Subway

Um tipo que o mundo quis conhecer por Chris estava com pressa. As suas mãos acompanhavam nervosas o ritmo da secção rítmica que ecoava em volume elevado no reprodutor de música digital. Na parede da estação , entre os trabalhos do spray negro e a publicidade, a placa anunciava que aquele era o campo dos despertos  . Tal não acontecia , a carruagem apinhada do metro nova-iorquino era uma pradaria de rostos ensonados , hálitos de porcelana a prestações, jornais amarrotados em sovacos de odor intenso, primeiros cachimbos de crack nos olhos mais esbugalhados da turba matinal.

Chris , embora não tivesse embrulhado os seus lábios bem desenhados no canudo de metal que traz a nuvem tóxica, suava abundantemente . No mostrador digital anunciava-se o atraso de nove minutos em relação à abertura do mercado. O dedo polegar manipulou violentamente o ecrã tátil mas a ausência de rede impediu-o de efetuar qualquer transação. Dez minutos.

A mulher gorda , chamada Deborah Smith , embora não tivesse consumido qualquer tipo de estupefaciente , cheirado , fumado  ou picado ; apresentava uma transpiração digna de , em volume e pestilência , qualquer irmão perdido do Harlem. No alto do seu carrapito de funcionária da biblioteca municipal dançava o esquecimento a que uma mulher pode ser abandonada. Deborah é uma mulher só . O tempo esqueceu-se de a deixar bonita, rica , algo mais que o amargo dos dias . Ausente , permanentemente, de companhia. Miss nada , nunca comida , nunca elogiada, nunca chamada de doce ou querida. A linha de cronos dos cento e dois quilos de carne totalmente americana é preenchida em deboches de uma boca escancarada ,ansiosos gestos  na gula erótica que sente ao abarcar um whopper. Duplo . com bacon e extra queijo, tacos , geleias , fritos de cores variadas e sabores condensados em múltiplas aplicações químicas , bastantes partes de um galão em formato de refrigerante.

Deborah Smith não ri , come. Não fode ,come,   vê tv , come ; por vezes brinca por detrás do fecho das calças tamanho oito vezes xis, come , deglute, vê tv .Acorda no vómito do que já não cabia no seu largo estômago  . Na cozinha os frigoríficos já são dois.

Duas são as paragens que faltam para que Deborah Smith possa arrastar os membros de paquiderme , nádegas de Vénus do Neandertal em direção à plataforma. Contorcer o seu tamanho entre os espaços apertados da multidão incomodada. Apressar , tarefa aparentemente impossível , o passo em direção ao néon que anuncia uma refeição rápida por apenas cinco dólares . Deborah Smith empunha dez. Demora oito minutos a digerir. Nos avisos em letra pequena as calorias são às centenas.

Tyronne treme tentando ser o mais pequeno possível , o menos visível a que pode aspirar um negro com dois metros de altura, uma cicatriz horrenda na face e as cores de uma tribo na cabeça. Ele , Tyronne, fumou um bom cachimbo antes de começar a entrega. São às centenas. Na sua mochila apinham-se quatro mil dólares , preço do bairro , de bolinhas para queimar os pulmões dos cabeças de crack.

Na carruagem , do lado oposto , apresentando uma alienação idêntica a todos os outros passageiros está o Agente Reed. Olha em frente , como todos sua , uma gota mais atrevida escorregou pelo crachá do departamento de policia de nova Iorque. Reed não vê Tyronne.

Todavia não é essa a crença do homem imenso que se tenta acocorar perante a surpresa e o protesto de alguns passageiros. Um olhar irado dos olhos raiados de produto e o volume de uma coronha na parte traseira da camisa dos Giants cala a indignação. Em nova Iorque sabe-se que o tiro chega sempre antes do novecentos e onze.

Todavia Tyronne não quer abater ninguém . Quer que o porco do policia não o veja , quer que não haja drama , não quer voltar ao bairro com o lenço das suas cores cobrindo-lhe o rosto. O olhar procura o mapa da rede subterrânea .

Sete minutos depois Tyronne sai numa estação que não era a sua . O medo afaga-o ,mão na cabeça e o corpo que rodopia procurando um ponto de referencia perante o desnorte que a necessidade potencia. Tyronne acalma-se no cubículo sujo dos amores dos maricas e das necessidades dos velhos vagabundos . É luminosa a chama do cachimbo. Seis minutos depois , doze bafos de acalmia devolveram a Tyronne o olhar de um filho da puta tramado. Rola de novo ao ritmo dos seus últimos dias.

E a rima do bairro diz

O relógio tiquetique , contagem descrente para o fim .

Atónito , o puto Joe , recebeu , há seis minutos atrás , no visor luminoso do telefone negro com uma maça , a notificação que Sarah o havia trocado por um grupo de abomináveis serem que sem divertiam em trocas de casais , amores entre iguais , cabedal , urros animais .

O puto Joe , atleta , sorriso feito a fio dental , limpinho . All american boy. Encornado e notificado em 3G .

Sarah, a menina bonita do liceu que virou puta com as narinas cheias de pó nos clubes . Ele ficava a descansar pois na manhã seguinte tinha treino de futebol.

A cabeça abana , lábios de peixe no pasmar perante a honra ferida . Alguém espreita por cima do seu ombro e ecoa uma gargalhada de escárnio perante a imagem que enche o visor. No vidro tátil , bem pixelada , encontra-se Sarah . A roupa é obscena, a companhia múltipla. Traçado a grandes letras vermelhas sobre a superfície do ficheiro

“És pequeno e rápido”

O puto Joe usualmente tão confiante de si mesmo encolheu-se entre as cabeças da multidão e , por breves minutos , tentou imaginar  que não era ele.

A cinco filas de passageiros de onde se encontra o puto Joe está , em simbiose com Deus , o pastor Terrence. A sua gola branca já não ganha o respeito de outrora e é espezinhado e empurrado com a mesma dureza de outros concidadãos . Sua gola branca , hoje acinzentada do suor misturado com o ansiolítico. Para ter calma , para não ter tesão. Para não aproveitar o aperto das gentes para roçar o corpo dedicado ao senhor nas suas adoradas criancinhas. Meninos , Meninas , tudo excita o pastor Terrance. O odor de higiene parca cai em grossos pedaços pelas costas obesas. Nos lábios a oração. Porque ele é o meu pastor .

O rebanho de deus , mochilas escolares , saias curtas , nádegas ainda não de mulher , pélvis delicados.

E o mal não temerei.

O olhar predador , escondido em óculos de massa e um cabelo com muita fixação para a homilia matinal , encontra os traços perfeitos do rosto do puto Joe . Uma inicial emoção perante a angelical linha do queixo depressa se desvaneceu no rosto congestionado de desejo do Pastor. As duas décadas de vida bem evidentes na largura dos ombros eram excessivas para os evangelhos de Terrance.

Saiu perto de Hell’s Kitchen . Olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para ser a hora de os homens falarem com Deus. O volume nas calças era indigno daquele que em breve iria empunhar os salmos.

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One thought on “Subway

  1. o confronto da tua escrita, Marco. sempre o embate entre estas identidades perdidas- cada vez mais expostas- e a identidade do leitor. é preciso antes coragem para então conhecer o grande privilégio de ler-te. minha admiração. um abraço.

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