Do Rock – Motorhead

O nevoeiro envolve a cidade tal como é suposto ser por estas bandas. Embebedo-me nas docas de Londres a partir das primeiras horas da tarde. Os bares estão repletos, uma fauna de cabelos compridos e blusões de cabedal. As gangas são apertadas e as balas enfeitam numerosos cinturões. Nas cercanias da sexta cerveja começo a sentir que o tempo começou a andar para trás , que estamos algures nos idos anos oitenta e que as franjas do mau gosto actual nada mais que são que o último grito da moda de outrora. Os cânticos entoam-se ,pelo Arsenal e pelo Chelsea, o machismo operário ganha o ar congestionado de arrotos de cevada e bufas nauseabundas que a comida gordurosa colou aos intestinos. Sinto-me algo zonzo ; ao meu lado ,cantando qualquer coisa sobre os de Manchester serem todos uns cabrões, alguém emite o metano da sua digestão. Afasto-me , desejo que a hora do concerto chegue. Foi  para a explosão que marca o arranque das hostilidades em formato baixo, bateria e guitarra   que viajei de Lisboa para uma pensão manhosa , uma cama curta e um pequeno almoço estéril que foram o meu acordar na capital de sua majestade ; a rainha da Inglaterra, a gaja que os punks mandaram foder em trafalgar e nos clubes apinhados.

Esta manhã as anfetaminas da véspera tiraram-me da cama cedo e levaram-me a deambular pelas cercanias do palácio , aquela coisa dos guardas reais , o cenário aborreceu-me , vi as horas , ainda faltava tanto para que o ribombar do bombardeiro ecoasse na minha alvoroçada cabeça. Abalei. Passei o resto da manhã a calcorrear o chão sagrado de hammersmith.

Numa ruela onde uma chinesa me pediu vinte libras pela sua boca encontrei uma estranha casa de tatuagens. O homem que traçava as peles era de feições rosadas . Os olhos azuis e os cabelos ruivos confirmavam a casta, um directo descendente dos rudes saxões ; as ilustrações que cobriam a totalidade dos seus braços transbordavam agressividade em cores de negro e sangue. Olhou-me de alto a baixo como que se ponderasse a minha dignidade, ou falta dela , para ser marcado pela sua mão. O azul das terras mais a norte encontrou o negro da minha t-shirt e o nome da banda nela estampado. Acenou em aceitação. Um braço musculado onde o punho estava coberto por uma larga pulseira negra estendeu-se. O cabedal indicou o caminho da cadeira, num sistema estéreo os riffs rápidos e a pedaleira dupla enchiam de metal todo o espaço.

O saxão perguntou-me:

– Tens alguma ideia ?

Abri o frasco das anfetaminas e engoli a profilaxia da dor que ai vinha. Ordenei ,tirando o blusão e levantando a manga da camisola:

– Aqui. O ás de espadas.

Um sorriso encheu o rosto do artista da tinta e da pele:

-Também vou lá estar – depois calou-se e tatuo-me em perfeição , o pé direito marcava o ritmo do mais poderoso formato daquilo que o mundo chama de rock ;no ar persistia o duplo bombo e o cheiro impregnado da marijuana.

Vai lá estar, na academia de Brixton , o concerto dos vinte e cinco de carreira dos Motorhead, o trio infernal liderado pela verruga mais nojenta do rock n’roll , Lemmy , um súbdito da casa de Windsor que presta a sua vassalagem na distorção de um baixo poderoso e de uma voz onde todas as longas noites feitas de solos estridentes e suor de cerveja  se misturam numa rouquidão profunda.

O ar do bar está cada vez mais denso, a necessidade de um cigarro obriga-me a procurar o ar frio de Outubro, tusso um pouco quando a humidade e o smog me invadem os pulmões. Ela também se encontra no exterior do bar. Sentada num barril de cerveja , o esgar na boca diz muito sobre si. É ordinária, pobre,  algo boa e muito fácil e também tem o ás de espadas tatuado algures em si, mais provavelmente na alma. Nascida para perder, um cigarro no canto da boca e um olhar desdenhoso pela turba mal-educada. Uma rainha suja; de cabedal, speed e o conhecimento de muitos homens que haviam acabado em si. Uns por dinheiro , outros por cerveja e droga. Outros porque gostava ,simplesmente, de os sentir, cavalos de aço , dentro de si.

O seu olhar carregado de maquilhagem negra rodopia à velocidade do relâmpago para o meu. Durante longos minutos trocamos olhares congestionados de acasalamento onde deixamos prolongar o gosto pela caça. Como predadores que somos sabemos da supremacia do prazer da caçada ao acto da captura. Sabemos ambos que esta noite já estamos condenados a gritar sujos e drogados em lençóis imundos enquanto ratos e baratas coscuvilham pelas frinchas das paredes. Esta noite seremos pornografia de vermes .Depois de o urro cruzar os nossos tímpanos e o bombo duplo infernal de um tema que se chama sacrifício nos ter rasgado em suor, imersos no delírio violento  de um turba enlouquecida; seremos casal de horas , seremos imensamente desavergonhados  e sujos .

Mas antes do acasalamento terá que vir a coma, misto de álcool e anfetaminas. O speed não mata depressa. Cristais diluídos em água destilada que se cravam entre os traços da tatuagem. Respiração de cavalo da Ascot, olhares de podengo faminto do sangue da raposa, lázaros cáusticos da electricidade que flui em descargas de raiva e bílis de nossos fígados triturados pela onda ácida. Grito como um insano, até às cordas vocais perderem o pouco que lhes resta ,afectadas pelo frio nada salutar da cerveja. A sala está cheia; gerações de vampiros e gentes rudes .  Punks que perderam a crista , headbangers derrotados pela calvície, miúdos ainda em lua-de-mel com as guitarras cheias de  betão que lhes  rebentam no focinho. Lá em cima , magnânimos, Motorhead .Chegaram , viram e venceram. O concerto foi iniciado em luz plena, três homens pegaram nas guitarras ; o vocalista baixista dirigiu-se ao microfone revirado para o solo e anunciou:

– Somos Motorhead. Tocamos Rock n´roll

Depois veio o poderoso cavalgar que enche as longas faixas de asfalto ardente. E pensei em anjos do inferno e noites de médios longos na estrada que atravessa o deserto de fogo . Dentro do meu peito o massacre é imenso, o coração violentamente bombeado , impregnado na minha aorta o cristal do speed acompanha o ritmo. Chego junto ao palco , cheira ao mais puro que o rock tem , no meio de uma roda que se forma fecho os olhos e deixo-me levar por um segundo a dez mil pés de vertigem. Depois vem o mosh e sou sacudido para uma zona lateral do palco.

Perdi-a de vista , a minha fêmea desta noite sumiu-se na onda humana que atravessa toda a largura da plateia. Vasculho o horizonte no sacrilégio de virar as costas ao palco. Um pé embate-me violentamente nos rins e aceito com resignação o castigo pela minha heresia. Devolvo-me ao concerto e danço até as pernas me lançarem ao chão e a tontura tirar vómito de dentro de mim. Mas até lá  esmago-me e incendeio-me no fogo desta música a que chamo suprema. Os dedos formando os chifres do diabo, o pescoço dorido do rebentamento voluntário do cérebro contra as paredes cranianas.

A gaja que se foda.

Duas horas e meia após os primeiros acordes encontro-me de novo na rua e não olho para a direita quando atravesso a passadeira. O guinchar da travagem devolve-me a consciência e os milímetros separam o meu pé do rodado da HarleyDavidson .Sentado aos comandos deparo-me, simultaneamente assustado e agradecido, com o rosto familiar do saxão tatuador. Enverga um blusão de cabedal e o capacete tem o formato da infantaria alemã de trinta e nove  quarenta e cinco. Não profere palavra. Um gesto de cabeça convida-me a ocupar o lugar do pendura. Deito um último olhar pela multidão que dispersa em busca da minha , por breves momentos , companheira. Vejo-a ao longe , dependurada num grupo de três miúdos altos e guedelhudos. Não a posso censurar por ser vadia.

Monto e com a mão bato nas costas do homem que guia a chopper indicando que estou pronto para a viagem. No dorsal do blusão o ás de espadas e a frase “Nascido para perder” relembram-me quem sou. Uma gargalhada e um charro rodam do lugar da frente da moto. Quando o potente motor a dois tempos martela a noite londrina lanço aos céus o urro gutural daquele que eternamente vagueia pelo negro da vida. Partimos a toda a brida para a insanidade que Londres tem.

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