6 de Julho de 2014 , As palavras que ficaram por dizer

Foi um fim de semana muito difícil, pleno de tristeza , de mágoa por ver partir quem , de forma alguma , não merecia deixar de caminhar entre nós ; de reflexão sobre quanto fugaz e aleatório é o nosso tempo neste mundo .

Na viagem para Londres esta manhã sucumbi ao sono ainda antes da descolagem e escrevo a grande custo estas palavras pois há algo em mim que me obriga a deixar registados estes pensamentos .

Não vou referir nomes pois , aqueles de vocês que lerem isto , sabem que fazem parte desse grupo de  pessoas que não precisam de citações ou elogios para se reconhecerem .

Gosto de contar histórias . Se pudesse era isso que seria o meu mister ; que se lixassem os sistemas , o software , o hardware , os vírus , os upgrades e todos os jargões que só me deixam tempo para tentar ser , o melhor que posso , um elemento válido junto daqueles que chamo de meus .

E como tal começo , como em tantas histórias , por ..

 

Era uma vez um hotel , um hotel que tinha no mármore que cobria o átrio um brilho mágico que enchia de luz o espaço . E esse brilho atraiu ao longo dos anos um grupo de pessoas que se deixaram contagiar por um calor que , estranhamente , nascido da pedra fria aquecia os corações dos homens e mulheres que passavam aquela porta e criava entre os mesmos laços que ainda hoje perduram . Não sei dizer o nome de tal fenómeno , não sei se não se trata apenas de um fruto fútil da minha imaginação mas a verdade é que , neste fim de semana tão cheio de dor e de raiva pela injustiça do mundo , eu olhei em redor e quase todos(as) estavam lá . Dos que não estavam escutei os seus nomes, citados inúmeras vezes , e tenho a profunda certeza que só o grande imperativo ou os milhares de quilómetros que distam entre Cascais e algum ponto do mapa impediram a sua presença.

Independentemente dos anos que criaram distâncias de quotidianos , de vidas que seguiram os seus rumos próprios quando a urgência do momento ecoa a sua trombeta eles(as) surgem, dizem “presente” . Sem pavonear vaidades , de olhar humedecido por lágrimas que para uns são rios , para outros lábios trémulos feitos barragem . Um “olá “tão simples como se o último re-encontro tivesse sido ontem ;eis que se unem para honrar um de nós que caiu vítima dessa enfermidade maldita que é o cancro .

Ontem, quando o som provocado pela terra a cair sobre a urna parecia ensurdecedor , olhei em volta e vi-vos ;a todos .

O consolo que encontrei naquele momento onde percecionamos a nossa própria brevidade e pequenez foi o de que , num dia abençoado , os nossos caminhos se tenham cruzado pois ,tal como o nosso amigo a que ontem dissemos “até um dia “, tenho a certeza profunda , esmagadora , inabalável que fazeis parte do rol de Homens e Mulheres de boa vontade que caminham por esta Terra.

 

Resta uma última palavra para aquela com que partilho os meus dias . Ela não esteve presente pois , no esforço imenso de fazer nascer sorrisos da tristeza, acarinhou e , juntamente com os meus filhos , proporcionou ao filho do nosso amigo uma tarde daquilo que uma criança merece . Amor e brincadeiras.

Sei que não foi apenas neste mundo que o teu gesto foi apreciado e reconhecido .

Sei-o apenas.

12 de Novembro – Prova Criminal I

A chanceler olhou , entediada , os rostos magros dos homens que se perfilavam em silêncio ao longo da avenida por onde o cortejo oficial deslizava.
Cansada , adormeceu uns minutos. Sobressalto , na janela ainda as longas fileiras de homens calados. “Todos iguais” pensou . Em seguida passou-lhe pela ideia que talvez devessem ser tatuados com números de série.

Esquina – Hiper-curtos de 140chars

I

O bacano vai bem no seu estilo mandrião, ipod , hip-hop.

Na esquina há um assassino em série que não gosta dos da sua laia

 II

O carro rola tenso como o lobo com fome.

Na esquina , a boca de Carlota largará o uivo

 III

A noite negra esconde os tremores do passo doido.

Na esquina há uma boa sombra para dar um caldo.

 

 

 

 

A mesa dos senhores

Foi com visível transtorno que o Senhor Psicadélico informou:

– Vi esta noite o fogo de artificio proporcionado pelo nosso município e , lamento informar , a pobreza das luzes e dos artifícios dos fogos fez-me , contra vontade , ingerir uma cápsula de um delicado ácido .

Os restantes convivas , sentados aquela mesa de fumos e pós , anuíram pela sapiente opção do cavalheiro de tez pálida e roupas escarlates de algumas décadas atrás .

O Senhor Tereche acrescentou :

– O que é uma explosão se não vier a seguir a guitarra distorcida , o grunhir gutural de um insano do senhor Satã ?

Algo nervoso , vindo da sombra que ficava perto do fogo que aquecia os que se sentavam na mesa dos senhores de olhos doentes, interjecionou Tasse:

– Senhores, senhores  de que violências falais   ?  Sossegai-vos diante de um cachimbo de água que semeie a paz entre nós.

Antes do silêncio que é feito da roda de bafos em redor do cachimbo falou Eutanázio.

– O que é uma guitarra em comparação com a corda do enforcado?

O dedo de Tereche estendeu-se pelo meio e depois fez a paz abocanhando o cachimbo que rodava em sua direção

 

 

 

Londres – Rebelião

Fechado nesta cave , este cachimbo esta chama que me leva para o céu triste londrino , este cachimbo que chama com uma raiva inaudita. Para as ruas, capuzes , mãos nos bolsos , contentores , montras de chinocas e começa a chover e começam os tiros , ardem contentores , ardem casas , já tenho uma consola , sapatos novos .
No bolso os móveis chamam para outros lados antes que a porcaria apareça nos seus coletes verdes e no seu passo hesitante de tanta civilização. Bendita Commonwealth que nos tornas tão difíceis prisioneiros.
Mais uns polegares, mais uns focos de incêndio e se me perguntares a razão tal não existe . é tudo tão confuso nesta cidade que anda tão depressa, toupeiras apressadas de gabardines de tons escuros , sapatos desportivos , atletas de auscultadores aspirando o smog , taxa de congestão, congestão dos meus sentidos na ponta do vidro. Smack em soho. E continuamos a corrida da pura destruição. Queremos e levamos , ao meu lado duas miúdas que devem conhecer há pouco a menstruação espancam a pontapé os restos de um mostrador Armani,;na rua contígua morrem dois coreanos , imolados em seus negócios familiares.
Gritamos :
Urrahhhh.
Urrrrahhhh .
Urrrahhhh !!!!!!

Zé Tóxico – I

O Zé Tóxico é assim. Há vezes que me deixa completamente destruído, outras rei de planetas dos quais já não consigo pronunciar o nome. Por vezes oferenda-me ninfas de língua bífida, riquezas faraónicas que contemplo maravilhado, paisagens de luas mortas onde corro sem gravidade , menino brincando ao pequeno passo do homem .Por vezes as viagens são más.Chegam monstros , horrendos medos , mortes lentas de sofrimento imenso onde o meu grito de insanidade ecoa pelo sofá que fica aos fundos do laboratório do Zé. O laboratório é ilegal , o que lá se fabrica é barato , fácil de produzir e bate muito. O Zé Tóxico é rico. Dizem ser o melhor engenheiro químico do reino dos perdidos, aquele que traz à insanidade da noite todas as cores onde a mente consegue ir. Alguns ,por vezes ,não voltam dessas viagens. A mim nunca me aconteceu. Já estive perto, lá na fronteirinha da terra dos pirolitos a menos , voltei sempre. O Zé diz que o problema não é do produto dele. Mente. Ele na verdade caga bem nos que viraram a molécula cerebral, prefere os que voltam .Os que querem as suas refinadíssimas pastilhas. Os clientes dizem que ele é o Picasso da alucinação. Ele sorri e cobra mais pelo produto. Eu penso que não quero que a sua Guernica rebente dentro da minha cabeça já tão debilitada.
Eu sou a cobaia do Zé Tóxico. É o meu emprego, o meu vício, o meu prazer e medo. Será provavelmente também a minha morte. Uma embolia, as pernas esticadas de repente, o coração a implodir , paredes e artérias corroídas pela minha transfigurada circulação. Nem é uma má morte.. até lá vou fazendo estas viagens. Quase todos os dias abalo da vida sem interesse que teria se não me enchesse de aditivos; como os miúdos tomam o leite antes de ir para a cama aterro regularmente na casa do Zé Tóxico por voltas das oito . Ultimamente já nem janto, não gosto de acordar a tresandar a vómito por muito boa que seja a viagem . Mas a voltinha no carrossel dos insanos eu não dispenso. Vivemos praticamente no laboratório. Nós os três, eu , o Zé e a Zombie. Não sei o nome dela por isso resolvi dar-lhe esse nome. Ocupa a grande cama que fica do lado oposto à parede onde se encontra o meu sofá, os meus alguidares para o vómito, o desfibrilador que o Zé insiste em ter por perto juntamente com a gringa tamanho XXL carregada de adrenalina. O Zé diz que um dia vai ter que me trazer de volta. Se não o conseguir não me importo muito. A Zombie não diz nada sobre o discurso do Zé sobre a minha possível reanimação. Na verdade o raio da mulher pouco fala. Encontra-se quase permanentemente num estado de letargia profundo sobre o leito onde os lençóis nunca conheceram lavandaria. O meu sofá é igualmente nojento. A Zombie dorme enquanto eu tripo , a Zombie dorme enquanto eu esfrego em perfeito descontrole todo o meu corpo para me livrar do exército de escaravelhos que debicam todos os milímetros da minha pele (H3401) . A Zombie ressonou durante a longa noite em que algo terrivelmente quente e corrosivo (Q97R2) consumia as minhas cordas vocais e laringe ; gritei para não morrer. Quando regurgitei veio o efeito secundário do químico, os restos da minha digestão fora apresentado em tons de sangue enriquecido por lascas de tecido morto extraído do meu próprio fígado. Enquanto isso acontecia a puta da Zombie dormia.
Mas por vezes ela não dorme. O Zé Tóxico injeta-lhe algo que liberta a deusa de todas as insanas, ninfomaníaca de batimento cardíaco superior as cento e oitenta , olhos feitos globos de predadora de tudo o que a carne pede , até as coisas mais proibidas. Já fiquei muitas vezes a assistir às suas cavalgadas loucas sobre o corpo magro do Zé Tóxico. Ele parece gostar que eu veja. Uma vez , visivelmente bem disposto, emprestou-ma . Juntamente com algo a que ele chamou o Rochedo dos Deuses ( XX069) aguentei-a firme e obsceno até à manhã raiar. A seguir ela adormeceu. Quando despertou tinha de novo o mesmo olhar ausente. Já não se lembrava de mim dentro dela. Melhor assim. O que há a fazer é esquecer , limpar a mente de todas as coisas que possam na realidade ter acontecido. Apagar, viajar, dormir e voltar desperto, limpo de emoções e culpas como um lactente das bolinhas sorridentes do MDMA e derivados.

Não tenho razões para viver de outra forma , já não me importo. Todos os dias são iguais e são apenas bons aqueles onde posso esquecer o mundo que me deram e agradecer a deus por me deixar decair desta forma sorridente , uma mentira de felicidade que me leva a consciência e largas quantidades de neurónios em macaréus roubados ao mais insano que existe na tabela periódica . O Zé Tóxico diz que o messias se chamava, na verdade, Moseley ; eu não entendo do que ele fala mas há tanto sobre o qual já não consigo articular palavra que , provavelmente , ele terá razão na sua firme crença. Por vezes digo ámen quando uma pastilha especialmente feliz na sua conceção termina a sua maturação no meu ácido estomacal e , em seguida , as tais ondas gigantes por que anseio, a saliva transfigurada em sabor de fármaco e o cérebro , e os olhos . O cérebro e olhos, meu deus, fecham-se neste lento decair de lábios feitos sorriso, a derrocada da babel de tudo o que ainda é real em mim . Perco o controle de mim. Já é frequente que se contorcionem involuntariamente os membros em espasmos que tanto poderão aparentar a convulsão do orgasmo extremo ou o estertor dos últimos momentos.
Sou a prova viva que o ácido pode ser consumido por largos períodos de tempo. O Zé Tóxico diz que se legalizassem a trip eu seria apresentado como case study a sisudos executivos de farmacêuticas que salivariam para me dissecar e tecer ambiciosos planos de negócios baseado na longevidade da minha carcaça.
Hoje veste a gravata negra sobre a camisa branca . Na imaculada bata pode-se ver bordado em letra rebuscada sobre o bolso do peito ,C20H25N3O
Hoje estou um bocado preocupado. O Zé disse-me que ando a falhar no relato das minhas experiências. Que aquilo não é um negócio de droga. O tráfico apenas alimenta a ciência. Ele diz. Acho que tomou algo. Ele diz que tem que saber tudo, que tenho de lhe contar onde vou. Eu digo que o faço. Ele enfurece-se e passa no monitor de muitas polegadas a gravação vídeo da minha última entrevista. O fio de baba que me escorre do canto da boca em direção ao logótipo da HP e o meu monólogo de latidos e uivos lupinos são de facto parco contributo para a ciência.
O Zé Tóxico tira do bolso da bata uma seringa plena de um liquido cor rosa onde no interior navegam pequenas suspensões negras. Ele diz:
– Isto vai doer com’o caraças a entrar – encolhe os ombros – para a próxima a moagem será mais fina.
“Merda de Humor “ penso enquanto desaperto o punho da camisa e exponho o braço direito. O esquerdo está inutilizável. Quero saber:
– O que é essa merda ?
O Zé Tóxico olha-me fixamente e tosse um pouco antes de falar. Isso quer dizer que não tem bem a certeza do que misturou. Eu vejo a mão dele tremer. “Foda-se ,que não sabe mesmo”
A mão livre do Zé Tóxico rebusca um dos bolsos laterais e descobre um comprimido. É vermelho e negro . Ele nota a perplexidade na minha cara perante a proposta da mistura do produto injetado com a pastilha deglutida. Clarifica.
A minha péssima prestação nas mais recentes sessões de cobaia obrigou-o a criar um catalisador de memórias. Como já percebeu que não consigo falar decidiu tentar a minha capacidade de descrever os momentos que passei nas nuvens mágicas da aldeia de lá –lá- lá através da escrita. Para esse efeito serve a solução que espreita através do vidro . O embolo acaricia a sopa que está prestes a entrar em mim.
E o comprimido? Quero saber.
Abrindo-me os lábios com meiguice o ácido é depositado. Olho nos olhos do Zé e vejo um sacerdote que oferendou sacramento a um fiel. Fecho os olhos e rezo a uma boa viagem. Oiço a voz do Zé Tóxico explicar:
– Chamei-lhe “O Sepulcro do Rei “ ( RIP003) ;é uma encomenda dos góticos. Procurei um ambiente extremo de claustrofobia onde a asfixia e o medo se mesclassem com a total ausência de luz, cegueira total. A duração do produto pode ser um problema – uma pausa que já começo a ouvir ao longe – será que aguentas umas cinco horas enclausurado na sepultura? Sem veres nada , quase sem conseguir respirar?
Oiço pazadas de terra tombarem sobre a madeira que está a escassos centímetros do meu rosto. Os meus braços estão cruzados. Não posso escrever agora. Se voltar contarei.

Londres – Shots de uma revolta I

Fechado nesta cave , este cachimbo esta chama que me leva para o céu triste londrino , este cachimbo que chama com uma raiva inaudita. Para as ruas, capuzes , mãos nos bolsos , contentores , montras de chinocas e começa a chover e começam os tiros , ardem contentores , ardem casas , já tenho uma consola , sapatos novos . No bolso os móveis chamam para outros lados antes que a porcaria apareça nos seus coletes verdes e no seu passo hesitante de tanta civilização. Há bendita Commonwealth que nos tornas tão difíceis prisioneiros. Mais uns polegares , mais uns focos de incêndio e se me perguntares a razão tal não existe . é tudo tão confuso nesta cidade que anda tão depressa, toupeiras apressadas de gabardines de tons escuros , sapatos desportivos , atletas de auscultadores aspirando o smog , taxa de congestão, congestão dos meus sentidos na ponta do vidro. Smack em soho. E continuamos a corrida da pura destruição. Queremos e levamos , ao meu lado duas miúdas que devem conhecer há pouco a menstruação espancam a pontapé os restos de um mostrador Armani,;na rua contígua morrem dois coreanos , imolados em seus negócios familiares.
Gritamos :
Urrahhhh.
Urrrrahhhh .
Urrrahhhh !!!!!!

Terra de Incas 6/6 ( Final )

Elegi o meu quarto de hotel como templo das coisas da carne e sou sacerdote rendido à deusa esplendorosa que se chama Dolores e que , com insinuação de grande profissionalismo , se desnuda perante o meu olhar ,entretanto recriado pupila gigante .O nariz escorre caramelo e tesão para dentro de mim. Como se uma nuvem negra ,em forma de vestido ,partisse, o sol de todo o esplendor da nudez é exposto. Primeiro, falsamente tímida, exibe-me o seu dorso. Uma enorme tatuagem na forma de condor enche a extensão das costas e termina na linha de onde brotam duas nádegas perfeitas.
Inquieto-me:
– O que é isso ?
Rodando sobre os calcanhares, e esmagando-me com a visão da sua nudez frontal, Dolores clarifica:
– Hanan Pacha – O mundo superior, dos céus . O seu símbolo era o grande condor dos Andes.
Detecto o meu primeiro fluxo de algum medo. Junto a clavícula esquerda uma segunda tatuagem representa o golpe da garra de um grande felino. O triunvirato é completo pela sibilante imagem de uma serpente, a cauda nascida no vale do busto , a enorme cabeça na zona do umbigo . A língua bifurcada estica-se, ostensivamente ,na direcção do sexo de Dolores.
Dentro de mim a adrenalina do medo e o feromônio do querer travam um combate de morte. As tatuagens hipnotizam o meu olhar, ela percebe e prossegue. Toca com as cabeças dos dedos a marca da garra:
– Kay Pacha – o mundo dos vivos. Nós , os dois, aqui. As garras sequiosas do puma.
O braço esquerdo e uma mão ,espalmada ,de dedos abertos, desliza com vagar ao longo do corpo da serpente até terminar num óbvio gesto onanista já dentro de si mesma:
– Ukju Pacha – o mundo lá de baixo , mundo dos pecados mortais – a língua insinua-se entre os dentes irregulares , o olhar é de meretriz suprema – Caliente !
Inclina-se, e insinua a língua e a duvida ao meu ouvido:
– Qual queres …provar?
O grande primata que há no meu código genético faz uma aliança explosiva com a droga que me inunda , tomo-a nos meus braços, derrubo-a sobre os lençóis .Cravo nos olhos verdes lascivos um olhar de predador e urro insanamente antes de afastar, abruptamente ,as coxas e dirigir-me ao incauto acto de beijar a intimidade desta mulher pública:
– Aqui , Pacha – gracejo.
Pela última vez pois tudo acontece num ápice.
Da vagina de lábios afastados pelos meus trémulos dedos um cheiro intenso e repugnante de coisas mortas mistura-se com o meu hiperactivo olfacto. A voz , lá em cima , junto à almofada ,já não é a de Dolores mas da menina assombração que avistei na catedral . A raiva gutural do mundo de lá ordena:
– Come-me o inferno.
De dentro de si duas enormes serpentes de olhos letais e mandíbulas gotejantes de veneno brotam e, com uma dentada síncrona ,amputam-me as mãos. A dor é indescritível.
De pé , gritando a agonia que brota em repuxos dos dois cotos onde agora terminam os meus braços assisto , um horror feito de dor extrema , à metamorfose de Dolores ; agora Tanta Carhua. De mulher de formas perfeitas à abominação de corpo de serpente , escamas brilhantes que deixam rasto de visco e carne putrefacta a sua passagem pelo lençóis , a cabeça de menina há muito morta mescla-se com a fauce de o grande puma das montanhas , duas enormes presas rasgam a face sem vida .Passa por mim , réptil imundo , monstro de pesadelo ,e salta pela janela do sexto andar . Antes da queda brotam de suas costas as asas do grande condor e parte em direcção às cordilheiras.
Tenho minutos antes de me esvair em sangue, o pânico apodera-se de mim. O choro convulsivo, o apelo ao pai há tanto esquecido , rezo , praguejo – Foda-se , Foda-se – o meu cotovelo emprega todo o seu esforço contra a maçaneta da porta . Há um desespero de um homem perto da morte nos meus gestos. Por sorte um dos golpes é preciso e a porta abra-se. A minha esperança de salvação dura ínfimos de segundo. Ocupando toda a extensão do meu trilho para a vida as pedras de um muro, rusticamente construído ,perfilham-se. Apenas existe um tijolo ausente na parede que fecha o meu sepulcro. Um grito insano de desespero, os cotos raspando o buraco ínfimo, o apelo a alguém que acuda.
Tudo para nada. O meu olhar encontra o olho vazado do feiticeiro que, com um gesto brusco , sela a campa. Ecoa um grito de triunfo no corredor. Uma multidão canta. Centenas de pés fazem estremecer o solo. O circulo está fechado , o sacrifício consumado, inicia-se o festim. Os tambores ecoam ao longe
Para mim, começa o fim. Perco forças rapidamente. Morro no lavatório da casa de banho “snifando” ,como um cão amputado , todo o produto que me resta. A minha última visão é o meu rosto lívido manchado do pó branco onde chafurdei o meu último inquietar. Depois vem o escuro.

Terra de Incas 5/6

Há algo de heresia no ritual dos meus preparativos para a noite que será a ultima na capital do império Inca. O cuidado ao vestir a camisa de linho branco, o lento ajuste das calças caqui de forma a não estragar o vinco ; tudo são gestos pouco comuns em mim. Demoro uma eternidade na preparação. O vagar dos gestos é contrastado com o turbilhão de pensamentos que me invade a mente. O dia que passei nas ruínas de Picchu serviu para provar duas coisas : Tudo o que vivi nos últimos dias é revelador de um elevado nível de toxicidade , permanente e residente ,e dos seus efeitos imprevisíveis na minha nada saudável mente e a percepção ; agora sem desculpas de altitudes , jet lags ou outro dos argumentos que gosto de mentir a mim mesmo, que a minha carência de drogas atingiu o nível da dependência física. Muito se passou desde o dia que abalei de Lisboa com toda a fome de divertimento deste mundo e o momento actual, onde o meu corpo massacrado por todos os prazeres obscenos e ilegais que o globo pode proporcionar pede uma pausa. No fundo sabia que este dia chegaria, isto ou uma morte repentina na pressa de um devaneio qualquer. Foi a dependência que prevaleceu. Tento recordar o rosto da mulher que não desposei em Portugal , os semblantes dos que, outrora, chamei amigos e família. Memórias ténues, neurónios mortos trazem imagens esbatidas , nada mais. Cortei as amarras em definitivo, carbonizei em opiáceos o meu passado; agora é tempo de ir limpar este sangue tão corroído em enfermarias suite de luxo lado a lado com reis do rock e estrelas da sétima arte . Todavia ,antes de tal, tenho de sair desta vida de “junkie “ em grande estilo . Resolvo que hoje me injectarei, o grande “flash” do caldo é o meu presente de despedida.
A primeira dificuldade que me advém é o facto de não possuir o equipamento necessário a diluir nas minhas artérias a consequência fervida da cocaína . Depois de inquirir ,na recepção do hotel, o paradeiro da farmácia mais próxima encaro um desconfiado farmacêutico que não parece muito convicto da minha atabalhoada divagação de diabetes e outros males de terapia injectável dos quais supostamente padeço . Graças ao santo dos agarrados estou na América do Sul , a nota de cem dólares ganha o estatuto de prescrição e cerca de uma hora depois estou de regresso ao meu santuário quarto. No caminho de regresso apenas um pequeno episódio digno de registo. Um andrajoso pedinte e o seu olhar, o acumular dos anos e da degradação de bodega haviam trazido o luzir louco dos ressabiados com a vida. O insulto nem foi extremo, mais estranho que ofensivo de facto. O homem irado proferira:
– Pizarro conquistador cabron – O articular das palavras soara a golpes fundos da faca que trazia, ostensivamente, à cinta. Apressei o passo. É muito fácil ter pressa em tais circunstâncias . A seringa na minha mão, o produto no hotel e todas as minhas artérias a pulsarem ,famintas do ferro, são poderosos argumentos para que me cresça a cadência do passo.
E aqui estou , a preparar a sopa do grande “bang” ; tenho algum tremor nas mãos , falta-me o controle dos grandes paquidermes tóxicos que se injectam com regularidade ao longo de décadas. Após a segunda tentativa dou com a veia evidenciada pelo garrote feito da extensão eléctrica da televisão.
Levanto os pés do chão alguns segundos depois. A tormenta violentíssima da grande pedra orgástica esmaga-se contra o meu cérebro como um macaréu de energia demoníaca. Ainda com o braço asfixiado no garrote miro-me no espelho , a midriase eclode transformando as minhas pupilas em dois pratos negros de urgência de perdição. Uma euforia olímpica invade-me , quando me injecto recordo sempre aquele tipo do filme do “Titanic” de braços abertos à proa a gritar que era o rei do mundo. Se levar com a maresia o fazia rei a substancia que invade todos os meus órgãos vitais coroa-me imperador da decadência universal. Preparo-me para sair quando, pelo canto do olho, deparo-me com a possibilidade de um toque de requinte na minha , já monumental , broa. A grande altitude obriga a que em todos os quartos exista uma botija de oxigénio pronta a receber a asfixia aflita de turistas mais idosos. O meu propósito é outro, aumentar a intoxicação através do aumento de oxigénio no fluxo sanguíneo. Antecedo o quase fetichista acto de colocar a máscara com mais uma ingestão de branco pó , desta vez sobre a forma de linhas gémeas em espelho de bolso.
O sucesso é monumental, ao sair do quarto não consigo evitar o “sprint” até ao elevador. Grito em plenos pulmões que sou o rei , uma perplexa empregada de andares encosta-se à parede cedendo passagem a este Obikwelu Bogotá.
A figura de passo apressado que sai, momentos depois, do átrio do hotel é um mastim geneticamente modificado para farejar antros de deboche , ávido , louco pela caça , pela busca da perdição em forma de boémia e mulheres.
O meu primeiro covil tem o nome patético de Mama Batata e rapidamente o seu ecossistema lúdico ganha o meu profundo aborrecimento. Emborco dois vodkas limão junto a um balcão apinhado de grupos turísticos organizados que se embebedam envoltos numa mesclada intrujice de grupos de folclore local , loja de souvenirs e alguma animação moderna no girar dos pratos de um “DJ” de nome Panchito Huevos cujo um néon anuncia a presença. O suor e camisa havaiana do animador conjugam perfeitamente com um “beat” remisturado de Ricky Martin.
Caçador experiente elejo o balcão como miradouro e rapidamente identifico mulheres da vida em “part-time” que estão muito longe dos meus objectivos carnais. São quatro, aparentam ter saído ao final do dia do liceu estatal para se abonecarem e virem ,horas mais tarde, à procura de uns dólares extras . Desvio o olhar do sorriso promoção que uma das miúdas me crava. Não aprecio esta raça de amadoras. Há sempre algo no acto, supostamente comercial, que cheira a esperança que um dia voltemos e as levemos para uma vida melhor. Isso incomoda-me. O que quero sempre, e especialmente nesta noite tão especial , é a grande meretriz de formas generosas que lhe vale o estatuto de puta hiper cara. Aquela mulher que posso chamar mãe , filha , Angelina Jolie ,espancar as nádegas ferozmente , chorar convulsivamente no seu colo, latir como um “Poodle” no momento do clímax que , a partir do momento que abandona o quarto com centenas de dólares entre os seios , me apaga para sempre da sua memória.
Aqui tal espécie não existe. Saio.
Procuro no bolso o papel que me havia sido rabiscado pelo porteiro do hotel. Na lista um nome chama a minha atenção. “Nazca Noche”. O trocadilho noite de narça surge-me na mente e enveredo, sempre no passo de galope que a droga me impõe, para a localização. No curto percurso tenho a sensação que, ao passar junto ao claustro de um convento abandonado ,uma figura sombria caminha entre as colunas acompanhando a minha marcha. No entanto, vários rodopios de cabeça após, não há vivalma no meu horizonte e a visão da porta do clube tranquiliza-me a alma. Tenho sede . Empurro a porta negra com um gesto lento. O espaço está pleno de fumo e de música alta , o inevitável palco para o “strip-tease”, uma bola de espelhos da era disco lança lampejos de brilho sobre as mulheres de saia curta que povoam a pista.
O meu segundo passo dentro do bar cruza-se com o deslizar insinuante de uma falsa loira de curvas esguias e vestimenta mínima que ,com um sorriso obsceno e ausência de discrição , me apalpa as nádegas . Murmura-me:
– Duzentos dólares. Tudo.
Declino-a, sei que as mais ansiosas são normalmente as que estão mais abaixo na cadeia alimentar. O inevitável “Joe Cocker” acompanha uma negra luzidia no varão do centro da pista. Peço uma bebida a uma “barmaid “ de seios expostos e mesclados de lantejoulas , é pouco generosa na porção que me serve . Vagueio pelo espaço. Existem cerca de vinte a trinta mulheres ; em mesas mais recônditas figuras masculinas trocam as primeiras carícias e negociam preços. Sou chamado , abordado, mas todas ignoro. Desço aos balneários e invado as narinas com mais um pouco. Dentro de mim a pulsação atinge ritmos elevadíssimos e as mucosas congestionam-se em todas as formas possíveis. Um imensa erecção, que cresceu após o chuto , ainda não me abandonou. Volto ao bar e vejo-a. Sozinha , ao fundo da sala , esparramada num sofá ,como uma grande rainha das putas ,está a mulher mais apetecível que alguma vez vi.
Longos cabelos negros envolvem um moreno azeitona onde brilham ,esplendorosos, dois imensos olhos verdes. O corpo apresenta toda as curvas cheias da tenra idade e da natureza de tal forma generosa que a cirurgia estética é ainda um plano de longo prazo. Todavia o que a torna soberba é a imensidão de luxúria que lhe marca toda a feição. Mulher, fêmea; exala odores de cio para o meu libidinoso pasmar .O entreabrir dos lábios carnudos , os incisivos ligeiramente afastados e a proeminência do maxilar inferior são chicotadas obscenas no mais viril que há em mim. Todos os meus fluidos corporais circulam em maior abundância perante a ideia de a possuir na posição primordial dos mamíferos.
Olha-me desafiadora. O vestido restolha quando afasta as coxas parcialmente expostas e com o dedo chama-me junto a si. É obvio que está determinada a que eu seja o homem dentro dela, o cliente . É tudo uma questão de preço, sei-o e parto para a dança nupcial dos dólares.
A voz é rouca e entoa maravilhosamente:
– Sou Dolores , muito prazer. Como te chamas ?
-Diego – minto recordando a placa do barman oleaso que dominava o balcão do bar que visitara anteriormente. O olhar divertido tolera a minha mentira e entra no jogo :
– Diego era um dos capitães de Pizarro , um conquistador de terras e corações.
A minha frieza esquizofrénica e a urgência de tocar o busto empinado encurtam o caminho da sedução:
– E o teu coração custa muito a conquistar? – Inquiro mordaz.
– Quinhentos dólares , mon capitan – o brilho nos olhos diz-me que me proporcionará uma noite que não esquecerei.
– Vamos – ordeno , quero-a bem junto a minha droga , quero-a nua na minha cama , a sua barriga lisa feito trilho de inalações múltiplas. Obedece ao meu comando pegando na pequena malinha de imitação de crocodilo e caminhando bamboleante sobre tacões agulha.
(continua)