Do Rock – Metallica

Há algo neste asfalto que impele as maquinas a dilacerarem as suas entranhas de aço , botijas de nitroglicerina na bagageira a levar o conta-rotações para lá de toda a sensatez . Milhas da glória , pneus , alcatrão infernal feito da pez pustulenta e do suor dos homicidas que se perfilham na berma com os seus uniformes comidos pelo sol e os anos .
Foi nesta estrada que o diabo pessoal daquele que esperava pela injeção letal na prisão estadual decidiu dedicar-me a sua simpatia e introduzir-me à vertigem do senhor da ira.
Troquei o suave conforto do fabrico japonês e muni-me de rodas americanas embaladas no ronronar arrepiante do motor de doze cilindros em v. A doença já não me concede muitos dias. Honrar esta dádiva do demo , rolar pelas rotas dos estados esquecidos e deixar o meu rasto de história sangrenta antes de partir na pira do senhor das armas fumegantes é o meu único objetivo de vida. Esse e a comoção plena por todos os canais :seringas, anfetaminas, exterminadores do sono, aceleradores do palpitar do peito , narinas sangrando muco que queima . A estrada, eu e os dias que antecedem o fim vividos na pressa que tudo o que circula nos meus canais sanguíneos induz. Prego a fundo. No banco a arma para o polícia, no bolso da camisa o Marlboro que acelera a morte e traz escarros rubis do que dentro de mim se desfaz , no banco a arma para o primeiro ser vivo que encontrar.
No retrovisor a sombra dos quatro cavaleiros do apocalipse que me escoltam no trajeto feito a todas as milhas que o corcel de aço me permite. O tempo a ir-se embora , os meus olhos no retrovisor já envergam as primeiras vestes da morte , primo o pedal até ao limite e obrigo a caixa ao esforço que lança chamas da cabeça de motor exposta . Lembro-me da vida e não sinto qualquer remorso pelos atos que em breve vou perpetrar, dentro do meu corpo doente o destino das marionetas orienta-me para os subúrbios da cidade onde devo cumprir o destino.
Na bagageira, reluzente metal e farta munição. Alimento a boca ainda fria da shotgun e caminho em direção ao restaurante apinhado. O que se passa a seguir é feito de pólvora , de pedidos de clemência , de recarregar , de olhar o soalho procurando movimento , uma pernas rastejando . Por pouco tempo, um gesto de dedo, rigidez absoluta.
Volto à estrada, silêncio, um vento quente levanta-se das grandes cordilheiras e os abutres rodopiam sobre os restos do meu ato insano. Será magnifico o seu repasto.
A mim agora só me resta rumar até ao âmago do deserto e cambalear os últimos passos até às chamas que me levarão à Valhalla dos condenados.
Quando atravesso a fronteira do estado o vulto dos meus companheiros de viagem esfuma-se, julgo ter avistado um deles estender o braço e empunhar os dedos do senhor das trevas
No rádio do carro a cavalgada sincronizada de duas guitarras em perfeita harmonia acompanha-me nos últimos quilómetros. Esta vida que amaldiçoei nos derradeiros dias cessa aqui ;no alto desta colina , no círculo fantasmagórico de pilhas de amplificadores Marshall formando uma arena . Do centro uma coluna de fumo negro revela o sentido dos meus passos. O único ponto de acesso ao interior da arena é uma porta ladeada por dois vultos enormes, sinistros encapuçados que empunham armas de grande calibre. Detenho-me junto aos seus olhares inquisidores, pupilas que já não cintilam perscrutam cada milímetro da minha culpa, aspiram o cheiro dos mortos dos meus dedos queimados pelos disparos . Breves minutos , espera eterna , os meus joelhos tremem , cá dentro o bicho engole-me outro bocado que dói imensamente , grito e golfejo sangue fresco nos pés dos sentinelas. De suas gargantas ecoam grunhidos de aprovação. Um mão artificial feita integralmente de uma engenhosa combinação do metal e do tecido morto concede-me o acesso.
No centro a cadeira elétrica , a estática atravessa o ar, arcos voltaicos letais rasam o meu corpo que definha a cada segundo . Sento-me e cerro os olhos . Do coliseu de amplificação surgem os acordes, por quem os sinos dobram?
Decerto por mim , primo o botão e ardo na cinza que percorre o relâmpago e leva-me para longe deste mundo. Sem remorso

A Sul

Esta noite rasgo tudo o que erigi em patética adoração ao deus do capital e do enriquecimento. Esta noite vomito em grossas golfadas a normalização do meu ser e ,em plenos pulmões ,perante teu espanto que nada gera mais que desprezo e asco grito :
– A Sul!!!
Lembras-te do Tim todo congestionado a urrar ao microfone? “É hoje dia primeiro de Agosto e tudo em mim é um fogo posto” ? Claro que não ! Claro que isso são coisas de tempo de miúdos, arrumadas numa gaveta de vergonha , incompatíveis com os seres decentes que temos que ser . Lembras-te do pavilhão do Restelo a pingar suor do teto e nós, putos marados , a bebermos cada acorde ? Obviamente que é uma memória que se secundarizou na fona da vida adulta.
Sabes que mais ? Que se foda . A sul !!! Eu vou a Sul. Hoje, independentemente da puta da merda da folha gregoriana, da data de sistema, da hora legal que o locutor da rádio anuncie; hoje para mim é dia um de Agosto. E “É tanto o sol pelo caminho, que vendo um não me sinto sozinho” . Tu não és um caminho . A estrada , o grande asfalto chama por mim O diabo que carregue a europeia A2 e as suas zonas de serviço asséticas onde alentejanas usurpadas ao campo-mãe impingem sandes preservativo mistas de nada . A Canal Caveira ;sandes de carne assada gordurosa , prostitutas velhas de berma e camionistas com posters do Benfica na traseira da cabine do TIR , linhas de coca com motoqueiros alucinados que garantem uma hora do Canal a Albufeira. A Sul !! Deslizar pela estrada velha e parar para vomitar nas curvas da Serra iluminado pelos faróis dos grandes camiões .A Sul , às aguas quentes do Barlavento .A sul ;a bares repletos de operárias britânicas de Sheffield que nos engolem entre duas cervejas e o cântico do Manchester United . Sémen feito Tantum branco de gargantas saxónicas ; olhar vago nunca correspondido por olhos azuis congestionados do escaldão estival e do “Ecstasy “ bem elaborado.
A Sul .Apenas com alucinação e promessas de caos na bagageira do carro. Tua memória e de todas outras responsabilidades abandonadas como um rafeiro morto , estropiado , na berma da grande estrada. A janela aberta a chutar para dentro do mim o calor do Alentejo , no estéreo aquela batida marada que faz os corpos suarem até à exaustão. Esta simpatia pelo diabo , ..é apenas” rock n´roll “ mas eu adoro-o .
A sul ! Acordar com a pancada do bófia no vidro do carro e, em óculos escuros e sorriso de ódio, pedir uma desculpa que não sentes. Na alma um Charles Manson que gostaria de mutilar.
A sul , o Atlântico com sabor mediterrânico a beijar-me as canelas e a encharcar os “jeans” sujos de óleo de motor e resíduos da noite que foi. O olhar posto no horizonte e este sol, que tudo de mau queima ,a trespassar a pele como um solo de uma grande guitarra a fundir-se na lava da distorção .
A sul!

Caminha Lucília

Essa miséria a que me vetaste, o teu silêncio será o teu fim, Lucília. O escárnio , cornudo público que procurou outras ruas para ser este outro alguém . Mas a vida não foi generosa, Lucília, concedeu-me apenas uma subsistência, uma condição mental que é de grande perigo para a tua integridade e esta persistência em não perdoar.

Tenho seis balas para ti, minha cadela. Irei cravá-las, uma por uma no teu peito que agora me negas, eu sei que é errado mas apenas nisso penso. Desenhar em ti morte violenta em calibre quarenta e cinco.

A tua traição fez-me uma criatura de ódio, após a vergonha inicial ergui-me pleno de um único propósito. Matar-te, abater-te sobre a cama onde recebes aqueles que achas dignos. Eu, indigno , arma na mão , o final dos teus dias de puta.

Estás nervosa ao ler esta carta. Podes olhar em redor pois estou nas cercanias de ti. Algures num armário, à porta da frente, posso estar sentado numa das espreguiçadeiras da varanda a admirar a vista que nunca me concedeste. A ganhar mais um motivo para te executar com um extremo prazer.

Não procures o telefone. Está cortado. O telemóvel já foi retirado da tua carteira. A Net também já era. Somos só nós agora. Eu , tu , bela Lucília e este revolver carregado.

Amanhã nos jornais falarão de nós em caixa pequena mas alguém se lembrará deste amor rastejante que me leva a viver contigo na minha doente mente e apenas vislumbrar o momento em que a carne explode perante o impacto do disparo?
Estômago . Dói brutalmente e não mata imediatamente. O teu útero, ninho da descendência que me negaste será também baleado. Lucília, Lucília. Podes-te levantar e caminhar para o quarto. É inútil a resistência.

Tenho um bom motivo para a tua obediência. Ou vais para o que devia ser o nosso quarto, a nossa cama , a nossa colmeia , ou espeto um balázio nos cornos do teu fedelho de merda , este bastardo que dorme sobre os anjos do éter. O cano está encostado á sua têmpora esquerda.

Agora, caminha Lucília.

Juro

Três da manhã na estrada que liga o Cacem a Porto Salvo. Uma daquelas noites horrivelmente quentes de Verão em que se deixa a janela do carro toda em baixo para podermos sentir o fresco limpar a cortina de suor que persiste em cegar os olhos e trazer o sabor do sal à boca.
Viu-o a andar pela berma, com as costas voltadas ao sentido do trânsito. Imprudente.
Uma T-Shirt cheia de cores momentaneamente aclaradas pelos máximos.
Um alvo fácil.
Inverteu a marcha, algures numa das muitas estradas que levam às obras do novo parque da tecnologia. Observou-o uma segunda vez. Encadeado, uma mão levantou-se a proteger os olhos da luz demasiado intensa. Oscila no seu passo, bêbedo, talvez.
É negro. Apenas uma constatação, já que ao condutor isso não provoca qualquer motivo de ódio ou simpatia Sabe bem que todos os homens são iguais, no seu íntimo, nas suas necessidades básicas. Idênticos. Sem qualquer distinção de cor, sexo ou qualquer outro factor. Nos momentos primordiais do primeiro choro que limpa os canais respiratórios e na réstia de ar que percorre pela última vez os mesmos, são mesmo todos iguais. De qualquer forma talvez prefira matar pretos e drogados.
O homem ao volante conhece o momento que se aproxima. No seu corpo sente já o frenesim da caça. A sensação suprema que invade o corpo dos grandes felinos quando se preparam para abater a vitima. Surgindo do escuro. Rápidos e letais.
Corre agora pela berma. O carro está escondido numa das muitas entradas do estaleiro do Tagus Park. Um daqueles onde não há vigilantes e onde as marcais deixadas pelos pneus, são inidentificáveis. Vigia constantemente o horizonte, à noite é extremamente fácil detectar qualquer carro que se aproxime. Sente-o cada vez mais próximo. O passo torna-se cauteloso.
Na mão uma moca de Rio Maior, arma genuinamente Portuguesa.
Vê-o e subitamente tudo acontece depressa. À primeira pancada não morre, cambaleia surpreso; tenta gritar mas a boca apenas é um  monte de lascas de dente e pedaços de gengiva. Pontapeado violentamente nos testículos rebola para a berma. Ainda levanta as mãos num último gesto de piedade antes da sua cabeça se tornar alimento para as plantas que crescem em redor. Vermelho no Verde. Portugal. O homem do carro estacionado no Tagus park sorri e lembra-se que a selecção nacional joga na próxima Quarta.
È importante sair do local rapidamente. Não largar a arma, não tocar em nada. Voltar ao carro usando os mesmos cuidados. Liga o motor e volta para casa usando caminhos secundários. Sabe que a probabilidade de se deparar com uma operação Stop é extremamente reduzida. Faz aquela estrada todos os dias e sabe que em dias idênticos da semana e aproximadamente à mesma hora apenas vira por duas vezes a Policia e sempre no itinerário principal.
Uma mulher que já foi nova e, o que se pode considerar, bonita, acolhe-o com um grunhido de Lornenine e a cedência de espaço estritamente necessário no leito que se pretende matrimonial. Não se dá conta do suor que lhe encharca o corpo . De verdade também já não dá conta dos cheiros alheios, quer dos bares, quer das putas, das amantes ocasionais, da tareia no futebol ou das lágrimas que ocasionalmente chora ou daquele fedor de morte que vez em quando traz para casa. A vida para ela. Helena, após dezassete anos de dinheiros e actos  curtos  tornou-se num lento desfilar de dias insignificantes. O revolver maquinal do casa-trabalho sem grande sentido. O homem da moca de Rio Maior lembra-se como ela recebeu pela primeira vez o seu sémen, estática, apenas a vagina palpitando e naqueles grandes olhos verdes, um olhar de redenção. Como se recebesse dentro dela todo o sentido da vida.
Os putos dormem nos seus quartos. Por vezes o mais velho faz os ferros da cama bater contra a parede na cadência rápida e repetitiva das primeiras masturbações. Há coisas que nunca mudam por muitos séculos que passem; pívias de putos ,o fado de tantas mulheres, viverem numa perfeita normalidade, sem cedências a qualquer tipo de instinto, secas de desejo. Por muito que ele tente nunca imagina Helena a gritar de prazer ou a espumar pela boca enquanto vê a vida a sair de um corpo.
A excitação persiste. Não consegue dormir. Dirige-se em cuecas para a sala. Folheia as primeiras páginas, passa para a secção de desporto. O Benfica pode vender o goleador.
– Filhos da puta só fodem a equipa – Lembra-se do Coluna e do Simões, do gigante Torres e do rei Eusébio. Está cada mais excitado, e sente-se gorduroso. As gotas de suor deslizam pelas costas abaixo, em grossos rolos de cerveja, merda e poeira, até ao rego do cú. “Se não fosse tão evidente “.
Levanta-se vai à cozinha, resolve beber pouco .
– Uma minizita – Em pé , descalço no escuro, e o raio de um frio no chão. Faz-lhe passar a tusa, volta ao sofá. Na televisão só existe chuva e um brasuca da IURD na SIC.
– Filho da Puta, Cabrão – Tem desejo de escarrar no vidro do televisor. Não vale a pena. “ Manter o controlo “ respira fundo. Vai dormir!  Volta ao quarto . Ao puxar os cobertores para entrar na cama deslumbra os contornos das mamas da mulher anichados contra a camisa de noite. Fica grande, Quer e vai fazer. Sacode-a e acordo-a, encena um beijo patético, baixa as cuecas.
Ela sabe ao que ele vem. Abre as pernas, olhando-o por um instante. Sabe-o selvagem mas também sabe que é rápido. Ele entra e move-se , a ela dói-lhe a intrusão em terrenos áridos .
– Filha, Filha –  Está quase . Um movimento brusco, um urro de porco com aroma a Sagres e está feito. Podem agora ambos dormir o sono dos gordos, sinfonia de roncos e grunhidos, lutas titânicas, meio a dormir meio acordado, por um bocado de lençol, já só com raiva.
Emanuel. a mãe chamou ao homem da moca de Rio Maior ,Emanuel. Como um rei qualquer dos Italianos. Os cabrões dos Italianos que a  ele só lembram Máfia e equipas de Futebol poderosas que esmagam a sangue frio o Benfica e a merda das Pizzas que parece ser o único alimento que satisfaz os filhos.
Não gosta de falar sobre si, a sua infância ou qualquer pormenor mais intimo. A única coisa que sabe que o distingue da amalgama de gajos gordos, meio carecas, meia idade, meia vida fodida, meia por foder que habitam aos molhos este cantinho à beira mar plantado é o facto de vez em quanto sentir aquele impulso incontrolável de  correr atrás de pessoas para as matar( de preferência pretos e drogados). Confessa a sim mesmo que afinal faz diferença prefere mata-los a eles, os turras como lhe chamava, cheio de medo e de malária, agachado no mato com as balas a voarem por todo o lado. A voz do alferes Pedrosa a chorar pela mãe enquanto agarrava os bocados que saiam do corpo desfeito por uma mina. Nunca podíamos ganhar, os gajos tinham melhores armas que nós, tinham os Russos, tinham mulheres enquanto nos íamos aos pelotões descarregar numa preta que nem saia da cama de palha que cheirava ao esperma do Exercito Português. E os putos que vinham da Escola de Oficias Milicianos não ajudavam nada a mudar o rumo das coisas e faziam que a moral dos homens que ainda acreditavam em Portugal  ( Uno e Indivisível  do Minho a Timor ) andasse mesmo em baixo. Os cabrões sempre a falar de política a tentar fazer com que os coirões não ficassem no capim e à noite sempre a fumar aquilo que os pretos fumavam.
Drogados, os malditos drogados. Já matou vários mas , uma única vez deglutira a sua vítima .Recorda com prazer o momento em que arrancou fatias grossas dos braços cheios de picadas e as digeriu . Sozinho, sentado num dos rochedos junto ao Castelo dos Mouros em Sintra. Aquele corpo tão magro, com um meio-tom de cor entre a vida e a morte. O sangue sabia a lixívia, a veneno.
Pensa um pouco mais em coisas que não recorda na manhã seguinte quando o despertador traz a voz nos noventa ponto tal que não quer ouvir. Hoje está de serviço.
A última coisa que vislumbra antes de adormecer é o brilho das divisas da farda iluminadas pelo candeeiro lá fora. Cai o torpor que o invade após a caça.
Volta a África, aos gritos do Pedrosa , às palavras em frente à bandeira:
-Juro…
O restante discurso de fidelidade a memória já extinguira mas , imediatamente após  reiterar a promessa com a Pátria , os chamamentos da morte alheia falaram. Estiveram  com ele toda a noite.

Três da manhã na estrada que liga o Cacem a Porto Salvo. Uma daquelas noites horrivelmente quentes de Verão em que se deixa a janela do carro toda em baixo para podermos sentir o fresco limpar a cortina de suor que persiste em cegar os olhos e trazer o sabor do sal à boca. Viu-o a andar pela berma, com as costas voltadas ao sentido do trânsito. Imprudente.Uma T-Shirt cheia de cores momentaneamente aclaradas pelos máximos.Um alvo fácil.Inverteu a marcha, algures numa das muitas estradas que levam às obras do novo parque da tecnologia. Observou-o uma segunda vez. Encadeado, uma mão levantou-se a proteger os olhos da luz demasiado intensa. Oscila no seu passo, bêbedo, talvez. É negro. Apenas uma constatação, já que ao condutor isso não provoca qualquer motivo de ódio ou simpatia Sabe bem que todos os homens são iguais, no seu íntimo, nas suas necessidades básicas. Idênticos. Sem qualquer distinção de cor, sexo ou qualquer outro factor. Nos momentos primordiais do primeiro choro que limpa os canais respiratórios e na réstia de ar que percorre pela última vez os mesmos, são mesmo todos iguais. De qualquer forma talvez prefira matar pretos e drogados.O homem ao volante conhece o momento que se aproxima. No seu corpo sente já o frenesim da caça. A sensação suprema que invade o corpo dos grandes felinos quando se preparam para abater a vitima. Surgindo do escuro. Rápidos e letais.Corre agora pela berma. O carro está escondido numa das muitas entradas do estaleiro do Tagus Park. Um daqueles onde não há vigilantes e onde as marcais deixadas pelos pneus, são inidentificáveis. Vigia constantemente o horizonte, à noite é extremamente fácil detectar qualquer carro que se aproxime. Sente-o cada vez mais próximo. O passo torna-se cauteloso.Na mão uma moca de Rio Maior, arma genuinamente Portuguesa.  Vê-o e subitamente tudo acontece depressa. À primeira pancada não morre, cambaleia surpreso; tenta gritar mas a boca apenas é um  monte de lascas de dente e pedaços de gengiva. Pontapeado violentamente nos testículos rebola para a berma. Ainda levanta as mãos num último gesto de piedade antes da sua cabeça se tornar alimento para as plantas que crescem em redor. Vermelho no Verde. Portugal. O homem do carro estacionado no Tagus park sorri e lembra-se que a selecção nacional joga na próxima Quarta. È importante sair do local rapidamente. Não largar a arma, não tocar em nada. Voltar ao carro usando os mesmos cuidados. Liga o motor e volta para casa usando caminhos secundários. Sabe que a probabilidade de se deparar com uma operação Stop é extremamente reduzida. Faz aquela estrada todos os dias e sabe que em dias idênticos da semana e aproximadamente à mesma hora apenas vira por duas vezes a Policia e sempre no itinerário principal.
Uma mulher que já foi nova e, o que se pode considerar, bonita, acolhe-o com um grunhido de Lornenine e a cedência de espaço estritamente necessário no leito que se pretende matrimonial. Não se dá conta do suor que lhe encharca o corpo . De verdade também já não dá conta dos cheiros alheios, quer dos bares, quer das putas, das amantes ocasionais, da tareia no futebol ou das lágrimas que ocasionalmente chora ou daquele fedor de morte que vez em quando traz para casa. A vida para ela. Helena, após dezassete anos de dinheiros e actos  curtos  tornou-se num lento desfilar de dias insignificantes. O revolver maquinal do casa-trabalho sem grande sentido. O homem da moca de Rio Maior lembra-se como ela recebeu pela primeira vez o seu sémen, estática, apenas a vagina palpitando e naqueles grandes olhos verdes, um olhar de redenção. Como se recebesse dentro dela todo o sentido da vida.

Os putos dormem nos seus quartos. Por vezes o mais velho faz os ferros da cama bater contra a parede na cadência rápida e repetitiva das primeiras masturbações. Há coisas que nunca mudam por muitos séculos que passem; pívias de putos ,o fado de tantas mulheres, viverem numa perfeita normalidade, sem cedências a qualquer tipo de instinto, secas de desejo. Por muito que ele tente nunca imagina Helena a gritar de prazer ou a espumar pela boca enquanto vê a vida a sair de um corpo.A excitação persiste. Não consegue dormir. Dirige-se em cuecas para a sala. Folheia as primeiras páginas, passa para a secção de desporto. O Benfica pode vender o goleador. – Filhos da puta só fodem a equipa – Lembra-se do Coluna e do Simões, do gigante Torres e do rei Eusébio. Está cada mais excitado, e sente-se gorduroso. As gotas de suor deslizam pelas costas abaixo, em grossos rolos de cerveja, merda e poeira, até ao rego do cú. “Se não fosse tão evidente “.Levanta-se vai à cozinha, resolve beber pouco .- Uma minizita – Em pé , descalço no escuro, e o raio de um frio no chão. Faz-lhe passar a tusa, volta ao sofá. Na televisão só existe chuva e um brasuca da IURD na SIC.- Filho da Puta, Cabrão – Tem desejo de escarrar no vidro do televisor. Não vale a pena. “ Manter o controlo “ respira fundo. Vai dormir!  Volta ao quarto . Ao puxar os cobertores para entrar na cama deslumbra os contornos das mamas da mulher anichados contra a camisa de noite. Fica grande, Quer e vai fazer. Sacode-a e acordo-a, encena um beijo patético, baixa as cuecas. Ela sabe ao que ele vem. Abre as pernas, olhando-o por um instante. Sabe-o selvagem mas também sabe que é rápido. Ele entra e move-se , a ela dói-lhe a intrusão em terrenos áridos .   – Filha, Filha –  Está quase . Um movimento brusco, um urro de porco com aroma a Sagres e está feito. Podem agora ambos dormir o sono dos gordos, sinfonia de roncos e grunhidos, lutas titânicas, meio a dormir meio acordado, por um bocado de lençol, já só com raiva.

Emanuel. a mãe chamou ao homem da moca de Rio Maior ,Emanuel. Como um rei qualquer dos Italianos. Os cabrões dos Italianos que a  ele só lembram Máfia e equipas de Futebol poderosas que esmagam a sangue frio o Benfica e a merda das Pizzas que parece ser o único alimento que satisfaz os filhos. Não gosta de falar sobre si, a sua infância ou qualquer pormenor mais intimo. A única coisa que sabe que o distingue da amalgama de gajos gordos, meio carecas, meia idade, meia vida fodida, meia por foder que habitam aos molhos este cantinho à beira mar plantado é o facto de vez em quanto sentir aquele impulso incontrolável de  correr atrás de pessoas para as matar( de preferência pretos e drogados). Confessa a sim mesmo que afinal faz diferença prefere mata-los a eles, os turras como lhe chamava, cheio de medo e de malária, agachado no mato com as balas a voarem por todo o lado. A voz do alferes Pedrosa a chorar pela mãe enquanto agarrava os bocados que saiam do corpo desfeito por uma mina. Nunca podíamos ganhar, os gajos tinham melhores armas que nós, tinham os Russos, tinham mulheres enquanto nos íamos aos pelotões descarregar numa preta que nem saia da cama de palha que cheirava ao esperma do Exercito Português. E os putos que vinham da Escola de Oficias Milicianos não ajudavam nada a mudar o rumo das coisas e faziam que a moral dos homens que ainda acreditavam em Portugal  ( Uno e Indivisível  do Minho a Timor ) andasse mesmo em baixo. Os cabrões sempre a falar de política a tentar fazer com que os coirões não ficassem no capim e à noite sempre a fumar aquilo que os pretos fumavam.Drogados, os malditos drogados. Já matou vários mas , uma única vez deglutira a sua vítima .Recorda com prazer o momento em que arrancou fatias grossas dos braços cheios de picadas e as digeriu . Sozinho, sentado num dos rochedos junto ao Castelo dos Mouros em Sintra. Aquele corpo tão magro, com um meio-tom de cor entre a vida e a morte. O sangue sabia a lixívia, a veneno.Pensa um pouco mais em coisas que não recorda na manhã seguinte quando o despertador traz a voz nos noventa ponto tal que não quer ouvir. Hoje está de serviço.

A última coisa que vislumbra antes de adormecer é o brilho das divisas da farda iluminadas pelo candeeiro lá fora. Cai o torpor que o invade após a caça.Volta a África, aos gritos do Pedrosa , às palavras em frente à bandeira:-Juro…O restante discurso de fidelidade a memória já extinguira mas , imediatamente após  reiterar a promessa com a Pátria , os chamamentos da morte alheia falaram. Estiveram  com ele toda a noite.

Projeto Destruição, Filial Lisboa

A lista de marcação rápida de um telemóvel é um bem precioso. Usa-a bem. Nós no projeto destruição, filial Lisboa, damos um excelente uso à mesma. Conheces o Tyler Durden? Eu também não, mas o homem é um profeta do fim deste modo de viver e mandou homens e mulheres tresloucadamente perdidos lutar até ao sangue escorrer. Aos que sobreviveram ao clube de combate mandou-os ir mais longe. Este é o projeto destruição, a grande sinfonia global do caos. Foi transferida em banda larga e agora, voilá, estamos aqui sentados, o grupo central, o politburgo do napalm que vai inundar a Baixa. Dizia eu que nós, os fundadores da filial, estamos aqui sentadinhos a comer um pastel em Belém. Pertinho de ti. Talvez até moremos perto, sejamos colegas, adeptos do mesmo clube, sócios do mesmo ginásio. Talvez o teu caminho esteja tracejado para terminar num infeliz cruzamento com um dos nossos eventos de violência extrema.
Falávamos da lista de marcação rápida. Tenta identificar-te com a minha, se não o conseguires quer dizer que és uma das nossas potenciais vítimas. Nunca serás um soldado do projeto. Não tens suficiente desamor à vida.
Tecla um – Um bom traficante de cocaína
Tecla dois – Um bom traficante de anfetaminas
Teclas Três a Cinco, contactos relacionados com armas. De fogo e brancas, químicos, elementos elétricos que permitirão acionar mecanismos de detonação. Sabes mandar alguma coisa de grande pelos ares? És bem-vindo.
Seis e Sete – Os pais a que nunca ligas. Estão lá apenas para te recordar que agora só ao nosso projeto pertences
Oito – Alguém do grupo operacional.
Nove – Aquela ou aquele que o grupo designou como teu aliviador sexual. O soldado do projeto destruição deve estar bem motivado. As teclas um, dois e nove servem para isso. Aproveita-as. Não se vive muito na operacionalidade.
O zero sabes bem para que serve. Por motivos de seguranças combinamos a sequência com o cardinal. Sabes o que tens a fazer se fizeres merda. Cardinal, zero e depois , rapidamente, deves colocar o telefone na boca. Em cerca de dez segundos o explosivo acondicionado junto à bateria eclodirá perfurando o céu-da-boca, derramando a quantidade suficiente de cérebro, a garantia que o teu falhanço como membro do projeto destruição não se repetirá.
Mordo o meu pastel com delícia. Frente a mim está ela, Maria. Não é bela, não é jovem, é apenas uma desiludida da vida que dentro de dois dias carregará uma carga amarrada a si mesma. A gare do oriente é o local designado para se tornar mais uma mártir de uma causa que não pretende escrever história. Apenas anarquia. Apenas o grito das massas, cada vez mais inquietas, cada vez mais tensas. Entre elas, talvez tu, haverá aqueles que entenderão a nossa mensagem. Esses largarão tudo, cagarão em toda a extensão das suas vidinhas monótonas feitas de vulgaridades a preços módicos e prestações. Esses serão mais corpos prestes ao extermínio, próprio e alheio, que engrossarão as fileiras do projeto. A Maria está a comer o seu último pastel e nada em si revela temor. Está tão farta da vida, tão saturada, cansada, gasta de não ser nada, de ser apenas ela e o mundo que nada quer com ela que até parece grata de ir morrer com algum sentido. O nosso sentido. Só o entenderás quando fores um de nós.
Ponho um pouco mais de canela. Canela é a pele da mulher bela que caminha junto à porta principal das torres das amoreiras. É linda como o mundo e daqui a pouco será coberta por uma enorme sombra. Segundos depois perecerá perante os escombros. O avião privado que embaterá nas espelhadas construções do famoso arquiteto não provocará a queda dos edifícios. Não ireis correr na grande maratona do pânico em direção ao marquês . Contudo morrerá gente;calculo que cerca de cinquenta nos escritórios e quinze a vinte transeuntes. A ideia foi de Pedro, o homem que pilotava a aeronave. Disse que queria acabar numa bonita bola de fogo. Há pilotos no nosso projeto, ensinaram-no a pilotar. Há muita gente que faz muita coisa no projeto destruição. Os homens das minas e armadilhas equiparam o Cessna. Ordenei ao comando que açambarcou a aeronave que o modelo fosse exatamente igual aquele onde morrera o primeiro-ministro pequenote. Um tiro emocional que amplie o horror nas massas politicamente mais à direita; para a esquerda reservámos uma surpresa para a sua festa da margem sul. Esta é a nossa noção de alternância democrática.
O projeto destruição funciona assim.
Todos são alvos, não há redenção, temos músculos para espancar, temos dinheiro para comprar equipamento e armamento. O sucesso para ti é luzir como um deus grego pleno de ética empresarial, consciência cívica e ecologista. Reciclas, também nós. Somos apenas mais extremos. Para nós o topo de carreira atinge-se quando chamamos por irmão o cê quatro.
Na minha lista de marcação rápida marco dois. Preciso de speeds , há muita coisa a acontecer. Hoje as amoreiras, depois de amanha o terminal ferroviário. O comité encara Maria e, na tradição que Tyler Durden nos deixou, deixamos que a próxima a expiar selecione o alvo seguinte. O dever do comité é, a partir do momento em que o desejo seja efetivamente anunciado, iniciar o recrutamento que leve ao sucesso da missão. Maria reflete. Os olhos que só conheciam até há uns meses a cor das novelas lançam o grande ódio de uma vida acumulada de vazio, não conseguiu o sucesso, redime-se no ódio pelo próximo. Diz:
– Os lagartos vão jogar à luz dentro de duas semanas.
Alguém do conselho se opõe à óbvia cor clubística de Maria:
– E vamos espezinhar os lampiões.
Uso a voz de presidente da mesa. Faço-o porque sou o fundador do clube de combate e, posteriormente, da filial lisboeta do projeto destruição. Fui que fundei o primeiro ringue dos insanos numa cave da Brandoa, fui eu que esmaguei sobre os meus punhos os maxilares do meu amigo, fiz nascer o sangue que batizou a terra lusa com esta forma zangada de respirar. O meu pastel de nata estava ótimo:
– Todos morrerão.
As cabeças anuem em concordância com a minha palavra onde invoquei a tradição inicial que Tyler Durden nos deixou.
Dentadas estaladiças na massa folhada da segunda rodada de pastelinhos assinam a sentença do clássico dos clássicos.

Nota do Autor : Texto inspirado na obra “Clube de Combate” de Chuck Palahniuk (ISBN: 978972461821).

Sílvio Santana – I

Apocalíptico, abro a porta. Se pudesses ver meus olhos, são como o olhar de um general enraivecido com o botão que aciona a arma nuclear sobre seu dedo. Escutas os meus passos percorrerem o átrio do sítio onde moras estupidamente só.
De seguida vem o silêncio. Escutas a escuridão, procuras o interruptor enganado na crença que a luz deterá meus intentos perante a tua figura, meu desejo ser retalhador das partes mais dolorosas do teu corpo. No absoluto recato nada escutas senão o baixíssimo silvar da lâmina longa que manipulo lentamente, que dilacera o ar num zuno que antecipa o tormento que te aguarda.
Levo o dedo aos lábios secos da sede da tua agonia. Digo, sussurro:
-Chiu!
O tremor, sentes? O martelar do teu coração convoca os medos mais antigos. Não arderás na luz que vem breve e quente, serás minha vítima, meu repasto de sangue e gritos loucos da dor que não irá partir. Serás nada, fragmento, cinza entre cinzas, uma referência infinitesimal na minha capacidade de ser misericordioso.
Sinto-o também, o frenesim. É sinuoso, matreiro como o olhar da pantera negra a rasgar toda a treva, é feito de mal e anfetaminas. Atrás desta porta alargo as narinas e deixo entrar a fragrância do teu suor, o pavor no teu hálito prestes a terminar, o fedor quente da urina que inunda as tuas partes baixas. Sim, gosto disso.

Por detrás desta porta que sei que não está trancada, escuto a queda uma peça de mobiliário, o atarantado dos teus passos a tentarem ser, inutilmente, silêncio. Paras, ofegas, talvez já te recordes dos primeiros dias da tua inocência. É justo, a tua viagem rápida perante as recordações de uma vida que em breve partirá. É justo, respeito as tuas confissões aos deuses e as desculpas aos antepassados pela insignificância que pautou a tua passagem por este mundo. Não tens saída possível deste sítio que nunca devias ter procurado, esqueceste-te que o recato por vezes é o mais perigoso dos inimigos, e sabe-lo agora. Eu sei-o também. Aumento o movimento circunvagante da cunha de ferro aguçado. Espero, apenas uns momentos, antes da chacina, antes de, sem motivo e sem razão, alguém que em nunca reparaste irrompa pelo teu lar e reclame a teu derradeiro sopro.

Selecionei-te na rua, o teu passo sempre com pressa de ir para casa, as receitas de comprimidos que aviavas com excessiva ânsia na farmácia. As compras parcas no supermercado da esquina escreviam a prova evidente da tua solidão. Vi-te várias vezes a caminhar para a paragem de um autocarro com rota para os lados mais envelhecidos dos subúrbios. Esperei, um dia de cada vez, junto a todas as paragens da tua carreira, nem sequer me viste quando saíste no teu passito apressado e rodaste sem precaver a presença de estranhos a chave solitária de uma casa pequena e velha. Suponho que tenhas herdado a casa de uns parentes, que seja uma herança da família defunta que em breve re-encontrarás.

Preparo-me para a investida, sinto-te, no meio da sala pronto para a confrontação. A bílis que transborda no amargar do teu palato, sabes que a única forma de sobrevivência possível é seres mais duro, matar e não perecer. Irás dar-me a honra de uma boa luta de morte?

E se fossem iguais todas as loucuras dos homens neste momento, muito provavelmente, iniciaria a gargalhada ou o grito demente, chamaria o teu nome para o rol dos mortos mas tal facto desconheço. Não mereces tal contentamento ou comoção. Para mim és apenas o homem de passo lento que escolhi estraçalhar com absoluta crueldade. Aleatório, apocalíptico, este método de causar a execução do meu querer tão doente, o teu adeus será dito agora.

Distingo a tua mobília barata e cheia de pó dos anos sós antes de encarar a tua patética resistência. Os punhos cerrados de um perdedor atingem o ar quando, um perfeito movimento de flanco, o gume cava o socalco que se abre até meio da tua rótula. O teu esgar de dor é aumentado pela retirada rápida do ferro da chaga aberta. Gritas para ninguém que ainda esteja vivo te escutar. Apenas os abutres e as criaturas que se alimentam das coisas finadas terão, porventura, percebido o teu apelo.
A palidez anuncia o teu percalço. Tombas, desabas como um castelo das cartas de amor que nunca deves ter escrito. Este corpo em colapso a meus pés exige que estanque a hemorragia para que possa prolongar o festim que o demónio que vive junto à fronte esquerda exige. Demandas insistentes e dolorosas que só o calor do ferro em brasa e a perícia no corte das cartilagens poderão atenuar.
Enquanto manejo com habilidade o garrote e vasculho os bolsos em busca de uma mordaça o rastejador e abominável ser que vive aqui em cima, aqui do lado esquerdo, diz que, afinal, tem pressa. Obediente decapito e parto.

Em passos silenciosos regresso ao recato do lar, tomo a medicação e digo ao Satanás que habita a minha caixa craniana que esta noite já está tudo bem. Que o Sílvio Santana foi obediente e que merece dormir quentinho, que está tudo bem, que o mal foi feito.

Halloween

Fui incauto no cálculo do tempo que demoraria a chegar a casa. A eminência do fim de semana prolongado aumentou, consideravelmente, o volume de tráfego. Não vou chegar a tempo de ver o jogo. É isso que desejo desde a hora de almoço; uma noite sem outras pessoas sentado à frente do televisor. Todavia o plano não está a correr bem. Demoro toda a primeira parte do desafio entre a primeira e segunda velocidade e o pisar repetitivo da embraiagem. Um soco no volante acompanha o primeiro golo do Atlético Clube de Nossa Senhora; avizinha-se um fim de carreira ao pior penteado que já passou no futebol nacional.
Quando estou, finalmente, a parquear a viatura na garagem do meu prédio o telefone toca. Um olhar ao visor de cristais líquidos identifica que a chamada provém de Mituxa, nome muito mais colunável que Maria Patrícia. Antes de atender a chamada revejo mentalmente a lista dos diminutivos de todas as minhas supostas amigas e constato que todos os nomes de guerra contêm um Xis. Na minha mente forma-se a imagem de uma matilha de “poodles” de latir irritante, pelo ridiculamente aparado e um cio imenso.
Inspiro e primo a tecla verde:
– Olá minha querida.
Mituxa grasna no seu estilo afetado; dicção nos limiares da trissomia do cromossoma vinte e um:
– Lindo. Está bonzinho? Então? Vem à minha festinha?
Embora o tom de voz procure um certo estatuto social, “vulgus” de gente bem, as aparências iludem. O cenário do evento é uma vivenda geminada algures numa das freguesias mais aborrecedoras do concelho. Espirituosos em promoção, “snacks” ultracongelados e um serviço Vista Alegre comprado em quarenta e oito prestações.
A fauna será constituída por vendedores de automóveis em uniforme Sacoor, gerentes de sapataria de centro comercial, trintões e trintonas ainda embrenhados em pós-graduações e mestrados que findarão no balcão de alguma fusão bancária. As divorciadas quarentonas, famintas de diversão para compensar década e meia de fogão e sexo-tédio na posição missionária. Alguns alérgicos ao compromisso, habitualmente homens, habitantes de estúdios minúsculos que desconvidam a qualquer partilha. Integro-me nesta última classe.
Muito álcool, Drogas nada, conversa merda.
Não me apetece conviver com a pantomina do “ser bem e divertido”. Estou cansado, furioso e com alguns pensamentos mais nefastos na zona da nuca. Tento declinar o convite:
– Querida. Desculpe mas não posso. Estou exausto. Tive um dia de doidos!
O ruído que chega da rede GSM é profundamente alto e agudo. O melhor nome para o classificar é ganido. Mas, na verdade, o som é mais semelhante ao “sample” da agonia de um suíno:
– Oiça! Não me vai fazer isso! É a minha festa do “Halloween”, um baile de máscaras giríssimo – contrapõe exaltada.
Confesso que a palavra festa despertou algo em mim. No fundo se sou membro de tal agrupamento de personagens é porque algo em mim é supérfluo, fútil e tendencialmente idiota. Na verdade pondero seriamente ir, depois do jogo. Mituxa instrui-me, tomando o meu silêncio como concórdia:
– Tem que vir mascarado de algo horroroso. Está a ver? Tem que fazer medo às pessoas. Imenso medo.
Ora ai está uma temática que me agrada. Termino a conversa rapidamente pois os preparos são demorados:
– Sou ótimo nessas coisas. Imenso medo, que máximo. Até logo, beijinho!
Botão vermelho, elevador, casa.
Nos poucos metros quadrados de impessoalidade Ikea a que chamo lar desfilo o ritual da metamorfose. Sistematicamente, sem descurar o mais ínfimo detalhe, a minha personagem da noite de bruxas e outras coisas maléficas ganha forma. Antes de sair, um olhar no espelho. Estou ótimo. A matar.
Chego exatamente duas horas e quarenta dois minutos após o fim do jogo. Estaciono o carro junto a urbanização. A porta da vivenda está fechada. Conto os automóveis. Estimo entre quinze a vinte almas no interior.
Após alguma insistência na campainha consigo que Mituxa surja na ombreira da porta. Está vestida de Morticia Adams. É bastante feia mas tem um corpo apetitoso, com realce para uns seios recauchutados que o decote do vestido expõe generosamente. Perscruta-me com o olhar, de alto a baixo, e censura vivamente:
– Que raio de máscara é essa? Algo horroroso é um morto-vivo, uma múmia, o Drácula, essas coisas – abana a cabeça – e você vem vestido de…empregado de talho?
Abrilhanto um sorriso plagiado da página quatro da revista “Caras”:
-Eu estou mascarado. Tal e qual como você me pediu. Algo horroroso!
O “flute” de espumante é agitado a curta distância do meu nariz:
– Dahh …. Mascarado de quê? O horrível homicida da charcutaria do Jumbo?
Aproximo-me, beijo-a de forma mais afetuosa que o costume, a quatro milímetros da cútis, e acaricio a zona onde se situa a carótida. Abato o olhar sobre os seios empinados e inquiro-me se a silicone terá algum efeito sobre o paladar das carnes:
– Alexander Pichushkin. O “serial killer” russo – esclareço – Já ouviu falar?
O rosto que já merecia uma intervenção plástica tenta dissimular a ignorância e contesta:
– E qual é a piada disso?
De facto a sua conduta vital apresenta-se bem saliente no gasganete anoréxico. Uso o polegar para avaliar a espessura da artéria antes de responder:
– Vai ter querida, uma imensa piada. Percebe? Minha bela torre branca.
A mensagem atravessa sem efeito o crânio oco. Com um gesto de desprezo vira-me as costas e bamboleia-se de regresso à improvisada sala – pista – disco – bar onde um “groove” ligeiro mistura o gelo nos copos.
Entre apertos de mão e mono beijos faço o inventário de cabeças. Dezasseis. Será necessário recorrer a alguma forma de imobilização de massas antes de iniciar a tarefa.
Desculpando-me na incerteza de ter estacionado corretamente o automóvel regresso ao exterior. Aberta a bagageira, contemplo embevecido a minha bela coleção de ferramentas. Tenho particular orgulho numa excelsa serra elétrica de grande potência. É usada por equipas de emergência em fogos florestais. Corta tudo. A pressa, ou vagar, na incisão dependem apenas do sensível controlo de velocidade e da arte do operador.
Seleciono uma granada de gás atordoante e coloco-a no bolso das calças.
Retorno ao espaço festivo, animado agora pela batida lenta dos “Massive Attack”. Ao caminhar entre os meus pares sinto que uma ereção se formou e que salivo mais abundantemente
No interior do soberbo avental de cabedal, digno do mais nobre açougue, sinto o toque frio e erótico do grande cutelo que é usado para o desmembramento.
Tenho sede.
Antes de começar o que me traz aqui vou beber um copo, dançar um bocado.