Terra de Incas 6/6 ( Final )

Elegi o meu quarto de hotel como templo das coisas da carne e sou sacerdote rendido à deusa esplendorosa que se chama Dolores e que , com insinuação de grande profissionalismo , se desnuda perante o meu olhar ,entretanto recriado pupila gigante .O nariz escorre caramelo e tesão para dentro de mim. Como se uma nuvem negra ,em forma de vestido ,partisse, o sol de todo o esplendor da nudez é exposto. Primeiro, falsamente tímida, exibe-me o seu dorso. Uma enorme tatuagem na forma de condor enche a extensão das costas e termina na linha de onde brotam duas nádegas perfeitas.
Inquieto-me:
– O que é isso ?
Rodando sobre os calcanhares, e esmagando-me com a visão da sua nudez frontal, Dolores clarifica:
– Hanan Pacha – O mundo superior, dos céus . O seu símbolo era o grande condor dos Andes.
Detecto o meu primeiro fluxo de algum medo. Junto a clavícula esquerda uma segunda tatuagem representa o golpe da garra de um grande felino. O triunvirato é completo pela sibilante imagem de uma serpente, a cauda nascida no vale do busto , a enorme cabeça na zona do umbigo . A língua bifurcada estica-se, ostensivamente ,na direcção do sexo de Dolores.
Dentro de mim a adrenalina do medo e o feromônio do querer travam um combate de morte. As tatuagens hipnotizam o meu olhar, ela percebe e prossegue. Toca com as cabeças dos dedos a marca da garra:
– Kay Pacha – o mundo dos vivos. Nós , os dois, aqui. As garras sequiosas do puma.
O braço esquerdo e uma mão ,espalmada ,de dedos abertos, desliza com vagar ao longo do corpo da serpente até terminar num óbvio gesto onanista já dentro de si mesma:
– Ukju Pacha – o mundo lá de baixo , mundo dos pecados mortais – a língua insinua-se entre os dentes irregulares , o olhar é de meretriz suprema – Caliente !
Inclina-se, e insinua a língua e a duvida ao meu ouvido:
– Qual queres …provar?
O grande primata que há no meu código genético faz uma aliança explosiva com a droga que me inunda , tomo-a nos meus braços, derrubo-a sobre os lençóis .Cravo nos olhos verdes lascivos um olhar de predador e urro insanamente antes de afastar, abruptamente ,as coxas e dirigir-me ao incauto acto de beijar a intimidade desta mulher pública:
– Aqui , Pacha – gracejo.
Pela última vez pois tudo acontece num ápice.
Da vagina de lábios afastados pelos meus trémulos dedos um cheiro intenso e repugnante de coisas mortas mistura-se com o meu hiperactivo olfacto. A voz , lá em cima , junto à almofada ,já não é a de Dolores mas da menina assombração que avistei na catedral . A raiva gutural do mundo de lá ordena:
– Come-me o inferno.
De dentro de si duas enormes serpentes de olhos letais e mandíbulas gotejantes de veneno brotam e, com uma dentada síncrona ,amputam-me as mãos. A dor é indescritível.
De pé , gritando a agonia que brota em repuxos dos dois cotos onde agora terminam os meus braços assisto , um horror feito de dor extrema , à metamorfose de Dolores ; agora Tanta Carhua. De mulher de formas perfeitas à abominação de corpo de serpente , escamas brilhantes que deixam rasto de visco e carne putrefacta a sua passagem pelo lençóis , a cabeça de menina há muito morta mescla-se com a fauce de o grande puma das montanhas , duas enormes presas rasgam a face sem vida .Passa por mim , réptil imundo , monstro de pesadelo ,e salta pela janela do sexto andar . Antes da queda brotam de suas costas as asas do grande condor e parte em direcção às cordilheiras.
Tenho minutos antes de me esvair em sangue, o pânico apodera-se de mim. O choro convulsivo, o apelo ao pai há tanto esquecido , rezo , praguejo – Foda-se , Foda-se – o meu cotovelo emprega todo o seu esforço contra a maçaneta da porta . Há um desespero de um homem perto da morte nos meus gestos. Por sorte um dos golpes é preciso e a porta abra-se. A minha esperança de salvação dura ínfimos de segundo. Ocupando toda a extensão do meu trilho para a vida as pedras de um muro, rusticamente construído ,perfilham-se. Apenas existe um tijolo ausente na parede que fecha o meu sepulcro. Um grito insano de desespero, os cotos raspando o buraco ínfimo, o apelo a alguém que acuda.
Tudo para nada. O meu olhar encontra o olho vazado do feiticeiro que, com um gesto brusco , sela a campa. Ecoa um grito de triunfo no corredor. Uma multidão canta. Centenas de pés fazem estremecer o solo. O circulo está fechado , o sacrifício consumado, inicia-se o festim. Os tambores ecoam ao longe
Para mim, começa o fim. Perco forças rapidamente. Morro no lavatório da casa de banho “snifando” ,como um cão amputado , todo o produto que me resta. A minha última visão é o meu rosto lívido manchado do pó branco onde chafurdei o meu último inquietar. Depois vem o escuro.

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