Zé Tóxico – I

O Zé Tóxico é assim. Há vezes que me deixa completamente destruído, outras rei de planetas dos quais já não consigo pronunciar o nome. Por vezes oferenda-me ninfas de língua bífida, riquezas faraónicas que contemplo maravilhado, paisagens de luas mortas onde corro sem gravidade , menino brincando ao pequeno passo do homem .Por vezes as viagens são más.Chegam monstros , horrendos medos , mortes lentas de sofrimento imenso onde o meu grito de insanidade ecoa pelo sofá que fica aos fundos do laboratório do Zé. O laboratório é ilegal , o que lá se fabrica é barato , fácil de produzir e bate muito. O Zé Tóxico é rico. Dizem ser o melhor engenheiro químico do reino dos perdidos, aquele que traz à insanidade da noite todas as cores onde a mente consegue ir. Alguns ,por vezes ,não voltam dessas viagens. A mim nunca me aconteceu. Já estive perto, lá na fronteirinha da terra dos pirolitos a menos , voltei sempre. O Zé diz que o problema não é do produto dele. Mente. Ele na verdade caga bem nos que viraram a molécula cerebral, prefere os que voltam .Os que querem as suas refinadíssimas pastilhas. Os clientes dizem que ele é o Picasso da alucinação. Ele sorri e cobra mais pelo produto. Eu penso que não quero que a sua Guernica rebente dentro da minha cabeça já tão debilitada.
Eu sou a cobaia do Zé Tóxico. É o meu emprego, o meu vício, o meu prazer e medo. Será provavelmente também a minha morte. Uma embolia, as pernas esticadas de repente, o coração a implodir , paredes e artérias corroídas pela minha transfigurada circulação. Nem é uma má morte.. até lá vou fazendo estas viagens. Quase todos os dias abalo da vida sem interesse que teria se não me enchesse de aditivos; como os miúdos tomam o leite antes de ir para a cama aterro regularmente na casa do Zé Tóxico por voltas das oito . Ultimamente já nem janto, não gosto de acordar a tresandar a vómito por muito boa que seja a viagem . Mas a voltinha no carrossel dos insanos eu não dispenso. Vivemos praticamente no laboratório. Nós os três, eu , o Zé e a Zombie. Não sei o nome dela por isso resolvi dar-lhe esse nome. Ocupa a grande cama que fica do lado oposto à parede onde se encontra o meu sofá, os meus alguidares para o vómito, o desfibrilador que o Zé insiste em ter por perto juntamente com a gringa tamanho XXL carregada de adrenalina. O Zé diz que um dia vai ter que me trazer de volta. Se não o conseguir não me importo muito. A Zombie não diz nada sobre o discurso do Zé sobre a minha possível reanimação. Na verdade o raio da mulher pouco fala. Encontra-se quase permanentemente num estado de letargia profundo sobre o leito onde os lençóis nunca conheceram lavandaria. O meu sofá é igualmente nojento. A Zombie dorme enquanto eu tripo , a Zombie dorme enquanto eu esfrego em perfeito descontrole todo o meu corpo para me livrar do exército de escaravelhos que debicam todos os milímetros da minha pele (H3401) . A Zombie ressonou durante a longa noite em que algo terrivelmente quente e corrosivo (Q97R2) consumia as minhas cordas vocais e laringe ; gritei para não morrer. Quando regurgitei veio o efeito secundário do químico, os restos da minha digestão fora apresentado em tons de sangue enriquecido por lascas de tecido morto extraído do meu próprio fígado. Enquanto isso acontecia a puta da Zombie dormia.
Mas por vezes ela não dorme. O Zé Tóxico injeta-lhe algo que liberta a deusa de todas as insanas, ninfomaníaca de batimento cardíaco superior as cento e oitenta , olhos feitos globos de predadora de tudo o que a carne pede , até as coisas mais proibidas. Já fiquei muitas vezes a assistir às suas cavalgadas loucas sobre o corpo magro do Zé Tóxico. Ele parece gostar que eu veja. Uma vez , visivelmente bem disposto, emprestou-ma . Juntamente com algo a que ele chamou o Rochedo dos Deuses ( XX069) aguentei-a firme e obsceno até à manhã raiar. A seguir ela adormeceu. Quando despertou tinha de novo o mesmo olhar ausente. Já não se lembrava de mim dentro dela. Melhor assim. O que há a fazer é esquecer , limpar a mente de todas as coisas que possam na realidade ter acontecido. Apagar, viajar, dormir e voltar desperto, limpo de emoções e culpas como um lactente das bolinhas sorridentes do MDMA e derivados.

Não tenho razões para viver de outra forma , já não me importo. Todos os dias são iguais e são apenas bons aqueles onde posso esquecer o mundo que me deram e agradecer a deus por me deixar decair desta forma sorridente , uma mentira de felicidade que me leva a consciência e largas quantidades de neurónios em macaréus roubados ao mais insano que existe na tabela periódica . O Zé Tóxico diz que o messias se chamava, na verdade, Moseley ; eu não entendo do que ele fala mas há tanto sobre o qual já não consigo articular palavra que , provavelmente , ele terá razão na sua firme crença. Por vezes digo ámen quando uma pastilha especialmente feliz na sua conceção termina a sua maturação no meu ácido estomacal e , em seguida , as tais ondas gigantes por que anseio, a saliva transfigurada em sabor de fármaco e o cérebro , e os olhos . O cérebro e olhos, meu deus, fecham-se neste lento decair de lábios feitos sorriso, a derrocada da babel de tudo o que ainda é real em mim . Perco o controle de mim. Já é frequente que se contorcionem involuntariamente os membros em espasmos que tanto poderão aparentar a convulsão do orgasmo extremo ou o estertor dos últimos momentos.
Sou a prova viva que o ácido pode ser consumido por largos períodos de tempo. O Zé Tóxico diz que se legalizassem a trip eu seria apresentado como case study a sisudos executivos de farmacêuticas que salivariam para me dissecar e tecer ambiciosos planos de negócios baseado na longevidade da minha carcaça.
Hoje veste a gravata negra sobre a camisa branca . Na imaculada bata pode-se ver bordado em letra rebuscada sobre o bolso do peito ,C20H25N3O
Hoje estou um bocado preocupado. O Zé disse-me que ando a falhar no relato das minhas experiências. Que aquilo não é um negócio de droga. O tráfico apenas alimenta a ciência. Ele diz. Acho que tomou algo. Ele diz que tem que saber tudo, que tenho de lhe contar onde vou. Eu digo que o faço. Ele enfurece-se e passa no monitor de muitas polegadas a gravação vídeo da minha última entrevista. O fio de baba que me escorre do canto da boca em direção ao logótipo da HP e o meu monólogo de latidos e uivos lupinos são de facto parco contributo para a ciência.
O Zé Tóxico tira do bolso da bata uma seringa plena de um liquido cor rosa onde no interior navegam pequenas suspensões negras. Ele diz:
– Isto vai doer com’o caraças a entrar – encolhe os ombros – para a próxima a moagem será mais fina.
“Merda de Humor “ penso enquanto desaperto o punho da camisa e exponho o braço direito. O esquerdo está inutilizável. Quero saber:
– O que é essa merda ?
O Zé Tóxico olha-me fixamente e tosse um pouco antes de falar. Isso quer dizer que não tem bem a certeza do que misturou. Eu vejo a mão dele tremer. “Foda-se ,que não sabe mesmo”
A mão livre do Zé Tóxico rebusca um dos bolsos laterais e descobre um comprimido. É vermelho e negro . Ele nota a perplexidade na minha cara perante a proposta da mistura do produto injetado com a pastilha deglutida. Clarifica.
A minha péssima prestação nas mais recentes sessões de cobaia obrigou-o a criar um catalisador de memórias. Como já percebeu que não consigo falar decidiu tentar a minha capacidade de descrever os momentos que passei nas nuvens mágicas da aldeia de lá –lá- lá através da escrita. Para esse efeito serve a solução que espreita através do vidro . O embolo acaricia a sopa que está prestes a entrar em mim.
E o comprimido? Quero saber.
Abrindo-me os lábios com meiguice o ácido é depositado. Olho nos olhos do Zé e vejo um sacerdote que oferendou sacramento a um fiel. Fecho os olhos e rezo a uma boa viagem. Oiço a voz do Zé Tóxico explicar:
– Chamei-lhe “O Sepulcro do Rei “ ( RIP003) ;é uma encomenda dos góticos. Procurei um ambiente extremo de claustrofobia onde a asfixia e o medo se mesclassem com a total ausência de luz, cegueira total. A duração do produto pode ser um problema – uma pausa que já começo a ouvir ao longe – será que aguentas umas cinco horas enclausurado na sepultura? Sem veres nada , quase sem conseguir respirar?
Oiço pazadas de terra tombarem sobre a madeira que está a escassos centímetros do meu rosto. Os meus braços estão cruzados. Não posso escrever agora. Se voltar contarei.

Londres – Shots de uma revolta I

Fechado nesta cave , este cachimbo esta chama que me leva para o céu triste londrino , este cachimbo que chama com uma raiva inaudita. Para as ruas, capuzes , mãos nos bolsos , contentores , montras de chinocas e começa a chover e começam os tiros , ardem contentores , ardem casas , já tenho uma consola , sapatos novos . No bolso os móveis chamam para outros lados antes que a porcaria apareça nos seus coletes verdes e no seu passo hesitante de tanta civilização. Há bendita Commonwealth que nos tornas tão difíceis prisioneiros. Mais uns polegares , mais uns focos de incêndio e se me perguntares a razão tal não existe . é tudo tão confuso nesta cidade que anda tão depressa, toupeiras apressadas de gabardines de tons escuros , sapatos desportivos , atletas de auscultadores aspirando o smog , taxa de congestão, congestão dos meus sentidos na ponta do vidro. Smack em soho. E continuamos a corrida da pura destruição. Queremos e levamos , ao meu lado duas miúdas que devem conhecer há pouco a menstruação espancam a pontapé os restos de um mostrador Armani,;na rua contígua morrem dois coreanos , imolados em seus negócios familiares.
Gritamos :
Urrahhhh.
Urrrrahhhh .
Urrrahhhh !!!!!!

Dos altos da Serra de Sintra

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se escutava , o uivo do lobo cinzento veio. Desceu as encostas lesto, levado pelos nevoeiros e pelo frio que vinha do oceano. Entrou em primeiro lugar nos condomínios plantados à beira do “green” . Olhos de feições corrigidas e ganância inelutável fitaram em pânico o teto temendo a derrocada dos mercados. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam, o apelo da alcateia inquietou orçamentos curtos e dívidas em crescendo eterno. No quarto de poucos metros quadrados a menina percebeu que amanhã o pai também não teria trabalho; o grande lobo que descia a avenida deixava marcas de garras em carros ainda de prestação longa, os canais rodavam lentos nas televisões, dedos do medo de amanhã a tudo tentar esquecer.

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se sentia , desceu uma fome de gente saloia minguando aos poucos . O obsceno cheiro a caviar das mansões repeliu-a como um vómito largado por um pedinte, chefe de família desonrado, na ruela que leva às casas de mesas parcas. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam ,o cheiro a privação apertou, ainda mais , cintos em barrigas algo crescidas de fome. Rufando por portas de vergonha , de decência mostrada e não sentida ,a míngua entrou nos bandulhos de tantos, como há tanto neste reino não se via.

Do Rock – Fado Negro do Sangue ( Moonspell )

Inspirando as fragrâncias dos fumos sagrados de Quibir, olhos cerrados nas lágrimas da derrota. Valorosos cavaleiros tombados ao devaneio de um imberbe governante. Fortes gentes dizimadas, gritos de São Jorge, pela mãe que está lá tão longe, debandada na areia escaldante. Pela cimitarra passaram, um por um , até só restar aquele que traria as novas da grande desgraça que se abatera sobre o Reino de Portugal e dos Algarves .

Séculos após a vergonha retorna, desviai vossos olhos senhores de Avis e Bragança . A profecia da fome e morte que o frade louco proferiu na ermida onde as cruzes se inverteram chega hoje. Correm demónios pelos caminhos e as veredas, arautos de um Adamastor vingativo ecoam as trombetas do castigo daqueles que se esqueceram do mar. Para seu grande castigo, o peso da terra europeia pune seu piáculo .

Das profundezas Poseídon chama às suas vagas os seus , os homens que rasgavam a crista do oceano em seus hábeis navios. Seu único remendo, com os filhos a morrerem de uma fome que oficialmente não existe, é ir buscar às redes o saciar dos seus. Apertam-se gorros, afagam-se as mãos e bebe-se algo que traga calor e mande embora o medo daquele ventos frios que dançam sobre as águas chamando a si para o descanso azul dos afogados. Pés descalços na areia, mulheres de negro acenam na praia. Trinam as primeiras notas do fado negro do sangue.

Na cidade que recebia, com um sorriso da sua luz única, as especiarias vindas das Índias sombras negras enchem o rosto dos homens, enchem-se de novo os balcões das tabernas .Dos estômagos vazios e cabeças confusas nascem rixas que a navalha resolve. Do alto do castelo Satanás chama o ódio , vingança , obscuros tempos de humilhação de um povo.
Mulheres velhas colocam xailes de fadista e cortam os pulsos escutando a imortal voz de Amália , apartamentos velhos e carcomidos ganham o último silêncio . Na cadeira dourada jaz, olhos incrédulos a um fim tão lento. Sobre a renda que cobre a mesa escorre, negro ,o sangue ;nas águas livres estremece a guitarra que já não quer chorar baixinho
.
Do Tejo levanta-se uma bruma que o orgulho dos antepassados enviou e traz nos seus farrapos fantasmagóricos o cheiro das mulheres frescas dos outros oceanos e o calor da aguardente que afoga o pavor e o escorbuto.
Nos apartamentos tremem as janelas como em cinquenta e cinco de setecentos , pânico , passos apressados correm as calçadas de Lisboa , carros colidem em série nas avenidas apinhadas , no solo as frinchas reclamam as suas primeiras vitimas , mandíbulas de vulcano engolem grande parte da Baixa Pombalina . De uma voz que quase se esquecera de ecoar o pregão grita-se a plenos pulmões

Ao rio , ao mar , ventos lestos levem-nos de volta à rota da nossa glória.

Aos barcos que já não navegam o Tejo , desmantelados os mensageiros da nossa memória por agiotas de terra firme , negro fado que nos exiges o sangue. As guitarras trinam no aço que já não se forja , o vento procura enfunar as velas que se tornaram lençóis de homens sujos e a sua fúria traz a voz de trovão. Sonata negra que demanda nossa submissão.

Do Rock – Sepultura

O bófia à minha frente quer ficar com o último charro.
Isto, hoje, não deveria acontecer.
Numa situação normal tal facto significaria um pequeno aborrecimento que terminaria com o afastar do policial sem vontade de preencher imensos impressos e o meu desgosto pelo facto do produto ter sido confiscado.
Hoje é diferente.
Hoje há speed de cristal no canal
O bófia tem aquela vermelhidão ainda não carcomida pelos fumos da grande cidade. Um campónio. O cabrão é um maçarico campónio que me quer ficar com a ganza e levar dentro.
Hoje não.
Hoje há Sepultura .
A arma na sua cintura é desafio minúsculo perante a raiva que cresce em mim. Mar ácido que me queima o estômago e me sobe pelo esófago. Este sabor que só se saciara com a vitória esmagadora. E ele diz:
– Você está preso!
A mão procura o par de algemas mas a sua presunção da minha não resistência termina quando o meu punho rude , arma do homem das tabernas e das lutas de rua, lhe esmaga a cana do nariz como se de um ossinho de frango ,triturado pelas mandíbulas de um horrendo monstro ,se tratasse.
Cai, a face ganha rapidamente a cascata do sangue. A sua visão seguinte, o terror que se ergue na boca que se escancara num “Não”, a mão em ordem de alto que não vai acontecer é barreira que a minha bota trespassa com toda a velocidade que esta imensa vontade de matar me traz.
Rebenta. O crânio encontra a borda do passeio. O azul da farda já pouco existe.
A arma no chão
Pego nela
Aponto. O speed de cristal diz que dispare
“Mata o bófia” diz a minha insanidade química que me faz palpitar o coração como um cavalo de corrida.
No fundo da minha mente ergue-se o muro sónico da guitarra de Max e o bombo duplo do seu irmão. A canção diz -“ Algum dia cairás e eu estarei à espera “.
Detenho o gesto
A consciência retorna, aos poucos, aos olhos do polícia.
É um miúdo. Não deve ter saído do curso da formação há muito. Azar.
O seu medo cintila entre os olhos semicerrados pelos hematomas e pela cortina vermelha da sua imensa derrota que se encontra nos primeiros estados de coagulação. O silêncio da rua , a falta de apitos e de gritos de “Quieto” e “Mãos ao ar” comprovam que os reforços não existem. Azar
Está nas minhas mãos. Agita-se um pouco sobre a poeira da rua. Lá ao fundo o pavilhão. Oiço passos. Não são botas de monos, são o passo acelerado do batalhão dos condenados. Uma milícia de insanos. Vestes negras, longos cabelos, baixa condição. Anunciação da violência extrema,
Se deixo o bófia ficar ali estendido irá certamente morrer sobre a chuva de biqueirada que o vai rebentar por dentro. E se me estiver a cagar? Azar
O tipo estende a mão, o gesto do afogado ao seu maior inimigo
Na minha cabeça o bombo duplo persiste. Daqui a pouco uma muralha apocalíptica de som irá ecoar do sistema de amplificação. Quero lá estar. Para tal não posso matar agora.
Atiro a arma para longe e dou a mão ao tipo. Cambaleante, talvez agradecido por o fim que lhe evitei, não profere palavra durante todo o caminho. No rádio que ainda traz pendurado à cintura o chefe do carro patrulha chama pelo agente Reis.
Então , como se o diabo me tivesse sussurrado ao ouvido, decido que o agente Reis vai conhecer os prazeres do grande tubarão insano que nos devora os tímpanos. O senhor agente vai rodar a mil à hora no covil da biqueirada. Tiro o casaco e cubro a camisa azul. À força enfio-lhe entre os dentes ( poucos ) que restam duas cápsulas de anfetaminas.
Duas nuvens de negro sobre o meu olhar, a imensa excitação que sinto ao avistar a sala escura , o fumo a cobrir o palco ,uma marcha marcial que diz à multidão que é hora de ser brutal . As hostilidades iniciam-se quando o quarteto surge em palco. Pendurada no bombo da bateria a omnipresente bandeira verde e amarela. A canção chama-se “raízes “ e toda a multidão volta aos estados primitivos da humanidade e convulsiona-se com fervor caótico , ossos quebram-se , feridas espirram , botas e corpos em espancamento coletivo. No centro a grande roda , lugar dos xamãs da agressão. Avanço para lá. Sobre o meu punho o agente Reis sente o efeito da bomba que lhe pus no corpo e grita insano, tenta libertar-se. Luta, quer sair do meu jugo. Empurro-o com desprezo para o centro do “mosh pit” , a última vez que o vejo está a rebentar à cabeçada a fronha de um puto para ai com dezasseis anos que lhe apareceu pela frente. Subo ao palco e mergulho em celebração à grande sinfonia do mal que ecoa em meu redor.

Do Rock – RATM

Hoje vim bem para o espetáculo. Hoje tenho uma cabeça limpa que está muito revoltada com a situação. Quando a guitarra rasgada de Tom Morello trucida o riff que é feito para acordar consciências ergo-me e escuto a palavra. Porque há algo que está, profunda e globalmente errado e é preciso falar. Que seja feita “ la revolucion” na malha do baixo e na voz de Zack La Rocha. Raiva contra a máquina. Disseram um, dois ,três e lançaram ecos de rebelião para a multidão que se agita no terreiro. Contam-se pelos milhares, bandeiras de foice e martelo no ar , olhos de revolta , t-shirts de Che , mortalhas smoking , algum álcool. Hoje para mim, nada . Apenas água e política.
Rage Against the Machine é ,acima de tudo ,um ato politico. Uma explosiva mistura das rimas do hip-hop com o poder das guitarras distorcidas e da secção rítmica marcada a ferro. As palavras são balas. Os milhares que se agitam frente ao palco são algo diferentes das costumeiras multidões dos concertos. Existem os que estão muito malucos mas a maioria é gente de olhares zangados com o mundo. Algo está mal. Aqueles ali, aqueles em cima do palco que saltando como loucos dizem que o inimigo usa fatos caros de fazenda em elegantes cortes de três peças e que faz da manipulação e da desinformação a sua arma . Aqueles que perguntam se nos mandarem saltarem em nome de um estado que não vela por nós o que faremos ? Saltaremos ? Ou diremos não ?
A dança dos corpos também ela difere do que costumo ver pelas plateias onde o rock e todos os seus derivados impõem a sua lei. O choque existe mas é nos voadores; é nos voadores que denoto a grande diferença. Não se esmagam contra a mole humana com o intuito de causar dor a si e aos outros ; abrem os braços antes de saltar no vazio e o voo é suave para a multidão de braços que esperam o corpo de mais um anjo do mosh. Não posso de deixar de pensar nas brincadeiras duras de soldados de um mesmo exército.
Lá em cima , a voz que fala em espanhol dos subúrbios de Los Angels pergunta porque é que os snipers só abrem fogo sobre bandidos pobres enquanto executivos levam bancos a saque e saem incólumes e sorridentes , banhados em obscenas camadas de paraquedas dourados, pingando o sangue dos mais fracos dos homens chorosos que não sabem onde vão viver amanhã. E a voz lá em cima pergunta: Qual é o homem de boa-fé que impõe a premência do lucro à fome dos outros? Qual é o homem de paz que não é capaz de pegar em armas quando a sua liberdade, a sua dignidade e a sobrevivência dos seus é comprometida em nome de uma ordem mundial sobre a qual não pode sequer opinar.
Conhece o teu inimigo. Pensa claro. Faz as perguntas. Recusa e Resiste.
A guitarra ganha a dimensão de uma serra elétrica que rasga a consciência. No palco diz-se:
-Conhece o teu inimigo.
A multidão sussurra em coro com Zack de La Rocha. Já não temos paciência . Cansados , cansados das vossas mentiras.
Tempo de revolta.
A onda que acompanha a convulsão da multidão leva-me até ao centro da roda, uma clareira , uns breves segundos e o olhar de Zack La Rocha encontra a minha camisola e a minha boina desbotada de vómitos no Avante e comícios para putas e bêbados nas travessas do bairro alto.
O braço levanta-se. A multidão escuta no silêncio ensurdecedor entre temas. O grito de batalha ecoa:
– Portugal . 25 de Abril Siempre !
Observo os punhos , as mãos fechadas ,a memória de outros tempos; há uma palavra de ordem que diz “Basta!” ; há uma fonte luminosa que ressuscita como se o vento fosse Maio e o Tejo demandasse mais firmeza às fortes gentes, vítimas dos fracos líderes que delapidam o seu ânimo e engenho. Quando o ritmo marca firme ,mas algo lentamente ,o desenrolar da rima a multidão salta. Não acompanho o movimento, rodo sobre mim mesmo e procuro aqueles que me cercam ; vejo a revolta nos rostos daqueles que não serão ,devido a nascimento e condição, a nata deste pais.
Rostos de licenciados condenados a apodrecer em balcões de bombas de gasolina enquanto distantes primos de corruptos autarcas escalam uma escada de serviço público deixando para trás um rasto imundo de incompetência. Uns óculos redondos e uma barbicha recordam-me o meu professor de filosofia e pergunto o que leva cento e vinte mil às ruas enquanto o autismo engravatado distribui computadores em nome da educação de um povo esquecendo que a figura do mestre-escola é milenarmente anterior à sua presunção de mentor do progresso.
Pergunto ao contratempo do baixo e bateria se lá fora espera o esquadrão de choque que silenciará a minha ira ? Sei que a resposta é não. Custos cortados cegamente, conveniente insegurança que é cortina de fumo para maroscas de largos milhões, lei que não passa da letra morta moldada por escribas engenhosos que protegem eternamente a mesma escória . O homem pobre apodrece nas teias de um julgamento justo que nunca mais chega enquanto condenados em tribunal sorriem em aberturas de diretos televisivos cantando vitórias que enojam qualquer tentativa séria de democracia.
E o baixo contínua, marca o ritmo da palavra. Não me dobro a poderes que apenas são. Recuso e resisto nesta fé. A essência primária da vontade do povo para o bem do povo que era suposto ser o nosso modo de vida.
Volto a casa em silêncio. Leio, alimento a minha mente com as palavras de Noam Chomsky , consciência dissonante com o discurso ultraliberal dos falcões da alta finança. Ao fundo da minha alma persiste a musica dos Rage , o metralhar das suas armas de intranquilidade ecoa em mim. Pouso o livro e honro a cultura de homem livre que os meus me deram. Empunho a minha arma. O poder da palavra sem baixo e bateria , sem rimas ou métricas , sem o riff da guitarra distorcida , o poder da palavra por si só. Pelo povo para o povo.

Medicação para um

Medicação para um paciente apenas. Alinhados no tampo da mesa perfilham-se como soldados de um exercito de maltrapilhos de cores diversas . Prevalece o branco e a forma arredondada. A grande maioria dos corpos tem um sulco ao meio que é o local do corte para a designada meia-dose. Algo que está fora da minha dieta .
Medicação auto prescrita. Lista do inevitável sossego, este desejo de dormir por mil anos como um faraó alheio ao passar dos tempos, as brilhantes areias que trariam o esquecimento.
A minha mente retêm apenas três palavras do discurso anterior .
Sossego ,

Dormir,

Esquecimento .

Tamborilo o tampo onde medicação psiquiátrica conjuga um verbo que só um especialista , um rei que dorme em fofas nuvens de medo ausente , consegue percecionar a beleza . O serenar a percorrer a cadeia sanguínea, os dedos escolhem os paladinos que enfrentarão todos os medos que me assolam
Sossego é Wellbutrin, agrada-me particularmente a nota de rodapé da bula :
“Wellbutrin é um antidepressivo. Atua ao nível do cérebro para tratar a depressão. Desconhece-se como funciona exatamente devido ao caráter inovador do produto . Estudos especializados garantem que não potencia tendências suicidas nem de automutilação”
Engulo duas doses em conjugação com Effexor , verdadeiro guardião dos pavores e Mellaril .
O doce Mellaril que , mágicas artes da indústria , simplesmente me leva para uma estratosfera onde só perdura o sorriso que perdi algures nos tempos tristes a que me tenho acostumado chamar de vida.
O conforto do sofá virado de costas para a janela que persiste em chamar para o deslumbramento da paisagem que existe entre o sétimo andar e o passeio pejado de automóveis. O som final seria uma amálgama de vidro estilhaçado e carroçaria amolgada. Descaio os músculos que começam a sentir o apregoado relaxamento entre as almofadas e deixo que os sons de um noturno de Chopin encham o ar que começa a ganhar cores apaziguadoras. Do subir e descer do meu peito nascem pequenos fogos-fátuos que brincam um pouco na boca do meu estômago antes de partirem em direção ao candeeiro . Há uma aurora boreal a pairar em meu redor. Pianíssimo, dedos a deixarem de existir absorvidos pela cicuta entorpecedora, Pianíssimo, abano lentamente a cabeça e deixo que o peso das pálpebras se torne um desaguar de ânsias sobre as minhas cavidades oculares tão exaustas de tanto verem. Um pequeno suspiro, aconchego de uma manta que cobre os pés .
Quando o repouso parecia ser o trilho da noite eles retornam.
c. As minhas unhas sujas acariciam a testa. O suor congela quando o espetro me acaricia a face e , voz de alguém que foi próximo , ordena :

-Estás todo sujo . Cobre-te a face uma lama fétida . Fedes , Limpa-te!

Aumento o ritmo e a intensidade da coceira, o ardor é atenuado pelo que só perceciono a intensidade do dano quando o acre do sangue me toca a boca .
Vejo-te ainda, ganhaste forma humana , aí junto ao cortinado , queres que vá à janela . Não irei , não te quero ver , não quero o vazio de um passo a mais , não perecerei perante teu apelo. Cravo as garras na periferia do globo ocular e escavo para que te desvaneças. Para que não sejas mais rotina de todos os crepúsculos