6 de Julho de 2014 , As palavras que ficaram por dizer

Foi um fim de semana muito difícil, pleno de tristeza , de mágoa por ver partir quem , de forma alguma , não merecia deixar de caminhar entre nós ; de reflexão sobre quanto fugaz e aleatório é o nosso tempo neste mundo .

Na viagem para Londres esta manhã sucumbi ao sono ainda antes da descolagem e escrevo a grande custo estas palavras pois há algo em mim que me obriga a deixar registados estes pensamentos .

Não vou referir nomes pois , aqueles de vocês que lerem isto , sabem que fazem parte desse grupo de  pessoas que não precisam de citações ou elogios para se reconhecerem .

Gosto de contar histórias . Se pudesse era isso que seria o meu mister ; que se lixassem os sistemas , o software , o hardware , os vírus , os upgrades e todos os jargões que só me deixam tempo para tentar ser , o melhor que posso , um elemento válido junto daqueles que chamo de meus .

E como tal começo , como em tantas histórias , por ..

 

Era uma vez um hotel , um hotel que tinha no mármore que cobria o átrio um brilho mágico que enchia de luz o espaço . E esse brilho atraiu ao longo dos anos um grupo de pessoas que se deixaram contagiar por um calor que , estranhamente , nascido da pedra fria aquecia os corações dos homens e mulheres que passavam aquela porta e criava entre os mesmos laços que ainda hoje perduram . Não sei dizer o nome de tal fenómeno , não sei se não se trata apenas de um fruto fútil da minha imaginação mas a verdade é que , neste fim de semana tão cheio de dor e de raiva pela injustiça do mundo , eu olhei em redor e quase todos(as) estavam lá . Dos que não estavam escutei os seus nomes, citados inúmeras vezes , e tenho a profunda certeza que só o grande imperativo ou os milhares de quilómetros que distam entre Cascais e algum ponto do mapa impediram a sua presença.

Independentemente dos anos que criaram distâncias de quotidianos , de vidas que seguiram os seus rumos próprios quando a urgência do momento ecoa a sua trombeta eles(as) surgem, dizem “presente” . Sem pavonear vaidades , de olhar humedecido por lágrimas que para uns são rios , para outros lábios trémulos feitos barragem . Um “olá “tão simples como se o último re-encontro tivesse sido ontem ;eis que se unem para honrar um de nós que caiu vítima dessa enfermidade maldita que é o cancro .

Ontem, quando o som provocado pela terra a cair sobre a urna parecia ensurdecedor , olhei em volta e vi-vos ;a todos .

O consolo que encontrei naquele momento onde percecionamos a nossa própria brevidade e pequenez foi o de que , num dia abençoado , os nossos caminhos se tenham cruzado pois ,tal como o nosso amigo a que ontem dissemos “até um dia “, tenho a certeza profunda , esmagadora , inabalável que fazeis parte do rol de Homens e Mulheres de boa vontade que caminham por esta Terra.

 

Resta uma última palavra para aquela com que partilho os meus dias . Ela não esteve presente pois , no esforço imenso de fazer nascer sorrisos da tristeza, acarinhou e , juntamente com os meus filhos , proporcionou ao filho do nosso amigo uma tarde daquilo que uma criança merece . Amor e brincadeiras.

Sei que não foi apenas neste mundo que o teu gesto foi apreciado e reconhecido .

Sei-o apenas.

12 de Novembro – Prova Criminal I

A chanceler olhou , entediada , os rostos magros dos homens que se perfilavam em silêncio ao longo da avenida por onde o cortejo oficial deslizava.
Cansada , adormeceu uns minutos. Sobressalto , na janela ainda as longas fileiras de homens calados. “Todos iguais” pensou . Em seguida passou-lhe pela ideia que talvez devessem ser tatuados com números de série.

Esquina – Hiper-curtos de 140chars

I

O bacano vai bem no seu estilo mandrião, ipod , hip-hop.

Na esquina há um assassino em série que não gosta dos da sua laia

 II

O carro rola tenso como o lobo com fome.

Na esquina , a boca de Carlota largará o uivo

 III

A noite negra esconde os tremores do passo doido.

Na esquina há uma boa sombra para dar um caldo.

 

 

 

 

A mesa dos senhores

Foi com visível transtorno que o Senhor Psicadélico informou:

– Vi esta noite o fogo de artificio proporcionado pelo nosso município e , lamento informar , a pobreza das luzes e dos artifícios dos fogos fez-me , contra vontade , ingerir uma cápsula de um delicado ácido .

Os restantes convivas , sentados aquela mesa de fumos e pós , anuíram pela sapiente opção do cavalheiro de tez pálida e roupas escarlates de algumas décadas atrás .

O Senhor Tereche acrescentou :

– O que é uma explosão se não vier a seguir a guitarra distorcida , o grunhir gutural de um insano do senhor Satã ?

Algo nervoso , vindo da sombra que ficava perto do fogo que aquecia os que se sentavam na mesa dos senhores de olhos doentes, interjecionou Tasse:

– Senhores, senhores  de que violências falais   ?  Sossegai-vos diante de um cachimbo de água que semeie a paz entre nós.

Antes do silêncio que é feito da roda de bafos em redor do cachimbo falou Eutanázio.

– O que é uma guitarra em comparação com a corda do enforcado?

O dedo de Tereche estendeu-se pelo meio e depois fez a paz abocanhando o cachimbo que rodava em sua direção

 

 

 

Londres – Rebelião

Fechado nesta cave , este cachimbo esta chama que me leva para o céu triste londrino , este cachimbo que chama com uma raiva inaudita. Para as ruas, capuzes , mãos nos bolsos , contentores , montras de chinocas e começa a chover e começam os tiros , ardem contentores , ardem casas , já tenho uma consola , sapatos novos .
No bolso os móveis chamam para outros lados antes que a porcaria apareça nos seus coletes verdes e no seu passo hesitante de tanta civilização. Bendita Commonwealth que nos tornas tão difíceis prisioneiros.
Mais uns polegares, mais uns focos de incêndio e se me perguntares a razão tal não existe . é tudo tão confuso nesta cidade que anda tão depressa, toupeiras apressadas de gabardines de tons escuros , sapatos desportivos , atletas de auscultadores aspirando o smog , taxa de congestão, congestão dos meus sentidos na ponta do vidro. Smack em soho. E continuamos a corrida da pura destruição. Queremos e levamos , ao meu lado duas miúdas que devem conhecer há pouco a menstruação espancam a pontapé os restos de um mostrador Armani,;na rua contígua morrem dois coreanos , imolados em seus negócios familiares.
Gritamos :
Urrahhhh.
Urrrrahhhh .
Urrrahhhh !!!!!!

Zé Tóxico – I

O Zé Tóxico é assim. Há vezes que me deixa completamente destruído, outras rei de planetas dos quais já não consigo pronunciar o nome. Por vezes oferenda-me ninfas de língua bífida, riquezas faraónicas que contemplo maravilhado, paisagens de luas mortas onde corro sem gravidade , menino brincando ao pequeno passo do homem .Por vezes as viagens são más.Chegam monstros , horrendos medos , mortes lentas de sofrimento imenso onde o meu grito de insanidade ecoa pelo sofá que fica aos fundos do laboratório do Zé. O laboratório é ilegal , o que lá se fabrica é barato , fácil de produzir e bate muito. O Zé Tóxico é rico. Dizem ser o melhor engenheiro químico do reino dos perdidos, aquele que traz à insanidade da noite todas as cores onde a mente consegue ir. Alguns ,por vezes ,não voltam dessas viagens. A mim nunca me aconteceu. Já estive perto, lá na fronteirinha da terra dos pirolitos a menos , voltei sempre. O Zé diz que o problema não é do produto dele. Mente. Ele na verdade caga bem nos que viraram a molécula cerebral, prefere os que voltam .Os que querem as suas refinadíssimas pastilhas. Os clientes dizem que ele é o Picasso da alucinação. Ele sorri e cobra mais pelo produto. Eu penso que não quero que a sua Guernica rebente dentro da minha cabeça já tão debilitada.
Eu sou a cobaia do Zé Tóxico. É o meu emprego, o meu vício, o meu prazer e medo. Será provavelmente também a minha morte. Uma embolia, as pernas esticadas de repente, o coração a implodir , paredes e artérias corroídas pela minha transfigurada circulação. Nem é uma má morte.. até lá vou fazendo estas viagens. Quase todos os dias abalo da vida sem interesse que teria se não me enchesse de aditivos; como os miúdos tomam o leite antes de ir para a cama aterro regularmente na casa do Zé Tóxico por voltas das oito . Ultimamente já nem janto, não gosto de acordar a tresandar a vómito por muito boa que seja a viagem . Mas a voltinha no carrossel dos insanos eu não dispenso. Vivemos praticamente no laboratório. Nós os três, eu , o Zé e a Zombie. Não sei o nome dela por isso resolvi dar-lhe esse nome. Ocupa a grande cama que fica do lado oposto à parede onde se encontra o meu sofá, os meus alguidares para o vómito, o desfibrilador que o Zé insiste em ter por perto juntamente com a gringa tamanho XXL carregada de adrenalina. O Zé diz que um dia vai ter que me trazer de volta. Se não o conseguir não me importo muito. A Zombie não diz nada sobre o discurso do Zé sobre a minha possível reanimação. Na verdade o raio da mulher pouco fala. Encontra-se quase permanentemente num estado de letargia profundo sobre o leito onde os lençóis nunca conheceram lavandaria. O meu sofá é igualmente nojento. A Zombie dorme enquanto eu tripo , a Zombie dorme enquanto eu esfrego em perfeito descontrole todo o meu corpo para me livrar do exército de escaravelhos que debicam todos os milímetros da minha pele (H3401) . A Zombie ressonou durante a longa noite em que algo terrivelmente quente e corrosivo (Q97R2) consumia as minhas cordas vocais e laringe ; gritei para não morrer. Quando regurgitei veio o efeito secundário do químico, os restos da minha digestão fora apresentado em tons de sangue enriquecido por lascas de tecido morto extraído do meu próprio fígado. Enquanto isso acontecia a puta da Zombie dormia.
Mas por vezes ela não dorme. O Zé Tóxico injeta-lhe algo que liberta a deusa de todas as insanas, ninfomaníaca de batimento cardíaco superior as cento e oitenta , olhos feitos globos de predadora de tudo o que a carne pede , até as coisas mais proibidas. Já fiquei muitas vezes a assistir às suas cavalgadas loucas sobre o corpo magro do Zé Tóxico. Ele parece gostar que eu veja. Uma vez , visivelmente bem disposto, emprestou-ma . Juntamente com algo a que ele chamou o Rochedo dos Deuses ( XX069) aguentei-a firme e obsceno até à manhã raiar. A seguir ela adormeceu. Quando despertou tinha de novo o mesmo olhar ausente. Já não se lembrava de mim dentro dela. Melhor assim. O que há a fazer é esquecer , limpar a mente de todas as coisas que possam na realidade ter acontecido. Apagar, viajar, dormir e voltar desperto, limpo de emoções e culpas como um lactente das bolinhas sorridentes do MDMA e derivados.

Não tenho razões para viver de outra forma , já não me importo. Todos os dias são iguais e são apenas bons aqueles onde posso esquecer o mundo que me deram e agradecer a deus por me deixar decair desta forma sorridente , uma mentira de felicidade que me leva a consciência e largas quantidades de neurónios em macaréus roubados ao mais insano que existe na tabela periódica . O Zé Tóxico diz que o messias se chamava, na verdade, Moseley ; eu não entendo do que ele fala mas há tanto sobre o qual já não consigo articular palavra que , provavelmente , ele terá razão na sua firme crença. Por vezes digo ámen quando uma pastilha especialmente feliz na sua conceção termina a sua maturação no meu ácido estomacal e , em seguida , as tais ondas gigantes por que anseio, a saliva transfigurada em sabor de fármaco e o cérebro , e os olhos . O cérebro e olhos, meu deus, fecham-se neste lento decair de lábios feitos sorriso, a derrocada da babel de tudo o que ainda é real em mim . Perco o controle de mim. Já é frequente que se contorcionem involuntariamente os membros em espasmos que tanto poderão aparentar a convulsão do orgasmo extremo ou o estertor dos últimos momentos.
Sou a prova viva que o ácido pode ser consumido por largos períodos de tempo. O Zé Tóxico diz que se legalizassem a trip eu seria apresentado como case study a sisudos executivos de farmacêuticas que salivariam para me dissecar e tecer ambiciosos planos de negócios baseado na longevidade da minha carcaça.
Hoje veste a gravata negra sobre a camisa branca . Na imaculada bata pode-se ver bordado em letra rebuscada sobre o bolso do peito ,C20H25N3O
Hoje estou um bocado preocupado. O Zé disse-me que ando a falhar no relato das minhas experiências. Que aquilo não é um negócio de droga. O tráfico apenas alimenta a ciência. Ele diz. Acho que tomou algo. Ele diz que tem que saber tudo, que tenho de lhe contar onde vou. Eu digo que o faço. Ele enfurece-se e passa no monitor de muitas polegadas a gravação vídeo da minha última entrevista. O fio de baba que me escorre do canto da boca em direção ao logótipo da HP e o meu monólogo de latidos e uivos lupinos são de facto parco contributo para a ciência.
O Zé Tóxico tira do bolso da bata uma seringa plena de um liquido cor rosa onde no interior navegam pequenas suspensões negras. Ele diz:
– Isto vai doer com’o caraças a entrar – encolhe os ombros – para a próxima a moagem será mais fina.
“Merda de Humor “ penso enquanto desaperto o punho da camisa e exponho o braço direito. O esquerdo está inutilizável. Quero saber:
– O que é essa merda ?
O Zé Tóxico olha-me fixamente e tosse um pouco antes de falar. Isso quer dizer que não tem bem a certeza do que misturou. Eu vejo a mão dele tremer. “Foda-se ,que não sabe mesmo”
A mão livre do Zé Tóxico rebusca um dos bolsos laterais e descobre um comprimido. É vermelho e negro . Ele nota a perplexidade na minha cara perante a proposta da mistura do produto injetado com a pastilha deglutida. Clarifica.
A minha péssima prestação nas mais recentes sessões de cobaia obrigou-o a criar um catalisador de memórias. Como já percebeu que não consigo falar decidiu tentar a minha capacidade de descrever os momentos que passei nas nuvens mágicas da aldeia de lá –lá- lá através da escrita. Para esse efeito serve a solução que espreita através do vidro . O embolo acaricia a sopa que está prestes a entrar em mim.
E o comprimido? Quero saber.
Abrindo-me os lábios com meiguice o ácido é depositado. Olho nos olhos do Zé e vejo um sacerdote que oferendou sacramento a um fiel. Fecho os olhos e rezo a uma boa viagem. Oiço a voz do Zé Tóxico explicar:
– Chamei-lhe “O Sepulcro do Rei “ ( RIP003) ;é uma encomenda dos góticos. Procurei um ambiente extremo de claustrofobia onde a asfixia e o medo se mesclassem com a total ausência de luz, cegueira total. A duração do produto pode ser um problema – uma pausa que já começo a ouvir ao longe – será que aguentas umas cinco horas enclausurado na sepultura? Sem veres nada , quase sem conseguir respirar?
Oiço pazadas de terra tombarem sobre a madeira que está a escassos centímetros do meu rosto. Os meus braços estão cruzados. Não posso escrever agora. Se voltar contarei.