Thais preparada

Aquela música que começa assim:

“Fé em Deus, Dee jay “

O Senhor Jesus que vela pelo Rio de Janeiro virou o rosto e mirou uma gostosa na calçada de Copacabana pois aquela que sobe é vergonha de gente boa , é nome que se não se diz em famílias  que murmuram o exorcismo da suja que vai calcando o fim do asfalto , fronteira entre os pobres e os ricos da cidade . Aquela que vai subindo é Thais .

Lá em cima está aquele que manipula os pratos e coloca uma batida bem safada.

Vai preparada e cheirada. Esta noite é de baile proibido, é terreiro tórrido  onde  mulher e chamada de égua , cachorra , vadia e puta a que todos dá. Thais adora ouvir tais impropérios. Os insultos fazem com que os seus fluidos circulem quase tão quentes como a noite de dezembro. O seu passo sobre os sapatos plataforma é curto e toldado pela justeza da quase inexistente saia. O roçar do tecido na pele é agradável. Lá em cima, zona sul , morro do Vidigal , o ritmo que já corta a algazarra dos botequins onde o chope escorre a jorros e todas as cabeças se viram para mirar o rebolar do passo de Thais . Excitam-na  as palavras ditas por bocas onde faltam dentes e onde a saliva é abundante , as mãos afagam os copos , alguns falam alto. Thais sorri e continua subindo, rebola e deixa que todos vejam entre a finura e brancura do tecido quanto nada existe para lá dele.

Thais adora ser cachorra, sempre agitando o corpo , cheirando pó , inalando maconha. Perde-se , cheia dos demónios que habitam a praia e que um dia lhe inundaram as entranhas trazendo esta  fome , este  querer , o inebriante desejo de se sujeitar à maior sujeira . Os olhos grandes estão tresloucados pelo cio, a cocaína traz um brilho especial ao olhar sedento. Entre dentes : “Copa da Putaria”.

O sinal negro junto ao canto esquerdo de sua boca está quente, palpita , acontece sempre assim . Sempre que a diaba da praia volta a chamar por si entre os risos e a música que invadem permanentemente o ar do Rio , Thais veste sua saia minimal , seu decote , seus peitinhos bem moldados pelo cetim e bota a cara de padroeira  de todas as vadias . Esquece seu nome , seus estudos , só sente esta vontade de se oferendar aos bandidos e aos sujos do morro , de querer escória no seu útero , de tremer de prazer nas mãos que já mataram outros homens. No seu olhar toldado o sangue , o prazer e o calor de uma bala perfurando o corpo se entrecruzam numa coisa que nada pode ter de bom.

Nas noites onde Thais se perde , o redentor baixa o olhar , mãe de santo sabe que Exu subiu à favela e tomou conta da menina que se ginga , provocadora , agitadora das massas , sussurrando ao ouvido de uma comparsa “ Dança da cadeira “ .Excitados os bandidos se perfilam , pau na mão , ferro trinta e oito na outra . As luzes se extinguem  , negrume sobre o negrume da cidade , a voz de Thais chamando à carga as fêmeas que ao seu lado se perfilam , filhas da mesma bruxaria , nádegas desnudas deslizando para glandes expectantes de camisa ausente . Thais é a primeira a investir sobre o desconhecido que espera pelo seu calor ;fecha os olhos , murmura uma maldição e se rebola um pouco para apressar as golfadas quentes  e se poder  entregar  ao próximo , grita. Thais diz “dá , dá “ e o segundo homem dentro de si despeja  tudo com um rugido imenso e o disparo de duas salvas ao ar . O som é de tal forma alto que ninguém se apercebe do fogo de calibre de guerra.

Quando a música termina a luz volta. O solo está impregnado daquilo que existe  dentro dos homens e das mulheres. O ritmo torna-se cada vez mais alucinante, suor em rios , corpos de olhares ofegantes , línguas lascivas sobre gengivas dormentes do pó , ancas proeminentes , ancas rebolando. Mãos que afagam a pele, os mais recatados fogem para as vielas e o fazem contra a parede, os mais safados mesmo ali , no terreiro . E o homem do microfone chama de novo pela fé em Deus e pelo homem que controla o batuque.  Thais , ainda cheia de homem , ainda querendo mais , profere , uma vez mais entre dentes ,“Deus o caralho !”

Thais escolhe. Macho alfa, seu nome não importa, apenas o exotismo da cicatriz que sulca o rosto , o corpo marcado pelo terceiro comando , homem de arma de guerra em punho , olhar desafiante  e o brilho do ouro num dos seus dentes. Ela o chama a si e ele não hesita.

Num quarto de barraco a morena da última transa é enxotada dos lençóis impregnados de cheiros e de imundice, o ar está pleno do fumo da maconha . Thais inspira sofregamente o cachimbo deixando que as mãos calejadas do gatilho descubram os caminhos que a levam ao arquejo do torso, a chamada ao sítio onde a diaba diz que todos os homens tem de chegar. Sobre o solo está a arma, a madeira range sobre o peso dos corpos que se entrecruzam. O som do baile . ali mesmo ao lado , abafa os gritos ; os olhos dos dançarinos nos corpos uns dos outros não espreitam pelas frinchas e admiram  Thais assumindo a posição dominante .  No sistema de amplificação o refrão diz que está na hora de ser uma boa cadelinha. Quando pressente a antecipação do primeiro fluxo daquele em si a mão de Thais dirige-se ao solo e, num gesto rápido, empunha a arma e faz fogo. A destruição do sistema nervoso central faz com as convulsões finais acertem num ponto que agrada profundamente a Thais. Coberta de sangue  goza em conjunto com as almas penadas que subiram com ela ao morro.

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