12 de Novembro – Prova Criminal I

A chanceler olhou , entediada , os rostos magros dos homens que se perfilavam em silêncio ao longo da avenida por onde o cortejo oficial deslizava.
Cansada , adormeceu uns minutos. Sobressalto , na janela ainda as longas fileiras de homens calados. “Todos iguais” pensou . Em seguida passou-lhe pela ideia que talvez devessem ser tatuados com números de série.

Londres – Shots de uma revolta I

Fechado nesta cave , este cachimbo esta chama que me leva para o céu triste londrino , este cachimbo que chama com uma raiva inaudita. Para as ruas, capuzes , mãos nos bolsos , contentores , montras de chinocas e começa a chover e começam os tiros , ardem contentores , ardem casas , já tenho uma consola , sapatos novos . No bolso os móveis chamam para outros lados antes que a porcaria apareça nos seus coletes verdes e no seu passo hesitante de tanta civilização. Há bendita Commonwealth que nos tornas tão difíceis prisioneiros. Mais uns polegares , mais uns focos de incêndio e se me perguntares a razão tal não existe . é tudo tão confuso nesta cidade que anda tão depressa, toupeiras apressadas de gabardines de tons escuros , sapatos desportivos , atletas de auscultadores aspirando o smog , taxa de congestão, congestão dos meus sentidos na ponta do vidro. Smack em soho. E continuamos a corrida da pura destruição. Queremos e levamos , ao meu lado duas miúdas que devem conhecer há pouco a menstruação espancam a pontapé os restos de um mostrador Armani,;na rua contígua morrem dois coreanos , imolados em seus negócios familiares.
Gritamos :
Urrahhhh.
Urrrrahhhh .
Urrrahhhh !!!!!!

Na América – Rosemary

Rosemary não saiu à rua quando viu o noticiário. Embrulhada na sua manta de um sofá só, sentiu as lágrimas virem sem controlo. Lá fora as primeiras buzinas, os gritos de América, América , a vitória a descer de Queens e de Long Island . Até da longínqua Jersey ecoam os urros , estrelas e listras ao vento.

Sobre a TV a foto de Paul, vítima oficial número mil oitocentos e quarenta nove do chão zero, consumido no querosene rápido que varreu em fogo o piso onde exercia a função de mediador de seguros. A companhia fora generosa, o dinheiro , todavia , não a impedira de desmoronar como as torres. Fechada noite e dia perante uma televisão e um computador portátil, escuridão, internet , encomendas de antidepressivos, tequila , tacos , chinelos do canal oitenta e dois , um dildo que pouco uso teve , comida , uma lingerie para belas e enormes mulheres , comida a jorros , álcool , mais comprimidos, prescrição online . Um cartão de crédito recheado traz tudo à sua porta.

Tudo menos os passos arrastados do seu Paul . Seu marido , feito cinza , mescla com betão em fusão e restos de outros mortos. Os grupos de apoio das vítimas , os círculos de cadeiras , eu sou John , eu sou Rosemary, eu sou Lou , eu sou Dee-X , eu sou Alfonso , eu sou, eu sou… ,Eu perdi .
Eles , meu Paul , meu querido filho Albert , pai , o meu pai; mi amor , a voar pela janela a arder , eu sei ,era ele.

O baque no pátio interior dos corpos a saltarem . Pum . Pum . Pum . O enlouquecido Sargento Garcia da NYPD em pé no circulo a gritar , mãos a arrancarem pedaços de pele , esgravatando para o crânio . Os baques , os baques , pum , pum , os saltadores do dia onze.

Rosemary abandonara os grupos pois era-lhe inadmissível que alguém sofresse mais que ela. Tornou-se a viúva ermita, gere um fórum online , tem alguns vídeos guardados no seu disco rígido de mensagens de adeus de outros e outras que , tal como ela , haviam entrado na espiral descendente. Esses , aqueles que lhe haviam enviado os vídeos com a arma na mão , com a tigela de veneno no ângulo visível da webcam , soluçando e deixando a vida ir pelos punhos abertos. Esses não haviam vivido para escutar a nova da morte do inimigo. Do homem que chamara os aviões e os loucos.
As lágrimas de Rosemary não são pela morte de Osama , são pelo seu Paul , do qual nada resta exceto a foto para onde o corpo de cento e quarenta quilos se arrasta. Um afago na moldura.

Singela Avenida

Nesta singela avenida onde outrora se cruzaram os chapéus dos cavalheiros e as sombrinhas das donzelas são outros os costumes. Boné no chão, algumas moedas, fome na cara.

O transeunte ignora o gesto, o cartão rabiscado é irrelevante. Sida , fome, filhos famintos , cegueira , tudo é motivo para o gesto apressado do não se, por má sorte, os olhos daquele que passa se cruzarem naqueles que esperam pouco.

Em um certo momento a memória daquele que se move em passo apressado identifica no homem ajoelhado no chão ,apelando à boa-fé perante a sua imunodeficiência, imensas similaridades com o invisual que percorre a linha de Sintra pela manhã e o pedante risonho e fanfarrão de um café manhoso junto à estação de Rio de Mouro.

A esta singela avenida impõe-se o regresso da bengala. Um belo bastão de punho de sólida prata. Empunhada pelo pé faria a vara justiça sobre os costados do miserável. Ah , raça indigente! A bengala pune repetidas vezes o malandrim. Os seus gritos de socorro são tão ignorados pela restante populaça como eram indiferentes os seus apelos à caridade. Quando o sangue jorra a tareia para.

O vagabundo corre rua acima, para trás o cartão rabiscado a marcador , um boné e quatro euros e vinte cêntimos. A bengala esfuma-se no ar depois de ter apelado que se marchasse a São Bento para punir outros pulhas. Apenas encontrou o silêncio da multidão e vergonha do Tejo.

Desobediência civil -II

Entre os fogos de verão, entre as cinzas que asfixiam o respirar da tua subsistência alguém chora uma glória que não sucedeu nos relvados da negra África. E a ti o que isso importa ?

Tirou-te a fome o petardo da Jabulani que encontrou o ferro ? O protesto da substituição que roubava a hipótese de vitória foi tão maior que aquele que proferes perante o pão que se transfigura de saloio em escasso à tua mesa. Todavia nada dizes, encolhes esses olhos encovados em direção ao jornal e folheias a página de classificados com esperança que vai pouco além da distribuição de publicidade porta a porta. Talvez seja melhor argumento convencer a amada a fazer oral ao natural ou atenderes cavalheiros que ainda dispõem de capital para ejacular o teu esfíncter em troco de remuneração.

Na rádio alguém, incauto , quiçá subversivo aos interesses da estabilidade económica, lançou a agulha sobre a voz de Zeca Afonso. Comem tudo aqueles que, decerto, não fazes parte da prole. A palavra é contenção, realismo na despesa, o ronco no teu estômago traduz restrição orçamental em fodido. E na gaveta tens a arma que compraste um dia porque o dinheiro era fácil e podias ter problemas. Agora que os tens reservas as balas para a tua têmpora ou ainda consegues inscrever nelas o nome de um ex-ministro? Mais um arquiteto não responsabilizado da tua penúria que anuncia aos microfones da nação que ,em nome da estabilidade ,devíamos assinar o óbito da esperança em redução salarial que nos faria tão competitivos como eslavos esfaimados que agora já não se ofuscam  numa cortina que outrora foi de ferro  mas  que , nos dias de hoje , sucumbem à  férrea vontade da economia livre dos homens opulentos e das métricas que pouca melhorias trazem á vida dos comuns.

Encontras o que resta da tua dignidade nos rotos bolsos da veste coçada ou na inveja pelo polimento da viatura do vizinho que, cada vez mais dias , mês após mês, fica estacionado à porta ? Cospe o asco que te sabe ao pequeno-almoço que cedeste aos teus primogénitos e recorda a arma que repousa envolta no veludo. Olhos raiados de faminta frustração retornando ao lar ,dedos trémulos de poucos euros afagar rodam o tambor e ao final da volta aleatória o ferro encontra o palato , pensas no ministro e , no momento imediato antes de premires o gatilho , concluis que não tens munição suficiente para abater todos os obreiros da merda de vida que está prestes a ir . Fodido , fodido.

Desobediência civil

Não sentes as forças a fugirem ?O ânimo que faz o apertar do nó da gravata assemelhar-se  ao gesto do suicida antes de pontapear o banco , o pequeno salto para um vazio onde a agonia tenha um nome certo e não seja feita dos  dias da fome de pão e de fé ?

Que hercúlea força te faz levantar a cabeça e enfrentar o enfado de gazes poluentes e buzinas melancólicas pela vastidão milimétrica da segunda circular. Ao lado direito o templo dos deuses do futebol , se tivesses algo para chamar de vitória talvez erguesses os braços em sinal de triunfo. Todavia os membros tombam , mecânicos , complacentes na impaciência de quem nada espera. Ao teu lado a mulher que nunca foi bela agita o rímel numa oração que nunca viverá para lá do milagre do espelho retrovisor.

Atrás , perto , demasiado perto , iminência de choque em cadeia , acotovelam-se na cabine de uma carrinha de caixa aberta os corpos magros de estrangeiros que demandaram terras lusas em busca de uma vida melhor. O baixar do vidro , o escarro para o piso , merda de dentro cuspida para o piso onde os pneus cantam a serenata daqueles que não irão a lugar algum.

Na rádio, o ministro e o administrador , sonhos de poder , milhões num mês que nunca ganharás na porca da vida , pantomina nas tuas barbas , homens de fato cinzento que mentem em sorrisos de “prime time”. Tu, escutas , calas , engoles , insultas aquele que mudou de faixa sem sinalizar , encolhes os ombros e agitas o dedo na procura da estação de rádio que transmite música dos tempos onde ainda acreditavas que te safavas. O indicador alivia o nó da gravata , badalo de carneiro , ferro de escravo . O punho  cerra-se , pune o plástico do tablier , queres chorar por ti e já não consegues , queres chorar pelo teu país, olhas em redor e numa varanda longínqua agita-se o farrapo de uma bandeira esquecida , um despojo da última vez que te sentiste parte de um Portugal que tinha um nome, uma história , quimeras de impérios , algum orgulho na cara.

E se a  fúria do teu soco tocasse alto como um tambor chamando à guerra um povo tão amargurado que só lhe resta o fim entre sangue e barricadas por uma dignidade devorada por falcões patéticos de uma democracia que só acontece em discursos de desresponsabilização ?

E se perguntasses, alto , tão alto como uma Maria da Fonte , como uma voz esmagada entre as grades de uma Pide de gestos dissimulados em legitimidade constitucional  , se perguntasses bradando aos céus onde teus antepassados cobrem o rosto da vergonha , se o urro da fúria inquire-se ; que merda é esta ?

O que farias se um canto de ódio ecoasse , como um milagre de Fátima entre os despojos da dignidade e te chamasse a honrar a herança de Viriato perante o opressor, o tirano , o filho da puta que te leva tudo e ainda se ri na tua cara prometendo que se te sacrificares até as entranhas te doerem de jejum mais uma instituição financeira encontrará a viabilidade.

O que farias se entre os prédios cinzentos desta cidade repicassem  os sinos , chamando-te a ti , aos pretos da Buraca , aos esfomeados do vale do Ave, às mulheres malabaristas na conta do supermercado , aos taxistas de bancos traseiros vazios , aos olhos tristes que miram o vazio de uma montra onde se expõe o sonho de uma civilização de barriga vazia?

Caminharias na marcha do silêncio , lembrarias que um dia houve Abril e que Grândola fica mesmo ali , que os vampiros comem tudo e que um homem digno levanta os punhos e caminha , resolutamente ,   para São Bento ? Bandeiras negras, vermelhas , brancas de uma paz que já não pode ser perante o impudor destes bastardos que ousam afirmar que nos governam em nome de uma estabilidade que só acontece em livros de contabilidade e mesas vazias.