eminente e a distorção habilmente trabalhada pelo “slide”.

Quando o tema terminou o público aplaudiu com vigor. A banda apenas agradeceu com um acenar de cabeças, como quem agradece uma imperial e arrancou logo para o tema seguinte. O baixo e bateria malharam um ritmo bem marcado até o líder da banda, o canadiano Neil Young , uma lenda viva do rock , acabar de beber o que me pareceu ser cerveja e arrancar ao breu da noite as almas dos que assistiam ao seu espetáculo. De olhos fechados, à beira do palco , a catadupa a escorrer pelo corpo da Fender Stratocaster , as cordas a brilhar , um caleidoscópio feito de notas distorcidas , a aura do grande solo. A cabeça para trás, o cabelo longo mas já sem glória, escorrido da água de Vilar de Mouros. O transe; o dele, o meu.

No lamaçal as brumas de setenta e um misturaram-se com os ácidos de Woodstock e a branca refinada e barata dos dias presentes. No centro de uma poça de água dançava uma mulher, ainda jovem , firmeza no seu busto exposto , os longos cabelos negros eram cataratas de ocultação do seus seios generosos, uma tatuagem de escorpião junto à cintura. Estendeu um braço ao homem à beira do palco. Ele viu-a.
Eu estava agora mais próximo, do palco e da jovem que chamava o velho músico. Havia algo prestes a acontecer. O ácido permitiu-me um ínfimo detalhe na minha observação. Que algum deus abençoe os engenheiros das boas químicas. Procurei nos olhos de Neil Young , um sorriso de desafio rasgou assimetricamente a boca onde os dentes conhecem o sabor de todos os fumos do mundo . Desafio. Havia um desafio feito no gesto daquela mulher de mamas ao léu que apelou a algo. Não era luxúria, era algo que aquele homem conhecia bem. Milhares de palcos, noites e noites perante multidões, trazem um carisma a alguns homens. O que sucedeu foi, no meu psicadélico entender , a honra do overdrive , o momento em que o rock se torna duro e a luxúria é ejaculada na forma de uma sequencia de cordas, torturadas ao limite , uma palheta que se assemelha a uma língua sobre a vulva, o cilindro metálico no dedo médio deslizava ao longo do braço da guitarra ; o efeito era óbvio. Ela reagiu ao homem de pernas abertas, instrumento extensão de si mesmo; a cabeça atirada para trás, a chicotada da longa cabeleira encharcada nas costas, todo o esplendor revelado; os meus olhos feitos microscópio vislumbraram o enrijecer dos mamilos perante a chuva e a música. Aquele solo era dela, aquela visão era dele.

Com um sorriso e um piscar de olho o musico voltou ao microfone, uma manta cobriu a nudez da rapariga. As palavras falavam sobre uma rapariga de canela. Olhei-a de novo, de facto o sol havia criado na sua tez o dourado apetitoso da especiaria.

Do Rock – Manowar

Já regrediste ? Já voltaste , por uns momentos , a tempos que já foram , ao corpo que conteve a tua imortal alma ?

Sentiste o apelo das armas entre os ventos fortes das montanhas das terras a norte ? Ouviste o baixo poderoso a marcar o passo da legião que se aproxima, o respirar tranquilo dos teus irmãos de armas, silenciosos entre o arvoredo, nos punhos os machados e as adagas que bem conhecem a carne romana.

Debaixo dos meus pés o solo do Dramático de Cascais desfez-se perante a carga que ecoava no bombo duplo e no grito guerreiro. Entre a muralha sonora, a congestão dos sentidos e os danos cerebrais algo encontrou o caminho para me levar dali , aos primórdios , às fileiras dos primeiros orgulhosos do seu Luso nome.

Na minha cabeça ecoava a ordem que escutara antes da partida.
O poder de matar com toda a fúria que existe neste afiado cutelo que empunho. A saliva seca.

No desfiladeiro surge a águia romana. Os meus irmãos encostados aos enormes pedregulhos arquejam as costas. Imediatamente atrás deles os arqueiros e os homens da funda . Depois a minha linha , combate corpo a corpo , correremos lestos a ladeira para acabar com os romanos que restarem da chuva de pedra e aço que, em breve, se irá abater sobre eles.
Conto os momentos com o pé a marcar o ritmo de uma canção que não é destes tempos.

Então soa a trompa de Viriato e o inferno desaba sobre os homens de César. As pesadas rochas traçam clareiras de sangue e osso esmagado nas linhas ordeiras da legião. Ferro temperado nas fogueiras dos castros silvam através dos ares e desmantelam a tentativa de formação de um quadrado defensivo. O inimigo está confuso. É o nosso momento
Ergo os punhos ao céu e apelo aos deuses que forjaram o metal nas minhas mãos que este cause morte extrema no inimigo. O grito de guerra , primitivo português mas a palavra , sim , essa já existia . Grito-a enquanto corro como louco liderando a carga da infantaria :
Morre ! Morre !

Invoco os nossos Deuses forjados do aço e do sangue dos nossos antepassados e trespasso o primeiro inimigo com um firme golpe ao pescoço desprotegido de elmo. O sangue encharca-me a face . Limpo a visão e encaro um decurião de espada empunhada, está cercado dos nossos mas é a mim que me encara. Faço o gesto aos meus irmãos de armas para que recuem. Será combate de homem com homem, invasor contra homem da terra onde o sangue se derramará. Mano a mano.

O romano bate-se com valentia mas termina decapitado pelo manejo rápido do meu machado forjado nos fornos de Lusitânia e abençoado pelas montanhas da lua e as falas dos anciões. Ergo meu troféu perante o horror dos restantes soldados inimigos que , rapidamente , depõem as armas mas, para sua má fortuna , nenhum poderá viver em nosso território . Todos passamos à lâmina.

No final do dia os seus corpos ardem numa pira erguida no campo de batalha. Os brados de triunfo, a cidra corre livre . A vitória de um povo inala-se nos corpos mortos dos seus inimigos e nos seus bravos cantos de glória