Terra de Incas 5/6

Há algo de heresia no ritual dos meus preparativos para a noite que será a ultima na capital do império Inca. O cuidado ao vestir a camisa de linho branco, o lento ajuste das calças caqui de forma a não estragar o vinco ; tudo são gestos pouco comuns em mim. Demoro uma eternidade na preparação. O vagar dos gestos é contrastado com o turbilhão de pensamentos que me invade a mente. O dia que passei nas ruínas de Picchu serviu para provar duas coisas : Tudo o que vivi nos últimos dias é revelador de um elevado nível de toxicidade , permanente e residente ,e dos seus efeitos imprevisíveis na minha nada saudável mente e a percepção ; agora sem desculpas de altitudes , jet lags ou outro dos argumentos que gosto de mentir a mim mesmo, que a minha carência de drogas atingiu o nível da dependência física. Muito se passou desde o dia que abalei de Lisboa com toda a fome de divertimento deste mundo e o momento actual, onde o meu corpo massacrado por todos os prazeres obscenos e ilegais que o globo pode proporcionar pede uma pausa. No fundo sabia que este dia chegaria, isto ou uma morte repentina na pressa de um devaneio qualquer. Foi a dependência que prevaleceu. Tento recordar o rosto da mulher que não desposei em Portugal , os semblantes dos que, outrora, chamei amigos e família. Memórias ténues, neurónios mortos trazem imagens esbatidas , nada mais. Cortei as amarras em definitivo, carbonizei em opiáceos o meu passado; agora é tempo de ir limpar este sangue tão corroído em enfermarias suite de luxo lado a lado com reis do rock e estrelas da sétima arte . Todavia ,antes de tal, tenho de sair desta vida de “junkie “ em grande estilo . Resolvo que hoje me injectarei, o grande “flash” do caldo é o meu presente de despedida.
A primeira dificuldade que me advém é o facto de não possuir o equipamento necessário a diluir nas minhas artérias a consequência fervida da cocaína . Depois de inquirir ,na recepção do hotel, o paradeiro da farmácia mais próxima encaro um desconfiado farmacêutico que não parece muito convicto da minha atabalhoada divagação de diabetes e outros males de terapia injectável dos quais supostamente padeço . Graças ao santo dos agarrados estou na América do Sul , a nota de cem dólares ganha o estatuto de prescrição e cerca de uma hora depois estou de regresso ao meu santuário quarto. No caminho de regresso apenas um pequeno episódio digno de registo. Um andrajoso pedinte e o seu olhar, o acumular dos anos e da degradação de bodega haviam trazido o luzir louco dos ressabiados com a vida. O insulto nem foi extremo, mais estranho que ofensivo de facto. O homem irado proferira:
– Pizarro conquistador cabron – O articular das palavras soara a golpes fundos da faca que trazia, ostensivamente, à cinta. Apressei o passo. É muito fácil ter pressa em tais circunstâncias . A seringa na minha mão, o produto no hotel e todas as minhas artérias a pulsarem ,famintas do ferro, são poderosos argumentos para que me cresça a cadência do passo.
E aqui estou , a preparar a sopa do grande “bang” ; tenho algum tremor nas mãos , falta-me o controle dos grandes paquidermes tóxicos que se injectam com regularidade ao longo de décadas. Após a segunda tentativa dou com a veia evidenciada pelo garrote feito da extensão eléctrica da televisão.
Levanto os pés do chão alguns segundos depois. A tormenta violentíssima da grande pedra orgástica esmaga-se contra o meu cérebro como um macaréu de energia demoníaca. Ainda com o braço asfixiado no garrote miro-me no espelho , a midriase eclode transformando as minhas pupilas em dois pratos negros de urgência de perdição. Uma euforia olímpica invade-me , quando me injecto recordo sempre aquele tipo do filme do “Titanic” de braços abertos à proa a gritar que era o rei do mundo. Se levar com a maresia o fazia rei a substancia que invade todos os meus órgãos vitais coroa-me imperador da decadência universal. Preparo-me para sair quando, pelo canto do olho, deparo-me com a possibilidade de um toque de requinte na minha , já monumental , broa. A grande altitude obriga a que em todos os quartos exista uma botija de oxigénio pronta a receber a asfixia aflita de turistas mais idosos. O meu propósito é outro, aumentar a intoxicação através do aumento de oxigénio no fluxo sanguíneo. Antecedo o quase fetichista acto de colocar a máscara com mais uma ingestão de branco pó , desta vez sobre a forma de linhas gémeas em espelho de bolso.
O sucesso é monumental, ao sair do quarto não consigo evitar o “sprint” até ao elevador. Grito em plenos pulmões que sou o rei , uma perplexa empregada de andares encosta-se à parede cedendo passagem a este Obikwelu Bogotá.
A figura de passo apressado que sai, momentos depois, do átrio do hotel é um mastim geneticamente modificado para farejar antros de deboche , ávido , louco pela caça , pela busca da perdição em forma de boémia e mulheres.
O meu primeiro covil tem o nome patético de Mama Batata e rapidamente o seu ecossistema lúdico ganha o meu profundo aborrecimento. Emborco dois vodkas limão junto a um balcão apinhado de grupos turísticos organizados que se embebedam envoltos numa mesclada intrujice de grupos de folclore local , loja de souvenirs e alguma animação moderna no girar dos pratos de um “DJ” de nome Panchito Huevos cujo um néon anuncia a presença. O suor e camisa havaiana do animador conjugam perfeitamente com um “beat” remisturado de Ricky Martin.
Caçador experiente elejo o balcão como miradouro e rapidamente identifico mulheres da vida em “part-time” que estão muito longe dos meus objectivos carnais. São quatro, aparentam ter saído ao final do dia do liceu estatal para se abonecarem e virem ,horas mais tarde, à procura de uns dólares extras . Desvio o olhar do sorriso promoção que uma das miúdas me crava. Não aprecio esta raça de amadoras. Há sempre algo no acto, supostamente comercial, que cheira a esperança que um dia voltemos e as levemos para uma vida melhor. Isso incomoda-me. O que quero sempre, e especialmente nesta noite tão especial , é a grande meretriz de formas generosas que lhe vale o estatuto de puta hiper cara. Aquela mulher que posso chamar mãe , filha , Angelina Jolie ,espancar as nádegas ferozmente , chorar convulsivamente no seu colo, latir como um “Poodle” no momento do clímax que , a partir do momento que abandona o quarto com centenas de dólares entre os seios , me apaga para sempre da sua memória.
Aqui tal espécie não existe. Saio.
Procuro no bolso o papel que me havia sido rabiscado pelo porteiro do hotel. Na lista um nome chama a minha atenção. “Nazca Noche”. O trocadilho noite de narça surge-me na mente e enveredo, sempre no passo de galope que a droga me impõe, para a localização. No curto percurso tenho a sensação que, ao passar junto ao claustro de um convento abandonado ,uma figura sombria caminha entre as colunas acompanhando a minha marcha. No entanto, vários rodopios de cabeça após, não há vivalma no meu horizonte e a visão da porta do clube tranquiliza-me a alma. Tenho sede . Empurro a porta negra com um gesto lento. O espaço está pleno de fumo e de música alta , o inevitável palco para o “strip-tease”, uma bola de espelhos da era disco lança lampejos de brilho sobre as mulheres de saia curta que povoam a pista.
O meu segundo passo dentro do bar cruza-se com o deslizar insinuante de uma falsa loira de curvas esguias e vestimenta mínima que ,com um sorriso obsceno e ausência de discrição , me apalpa as nádegas . Murmura-me:
– Duzentos dólares. Tudo.
Declino-a, sei que as mais ansiosas são normalmente as que estão mais abaixo na cadeia alimentar. O inevitável “Joe Cocker” acompanha uma negra luzidia no varão do centro da pista. Peço uma bebida a uma “barmaid “ de seios expostos e mesclados de lantejoulas , é pouco generosa na porção que me serve . Vagueio pelo espaço. Existem cerca de vinte a trinta mulheres ; em mesas mais recônditas figuras masculinas trocam as primeiras carícias e negociam preços. Sou chamado , abordado, mas todas ignoro. Desço aos balneários e invado as narinas com mais um pouco. Dentro de mim a pulsação atinge ritmos elevadíssimos e as mucosas congestionam-se em todas as formas possíveis. Um imensa erecção, que cresceu após o chuto , ainda não me abandonou. Volto ao bar e vejo-a. Sozinha , ao fundo da sala , esparramada num sofá ,como uma grande rainha das putas ,está a mulher mais apetecível que alguma vez vi.
Longos cabelos negros envolvem um moreno azeitona onde brilham ,esplendorosos, dois imensos olhos verdes. O corpo apresenta toda as curvas cheias da tenra idade e da natureza de tal forma generosa que a cirurgia estética é ainda um plano de longo prazo. Todavia o que a torna soberba é a imensidão de luxúria que lhe marca toda a feição. Mulher, fêmea; exala odores de cio para o meu libidinoso pasmar .O entreabrir dos lábios carnudos , os incisivos ligeiramente afastados e a proeminência do maxilar inferior são chicotadas obscenas no mais viril que há em mim. Todos os meus fluidos corporais circulam em maior abundância perante a ideia de a possuir na posição primordial dos mamíferos.
Olha-me desafiadora. O vestido restolha quando afasta as coxas parcialmente expostas e com o dedo chama-me junto a si. É obvio que está determinada a que eu seja o homem dentro dela, o cliente . É tudo uma questão de preço, sei-o e parto para a dança nupcial dos dólares.
A voz é rouca e entoa maravilhosamente:
– Sou Dolores , muito prazer. Como te chamas ?
-Diego – minto recordando a placa do barman oleaso que dominava o balcão do bar que visitara anteriormente. O olhar divertido tolera a minha mentira e entra no jogo :
– Diego era um dos capitães de Pizarro , um conquistador de terras e corações.
A minha frieza esquizofrénica e a urgência de tocar o busto empinado encurtam o caminho da sedução:
– E o teu coração custa muito a conquistar? – Inquiro mordaz.
– Quinhentos dólares , mon capitan – o brilho nos olhos diz-me que me proporcionará uma noite que não esquecerei.
– Vamos – ordeno , quero-a bem junto a minha droga , quero-a nua na minha cama , a sua barriga lisa feito trilho de inalações múltiplas. Obedece ao meu comando pegando na pequena malinha de imitação de crocodilo e caminhando bamboleante sobre tacões agulha.
(continua)

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