Prosa curta da branca – Linha IV

Leonel voltou ao bairro.

Leonel tem duas quartas e uma vai meia entre fungadelas no parque de estacionamento da suburbana concentração de betão a que alguns chamam de vila.

Arminda ama Leonel e espera-o

Leonel já não suporta Arminda e entre o caudal mucoso da cocaína sua mente lança-lhe imagens de sua esposa desmembrada.

Arminda muda de canal e sente um pouco de sono

Na mala do veículo velho existe um machado.

No porta-luvas a segunda saqueta é aberta. A nota enrolada reduz-lhe a dimensão em poucos minutos.

Os passos são rápidos na escadaria do prédio.

Lá fora a bagageira do carro, escancarada e vazia

Leonel olhos brilhantes com a morte amputada de Arminda nas mãos e na vontade

Aquela branca do bairro fá-lo valente. De suas papilas gustativas adormecidas desperta a sede da liberdade por morte alheia.

Arminda grita

Leonel golpeia o ar e o desnorte dos sentidos atinge o sofá e não o peito volumoso da sua mulher.

Arminda grita e foge em desnorte.

Trancado em casa a saqueta termina no palato de Leonel

Até à intervenção policial apenas ecoam pelo prédio ,agora desperto, as furiosas golpadas que fazem no menor pedaço possível aquilo a que nunca Leonel quis chamar lar.

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Prosa curta da Branca – Linha III

Na fronteira entre o vómito e o colapso foi pai o amparo da parede suja de grafites e cartazes de eventos musicais do submundo. De olhos feitos vidro , pupilas alfinete, coração equídeo caminhando para o colapso senti o chamamento das histórias que contam as almas que ficam para sempre na calçada. Eram três.
Uma espezinhei porque me chamou filho da puta , a segunda tenho-a no bolso das calças e fala de um homem que chora com os cães.
A derradeira confessou-me que não era meu momento final a derrocada que sentia o meu corpo se submeter perante a tonelada de opiáceos. Espancou-me com a brisa fria da noite e ordenou-me que a contasse.
Cambaleando voltei a casa e obedeci a sua desejo perante esta caneta insana que persiste em gatafunhar. Junto ao punho a saqueta ainda contêm mais aspirações. Após paragrafar o tiquetaque da lâmina sobre o espelho , o sussurro no túnel feito de uma nota de dez euros.

Prosa curta da branca – Linha II

Um trovão cruza o cérebro excessivo em eletricidade , demoníaca ventania que contorce o sistema nervoso central. Mucosas rasgadas , lâminas ínfimas lapidadas nas encostas da Colômbia.

Gengivas escovadas pela  pele que quer levar para dentro do corpo a dormência dos sentidos , o alerta dos repentes.

As luzes , vermelhas , bolas , espelhos , linhas , espelhos . No palco o cantor esganiça uma versão de algo que já teve ouvintes. E todavia , apesar do pepineiro êxito esquecido e da pouca fluência em agudos do bardo , Renato sente uma incontrolável vontade de dançar.

Olhos feitos de nada açambarcam o losango de tons fora de moda que delineiam a pista de dança. Apercebendo-se do dançarino o artista solo liga a caixa de ritmos e um pedal eletrifica o corpo da viola.

Passos de oitenta aventuram-se sobre a alternância dos néones . Alguns rodopios após a abertura da pista o sangue corre das narinas , imaculado branco da camisa tingindo. Mas Renato dança , deus, como ele dança.

Prosa Curta da branca – Linha 1

Um , dois , o ritmo do metal no metal , grave , siderúrgicas paisagens ocultam o fato-macaco sujo do homem que aspira o saco de cola. As longas pás do parque eólico enchem os ares quentes de agosto com seus zunidos , na berma alguém despejou um escarro que tinha o sangue dos velhos. Junto à cataplasma nasceu a erva daninha, pouco dias depois morreu mesquinha assim como aquele que, do vidro aberto ,expelira a infeta saliva. O homem do saco de cola generosamente ventila os alvéolos de celulosas mazelas. Na proximidade dos seus passos, o hipnótico rodopio. Talvez seja irrelevante para o fim eminente da narrativa ( outra linha espera ) ser o nome do bafejado aquele que deus dera ao traidor. Judas caminhou para a hélice e a pressa do ar  foi rápida no golpe. Dos bolsos caíram vazios tubos de cola.

Mesmo depois de decepados do corpo persistiram ,os olhos, em vasculhar  o céu feito de fumo negro e estio .Os lábios moviam-se por mais uma aspiração . Lentamente o seu movimento parou.

Judas morreu.