Caminha Lucília

Essa miséria a que me vetaste, o teu silêncio será o teu fim, Lucília. O escárnio , cornudo público que procurou outras ruas para ser este outro alguém . Mas a vida não foi generosa, Lucília, concedeu-me apenas uma subsistência, uma condição mental que é de grande perigo para a tua integridade e esta persistência em não perdoar.

Tenho seis balas para ti, minha cadela. Irei cravá-las, uma por uma no teu peito que agora me negas, eu sei que é errado mas apenas nisso penso. Desenhar em ti morte violenta em calibre quarenta e cinco.

A tua traição fez-me uma criatura de ódio, após a vergonha inicial ergui-me pleno de um único propósito. Matar-te, abater-te sobre a cama onde recebes aqueles que achas dignos. Eu, indigno , arma na mão , o final dos teus dias de puta.

Estás nervosa ao ler esta carta. Podes olhar em redor pois estou nas cercanias de ti. Algures num armário, à porta da frente, posso estar sentado numa das espreguiçadeiras da varanda a admirar a vista que nunca me concedeste. A ganhar mais um motivo para te executar com um extremo prazer.

Não procures o telefone. Está cortado. O telemóvel já foi retirado da tua carteira. A Net também já era. Somos só nós agora. Eu , tu , bela Lucília e este revolver carregado.

Amanhã nos jornais falarão de nós em caixa pequena mas alguém se lembrará deste amor rastejante que me leva a viver contigo na minha doente mente e apenas vislumbrar o momento em que a carne explode perante o impacto do disparo?
Estômago . Dói brutalmente e não mata imediatamente. O teu útero, ninho da descendência que me negaste será também baleado. Lucília, Lucília. Podes-te levantar e caminhar para o quarto. É inútil a resistência.

Tenho um bom motivo para a tua obediência. Ou vais para o que devia ser o nosso quarto, a nossa cama , a nossa colmeia , ou espeto um balázio nos cornos do teu fedelho de merda , este bastardo que dorme sobre os anjos do éter. O cano está encostado á sua têmpora esquerda.

Agora, caminha Lucília.

Do Rock – Black Keys

Um homem só, apenas ele e o rugido dos dois tempos. Sulcos de pó em sua face , suástica no depósito em forma de lágrima. Deserto , calor infernal , horizonte imenso.

Algures , noventa e oito milhas entre o braseiro das pedras que brilham ao sol e os cadáveres de montanhas , na berma lagartos atropelados , uma bota ;lá ao longe fica Black Keys. Quatrocentos habitantes, cinco bordéis, dois bares de motoqueiros, uma oficina e uma loja de armamento. Algo afastada da povoação, como a pedir que não haja problemas , uma loja de conveniência é frequentemente assaltada.

É para Black Keys que se dirige a moto de longa extensão, a posição de condução com os braços bem levantados , cabedal nas vestes e orgulho no olhar caracteriza o condutor como um anjo do inferno. A grossura dos braços, as tatuagens rubis , a longa barba que esconde um queixo ,deformado pelo ferro  onde são inúmeros os  lenhos que as navalhas ceifaram, acentuam a postura agressiva. Por baixo do elmo das tropas de choque nazis os auscultadores , duas guitarras sujas e uma voz que fala sobre a estrada. Não nenhuma estrada em particular, apenas o negro por onde as rodas rolam.

Quando o vento traz o pó sente-se no ar o perfume ébrio dos cadáveres que jazem nas redondezas de Black Keys. Contas feitas , coisas de homens duros. Para fugir ao acre refugiam-se os transeuntes junto ao varão onde está Pam Horny . Dança indolente, mamilos marcados a ferro , olha o relógio enquanto marca pastilha e recebe uma nota na tanga. Então, entre os compassos da nudez , ela escuta o som que desce estrada abaixo. O latir de um cão é abafado pelo cavalo de aço que chega a toda a brida. De contentamento a bailarina oferece uma proximidade maior dos seios ao rosto daquele que deu a melhor gorjeta.

Na manhã seguinte, após os lobos terem uivado ao ritmo da cama de ferro que o homem da Harley e Pam fizeram ecoar a noite toda nas suas cavalgadas colossais entre o prazer obsceno e as aspirações de cocaína que lhes traziam os olhos feitos de uma imensa sede de inundar de suor as tatuagens que cobriam ambos os corpos.

A alvorada apresentou um homem e uma mulher envelhecidos, antigos budas da estrada 66 incapazes de ocultar, apesar da indumentária e do passo gingão , que a metade da existência já tinha sido bem ultrapassada. Partiram para o condado de Salem, a mão do condutor afaga a coxa da Pam Horny, ela sussurra-lhe ao ouvido que se naquela mota não vai um amor eterno o melhor a fazer é acelerar a montada de aço e explodir contra uma rocha.

Voz

Veio numa noite de sexta-feira quando a solidão deles era mais profunda. Eram quatro da manhã quando os rádios falaram. A voz chegou por todas as casas daqueles que pouco de feliz podem atribuir à vida. Gente sempre com medo, gente tão feia, gente tão magoada que não ousa a partilha. Famílias que já não existiam, opção, alguns para fugir da seringa que embala os arrumadores flutuantes sobre os estacionamentos à beira do Tejo, outros necessitados de hospício. As idades eram tão variadas quanto as cores das tezes ou a propensão dos órgãos para os atos sexuais.

A voz, semelhante a um grasnar insistente que repousava sobre uma banda de sonora onde se distinguiam, entre as batidas, gemidos de prazer da mais variada natureza, incitava-os a saírem à rua; assim como estavam, pijamas, chinelos, nada, short, tanga, négligée empoeirado. Incentivava-os, hipnotizava-os, era irresistível o apelo que aquela voz que não podia pertencer a espécie humana lançava. Cobertores deitados para trás, colchas de sofá abandonadas, os cartões de um grande frigorífico devolvidos á condição de lixo.

Na rádio, na estação mais popular da cidade, o locutor soube que algo estava a acontecer. Dentro de si a voz ordenou que tocasse fanfarras à penetração, ritmos de tempos do acasalamento. E assim, também já profundamente excitado, o homem do FM estéreo lançou um grunhido de macho necessitado e embalou uma noite onde a voz da carne cantou mais alta que qualquer outra.

Nos becos, nas vielas, casas de porta aberta, carros, no aconchego de uma sebe, aqueles que a voz chamara despojavam-se de seus uniformes solitários e entregavam-se em todos os formatos imagináveis às coisas do deboche.

Algum tempo depois, soou a trombeta do anjo da morte e todos os que copulavam morreram.

A voz foi generosa. Deixou que todos os defuntos gozassem o último estertor no momento do orgasmo mais brutal que todas as suas vidas haviam conhecido.

Na rádio, o piquetar da agulha sobre o final do trinta e três rotações e o riso da voz.

Tombado no chão o locutor e sua mascara terminal de êxtase, a seu lado o desdentado sorriso do homem da limpeza. Ambos os sexos repousam  vazios de vida.

O que dirá esta cidade com tantos lares pequenos na manhã seguinte? Quando os noticiários se atafulharem nos corpos nus e satisfeitos que surgiram por toda a cidade, o que sucederá?

Virá o medo ou dedos fartos de estarem ausentes da vida rodarão as frequências procurando o apelo da voz?

Alta Finança para Dummies – High Flyer 2/2

Entretanto, no décimo nono piso do Hyatt de Atlanta, John Goodwill tenta repousar depois dos oito workshops nos quais mentiu sobre o portal que ainda não existe e papagueou figuras e tabelas redigidas pelo seu anjo empresarial. Ao canto da sala, ausente da luz do púlpito e da radiação do vídeowall, Evermore toma notas. Goodwill é hesitante no discurso. No vidro tátil “ Mais agressividade comercial. Contratar VP de Marketing”.
John sua, o nó da gravata foi rudemente alargado como se de aguilhão incandescente se tratasse. A garrafa de vinho é consumida com a voragem de alguém que sabe que tem muito que fazer, a infernal tournée de angariação de investimento está a sugar-lhe o tempo para o seu projeto. A aflição é imensa; envia uma mensagem privada a Evermore. “Precisamos de começar a desenvolver. Preciso de voltar “
Minutos depois, Evermore em pessoa, partilha o conteúdo de uma caixa de prata com Goodwill. Ainda atordoado pela pureza da matéria recebe a visita de Conchita . Evermore retira-se, ao fechar a porta adverte :
-Foda mas não se atrase para o jantar com o congressista.
Durante os meses seguintes John Goodwill fodeu as Conchitas de vinte e nove estados, comprou um Porsche e passou a ter a sua própria caixa de prata que fazia par com um elegante aspirador em platina. No espelho que cobria o interior via frequentemente os seus lábios ganharem a rigidez de uma linha. Desenfreado pela proximidade da IPO e pela acumulação de capital mudou-se para um elegante loft em Manhattan e tornou-se popular nos clubes mais sofisticados. No quadro de empregados da Goodwill apenas vigora o seu nome e as empregadas de limpeza que removem o pó das secretárias e das estações de trabalho abandonadas à inexistência da corporação.
Então, exatamente quinze dias antes do lançamento em bolsa, John Goodwill foi chamado com urgência ao escritório do seu tutor. Pareceu-lhe que a mesa que o separava de Evermore era maior de que outrora, o nó de gravata do investidor estava mais apertado que o costume, as mãos abriram-se, um tom de condescendência misturou-se com o olhar de lobo faminto:
– John. Tens duas semanas para nos mostrar qualquer coisa da tua plataforma. Está na altura de começares a escrever código
Num primeiro ímpeto encorajado pela cocaína, John aceitou o feito referindo a necessidade de uma equipa de desenvolvimento de quarenta elementos que trabalhasse num regime de vinte e quatro horas. Uma pequena risada antecedeu o primeiro corte orçamento da Goodwill Inc:
– Sabes quanto isso custa? Tens nove programadores, dezoito horas por dia. Mostra-me algo bom John – A mão acenou o final da reunião – Os olhos cravados nas costas de Goodwill reiteraram o aviso:
-Quinze dias para fazer algo de jeito que justifique o interesse dos investidores.
Durante as duas semanas seguintes várias coisas aconteceram.
Um enlouquecido e paranoico John Goodwill berrava ordens contraditórias de depuração de um código que parecia uma babel saída dos dedos inábeis de programadores de baixo custo. A pressão que sentia na nuca era uma dor que aliviava com frequência nos lavabos. Em seguida percorria o espaço aberto em passo acelerado, olhar demente sobre os ecrãs onde um desastre iminente tinha apenas página de entrada e um script de subscrição.
Todos os dias, exatamente dez minutos após o fim do horário contratado com os programadores, Evermore visitava as instalações. Aprazia-se pelas secretárias estarem vazias e, portanto, os custos controlados. A presença de John à secretária era eternizada pelo café em formato extra gigante e a sanduíche embrulhada em papel pardo. A pergunta de como estavam a correr as coisas era meramente retórica. Evermore reconhecia nas múltiplas gotas de suor que cobriam a testa de John Goodwill os sinais do vício e do fracasso.
No dia seguinte Evermore teve uma longa chamada em conferência. Para um tipo branco, republicano e com um PAR invejável o seu mandarim era surpreendente.
Cego às dificuldades de Goodwill o mercado atacou o título como um bando de piranhas em jejum forçado quando o mesmo surgiu nos monitores de transações. No Iowa, num confortável sofá, mãos enrugadas esfregavam-se de contentamento e a quilha de um veleiro começava a sair das brumas do sonho.
Ao nono dia de mercado a valorização bolsista superava os oitocentos pontos percentuais, os corretores berravam incansavelmente “compro, compro” ao papel da Goodwill. Na Internet o portal colapsava após o primeiro milhão de acessos.
No último piso de uma torre de escritórios com vista para o buraco imenso do chão zero, o sobrolho de Evermore encurvou-se e percecionou que era hora de agir. Consultou rapidamente os relógios presos na parede e confirmou que iria acordar alguém em Pequim. Marcou o número e desta vez o seu mandarim confundiu-se com o esperanto da linguagem de negócios e a palavra patente foi assegurada várias vezes.
Após a linha intercontinental se ter cerrado a mão de Evermore dirigiu-se ao teclado e libertou para o mercado uma enxurrada de ações da Goodwill a quarenta por cento do valor atualmente cotado. Neste gesto efetuou uma mais-valia de noventa e oito milhões de dólares e lançou a bomba fatal à Goodwill Inc. O mercado entrou em pânico, na sala de servidores da companhia um tresloucado John arrancava os cabelos e pontapeava um armazenamento de rede profícuo em luzes vermelhas de erro.
Na manhã seguinte a Goodwill entrou no mercado como um cão espancado quase até à morte. Transacionava na casa dos cêntimos. No Iowa as mãos enrugadas agarraram a cabeça em desespero e os pés saíram dos quentes chinelos e conheceram o frio do soalho, como se soubessem que o resto do Inverno iria ficar.
Uma semana depois dois advogados de uma das obscuras empresas de Evermore voaram em primeira classe para a China. Ao mesmo tempo John Goodwill foi notificado da sua destituição e informado que a patente industrial do portal que havia cedido nos termos do acordo com Evermore havia sido transacionada por valores confidenciais. Os termos e condições do seu contrato auferiram-lhe quatrocentos mil dólares de compensação, um seguro de saúde por mais dois anos e um selar de lábios eterno. John Goodwill assinou, uma das suas gotas de suor tingiu uma cláusula. Robert Evermore aconselhou:
-É melhor ires à casa de banho. Sujas-me o contrato.
Em seguida partiu para sempre da vida de John Goodwill.
Em Pequim, trinta minutos após a assinatura do contrato para o desenvolvimento do portal, noventa e dois programadores atiraram-se ao código com a fúria dos tigres. Cinco dias depois estavam online.
Cinco dias depois, pela noite nova-iorquina, John Goodwill sentado perante a janela panorâmica do seu apartamento parecia não sentir a labuta de uma Conchita de Queen’s.
Insatisfeito, incapaz, dispensou os serviços da prostituta e esperou que os saltos deixassem de martelar o mármore frio por onde se entrava em sua casa.
Abriu o jornal e encontrou a cotação da sua empresa, o ticker GWL, nas ruas da amargura empresarial. Um artigo de opinião acusava-o publicamente de uma incompetência atroz que manchava a perceção e confiança globais no empreendedor americano. Na página catorze passou desapercebido a John uma pequena notícia que dava conta do grande sucesso de um portal de empreendedorismo desenvolvido na China com financiamento de capitais de risco das sociedades Evermore.
Na página das cotações a Goodwill valia quatro cêntimos. Numa casa no Iowa uma voz de mulher envelhecida e plena de raiva acusava o seu esposo de como pudera atirar ao lixo todas as poupanças de uma vida, mãos trémulas pediam clemência.
O vidro quebrou-se e John Goodwill foi, tal como alguns dias atrás a sua empresa o tinha sido, um “high flyer”. A sua queda de anjo durou a brevidade do seu sucesso e terminou com aquela ideia que tinha tido em Des Moines mesclada e esquecida na massa encefálica que cobria o asfalto. Legalmente aquela ideia já não devia ali estar. Era patente de uma sociedade sino-americana com sede nas Bermudas.
No Iowa, mãos teceram o nó. Na manhã seguinte um corpo abanava na árvore em frente à casa. Os ventos do mercado embalavam o cadáver.
[sub][i]*Alta Finança p Dummies – Acrónimo usado para otimizar o tempo de leitura.
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Entretanto, no décimo nono piso do Hyatt de Atlanta, John Goodwill tenta repousar depois dos oito workshops nos quais mentiu sobre o portal que ainda não existe e papagueou figuras e tabelas redigidas pelo seu anjo empresarial. Ao canto da sala, ausente da luz do púlpito e da radiação do vídeowall, Evermore toma notas. Goodwill é hesitante no discurso. No vidro tátil “ Mais agressividade comercial. Contratar VP de Marketing”.John sua, o nó da gravata foi rudemente alargado como se de aguilhão incandescente se tratasse. A garrafa de vinho é consumida com a voragem de alguém que sabe que tem muito que fazer, a infernal tournée de angariação de investimento está a sugar-lhe o tempo para o seu projeto. A aflição é imensa; envia uma mensagem privada a Evermore. “Precisamos de começar a desenvolver. Preciso de voltar “Minutos depois, Evermore em pessoa, partilha o conteúdo de uma caixa de prata com Goodwill. Ainda atordoado pela pureza da matéria recebe a visita de Conchita . Evermore retira-se, ao fechar a porta adverte :

-Foda mas não se atrase para o jantar com o congressista.Durante os meses seguintes John Goodwill fodeu as Conchitas de vinte e nove estados, comprou um Porsche e passou a ter a sua própria caixa de prata que fazia par com um elegante aspirador em platina. No espelho que cobria o interior via frequentemente os seus lábios ganharem a rigidez de uma linha. Desenfreado pela proximidade da IPO e pela acumulação de capital mudou-se para um elegante loft em Manhattan e tornou-se popular nos clubes mais sofisticados. No quadro de empregados da Goodwill apenas vigora o seu nome e as empregadas de limpeza que removem o pó das secretárias e das estações de trabalho abandonadas à inexistência da corporação.Então, exatamente quinze dias antes do lançamento em bolsa, John Goodwill foi chamado com urgência ao escritório do seu tutor. Pareceu-lhe que a mesa que o separava de Evermore era maior de que outrora, o nó de gravata do investidor estava mais apertado que o costume, as mãos abriram-se, um tom de condescendência misturou-se com o olhar de lobo faminto:
– John. Tens duas semanas para nos mostrar qualquer coisa da tua plataforma. Está na altura de começares a escrever código
Num primeiro ímpeto encorajado pela cocaína, John aceitou o feito referindo a necessidade de uma equipa de desenvolvimento de quarenta elementos que trabalhasse num regime de vinte e quatro horas. Uma pequena risada antecedeu o primeiro corte orçamento da Goodwill Inc:
– Sabes quanto isso custa? Tens nove programadores, dezoito horas por dia. Mostra-me algo bom John – A mão acenou o final da reunião – Os olhos cravados nas costas de Goodwill reiteraram o aviso:-Quinze dias para fazer algo de jeito que justifique o interesse dos investidores.
Durante as duas semanas seguintes várias coisas aconteceram.Um enlouquecido e paranoico John Goodwill berrava ordens contraditórias de depuração de um código que parecia uma babel saída dos dedos inábeis de programadores de baixo custo. A pressão que sentia na nuca era uma dor que aliviava com frequência nos lavabos. Em seguida percorria o espaço aberto em passo acelerado, olhar demente sobre os ecrãs onde um desastre iminente tinha apenas página de entrada e um script de subscrição.Todos os dias, exatamente dez minutos após o fim do horário contratado com os programadores, Evermore visitava as instalações. Aprazia-se pelas secretárias estarem vazias e, portanto, os custos controlados. A presença de John à secretária era eternizada pelo café em formato extra gigante e a sanduíche embrulhada em papel pardo. A pergunta de como estavam a correr as coisas era meramente retórica. Evermore reconhecia nas múltiplas gotas de suor que cobriam a testa de John Goodwill os sinais do vício e do fracasso.
No dia seguinte Evermore teve uma longa chamada em conferência. Para um tipo branco, republicano e com um PAR invejável o seu mandarim era surpreendente.Cego às dificuldades de Goodwill o mercado atacou o título como um bando de piranhas em jejum forçado quando o mesmo surgiu nos monitores de transações. No Iowa, num confortável sofá, mãos enrugadas esfregavam-se de contentamento e a quilha de um veleiro começava a sair das brumas do sonho. Ao nono dia de mercado a valorização bolsista superava os oitocentos pontos percentuais, os corretores berravam incansavelmente “compro, compro” ao papel da Goodwill. Na Internet o portal colapsava após o primeiro milhão de acessos.No último piso de uma torre de escritórios com vista para o buraco imenso do chão zero, o sobrolho de Evermore encurvou-se e percecionou que era hora de agir. Consultou rapidamente os relógios presos na parede e confirmou que iria acordar alguém em Pequim. Marcou o número e desta vez o seu mandarim confundiu-se com o esperanto da linguagem de negócios e a palavra patente foi assegurada várias vezes. Após a linha intercontinental se ter cerrado a mão de Evermore dirigiu-se ao teclado e libertou para o mercado uma enxurrada de ações da Goodwill a quarenta por cento do valor atualmente cotado. Neste gesto efetuou uma mais-valia de noventa e oito milhões de dólares e lançou a bomba fatal à Goodwill Inc. O mercado entrou em pânico, na sala de servidores da companhia um tresloucado John arrancava os cabelos e pontapeava um armazenamento de rede profícuo em luzes vermelhas de erro.
Na manhã seguinte a Goodwill entrou no mercado como um cão espancado quase até à morte. Transacionava na casa dos cêntimos. No Iowa as mãos enrugadas agarraram a cabeça em desespero e os pés saíram dos quentes chinelos e conheceram o frio do soalho, como se soubessem que o resto do Inverno iria ficar.
Uma semana depois dois advogados de uma das obscuras empresas de Evermore voaram em primeira classe para a China. Ao mesmo tempo John Goodwill foi notificado da sua destituição e informado que a patente industrial do portal que havia cedido nos termos do acordo com Evermore havia sido transacionada por valores confidenciais. Os termos e condições do seu contrato auferiram-lhe quatrocentos mil dólares de compensação, um seguro de saúde por mais dois anos e um selar de lábios eterno. John Goodwill assinou, uma das suas gotas de suor tingiu uma cláusula. Robert Evermore aconselhou:
-É melhor ires à casa de banho. Sujas-me o contrato.
Em seguida partiu para sempre da vida de John Goodwill. Em Pequim, trinta minutos após a assinatura do contrato para o desenvolvimento do portal, noventa e dois programadores atiraram-se ao código com a fúria dos tigres. Cinco dias depois estavam online.Cinco dias depois, pela noite nova-iorquina, John Goodwill sentado perante a janela panorâmica do seu apartamento parecia não sentir a labuta de uma Conchita de Queen’s.Insatisfeito, incapaz, dispensou os serviços da prostituta e esperou que os saltos deixassem de martelar o mármore frio por onde se entrava em sua casa. Abriu o jornal e encontrou a cotação da sua empresa, o ticker GWL, nas ruas da amargura empresarial. Um artigo de opinião acusava-o publicamente de uma incompetência atroz que manchava a perceção e confiança globais no empreendedor americano. Na página catorze passou desapercebido a John uma pequena notícia que dava conta do grande sucesso de um portal de empreendedorismo desenvolvido na China com financiamento de capitais de risco das sociedades Evermore.Na página das cotações a Goodwill valia quatro cêntimos. Numa casa no Iowa uma voz de mulher envelhecida e plena de raiva acusava o seu esposo de como pudera atirar ao lixo todas as poupanças de uma vida, mãos trémulas pediam clemência.
O vidro quebrou-se e John Goodwill foi, tal como alguns dias atrás a sua empresa o tinha sido, um “high flyer”. A sua queda de anjo durou a brevidade do seu sucesso e terminou com aquela ideia que tinha tido em Des Moines mesclada e esquecida na massa encefálica que cobria o asfalto. Legalmente aquela ideia já não devia ali estar. Era patente de uma sociedade sino-americana com sede nas Bermudas. No Iowa, mãos teceram o nó. Na manhã seguinte um corpo abanava na árvore em frente à casa. Os ventos do mercado embalavam o cadáver.

[sub][i]*Alta Finança p Dummies – Acrónimo usado para otimizar o tempo de leitura.[/i][/sub]

Alta Finança para Dummies – High Flyer 1/2

High Flyer

Termo que define uma ação excessivamente valorizada num curto espaço de tempo e cuja cotação é altamente especulativa perante o plano de negócios que, na verdade, é baseado em pressupostos não verificados ou sequer efetivados.

Este tipo de “stock” (é uma forma mais elegante de dizer ação e poderá eventualmente impressionar um não-leitor de “Alta Finança para Dummies”) foi altamente popular durante a denominada era das “dot.com” (pronunciar dotecome) e, na fase atual do mercado, tem alguma dificuldade em singrar dentro do espaço comunitário devido à fraca fluidez dos mercados e as restrições de tesouraria de potenciais investidores. Todavia são fenómeno ainda notório no seio das empresas tecnológicas cotadas no Nasdaq (não confundir com Nascar que são aqueles bólides americanos que circulam em pistas ovais) e nas praças financeiras dos mercados emergentes BRIC…

Brasil, Rússia, Índia, China.

Algo confuso , caro leitor ?

Se sim a metodologia adaptada pela “AFD”* é da dar corpo aos complexos termos financeiros usando a simbologia das parábolas, das histórias dos empreendedores, especuladores, operadores de mercado e toda a restante trupe de fazenda cinzenta que constituem a galáxia dos negócios. De forma a não o aborrecer recorremos frequentemente a pequenos episódios muito semelhantes às novelas às quais o seu limitado cérebro está tão acostumado. De forma a garantir o seu entretenimento garantimos que nestas páginas poderá encontrar emoção, amor, sexo, muita devoção e luxos obscenos. Todos estes estados de espírito orientados, única e exclusivamente, para a maximização do lucro.

Contemos então como se cria um “high flyer”, uma ação baseada na ideia que John Goodwill teve no último ano na Universidade de Des Moines (Cabe informar que usamos os nomes originais das personagens pois localizar o elenco e a narrativa ao território nacional é assaz difícil Simplesmente não existe o capital e jamais alguém financiaria um tipo chamado João Boa Vontade)

Regressando a Des Moines. No dormitório onde uma festa de finalistas do curso de engenharia informática era pródiga nas drogas, sexo desprotegido, bebedeiras colossais e todos os estereotipados quadros que compõem a mitologia destas instituições de ensino onde se moldam os futuros senhores do mundo, podemos encontrar John a visualizar um portal de internet que procura investidores às ideias que os seus membros lhe submetem usando um modelo de proteção de patentes e um inovador método de financiamento baseado em contribuição viral. Visiona-se como um evangelista dos grandes inventores, o homem que faz as coisas acontecer. O pensamento é interrompido pelo borbotar conseguido por Samantha Lee, aluna de primeiro ano há quase uma década, cuja reputação labial sobre as glandes finalistas era já uma lenda do “campus”. Depois dos “Kleenex “ o projeto empresarial volta a ocupar a mente de John Goodwill. Uma aura de entusiasmo febril invade-o, tal é o seu empenho, que o retorno de Samantha Lee ao leito trazendo pela mão outra conviva é ignorado. Fixos estão os olhos de John no ecrã do computador portátil onde, sobre as células de uma folha de cálculo, o seu sonho começa a ganhar vida.

Passados cinco meses um John Goodwill envergando um fato de três peças embala-se em casos de negócio, slides com projeções, estudos, a gravata tem um nó que revela não ser ainda um hábito diário. Do outro lado da mesa, cabelo grisalho, um nó imaculado que revela anos ao mogno da mesa de reuniões, mãos perfeitamente arranjadas. Um grosso anel de puro ouro revela a solidez familiar, acompanha-o a marca de prata de duas décadas e meia de seu puritanismo branco, protestante, anglo-saxónico No bolso interior do casaco da mais cara fazenda um PDA contêm os endereços de vinte e sete prostitutas, quatro senadores, um médico que receita tudo e presidentes de vários bancos.

O “business angel” dá pelo nome de Robert Evermore. Detentor maioritário de vários fundos de risco tem uma reputação de membro superior da cadeia alimentar, mexe milhões com a cadência de um malabarista mais entusiasta, do mendigo mais necessitado de uma dose. Frenéticos, quatro monitores indicam os comportamentos das praças, o seu olhar divide-se entre a apresentação de John e os “tickers”. O seu método consiste em financiar empresas de uma forma a garantir uma renda generosa altamente compensadora do risco. Se o sucesso existir Evermore lucrará largas somas pelo simples facto de ter clicado a ordem inicial que permitiu a nascença da sociedade que envergará o nome de Goodwill como CEO. A estrutura de voto da assembleia geral está sobre total controlo de Evermore. Ele decidirá quando é que se abrirão ou cerrarão as comportas do crédito e quem se sentará nos cadeirões negros do conselho de administração.

Mãos apertam-se, a palma de Evermore é maior que a de Goodwill, envolve o jovem empreendedor como um afago sem retorno. Goodwill engole em seco quando encontra os olhos que cerram o acordo.

O patrono do jovem empresário estende a sua rede de influências, o PDA é agora frequentemente requisitado. Passadas poucas semanas, encontramos John Goodwill num campus de empresas do conhecimento envergando um polo com as cores e o motto da companhia. Os restantes lugares do espaço pensado para trinta almas estão vazios, o saldo capitalizado da Goodwill Computer, Inc, é superior a cinquenta milhões de dólares. Até agora nada foi criado, existem apenas os planos de negócios iniciais e uma agressiva campanha de marketing arquitetada por Evermore que lança o sistema financeiro na voragem de uma IPO que promete retornos explosivos. Tocam telefones, furiosas mensagens de correio eletrónico dão ordens de compra, mensagem instantânea incentivado a subscrição de preferências de compra. Só se fala na “Initial Public Offer”.

Para si, estimado leitor, IPO significa Ilusão para otários. Pequenos investidores usados por fundos de risco que brincam com o capital alheio como bobos loucos de uma corte onde todos querem transcender o lucro do trimestre passado. Os telefones tocam, queixos algo inseguros que veem pouco rendimento do seu fundo de pensões aceitam o abandono do porto seguro da poupança para poder aceder ao título da Goodwill. Do outro lado da linha a voz avisa que a taxa de rateio é pesada pois pelo mundo inteiro há inteligentes pessoas, iluminados seres que procuram um perfil menos conservador de investimento. Esses seres maravilhosos que desfrutam um futuro risonho, cruzeiros na Florida, morte assistida em inexistente dor, alguns amores, as viagens há tanto sonhados. Esse pequeno investidor que perante a promessa do retorno de mais de quatrocentos pontos percentuais condescende em contrariar uma dívida a uma taxa de juro promocional para a IPO da Goodwill. Do lado de lá da linha a voz do operador diz vinte e oito, no sofá confortável de uma casa do Iowa uma mão treme, um segundo hesitante. Depois o aceitar das condições. Quando a chamada termina uma pequena oração ecoa no salão.

Alta finança para Dummies – Intro

Caro leitor,

Se múltiplas vez se questionou sobre os mecanismos internos dos mercados globais, as suaves subtilizas que fazem os índices deslizar como répteis que injetam um veneno tóxico nas suas poupanças está no local aconselhado para desfazer tais angústias que consomem a sua digestão num ardor imenso. Anime-se, está a um passo de ser um pobre mais bem informado.

Se amiúde se inquietou   (de facto sentiu-se  algo ignorante) perante as páginas plenas de pequenos dígitos onde a cotação do titulo mais badalado se entrecruza com um “junk Bond” e, de forma alguma, consegue entender a razão de um milhão de  títulos de dívida nacional de estados soberanos ser achincalhado por uma suposta entidade classificadora está perante uma ferramenta preciosa na compreensão dos motivos que o votam, inevitavelmente, à categoria dos que nunca se safarão.

Em suma, será repetida e insistentemente explorado por governos de diferentes partidos, democracias de cifrão, mercados globais onde o seu salário é , terá que ser , esfomeadamente menor ,de forma a não comprometer níveis de rentabilidade e , portanto , manter os acionistas satisfeitos.

Em mais suma ainda, fodido. É o que você está

Se o seu quotidiano monótono , feito de lides esmorecidas  e uma carteira lacónica, é atormentado pelos efeitos nefastos da crise do crédito global encontrou o local onde poderá encontrar uma explicação em linguagem apropriada ao seu nível educacional e ao seu estrato social , a sua extirpe que certamente engloba a palavra baixa . A extensão do texto é pensada nos cidadãos de vidas ocupadas em apertos constantes e que não querem perder pitada do campeonato de futebol ou confundir as suas mentes limitadas em textos demasiado elaborados.

Sejam então bem-vindos à Alta Finança para “dummies”, Totós, Otários, gente sem importância, ínfimo investidor, cidadão contribuinte; utilizador sempre pagador, credor do FMI, peça espremida na imensa maquinaria dos mercados oscilantes de todos os receios.

Em pequenas definições acompanhadas de exemplos claros como o balanço de uma empresa de capitais de risco será o leitor confundido neste universo tão dinâmico, tão vibrante mas onde, infelizmente, apenas alguns prosperam. Tranquilize-se, esse não será o seu caso.

Do Rock – Slipknot

Antes que me esqueça do motivo, da tua pequena injúria, do olhar errado que se cruzou com a meu esgar furibundo. Antes que invoques algum motivo na tua civilidade para tal brutal atitude sente o meu punho envolto no soco inglês cruzar o ar e encontrar a fratura da tua massa craniana. Incrédulo, já derrotado, tombas sobre o solo para seres repasto para as biqueiras, reforçadas a metal dos meus pés, que trabucam em remover do teu estômago os restos da tua última digestão, de tornar em resíduos de osso a caixa torácica, de poisar no âmago do esterno com o ímpeto desta simples vontade de te ver expelir o suspiro último.

Agora, que tudo está prestes a acabar para ti, encara esta face sulcada das marcas das rixas, arquivo de golpes de navalha e gargalos quebrados. Entende, antes que eu me esqueça porque te espanco até à morte, que nasci este verdugo, este escroque, esta sinfonia de ultra violência refinada nos ginásios e nos esteroides e que o teu patético erro foi aquele breve segundo em que julgaste que eras adversário à altura da minha gratuita brutalidade.

Entende que para mim a luta, o confronto, o momento glorioso onde o encéfalo estoira perante o asfalto é a vitalidade da minha demente existência. Não me defendo, ataco como uma besta acossada no seu covil. Não me resguardo, não me preservo, luto até ao dia que animal mais forte me faça tombar. Palpitam-me as artérias nas mais refinadas anfetaminas, pobre ideia a tua de me provocares quando corre em mim a substância que faz os equídeos correr a milha mais rápidos que o vento do norte.

Abraço o teu pescoço, dedos hirtos que tão bem conhecem o ponto de pressão que te alterará o tom da tez para o arroxeado terminal dos defuntos. Não implores perdão, essa palavra que não tem algum significado na minha eterna arena. Sê gladiador nobre, encara a ceifeira com valentia e serei lesto na execução, carrasco sorridente que te afagará o cabelo quando partires para Valhalla  dos tristes.

A persistência na clemência que exalas perante meus golpes apenas acresce a minha cólera, és medusa de olhos míopes que se impõe decapitar. Meu saco de ferramentas, meu fiel cutelo amputa-te do corpo que tiveste. Caminha comigo entre as ruas sujas desta cidade, troféu na minha mochila, escuta o silêncio e o zunido dos vermes que habitam a minha masmorra. Junta-te aos resquícios dos outros derrotados na refrigeração da minha câmara, sala de troféus onde outros, débeis como tu, apodrecem os seus semblantes incrédulos perante tão inesperado decesso. Beijo-te um adeus nos lábios já frios e deposito o despojo junto aos restos de outras vitórias. Vasculho, entre os blocos de gelo e as cabeças, por uma garrafa de cerveja que brindo ao imperador de todos os infernos. Do canto da sala ele ergue o polegar ao seu campeão.