Prosa curta da branca – Linha IV

Leonel voltou ao bairro.

Leonel tem duas quartas e uma vai meia entre fungadelas no parque de estacionamento da suburbana concentração de betão a que alguns chamam de vila.

Arminda ama Leonel e espera-o

Leonel já não suporta Arminda e entre o caudal mucoso da cocaína sua mente lança-lhe imagens de sua esposa desmembrada.

Arminda muda de canal e sente um pouco de sono

Na mala do veículo velho existe um machado.

No porta-luvas a segunda saqueta é aberta. A nota enrolada reduz-lhe a dimensão em poucos minutos.

Os passos são rápidos na escadaria do prédio.

Lá fora a bagageira do carro, escancarada e vazia

Leonel olhos brilhantes com a morte amputada de Arminda nas mãos e na vontade

Aquela branca do bairro fá-lo valente. De suas papilas gustativas adormecidas desperta a sede da liberdade por morte alheia.

Arminda grita

Leonel golpeia o ar e o desnorte dos sentidos atinge o sofá e não o peito volumoso da sua mulher.

Arminda grita e foge em desnorte.

Trancado em casa a saqueta termina no palato de Leonel

Até à intervenção policial apenas ecoam pelo prédio ,agora desperto, as furiosas golpadas que fazem no menor pedaço possível aquilo a que nunca Leonel quis chamar lar.

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Thais preparada

Aquela música que começa assim:

“Fé em Deus, Dee jay “

O Senhor Jesus que vela pelo Rio de Janeiro virou o rosto e mirou uma gostosa na calçada de Copacabana pois aquela que sobe é vergonha de gente boa , é nome que se não se diz em famílias  que murmuram o exorcismo da suja que vai calcando o fim do asfalto , fronteira entre os pobres e os ricos da cidade . Aquela que vai subindo é Thais .

Lá em cima está aquele que manipula os pratos e coloca uma batida bem safada.

Vai preparada e cheirada. Esta noite é de baile proibido, é terreiro tórrido  onde  mulher e chamada de égua , cachorra , vadia e puta a que todos dá. Thais adora ouvir tais impropérios. Os insultos fazem com que os seus fluidos circulem quase tão quentes como a noite de dezembro. O seu passo sobre os sapatos plataforma é curto e toldado pela justeza da quase inexistente saia. O roçar do tecido na pele é agradável. Lá em cima, zona sul , morro do Vidigal , o ritmo que já corta a algazarra dos botequins onde o chope escorre a jorros e todas as cabeças se viram para mirar o rebolar do passo de Thais . Excitam-na  as palavras ditas por bocas onde faltam dentes e onde a saliva é abundante , as mãos afagam os copos , alguns falam alto. Thais sorri e continua subindo, rebola e deixa que todos vejam entre a finura e brancura do tecido quanto nada existe para lá dele.

Thais adora ser cachorra, sempre agitando o corpo , cheirando pó , inalando maconha. Perde-se , cheia dos demónios que habitam a praia e que um dia lhe inundaram as entranhas trazendo esta  fome , este  querer , o inebriante desejo de se sujeitar à maior sujeira . Os olhos grandes estão tresloucados pelo cio, a cocaína traz um brilho especial ao olhar sedento. Entre dentes : “Copa da Putaria”.

O sinal negro junto ao canto esquerdo de sua boca está quente, palpita , acontece sempre assim . Sempre que a diaba da praia volta a chamar por si entre os risos e a música que invadem permanentemente o ar do Rio , Thais veste sua saia minimal , seu decote , seus peitinhos bem moldados pelo cetim e bota a cara de padroeira  de todas as vadias . Esquece seu nome , seus estudos , só sente esta vontade de se oferendar aos bandidos e aos sujos do morro , de querer escória no seu útero , de tremer de prazer nas mãos que já mataram outros homens. No seu olhar toldado o sangue , o prazer e o calor de uma bala perfurando o corpo se entrecruzam numa coisa que nada pode ter de bom.

Nas noites onde Thais se perde , o redentor baixa o olhar , mãe de santo sabe que Exu subiu à favela e tomou conta da menina que se ginga , provocadora , agitadora das massas , sussurrando ao ouvido de uma comparsa “ Dança da cadeira “ .Excitados os bandidos se perfilam , pau na mão , ferro trinta e oito na outra . As luzes se extinguem  , negrume sobre o negrume da cidade , a voz de Thais chamando à carga as fêmeas que ao seu lado se perfilam , filhas da mesma bruxaria , nádegas desnudas deslizando para glandes expectantes de camisa ausente . Thais é a primeira a investir sobre o desconhecido que espera pelo seu calor ;fecha os olhos , murmura uma maldição e se rebola um pouco para apressar as golfadas quentes  e se poder  entregar  ao próximo , grita. Thais diz “dá , dá “ e o segundo homem dentro de si despeja  tudo com um rugido imenso e o disparo de duas salvas ao ar . O som é de tal forma alto que ninguém se apercebe do fogo de calibre de guerra.

Quando a música termina a luz volta. O solo está impregnado daquilo que existe  dentro dos homens e das mulheres. O ritmo torna-se cada vez mais alucinante, suor em rios , corpos de olhares ofegantes , línguas lascivas sobre gengivas dormentes do pó , ancas proeminentes , ancas rebolando. Mãos que afagam a pele, os mais recatados fogem para as vielas e o fazem contra a parede, os mais safados mesmo ali , no terreiro . E o homem do microfone chama de novo pela fé em Deus e pelo homem que controla o batuque.  Thais , ainda cheia de homem , ainda querendo mais , profere , uma vez mais entre dentes ,“Deus o caralho !”

Thais escolhe. Macho alfa, seu nome não importa, apenas o exotismo da cicatriz que sulca o rosto , o corpo marcado pelo terceiro comando , homem de arma de guerra em punho , olhar desafiante  e o brilho do ouro num dos seus dentes. Ela o chama a si e ele não hesita.

Num quarto de barraco a morena da última transa é enxotada dos lençóis impregnados de cheiros e de imundice, o ar está pleno do fumo da maconha . Thais inspira sofregamente o cachimbo deixando que as mãos calejadas do gatilho descubram os caminhos que a levam ao arquejo do torso, a chamada ao sítio onde a diaba diz que todos os homens tem de chegar. Sobre o solo está a arma, a madeira range sobre o peso dos corpos que se entrecruzam. O som do baile . ali mesmo ao lado , abafa os gritos ; os olhos dos dançarinos nos corpos uns dos outros não espreitam pelas frinchas e admiram  Thais assumindo a posição dominante .  No sistema de amplificação o refrão diz que está na hora de ser uma boa cadelinha. Quando pressente a antecipação do primeiro fluxo daquele em si a mão de Thais dirige-se ao solo e, num gesto rápido, empunha a arma e faz fogo. A destruição do sistema nervoso central faz com as convulsões finais acertem num ponto que agrada profundamente a Thais. Coberta de sangue  goza em conjunto com as almas penadas que subiram com ela ao morro.

Requiem em Pó Maior

Os vultos lúgubres e andrajosos que vagueavam em redor da barraca agitaram-se momentaneamente iluminados pelos faróis que anunciavam a chegada do potente carro desportivo. Os largos pneus respingaram um pouco mais de lama e água para as já imundas vestes; esse facto não pareceu incomodar sobremaneira os drogados. Um deles, provavelmente menos acostumado com as regras do local, emitiu um sonoro -“Eehhh! Ganda Bomba!!”- que tanto podia ser dirigido ao resplandecente Porsche Carrera GT como ao metro e setenta e cinco pleno de pernas e curvas que saiu do lugar do pendura. Tal atrevimento foi, de imediato, censurado por um dos dois homens de aspeto mais sóbrio e limpo que se encontravam junto à porta do casebre:
– Atina-te pá . São clientes – A “shotgun” que empunhava era um argumento de peso e o trémulo e pálido ser que profira o impropério efetuou uma estratégica retirada por uma ruela mal iluminada donde provinha um intenso odor a urina.
De dentro do Porsche surgiu a figura do condutor. Tal como a elegante máquina destoava sobremaneira com toda a ambiência do local. O “blazer” de botões dourados, a imaculada camisa de caro linho, as calças cremes e os inevitáveis mocassins indicavam que não era fauna residente do bairro de consumo. Um azul no olhar, farta cabeleira loura moldada no formato dos “playboys” da Quinta da Marinha; o rosto espelhava a condição social, a arrogância da perceção da mesma e uma imensa, quase irrefreável, vontade de chafurdar as abastadas narinas no produto de altíssima qualidade que ali, no Zé da Neve , se transacionava.
– Madalena , Mexa-se mais depressa por favor – A ordem emitida por Bernardo ignorava a dificuldade da sua anoréxica companheira em equilibrar os saltos na camada de lama , chuva e mijo que cobria o acesso à barraca. Um dos porteiros encarou o casal toxicodependente de classe alta e cedeu passagem. O abrir da porta foi acompanhado por um olhar guloso, ao qual se juntou o do seu companheiro de canos serrados, que apreciava o bambolear apressado e o fio dental exposto pela transparência do curto vestido negro que Madalena envergava.
No interior uma amálgama de alta tecnologia doméstica, mantas da feira de Carcavelos, sofás de luxo , iluminações decorativas de loja chinesa. Sobre a mesa baixa um largo espelho onde se erguia um pequeno Evereste “made in Colômbia” ; na parede um nicho albergava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima . Ocultos pelas sombras, em dois cantos da divisão, mais dois homens de aspeto duro , armas de alto calibre nos coldres de sovaco. No centro da sala, imponente no seu cadeirão, estava o traficante. Zé da Neve; olhos verdes ciganos cercados por uma alva cabeleira. Branca também era a espessa barba que cobria a quase totalidade do rosto ocultando os lábios e as cesuras de lutas passadas. Em contraste, o negro era a cor única de toda a indumentaria do vendedor de estupefacientes. Uma vez, um outro cliente, perguntara se tal negrume era cor de luto. Suspirando, o “dealer “ entregara a meia grama e clarificara:
– Um cigano está sempre de luto.
Zé da Neve apresentava um ar profundamente tranquilo. O cintilar e a vivacidade dos seus olhos , o tom de pele sadio eram provas irrefutáveis de que não consumia os produtos que traficava. Perante a chegada do distinto casal estendeu o braço, onde pendia uma grossa pulseira do mais puro ouro e um reluzente e falso “Rolex” , e convidou:
– Minha senhora , faça o favor de se sentar na modesta casa do Zé – acompanhou ,com um olhar divertido ,o movimento e a quase chegada à cintura da curta saia que envergava Madalena; posteriormente dirigiu-se a Bernardo – O amigo sente-se também. Então o que é que vai ser hoje?
Um risinho nervoso saiu dos lábios carnudos de Madalena acompanhado por um esbugalhar dos enormes e necessitados olhos castanhos. Zé da Neve pressentiu negociata da grande e imediatamente empurrou em direção da bela mulher uma generosa linha que ele próprio separou do imenso monte de cocaína. Acendeu um dos ecrãs de plasma e ,com um gesto rude do comando remoto ,apontou a Madalena para onde devia focar a sua atenção. Fazia negócios com homens , neste caso com Bernardo ,que sentado na poltrona à sua direita não cessava de se agitar sobre o cabedal castanho. Era óbvio o seu estado inquieto, Zé da Neve não apreciava pressas e espicaçou:
– Então amigo? Parece que o sofá até tem agulhas. Olhe que é Divani e Divani , quase de certeza igualzinho aos que tem lá em casa dos seus paizinhos – emitiu uma gargalhada batendo com força no braço do cadeirão que ocupava – Estes também vieram de Cascais. Mas não foi do Shopping .
A graçola foi acompanhada pelo grasnar dos capangas do Zé da Neve. Um olhar mais áspero do cigano trouxe de novo o silêncio à divisão. Insistiu:
– Então amigo? Quantas graminhas são hoje? As quatro do costume? ou hoje há festa ?
Bernardo esfregou as palmas das mãos para desvanecer a fina camada de suor que as cobria e pigarreou o discurso :
– Oiça, Zé , hoje preciso de trinta gramas – um breve silêncio foi acompanhado por um arrebitar das hirsutas sobrancelhas do traficante – Sabe vou dar uma festa giríssima a bordo do iate do meu pai e quero ter a certeza absoluta que toda a gente se vai divertir imenso. Acha que tem tanto produto ?
Uma gargalhada monstruosa fez Bernardo saltar e o olhar de Madalena desviar-se do desfile de moda na TV. Quando conseguiu conter o riso e as lágrimas Zé da Neve respondeu:
– Amigo , aqui o Zé só se preocupa quando lhe pedem quilos – tentou compor-se mas o riso persistia – trinta gramas vende a gente aqui em duas horas. Mas diga-me lá uma coisa – a gargalhada deu lugar a um olhar gélido de agiota – o amigo tem dinheiro para isso tudo? Trinta gramas são dois mil e cem euros . Bem contados e em dinheiro que aqui o seu Visa não serve de nada .
Bernardo levou a mão ao bolso interior do paletó e retirou um envelope volumoso. Com gestos de desprezo contou as notas e atirou-as para cima da mesa:
– Você acha o quê? Eu não sou um desses drogados que vem para aqui lhe pedir fiado – levantou o queixo num tom desafiador – Sou de outra estripe, entende?
A arrogância de Bernardo não teve o efeito que normalmente tinha em empregados de restaurante e empregadas de “boutique”. Zé da Neve fixou os seus olhos esmeralda no jovem bem vestido e retorquiu:
– Amigo , está irritado, não faça isso é mau para a saúde – lentamente debruçou-se mais uma vez sobre o monte de coca e oferendou uma linha dupla que Bernardo aspirou com sofreguidão – Não leve a mal mas é muito dinheiro . Então é para uma festa? Grandes festas devem ser essas. Um dia destes o amigo convida-me
O ardor que invadia as mucosas de Bernardo retardou a resposta que surgiu ,ainda mais plena de arrogância:
– Acho que não está a entender. É uma festa para gente muito seleta. A nata, sabe o que é a nata da sociedade ? – o indicador demorou-se uns instantes a esfregar os restos da poeira nas gengivas – Gente giríssima e bonita como nós , está a ver ? Acho que você não se ia integrar bem. Sabe, classes sociais.
Zé da Neve não respondeu pois a sua atenção estava focada na contagem do dinheiro. Quando terminou devolveu o olhar a Bernardo. Chocou o orgulho cigano com o novo-riquismo prepotente:
– Então você vem aqui, à minha casa, falar ao Zé nessas coisas da gentalha rica e acha que o Zé deve ter pena de não ir à porcaria das suas festas? Oiça lá amigo, estou farto de vos ver, Vocês os meninos queques armados em senhores do mundo . Sabe uma coisa? se você nunca mais cá aparecer a mim não dá prejuízo . Mas a si, se o amigo Zé da Neve lhe faltar com o remédio o menino fica doentinho e vai andar ai doido à procura. E não vai encontrar. Porque ninguém tem branquinha tão boa como aqui o seu cigano. Ninguém, está a perceber? Por isso veja lá se é bem-educado e pede desculpa ou então não lhe vendo nada.
Os olhos azuis de Bernardo iluminaram-se como um farol de pânico incontido. O Zé da Neve prosseguiu:
– Por isso o amigo vai pedir desculpa e sair daqui com o que quer. E não se arme em chico esperto comigo ou ainda aparece todo cortado no fundo do Tejo e aqui a sua amiga – o dedo apontou Madalena que se havia encolhido com tom amedrontado no fundo do sofá – acorda amanhã numa casa de putas lá para o Norte de África. Por isso ..Manso , muito manso , e peça desculpa . Já!
A ordem do Zé da Neve foi reforçada pelo engatilhar das armas automáticas empunhadas pelos jagunços que até ao momento tinham pautado pela circunspeção a sua presença.
A arrogância e a prepotência de Bernardo desapareceram a uma velocidade ainda superior aquela com que tinha “snifado” as linhas :
– Oiça Zé , não o queria ofender , por amor de Deus. Peço imensa, mais imensíssima desculpa se o chateei. Não era essa a minha intenção. Você é o máximo, o melhor traficante de todo o distrito de Lisboa e longe de mim querer algum problema consigo. Está a entender, amigo ? – a mão vacilante de Bernardo estendeu-se procurando um aperto reconciliatório.
No sofá , encolhida no seu mínimo vestido e esbeltas curvas Madalena emoldurou um sorriso digno de capa de revista cor-de-rosa.
O olhar, de novo divertido , de Zé da Neve percorreu o casalinho assustado e deu por terminado o conflito:
– Pronto o cigano já não está chateado. Um dia destes o amigo convida para uma das festas no iate, não convida? – Um aceno exagerado de cabeça fez a cabeleira de Bernardo perder alguma compostura – Ó Janas – um dos cúmplices do traficante avançou – pesa aqui trinta bem pesadinhas para o amigo – A restante parte da frase foi dirigida a Bernardo – Tudo junto ou saquinhos de uma ?
– Gramas..Separadas , se faz favor – murmurou educada e polidamente o ricaço.
O Zé da Neve ergueu-se do seu lugar e dirigiu-se a uma outra divisão da casa. Não proferiu qualquer despedida e apenas demorou um instante os olhos pelas pernas de Madalena. O resto da transação ficou a cargo de Janas . Com gestos de muito hábito cortou, pesou e ensacou três dezenas de pacotes que foram distribuídos entre a carteira de pele genuína de Madalena e os vários bolsos do casaco de Bernardo.
O casal saiu da barraca e entrou com pressa na Porsche que entretanto repousava intacto perante o olhar vigilante dos dois comparsas que acautelavam o exterior da barraca do Zé da Neve.
Um chiar de pneus e o ronronar dos muitos cavalos acompanharam a rápida partida dos colunáveis. O silêncio entre ambos durou até ao final do Viaduto Duarte Pacheco. Remexendo a carteira a bela mulher tirou um cigarro que acendeu com nervosismo. Bernardo censurou:
– Madalena você ainda fuma? Que horror. Isso está tão fora de moda.
A resposta foi proferida numa voz afetada onde era notória a irritação:
– Vá-se foder Bernardo . Você quase nos ia fazendo ser mortos por aquela gentalha horrorosa
– Por amor de Deus Madalena. Você sabe muito bem que o cigano não estava a falar a sério. O que ele quer é o dinheiro, está a entender? Além disso eu não estou muito habituado a falar com gente rasca. Irritam-me. Percebe?
– Olhe que a sua irritação não é lá muito saudável perante as armas daqueles assassinos horrorosos.
– Não seja palerma. Você adorou a emoção. Confesse lá.
A bela face de Madalena desanuviou-se e a frase seguinte foi dita com um tom melado na voz:
– Sabe Bernardo , na verdade até fiquei excitada. Estou aqui toda a ferver. Não quer parar ai no hotel da área de serviço e comer-me? – o convite foi acompanhado por um acariciar da perna do condutor. Imediatamente o gesto foi repelido:
– Não seja tonta. Você namora com o meu irmão Gonçalo. Esqueceu-se?
– E daí? – Contestou Madalena – parece que faz algum mal se dermos uma quecazinha
– Você é muito puta , Madá – a ligeira irritação de Bernardo foi acompanhada pelo aumento da velocidade do bólide – Além disso não tenho preservativo aqui.
A bolsa foi uma vez mais rebuscada. Com um suspiro de desanimo Madalena informou:
– Eu também não . Por isso esqueça a voltinha – De novo um tom menos assanhado na voz – Então despache-se, a festa está a nossa espera.
Bernardo engatou mais uma mudança na caixa de velocidades e sugeriu:
– E se você fosse uma querida e fizesse uma linha?
Madalena bateu as palmas animada e demorou-se uns breves instantes entre o pequeno espelho de maquilhagem , um dos pacotes adquiridos ao Zé da Neve e as pancadinhas repetitivas e sincopadas do cartão de crédito sobre a cocaína .
Talvez o trepidar do carro ou o tremor do pulso delgado tenham sido a causa do descuido; as linhas formaram-se mais grossas do que era hábito e, segundos após a aspiração sôfrega das mesmas ,os canais nasais de ambos explodiam numa cascata de sangue e ranho que tingia as caras roupas. As pupilas do casal cresciam como dois sóis prestes a implodir, no seu fluxo sanguíneo a velocidade estonteante do pó fazia os corações baterem acima das muitas pulsações por minuto. Uma toxicidade perversa trespassou a mente de Bernardo e a sua mão dirigiu-se, sem hesitações, para o que Madalena tinha entre pernas. Com um sorriso de luxúria ela recebeu o toque e afastou as coxas para facilitar o acesso. Disse:
– Bernardo, você parece um Deus !!
Os olhos azuis de Bernardo brilharam, como duas supernovas imersas em Madalena . Retorquiu:
– Madalena. Nós somos Deuses!
Contemplaram-se ambos, desvairados, sequiosos senhores da Terra e do Olimpo, sentiam-se imortais e divinos. Infelizmente tal pasmar não era adequado ao cento e noventa quilómetros a que se deslocava o Porsche e a proximidade da zona das portagens. Hipnotizados na química ilusória da cocaína explodiram numa bola de fogo quando os seiscentos e dez cavalos de potência embateram, sem vestígios de travagem, no separador da Via Verde.