Projeto Destruição, Filial Lisboa

A lista de marcação rápida de um telemóvel é um bem precioso. Usa-a bem. Nós no projeto destruição, filial Lisboa, damos um excelente uso à mesma. Conheces o Tyler Durden? Eu também não, mas o homem é um profeta do fim deste modo de viver e mandou homens e mulheres tresloucadamente perdidos lutar até ao sangue escorrer. Aos que sobreviveram ao clube de combate mandou-os ir mais longe. Este é o projeto destruição, a grande sinfonia global do caos. Foi transferida em banda larga e agora, voilá, estamos aqui sentados, o grupo central, o politburgo do napalm que vai inundar a Baixa. Dizia eu que nós, os fundadores da filial, estamos aqui sentadinhos a comer um pastel em Belém. Pertinho de ti. Talvez até moremos perto, sejamos colegas, adeptos do mesmo clube, sócios do mesmo ginásio. Talvez o teu caminho esteja tracejado para terminar num infeliz cruzamento com um dos nossos eventos de violência extrema.
Falávamos da lista de marcação rápida. Tenta identificar-te com a minha, se não o conseguires quer dizer que és uma das nossas potenciais vítimas. Nunca serás um soldado do projeto. Não tens suficiente desamor à vida.
Tecla um – Um bom traficante de cocaína
Tecla dois – Um bom traficante de anfetaminas
Teclas Três a Cinco, contactos relacionados com armas. De fogo e brancas, químicos, elementos elétricos que permitirão acionar mecanismos de detonação. Sabes mandar alguma coisa de grande pelos ares? És bem-vindo.
Seis e Sete – Os pais a que nunca ligas. Estão lá apenas para te recordar que agora só ao nosso projeto pertences
Oito – Alguém do grupo operacional.
Nove – Aquela ou aquele que o grupo designou como teu aliviador sexual. O soldado do projeto destruição deve estar bem motivado. As teclas um, dois e nove servem para isso. Aproveita-as. Não se vive muito na operacionalidade.
O zero sabes bem para que serve. Por motivos de seguranças combinamos a sequência com o cardinal. Sabes o que tens a fazer se fizeres merda. Cardinal, zero e depois , rapidamente, deves colocar o telefone na boca. Em cerca de dez segundos o explosivo acondicionado junto à bateria eclodirá perfurando o céu-da-boca, derramando a quantidade suficiente de cérebro, a garantia que o teu falhanço como membro do projeto destruição não se repetirá.
Mordo o meu pastel com delícia. Frente a mim está ela, Maria. Não é bela, não é jovem, é apenas uma desiludida da vida que dentro de dois dias carregará uma carga amarrada a si mesma. A gare do oriente é o local designado para se tornar mais uma mártir de uma causa que não pretende escrever história. Apenas anarquia. Apenas o grito das massas, cada vez mais inquietas, cada vez mais tensas. Entre elas, talvez tu, haverá aqueles que entenderão a nossa mensagem. Esses largarão tudo, cagarão em toda a extensão das suas vidinhas monótonas feitas de vulgaridades a preços módicos e prestações. Esses serão mais corpos prestes ao extermínio, próprio e alheio, que engrossarão as fileiras do projeto. A Maria está a comer o seu último pastel e nada em si revela temor. Está tão farta da vida, tão saturada, cansada, gasta de não ser nada, de ser apenas ela e o mundo que nada quer com ela que até parece grata de ir morrer com algum sentido. O nosso sentido. Só o entenderás quando fores um de nós.
Ponho um pouco mais de canela. Canela é a pele da mulher bela que caminha junto à porta principal das torres das amoreiras. É linda como o mundo e daqui a pouco será coberta por uma enorme sombra. Segundos depois perecerá perante os escombros. O avião privado que embaterá nas espelhadas construções do famoso arquiteto não provocará a queda dos edifícios. Não ireis correr na grande maratona do pânico em direção ao marquês . Contudo morrerá gente;calculo que cerca de cinquenta nos escritórios e quinze a vinte transeuntes. A ideia foi de Pedro, o homem que pilotava a aeronave. Disse que queria acabar numa bonita bola de fogo. Há pilotos no nosso projeto, ensinaram-no a pilotar. Há muita gente que faz muita coisa no projeto destruição. Os homens das minas e armadilhas equiparam o Cessna. Ordenei ao comando que açambarcou a aeronave que o modelo fosse exatamente igual aquele onde morrera o primeiro-ministro pequenote. Um tiro emocional que amplie o horror nas massas politicamente mais à direita; para a esquerda reservámos uma surpresa para a sua festa da margem sul. Esta é a nossa noção de alternância democrática.
O projeto destruição funciona assim.
Todos são alvos, não há redenção, temos músculos para espancar, temos dinheiro para comprar equipamento e armamento. O sucesso para ti é luzir como um deus grego pleno de ética empresarial, consciência cívica e ecologista. Reciclas, também nós. Somos apenas mais extremos. Para nós o topo de carreira atinge-se quando chamamos por irmão o cê quatro.
Na minha lista de marcação rápida marco dois. Preciso de speeds , há muita coisa a acontecer. Hoje as amoreiras, depois de amanha o terminal ferroviário. O comité encara Maria e, na tradição que Tyler Durden nos deixou, deixamos que a próxima a expiar selecione o alvo seguinte. O dever do comité é, a partir do momento em que o desejo seja efetivamente anunciado, iniciar o recrutamento que leve ao sucesso da missão. Maria reflete. Os olhos que só conheciam até há uns meses a cor das novelas lançam o grande ódio de uma vida acumulada de vazio, não conseguiu o sucesso, redime-se no ódio pelo próximo. Diz:
– Os lagartos vão jogar à luz dentro de duas semanas.
Alguém do conselho se opõe à óbvia cor clubística de Maria:
– E vamos espezinhar os lampiões.
Uso a voz de presidente da mesa. Faço-o porque sou o fundador do clube de combate e, posteriormente, da filial lisboeta do projeto destruição. Fui que fundei o primeiro ringue dos insanos numa cave da Brandoa, fui eu que esmaguei sobre os meus punhos os maxilares do meu amigo, fiz nascer o sangue que batizou a terra lusa com esta forma zangada de respirar. O meu pastel de nata estava ótimo:
– Todos morrerão.
As cabeças anuem em concordância com a minha palavra onde invoquei a tradição inicial que Tyler Durden nos deixou.
Dentadas estaladiças na massa folhada da segunda rodada de pastelinhos assinam a sentença do clássico dos clássicos.

Nota do Autor : Texto inspirado na obra “Clube de Combate” de Chuck Palahniuk (ISBN: 978972461821).

Madrid , 2010 (Apontamento sobre o desencanto de um povo )

Passam por mim na longa avenida onde as montras das lojas parecem ter perdido o brilho de outrora. Olhos ávidos de comprar cravam-se, obstinadamente, no cimento do passeio por onde (passos que se arrastam , caminhos de desencanto ) passeiam a sua impotência consumista. Conto.

Um ,
Dois ,
Três,
Quatro,
Cinco.
Este está desempregado
Um,
Dois,
Três,
Quatro,
Cinco.

A mulher com excesso de peso e pálpebras enegrecidas de nada esperar do amanhã lança um olhar de ódio à negra , estranha, estrangeira , que limpa as escadas de um prédio. No crispar dos seus lábios lê-se a palavra “fora”. Na raiva do punho que se fecha na alça de um saco de plástico onde habitam parcas mercearias entende-se a inveja à esfregona empunhada por quinhentos euros mensais.

Prossigo a marcha, continuo a contagem , a enumeração fantasiada nos rostos de estranhos, os vinte por cento que vagueiam por terras iberas sem trabalho. Um , dois ( o homem da gabardina suja evidencia, para lá da sua barba de sete dias, que a desonra já causou danos para lá do recuperável ), quatro , cinco…
Uma criança. Esta não pode estar na estatística. Todavia o puxão impaciente da mãe , o aperto da bolsa contra o peito diz à menina do rosto trigueiro que é mais uma boca para alimentar. Um sopro de impaciência , um desejo que as tranças nunca tivessem conhecido a luz de Madrid , que se tivesse ficado , cataplasma de sémen num preservativo , óvulo não fecundado em manipulação química.

Ao fundo, Atocha.
Os sons da memória dos mortos de Março desvaneceram-se , já não há flores no chão, a chama das velas há muito que foi trocada pelo grito do ardina :
-Periódico , Periódico.
Dos comboios suburbanos desaprendidos da sua lotação máxima saem figuras curvadas. Braços hesitantes estendem uma moeda ,agora preciosa, ao homem dos jornais. Mãos , trémulas, apressadas na procura da secção do trabalho , parca ilusão de meras páginas. Em contrapartida é extenso o rol de homens , mulheres , casais (quiçá em tempos felizes ) que atendem cavalheiros e tudo fazem por uma nota de cinquenta.

Nas narinas já não emana a tremenda recordação daquela manhã de vésperas de primavera , os odores da carne queimada e da pólvora foram substituídos pelo pivete dos corpos pouco higienizados que se apressam para as longas filas dos gabinetes de segurança social. Nos olhos congestionados que flutuam ,alheios; sobre o corpo emagrecido da fome ,iludida pelo aspirar da poluição da urbe , escreve-se a razão do esquecimento dos cadáveres. Para eles , foi rápido . Para eles , uma nação chorou. Para eles , houve a glória dos mártires .
Para os vivos de hoje apenas a vergonha , a vergonha.

Requiem em Pó Maior

Os vultos lúgubres e andrajosos que vagueavam em redor da barraca agitaram-se momentaneamente iluminados pelos faróis que anunciavam a chegada do potente carro desportivo. Os largos pneus respingaram um pouco mais de lama e água para as já imundas vestes; esse facto não pareceu incomodar sobremaneira os drogados. Um deles, provavelmente menos acostumado com as regras do local, emitiu um sonoro -“Eehhh! Ganda Bomba!!”- que tanto podia ser dirigido ao resplandecente Porsche Carrera GT como ao metro e setenta e cinco pleno de pernas e curvas que saiu do lugar do pendura. Tal atrevimento foi, de imediato, censurado por um dos dois homens de aspeto mais sóbrio e limpo que se encontravam junto à porta do casebre:
– Atina-te pá . São clientes – A “shotgun” que empunhava era um argumento de peso e o trémulo e pálido ser que profira o impropério efetuou uma estratégica retirada por uma ruela mal iluminada donde provinha um intenso odor a urina.
De dentro do Porsche surgiu a figura do condutor. Tal como a elegante máquina destoava sobremaneira com toda a ambiência do local. O “blazer” de botões dourados, a imaculada camisa de caro linho, as calças cremes e os inevitáveis mocassins indicavam que não era fauna residente do bairro de consumo. Um azul no olhar, farta cabeleira loura moldada no formato dos “playboys” da Quinta da Marinha; o rosto espelhava a condição social, a arrogância da perceção da mesma e uma imensa, quase irrefreável, vontade de chafurdar as abastadas narinas no produto de altíssima qualidade que ali, no Zé da Neve , se transacionava.
– Madalena , Mexa-se mais depressa por favor – A ordem emitida por Bernardo ignorava a dificuldade da sua anoréxica companheira em equilibrar os saltos na camada de lama , chuva e mijo que cobria o acesso à barraca. Um dos porteiros encarou o casal toxicodependente de classe alta e cedeu passagem. O abrir da porta foi acompanhado por um olhar guloso, ao qual se juntou o do seu companheiro de canos serrados, que apreciava o bambolear apressado e o fio dental exposto pela transparência do curto vestido negro que Madalena envergava.
No interior uma amálgama de alta tecnologia doméstica, mantas da feira de Carcavelos, sofás de luxo , iluminações decorativas de loja chinesa. Sobre a mesa baixa um largo espelho onde se erguia um pequeno Evereste “made in Colômbia” ; na parede um nicho albergava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima . Ocultos pelas sombras, em dois cantos da divisão, mais dois homens de aspeto duro , armas de alto calibre nos coldres de sovaco. No centro da sala, imponente no seu cadeirão, estava o traficante. Zé da Neve; olhos verdes ciganos cercados por uma alva cabeleira. Branca também era a espessa barba que cobria a quase totalidade do rosto ocultando os lábios e as cesuras de lutas passadas. Em contraste, o negro era a cor única de toda a indumentaria do vendedor de estupefacientes. Uma vez, um outro cliente, perguntara se tal negrume era cor de luto. Suspirando, o “dealer “ entregara a meia grama e clarificara:
– Um cigano está sempre de luto.
Zé da Neve apresentava um ar profundamente tranquilo. O cintilar e a vivacidade dos seus olhos , o tom de pele sadio eram provas irrefutáveis de que não consumia os produtos que traficava. Perante a chegada do distinto casal estendeu o braço, onde pendia uma grossa pulseira do mais puro ouro e um reluzente e falso “Rolex” , e convidou:
– Minha senhora , faça o favor de se sentar na modesta casa do Zé – acompanhou ,com um olhar divertido ,o movimento e a quase chegada à cintura da curta saia que envergava Madalena; posteriormente dirigiu-se a Bernardo – O amigo sente-se também. Então o que é que vai ser hoje?
Um risinho nervoso saiu dos lábios carnudos de Madalena acompanhado por um esbugalhar dos enormes e necessitados olhos castanhos. Zé da Neve pressentiu negociata da grande e imediatamente empurrou em direção da bela mulher uma generosa linha que ele próprio separou do imenso monte de cocaína. Acendeu um dos ecrãs de plasma e ,com um gesto rude do comando remoto ,apontou a Madalena para onde devia focar a sua atenção. Fazia negócios com homens , neste caso com Bernardo ,que sentado na poltrona à sua direita não cessava de se agitar sobre o cabedal castanho. Era óbvio o seu estado inquieto, Zé da Neve não apreciava pressas e espicaçou:
– Então amigo? Parece que o sofá até tem agulhas. Olhe que é Divani e Divani , quase de certeza igualzinho aos que tem lá em casa dos seus paizinhos – emitiu uma gargalhada batendo com força no braço do cadeirão que ocupava – Estes também vieram de Cascais. Mas não foi do Shopping .
A graçola foi acompanhada pelo grasnar dos capangas do Zé da Neve. Um olhar mais áspero do cigano trouxe de novo o silêncio à divisão. Insistiu:
– Então amigo? Quantas graminhas são hoje? As quatro do costume? ou hoje há festa ?
Bernardo esfregou as palmas das mãos para desvanecer a fina camada de suor que as cobria e pigarreou o discurso :
– Oiça, Zé , hoje preciso de trinta gramas – um breve silêncio foi acompanhado por um arrebitar das hirsutas sobrancelhas do traficante – Sabe vou dar uma festa giríssima a bordo do iate do meu pai e quero ter a certeza absoluta que toda a gente se vai divertir imenso. Acha que tem tanto produto ?
Uma gargalhada monstruosa fez Bernardo saltar e o olhar de Madalena desviar-se do desfile de moda na TV. Quando conseguiu conter o riso e as lágrimas Zé da Neve respondeu:
– Amigo , aqui o Zé só se preocupa quando lhe pedem quilos – tentou compor-se mas o riso persistia – trinta gramas vende a gente aqui em duas horas. Mas diga-me lá uma coisa – a gargalhada deu lugar a um olhar gélido de agiota – o amigo tem dinheiro para isso tudo? Trinta gramas são dois mil e cem euros . Bem contados e em dinheiro que aqui o seu Visa não serve de nada .
Bernardo levou a mão ao bolso interior do paletó e retirou um envelope volumoso. Com gestos de desprezo contou as notas e atirou-as para cima da mesa:
– Você acha o quê? Eu não sou um desses drogados que vem para aqui lhe pedir fiado – levantou o queixo num tom desafiador – Sou de outra estripe, entende?
A arrogância de Bernardo não teve o efeito que normalmente tinha em empregados de restaurante e empregadas de “boutique”. Zé da Neve fixou os seus olhos esmeralda no jovem bem vestido e retorquiu:
– Amigo , está irritado, não faça isso é mau para a saúde – lentamente debruçou-se mais uma vez sobre o monte de coca e oferendou uma linha dupla que Bernardo aspirou com sofreguidão – Não leve a mal mas é muito dinheiro . Então é para uma festa? Grandes festas devem ser essas. Um dia destes o amigo convida-me
O ardor que invadia as mucosas de Bernardo retardou a resposta que surgiu ,ainda mais plena de arrogância:
– Acho que não está a entender. É uma festa para gente muito seleta. A nata, sabe o que é a nata da sociedade ? – o indicador demorou-se uns instantes a esfregar os restos da poeira nas gengivas – Gente giríssima e bonita como nós , está a ver ? Acho que você não se ia integrar bem. Sabe, classes sociais.
Zé da Neve não respondeu pois a sua atenção estava focada na contagem do dinheiro. Quando terminou devolveu o olhar a Bernardo. Chocou o orgulho cigano com o novo-riquismo prepotente:
– Então você vem aqui, à minha casa, falar ao Zé nessas coisas da gentalha rica e acha que o Zé deve ter pena de não ir à porcaria das suas festas? Oiça lá amigo, estou farto de vos ver, Vocês os meninos queques armados em senhores do mundo . Sabe uma coisa? se você nunca mais cá aparecer a mim não dá prejuízo . Mas a si, se o amigo Zé da Neve lhe faltar com o remédio o menino fica doentinho e vai andar ai doido à procura. E não vai encontrar. Porque ninguém tem branquinha tão boa como aqui o seu cigano. Ninguém, está a perceber? Por isso veja lá se é bem-educado e pede desculpa ou então não lhe vendo nada.
Os olhos azuis de Bernardo iluminaram-se como um farol de pânico incontido. O Zé da Neve prosseguiu:
– Por isso o amigo vai pedir desculpa e sair daqui com o que quer. E não se arme em chico esperto comigo ou ainda aparece todo cortado no fundo do Tejo e aqui a sua amiga – o dedo apontou Madalena que se havia encolhido com tom amedrontado no fundo do sofá – acorda amanhã numa casa de putas lá para o Norte de África. Por isso ..Manso , muito manso , e peça desculpa . Já!
A ordem do Zé da Neve foi reforçada pelo engatilhar das armas automáticas empunhadas pelos jagunços que até ao momento tinham pautado pela circunspeção a sua presença.
A arrogância e a prepotência de Bernardo desapareceram a uma velocidade ainda superior aquela com que tinha “snifado” as linhas :
– Oiça Zé , não o queria ofender , por amor de Deus. Peço imensa, mais imensíssima desculpa se o chateei. Não era essa a minha intenção. Você é o máximo, o melhor traficante de todo o distrito de Lisboa e longe de mim querer algum problema consigo. Está a entender, amigo ? – a mão vacilante de Bernardo estendeu-se procurando um aperto reconciliatório.
No sofá , encolhida no seu mínimo vestido e esbeltas curvas Madalena emoldurou um sorriso digno de capa de revista cor-de-rosa.
O olhar, de novo divertido , de Zé da Neve percorreu o casalinho assustado e deu por terminado o conflito:
– Pronto o cigano já não está chateado. Um dia destes o amigo convida para uma das festas no iate, não convida? – Um aceno exagerado de cabeça fez a cabeleira de Bernardo perder alguma compostura – Ó Janas – um dos cúmplices do traficante avançou – pesa aqui trinta bem pesadinhas para o amigo – A restante parte da frase foi dirigida a Bernardo – Tudo junto ou saquinhos de uma ?
– Gramas..Separadas , se faz favor – murmurou educada e polidamente o ricaço.
O Zé da Neve ergueu-se do seu lugar e dirigiu-se a uma outra divisão da casa. Não proferiu qualquer despedida e apenas demorou um instante os olhos pelas pernas de Madalena. O resto da transação ficou a cargo de Janas . Com gestos de muito hábito cortou, pesou e ensacou três dezenas de pacotes que foram distribuídos entre a carteira de pele genuína de Madalena e os vários bolsos do casaco de Bernardo.
O casal saiu da barraca e entrou com pressa na Porsche que entretanto repousava intacto perante o olhar vigilante dos dois comparsas que acautelavam o exterior da barraca do Zé da Neve.
Um chiar de pneus e o ronronar dos muitos cavalos acompanharam a rápida partida dos colunáveis. O silêncio entre ambos durou até ao final do Viaduto Duarte Pacheco. Remexendo a carteira a bela mulher tirou um cigarro que acendeu com nervosismo. Bernardo censurou:
– Madalena você ainda fuma? Que horror. Isso está tão fora de moda.
A resposta foi proferida numa voz afetada onde era notória a irritação:
– Vá-se foder Bernardo . Você quase nos ia fazendo ser mortos por aquela gentalha horrorosa
– Por amor de Deus Madalena. Você sabe muito bem que o cigano não estava a falar a sério. O que ele quer é o dinheiro, está a entender? Além disso eu não estou muito habituado a falar com gente rasca. Irritam-me. Percebe?
– Olhe que a sua irritação não é lá muito saudável perante as armas daqueles assassinos horrorosos.
– Não seja palerma. Você adorou a emoção. Confesse lá.
A bela face de Madalena desanuviou-se e a frase seguinte foi dita com um tom melado na voz:
– Sabe Bernardo , na verdade até fiquei excitada. Estou aqui toda a ferver. Não quer parar ai no hotel da área de serviço e comer-me? – o convite foi acompanhado por um acariciar da perna do condutor. Imediatamente o gesto foi repelido:
– Não seja tonta. Você namora com o meu irmão Gonçalo. Esqueceu-se?
– E daí? – Contestou Madalena – parece que faz algum mal se dermos uma quecazinha
– Você é muito puta , Madá – a ligeira irritação de Bernardo foi acompanhada pelo aumento da velocidade do bólide – Além disso não tenho preservativo aqui.
A bolsa foi uma vez mais rebuscada. Com um suspiro de desanimo Madalena informou:
– Eu também não . Por isso esqueça a voltinha – De novo um tom menos assanhado na voz – Então despache-se, a festa está a nossa espera.
Bernardo engatou mais uma mudança na caixa de velocidades e sugeriu:
– E se você fosse uma querida e fizesse uma linha?
Madalena bateu as palmas animada e demorou-se uns breves instantes entre o pequeno espelho de maquilhagem , um dos pacotes adquiridos ao Zé da Neve e as pancadinhas repetitivas e sincopadas do cartão de crédito sobre a cocaína .
Talvez o trepidar do carro ou o tremor do pulso delgado tenham sido a causa do descuido; as linhas formaram-se mais grossas do que era hábito e, segundos após a aspiração sôfrega das mesmas ,os canais nasais de ambos explodiam numa cascata de sangue e ranho que tingia as caras roupas. As pupilas do casal cresciam como dois sóis prestes a implodir, no seu fluxo sanguíneo a velocidade estonteante do pó fazia os corações baterem acima das muitas pulsações por minuto. Uma toxicidade perversa trespassou a mente de Bernardo e a sua mão dirigiu-se, sem hesitações, para o que Madalena tinha entre pernas. Com um sorriso de luxúria ela recebeu o toque e afastou as coxas para facilitar o acesso. Disse:
– Bernardo, você parece um Deus !!
Os olhos azuis de Bernardo brilharam, como duas supernovas imersas em Madalena . Retorquiu:
– Madalena. Nós somos Deuses!
Contemplaram-se ambos, desvairados, sequiosos senhores da Terra e do Olimpo, sentiam-se imortais e divinos. Infelizmente tal pasmar não era adequado ao cento e noventa quilómetros a que se deslocava o Porsche e a proximidade da zona das portagens. Hipnotizados na química ilusória da cocaína explodiram numa bola de fogo quando os seiscentos e dez cavalos de potência embateram, sem vestígios de travagem, no separador da Via Verde.

Sílvio Santana – I

Apocalíptico, abro a porta. Se pudesses ver meus olhos, são como o olhar de um general enraivecido com o botão que aciona a arma nuclear sobre seu dedo. Escutas os meus passos percorrerem o átrio do sítio onde moras estupidamente só.
De seguida vem o silêncio. Escutas a escuridão, procuras o interruptor enganado na crença que a luz deterá meus intentos perante a tua figura, meu desejo ser retalhador das partes mais dolorosas do teu corpo. No absoluto recato nada escutas senão o baixíssimo silvar da lâmina longa que manipulo lentamente, que dilacera o ar num zuno que antecipa o tormento que te aguarda.
Levo o dedo aos lábios secos da sede da tua agonia. Digo, sussurro:
-Chiu!
O tremor, sentes? O martelar do teu coração convoca os medos mais antigos. Não arderás na luz que vem breve e quente, serás minha vítima, meu repasto de sangue e gritos loucos da dor que não irá partir. Serás nada, fragmento, cinza entre cinzas, uma referência infinitesimal na minha capacidade de ser misericordioso.
Sinto-o também, o frenesim. É sinuoso, matreiro como o olhar da pantera negra a rasgar toda a treva, é feito de mal e anfetaminas. Atrás desta porta alargo as narinas e deixo entrar a fragrância do teu suor, o pavor no teu hálito prestes a terminar, o fedor quente da urina que inunda as tuas partes baixas. Sim, gosto disso.

Por detrás desta porta que sei que não está trancada, escuto a queda uma peça de mobiliário, o atarantado dos teus passos a tentarem ser, inutilmente, silêncio. Paras, ofegas, talvez já te recordes dos primeiros dias da tua inocência. É justo, a tua viagem rápida perante as recordações de uma vida que em breve partirá. É justo, respeito as tuas confissões aos deuses e as desculpas aos antepassados pela insignificância que pautou a tua passagem por este mundo. Não tens saída possível deste sítio que nunca devias ter procurado, esqueceste-te que o recato por vezes é o mais perigoso dos inimigos, e sabe-lo agora. Eu sei-o também. Aumento o movimento circunvagante da cunha de ferro aguçado. Espero, apenas uns momentos, antes da chacina, antes de, sem motivo e sem razão, alguém que em nunca reparaste irrompa pelo teu lar e reclame a teu derradeiro sopro.

Selecionei-te na rua, o teu passo sempre com pressa de ir para casa, as receitas de comprimidos que aviavas com excessiva ânsia na farmácia. As compras parcas no supermercado da esquina escreviam a prova evidente da tua solidão. Vi-te várias vezes a caminhar para a paragem de um autocarro com rota para os lados mais envelhecidos dos subúrbios. Esperei, um dia de cada vez, junto a todas as paragens da tua carreira, nem sequer me viste quando saíste no teu passito apressado e rodaste sem precaver a presença de estranhos a chave solitária de uma casa pequena e velha. Suponho que tenhas herdado a casa de uns parentes, que seja uma herança da família defunta que em breve re-encontrarás.

Preparo-me para a investida, sinto-te, no meio da sala pronto para a confrontação. A bílis que transborda no amargar do teu palato, sabes que a única forma de sobrevivência possível é seres mais duro, matar e não perecer. Irás dar-me a honra de uma boa luta de morte?

E se fossem iguais todas as loucuras dos homens neste momento, muito provavelmente, iniciaria a gargalhada ou o grito demente, chamaria o teu nome para o rol dos mortos mas tal facto desconheço. Não mereces tal contentamento ou comoção. Para mim és apenas o homem de passo lento que escolhi estraçalhar com absoluta crueldade. Aleatório, apocalíptico, este método de causar a execução do meu querer tão doente, o teu adeus será dito agora.

Distingo a tua mobília barata e cheia de pó dos anos sós antes de encarar a tua patética resistência. Os punhos cerrados de um perdedor atingem o ar quando, um perfeito movimento de flanco, o gume cava o socalco que se abre até meio da tua rótula. O teu esgar de dor é aumentado pela retirada rápida do ferro da chaga aberta. Gritas para ninguém que ainda esteja vivo te escutar. Apenas os abutres e as criaturas que se alimentam das coisas finadas terão, porventura, percebido o teu apelo.
A palidez anuncia o teu percalço. Tombas, desabas como um castelo das cartas de amor que nunca deves ter escrito. Este corpo em colapso a meus pés exige que estanque a hemorragia para que possa prolongar o festim que o demónio que vive junto à fronte esquerda exige. Demandas insistentes e dolorosas que só o calor do ferro em brasa e a perícia no corte das cartilagens poderão atenuar.
Enquanto manejo com habilidade o garrote e vasculho os bolsos em busca de uma mordaça o rastejador e abominável ser que vive aqui em cima, aqui do lado esquerdo, diz que, afinal, tem pressa. Obediente decapito e parto.

Em passos silenciosos regresso ao recato do lar, tomo a medicação e digo ao Satanás que habita a minha caixa craniana que esta noite já está tudo bem. Que o Sílvio Santana foi obediente e que merece dormir quentinho, que está tudo bem, que o mal foi feito.

Done Gorete e a Encomenda Postal

Atentemos os nossos olhares pela figura roliça que calcorreia , rápida e decididamente , a rua dos Anjos virando lesta à esquerda em direção à estação postal. Admire-mos o passo ligeiro de Dona Gorete, usualmente tão comedida no despender da adiposidade acumulada em sessenta anos de dedicação à causa da família e do belo repasto. Pasmem-se senhores leitores, pois na sua marcha a nossa heroína ignorou a saudação de Dona Isilda da retrosaria Fitinha , ato nunca antes ocorrido . Esbugalhem-se os olhos ao ver que foi desprezado o tirar respeitoso do feltro gasto do velho Dinis , engraxador e fanático benfiquista . Poderá Dona Gorete , madrinha de inúmeros bebés embrulhados em fitinhas de seda e aneizinhos de pechisbeque , sócia honorária da Associação de Jogos Florais da Freguesia dos Anjos , ter enlouquecido ? Poderá ter ganho os gestos rudes destas gentes modernas que vivem uma vida inteira paredes meias sem saber os nossos nomes , a cor das nossas peúgas ou o nosso santo de devoção?
Abandonemos o campo da especulação que é hábito de gente pouco atarefada e de má índole e devolvamos a nossa atenção à nossa heroína de chinelo elegante, bata com motivos florais em tons de negro que assentam bem a quem já carpiu o companheiro de uma vida, o castiço Elias que a cirrose bebericada nos tascos do bairro levou .
A porta da estação dos correios abre-se com um vigor que só uma vez conhecera, quando dois encapuçados de caçadeira em punho irromperam para rapinar as poupanças multiétnicas de um carregamento da Western Union. Uma palmada seca , feita do respeito ganho nas noites de Santo António na banca da Sociedade Recreativa , ultrapassa o A B C das senhas complicadas e exige em voz de menopausa e discretos licores :
– Saraiva, tens ai uma encomenda para mim . À cobrança . Recebi o aviso lá em casa!
Repare o notável leitor como Saraiva se move, desobediente ao vagar que é obrigação de qualquer decente funcionário público, lesto , eficiente na busca no monte de encomendas e regressa com um pequeno embrulho em caixa normalizada .
– Aqui está Dona Gorete . São trinta e dois euros, se faz favor
– Uma vergonha , está tudo pela hora da morte . Umas lãs para fazer umas botinhas para os sobrinhos da Guilhermina que estão lá a enregelar na Suíça.
– Pois é Dona Gorete , pois é – concordou respeitosamente Saraiva.
Mas ignoremos Saraiva , figurante sem importância no nosso relato . Focalizemos de novo a nossa perspetiva no retorno ao aconchego do seu lar da nossa personagem e constatemos que a estuga do percurso inicial não era motivada por qualquer receio de fecho do posto dos correios, pois o passito apressado até ao limite da variz se mantém. Fosse mais nova Gorete e poderia a nossa Vanessa Fernandes corar perante o ritmo imposto ao passo. Retomemos a nossa preocupação pelo abandonar de gestos de sempre, como a substituição da costumeira festa ao rafeiro Piloto por uma valente biqueirada , punindo o pulguento animal por ter ousado interromper a sua marcha . Será aquela doença de origem germânica , difícil de pronunciar, o motivo da benzedura perante a Senhora de Fátima anichada na parede da capela ter sido simplesmente ignorada ?
Será o violento fechar da porta de casa, deixando os cortinados de renda a abanar, motivo de maior preocupação? Desculpemo-nos com a legítima inquietude de quem bem quer a Dona Gorete para invadir a privacidade do sagrado lar e percorrermos as divisões numa busca consternada. A sala ,onde a fotografia do defunto Elias se encontra estrategicamente posicionada para poderem assistirem juntos aos programas do João Baião e à Eucaristia Dominical ,está vazia. A cozinha, os galinhos de Barcelos , o naperão sobre o micro ondas e a coleção de galhardetes de Moimenta , Montemor e Terras de Bouro votados ao abandono. Deus nosso, prenuncia-se alguma desgraça?
Mas, tombem os queixos e arregalem-se os olhos, é Dona Gorete no seu leito .Da apudorada vestimenta nada resta sobre a carcaça e da caixa postal, rasgada com brusquidão, não é que sai um falo de dimensões consideráveis para o aperto de tão decente senhora? Caros Leitores , o zumbir que escutais não é a tontura que sentis na vossa surpreendida alma mas sim o centrifugar de tão obsceno artefacto alimentado a duas pilhas AA . Corai nobres cidadãos, pois Gorete , com a brusquidão de tantos anos de penúria de carnes, encafua, de um gesto só, o reverberante mangalho de fabrico chinês nas suas intimidades e .. sim , prezado e estimado atónito leitor ..Atentai ,que após uns curtos minutos, pequenas pérolas de tom orgástico enfeitam o farto púbis .

Props

O caso teve início numa tarde de Julho tardio. O verão chegava com todo o vigor esvaziando as galerias iluminadas a luz fria. Os corredores amplos do centro comercial eram silenciosas testemunhas do evento dramático prestes a ocorrer. A vendedora de cartões de crédito, mulher sem fé no seu bónus de desempenho, viu-os passar mas o seu olhar cansado de nada vender ignorou o bizarro quadro.
A mão que agarrava o pulso do menino não era de alguém familiar ou mesmo vagamente conhecido à criança de dois anos que, no seu passinho ainda recente, corria o melhor que podia no encalço forçado. Um medo tão grande tinha o menino que não conseguia gritar. O estranho, um homem de cerca de quarenta anos, vestes sóbrias, um olhar de sujo desejo e um esgar de perdição sexual que consumavam o ato de usurpar aquela jovem presa. O raciocínio do pervertido baseava-se na ânsia de fuga para algum lugar onde pudesse acariciar com todo o impudor a delicada cútis ainda totalmente envernizada na verdadeira inocência.
Entretanto, a alguns corredores de distância, separados para o seu raio de ação ser maior, os pais. Ela perde o tino e treme enquanto a respiração descontrolada acompanha o vasculhar desesperado por seu filho. Tiago, é esse o nome do menino, como o avô, o pai de Luís, o perdigueiro aflito que com vigorosas passadas de corrida atravessa o largo corredor procurando sinal da criança que envereda a t-shirt amarela. “Filho , Filho onde estás? “
A visão da entrada para o parque de estacionamento aumentou o devaneio do perverso raptor. A criança deixava na vitrificação feita por máquinas lentas o rasto dos dois sapatinhos revirados. Biqueiras a deixarem uma pista de derrota, rastos de uma esperança ténue que a mamã chegasse.
Mas quem viu os rastos foi o pai. Ao virar da esquina, junto ao néon azul da Sony. O seu instinto disse-lhe: – Filho! – Luís correu com a velocidade do desespero. “De mim não te vais conseguir esconder. “ A metamorfose iniciava-se. Os olhos de Luís adquiriam um brilho de investida. O seu passo era uma carga de cavalaria em crescendo.
E então viu-o. O seu menino, o estranho de costas curvadas, um Quasímodo de toda a danação. E Luís sentiu a raiva, o seu ódio primordial brotava em golfadas de bílis que só podia ser saciada na morte do vilão. Cro-Magnon em fúria perante o predador que viola a sua sagrada caverna. O seu olhar é cego pela visão, não há muito distante no tempo, de as suas mãos acariciando a pele delicada, pondo o creme, tratando daquele corpo pequenino para o qual o hediondo abdutor tinha propósitos de uma tal obscenidade que as palavras tornaram-se um grito de ódio mortal na garganta rasgada de saliva assassina de Luís.
A ânsia dos poucos metros que distanciavam do velho Opel, bancos sujos de hambúrgueres de “Mac drive”, manchas de sémen extraído em vigílias a escolas primárias, cobertores impregnados em prazeres pagos a imberbes com fome ; tornaram a fuga do raptor desatenta a sinais de alarme. Quando escutou o grito era demasiado tarde, a ereção que lhe ofuscava o pensamento foi uma fatal distração.
A cerca de quinze metros daquele que lhe levava o filho Luís preparou-se para o golpe. Identificou os pontos vitais do inimigo, os incisivos de mamífero reluziram querendo a jugular, as mãos tiraram medidas ao fim do respirar do raptor. Os dias de ginásio retesaram-se para o salto do grande macho enfurecido. Garras e presas armadas, fúria de fim para o perverso que, apercebendo-se da presença e da investida, largara a criança e encenava o primeiro passo de corrida. Demasiado tarde. O ódio de Luís abateu-se sobre ele. Oitenta quilos, bastantes quilómetros por hora. A queda foi brutal, o desenlace rápido. Os dedos de Luís tornaram-se tenazes nas orelhas do bandido e, lembrando-se que o Diabo esperava por tão vil criatura, projetou-o em direção à morte. Bateu com toda a força que alimentava o desejo de agonia daquele imundo; uma força comprovada pela abundante hemorragia que brotava do crânio que se desfazia em pedaços irrecuperáveis perante os golpes dementes do progenitor da criança agora salva. A morte do pedófilo foi brutal. Quando parou, mãos, braços, camisa e rosto cobertos de sangue o olhar de Luís ganhou uma firmeza e serenidade que nunca haviam existido em si.
A prisão foi feita sem resistência. Pediu para se despedir do filho e da esposa; um oficial da PSP, olhando pelo canto do olho o cadáver do indivíduo referenciado há muito como predador de crianças mas, até à data, oculto numa barreira legal feita de solícitos e caros advogados, acenou a cabeça e permitiu que Luís abraçasse, com medo que fosse a última, a sua família. Depois vieram as algemas, o burburinho de multimédia, levantaram-se vozes, justiça popular. Uma petição na internet, o comentário irado de milhares de bocas que nada fizeram quando foi decretada a pena de prisão. Cinco anos. Muitas atenuantes. Um compromisso.
Nos bastidores do julgamento de Luís o telefone do Juiz presidente tocou no do Ministro da Justiça e murmuram-se vozes de preocupação perante quanto terrível seria para o estado de direito a prevalência da justiça popular. Vagas gosmas acertaram os detalhes e Luís foi apresentado como exemplo de justiça célere e generosa. Culpado mas atenuado no seu limpo cadastro. E assim ficou decidido, cinco anos no estabelecimento prisional junto à fronteira espanhola. Vale da Desgraça, assim designavam os presos o grande complexo cinzento que estava aninhado num vale inóspito com más vias de acesso e longe de qualquer povoação digna desse nome.
Foi na ala C do presídio que Luís caminhou pela primeira vez já passava da meia-noite de dia cinco de Outubro. As celas fechadas, a luz de presença e o luar exterior polvilhavam de sombras gradeadas o soalho. Junto à porta das suas celas a população prisional mirava, como era seu hábito, a chegada de mais um preso. Desta vez um famoso. O rosto de Luís fora presença em suficientes telejornais para que fosse do conhecimento de todos que o homem que caminhava envergando o número trezentos e treze, carregando os seus cobertores e os seus parcos haveres, era o assassino do pedófilo.
Quando a marcha de Luís e dos dois guardas prisionais que o escoltavam se cruzou junto à cela sessenta e quatro algo deteve o passo do recém-chegado. Do interior da cela, do alto dos seus dois metros feitos de músculo e crime, corpo retraçado de cicatrizes de rixas à navalha e de tiroteios em carros rápidos, o olhar congestionado do rosto de ébano de J fixava o homem que chegara há escassos momentos. Luís retorquiu o olhar, olhos nos olhos, contra as regras da penitenciária. Mas isso não desagradou a J. Tal com o oficial da PSP no dia da sua prisão aquele negro, conhecedor de tudo o que há de ilegal e sujo na grande cidade, acenou a cabeça em sinal de aprovação. Do interior da cela decorada com obscenos posters de” bitches” e “gangsters” vinha a voz de Pac Man.
“É mais forte o homem que sabe criar um filho que aquele que prime o gatilho”
A mão de um dos guardas devolveu, com um ligeiro empurrão, Luís à sua marcha. Já fora do seu campo de visão, ecoou o grito pela ala C. A voz rouca e poderosa de J, líder da fação dominante nos jogos de poder do labirinto de celas, anunciou:
– Props! – “Proper Respect” . A saudação do seu bando, da sua tribo. Homens duros de lenço negro e olhares assassinos que dominava o pátio e o bairro. Na linguagem da prisão dizia que para Luís não haveria iniciações anais no chuveiro, nem espancamentos por dez euros deixados pela mulher, nem roubos, nem serviços de merda a limpar a merda que todos faziam. Na língua dos duros dizia que quem ousasse molestar o homem, três um três no dorso estava metido numa guerra que ninguém queria.
O silêncio persistiu uns breves segundos, depois a resposta veio. De celas semi-iluminadas chefes de outras fações anuíram em grunhidos que Luís nada sofreria.
E assim tal sucedeu. Todos os dias durante dois anos e meio até que, por bom comportamento, foi decretada a condicional.
Numa tarde de Inverno que se apresentava, embora gélida, de uma luminosidade intensa que enchia de cor a ala C, Luís caminhou de novo. O algarismo caído de suas costas, o olhar firme mas agora tremelicando perante a ânsia de ver os seus que esperavam lá fora. Escoltado à distância por dois guardas Luís deteve-se de novo, como o fizera há tantos dias atrás, junto à cela de J que ocupava todo o espaço da porta aberta. O olhar dos dois homens cruzou-se pela última vez e foi desta vez a cabeça de Luís a dobrar-se em respeito. Quando retomou a marcha os passos do homem agora livre foram acompanhados pelo ritmo de mãos rudes de homens criminosos que socando em sincronia os ferros das grades marcavam a sua ida para a liberdade. O último som que Luís teve da penitenciária foi aquela marcha triunfal e o grito de “Props” ecoado em uníssono pelos prisioneiros. Ao fundo, já lá fora, um sol glorioso fazia brilhar as silhuetas de Tiago, seu filho e da sua esposa. Luís correu.

Defcon 2

Os talibãs do mercado livre e selvagem esfregam as mãos de satisfação, fatos caros e viscosos tecem planos maiores à própria compreensão. Num corredor do Senado um antigo general sussurra ao fabricante de armamento que uma guerra de larga escala retomaria a economia. O companheiro de bancada pousa-lhe a mão sobre o ombro e diz que deus é americano. Incentivou o militar à fala com os seus homens que ele faria o mesmo com seus acólitos. O general disse que primeiro teria que vir uma fome e uma penúria tão grandes que seriam cordeiros dóceis aqueles que aceitariam a arma carregada e o rancho melhorado. Vindo dos lavabos o CEO da farmacêutica perguntou quantas doses de morfina se estimavam necessárias nos conflitos de infantaria mais sangrentos. Quando as projeções chegaram rastejou para junto do armeiro e do homem de cinco estrelas ao ombro. Todos sorriram, todos sentiram que haviam escutado o apelo divino. Todos estavam a fazer negócio.
Do outro lado do mundo Muhammad fecha o cinto de explosivos e prime o acelerador a fundo. Os marines reagem tardiamente e dois deles perecem juntamente com Muhammad. Os três têm direito a oito segundos de reportagem na cadeia televisiva global.
Na casa branca um falcão de olhar vago prepara o voo sobre as presas. Toca o telefone. A chamada em conferência. O poderoso, o militar, o fabricante de morte e o farmacêutico parlamentam. O líder do partido inquire sobre as baixas estimadas. O número é largamente superior aos dos desempregados. A retoma do estilo de vida americano significa pleno emprego. Todos concordam. Gestos lentos limpam a ferrugem da chave de ativação do Defcon de nível máximo.
Do outro lado do mundo. Fiodorvich Ivanov pressente que o general inverno se apresta a chegar e deita um olhar, onde há uma certa fome, para as férteis e longínquas terras de oeste.
Os senadores da toga cinzenta e das sandálias de verniz perguntam a César se as legiões estão operacionais. César requer uma dotação extra orçamental. Serviços de saúde para não combatentes são decretados superavit. Racionaliza-se o desempenho. No corredor do memorial de Cleveland, Sara Mae, esvai-se em sangue enquanto aborta abandonada num corredor. O seu grito é ignorado pois no seu braço já pende o saco de soro a que a apólice a elegia.
Ao largo das Bahamas o demitido presidente do banco de investimento debruça-se da amurada do seu iate. Um grande tubarão branco nada junto ao casco. O olhar de ambos cruza-se. Os dentes lâminas do tubarão exibem-se ao rival. O telefone satélite toca. A linha é segura. O executivo recebe a próxima nomeação. Retribui o sorriso ao carniceiro dos mares. Assustado com a vileza do homem a besta mergulha em direção às profundezas.
Na planície imensa o exército da infantaria reúne mais de duzentos mil. Pés pequenos marcham sincronizados. Vagas de homens fardados, estrelas vermelhas ocultam o pó da terra. Na ponta das suas baionetas brilha o desejo de ser mais rico a qualquer preço.
Na estrada que leva à Casa Branca os homens comuns julgam ver a figura magra daquele que os poderá salvar. Os homens da CIA encolhem os ombros cientes da presença de múltiplos atiradores furtivos prestes a reclamar a sua marca. Em ruído de fundo os vorazes servidores das corporações preparam as transferências que recompensarão o homem da bala de ouro.