R.I.P ( Pensamentos difusos no dia da morte de José Saramago)

Na tribuna que fica para lá deste mundo mais um lugar ficou ocupado na fileira dos Grandes Mestres da Língua Portuguesa.

Nas redes sociais alguns católicos, desmemoriados que a mensagem de Jesus era o perdão mesmo aqueles que nos antagonizam , congratulam-se com a partida de Saramago.
Ámen para estes ignorantes de merda . Escória !

Era ateu. Não acreditava no lado de lá. Calem-se hipocrisias e prestem-se somente as últimas honras ao corpo, decerto debilitado, que em cinza se transformará. Calem-se as rezas e as ladainhas .
Em silêncio escutem os passos do gigante que perdurará  na história deste povo ,por vezes tão ignorante , mas tão necessitado de ser levantado do chão.

Thais preparada

Aquela música que começa assim:

“Fé em Deus, Dee jay “

O Senhor Jesus que vela pelo Rio de Janeiro virou o rosto e mirou uma gostosa na calçada de Copacabana pois aquela que sobe é vergonha de gente boa , é nome que se não se diz em famílias  que murmuram o exorcismo da suja que vai calcando o fim do asfalto , fronteira entre os pobres e os ricos da cidade . Aquela que vai subindo é Thais .

Lá em cima está aquele que manipula os pratos e coloca uma batida bem safada.

Vai preparada e cheirada. Esta noite é de baile proibido, é terreiro tórrido  onde  mulher e chamada de égua , cachorra , vadia e puta a que todos dá. Thais adora ouvir tais impropérios. Os insultos fazem com que os seus fluidos circulem quase tão quentes como a noite de dezembro. O seu passo sobre os sapatos plataforma é curto e toldado pela justeza da quase inexistente saia. O roçar do tecido na pele é agradável. Lá em cima, zona sul , morro do Vidigal , o ritmo que já corta a algazarra dos botequins onde o chope escorre a jorros e todas as cabeças se viram para mirar o rebolar do passo de Thais . Excitam-na  as palavras ditas por bocas onde faltam dentes e onde a saliva é abundante , as mãos afagam os copos , alguns falam alto. Thais sorri e continua subindo, rebola e deixa que todos vejam entre a finura e brancura do tecido quanto nada existe para lá dele.

Thais adora ser cachorra, sempre agitando o corpo , cheirando pó , inalando maconha. Perde-se , cheia dos demónios que habitam a praia e que um dia lhe inundaram as entranhas trazendo esta  fome , este  querer , o inebriante desejo de se sujeitar à maior sujeira . Os olhos grandes estão tresloucados pelo cio, a cocaína traz um brilho especial ao olhar sedento. Entre dentes : “Copa da Putaria”.

O sinal negro junto ao canto esquerdo de sua boca está quente, palpita , acontece sempre assim . Sempre que a diaba da praia volta a chamar por si entre os risos e a música que invadem permanentemente o ar do Rio , Thais veste sua saia minimal , seu decote , seus peitinhos bem moldados pelo cetim e bota a cara de padroeira  de todas as vadias . Esquece seu nome , seus estudos , só sente esta vontade de se oferendar aos bandidos e aos sujos do morro , de querer escória no seu útero , de tremer de prazer nas mãos que já mataram outros homens. No seu olhar toldado o sangue , o prazer e o calor de uma bala perfurando o corpo se entrecruzam numa coisa que nada pode ter de bom.

Nas noites onde Thais se perde , o redentor baixa o olhar , mãe de santo sabe que Exu subiu à favela e tomou conta da menina que se ginga , provocadora , agitadora das massas , sussurrando ao ouvido de uma comparsa “ Dança da cadeira “ .Excitados os bandidos se perfilam , pau na mão , ferro trinta e oito na outra . As luzes se extinguem  , negrume sobre o negrume da cidade , a voz de Thais chamando à carga as fêmeas que ao seu lado se perfilam , filhas da mesma bruxaria , nádegas desnudas deslizando para glandes expectantes de camisa ausente . Thais é a primeira a investir sobre o desconhecido que espera pelo seu calor ;fecha os olhos , murmura uma maldição e se rebola um pouco para apressar as golfadas quentes  e se poder  entregar  ao próximo , grita. Thais diz “dá , dá “ e o segundo homem dentro de si despeja  tudo com um rugido imenso e o disparo de duas salvas ao ar . O som é de tal forma alto que ninguém se apercebe do fogo de calibre de guerra.

Quando a música termina a luz volta. O solo está impregnado daquilo que existe  dentro dos homens e das mulheres. O ritmo torna-se cada vez mais alucinante, suor em rios , corpos de olhares ofegantes , línguas lascivas sobre gengivas dormentes do pó , ancas proeminentes , ancas rebolando. Mãos que afagam a pele, os mais recatados fogem para as vielas e o fazem contra a parede, os mais safados mesmo ali , no terreiro . E o homem do microfone chama de novo pela fé em Deus e pelo homem que controla o batuque.  Thais , ainda cheia de homem , ainda querendo mais , profere , uma vez mais entre dentes ,“Deus o caralho !”

Thais escolhe. Macho alfa, seu nome não importa, apenas o exotismo da cicatriz que sulca o rosto , o corpo marcado pelo terceiro comando , homem de arma de guerra em punho , olhar desafiante  e o brilho do ouro num dos seus dentes. Ela o chama a si e ele não hesita.

Num quarto de barraco a morena da última transa é enxotada dos lençóis impregnados de cheiros e de imundice, o ar está pleno do fumo da maconha . Thais inspira sofregamente o cachimbo deixando que as mãos calejadas do gatilho descubram os caminhos que a levam ao arquejo do torso, a chamada ao sítio onde a diaba diz que todos os homens tem de chegar. Sobre o solo está a arma, a madeira range sobre o peso dos corpos que se entrecruzam. O som do baile . ali mesmo ao lado , abafa os gritos ; os olhos dos dançarinos nos corpos uns dos outros não espreitam pelas frinchas e admiram  Thais assumindo a posição dominante .  No sistema de amplificação o refrão diz que está na hora de ser uma boa cadelinha. Quando pressente a antecipação do primeiro fluxo daquele em si a mão de Thais dirige-se ao solo e, num gesto rápido, empunha a arma e faz fogo. A destruição do sistema nervoso central faz com as convulsões finais acertem num ponto que agrada profundamente a Thais. Coberta de sangue  goza em conjunto com as almas penadas que subiram com ela ao morro.