Terra de Incas 4/6

Na manhã seguinte é um farrapo de mim que arrasta um   odor que  revela a absoluta ausência de qualquer acto de higiene   . A transpiração abundante, mistela de envenenamento de sangue, húmidas terras e horas-anos atravessadas no mais indescritível pavor. À espera que algo viesse. Noite de vigília feita  do constante sobressalto à abertura do elevador ao fundo do corredor , ao disparar do ar condicionado; o descarregar do autoclismo do quarto vizinho fizera-me saltar da cama.
Nada sucedera. O dia voltara a iluminar as ruas de Cusco .Sentado na borda da cama , mala feita para abalar, reflecti sobre o meu próximo passo. Bem revelador do desvario que me vai na mente foi, após tudo o que presenciara até ai , ter considerado e optado pela imprudência de ir a Machu Picchu. Um voo intercontinental e o ingresso no tal centro de reabilitação eram o outro peso na balança. Declinei, temor da ressaca que já me começava a notificar as articulações. A quebra do jejum foi feita sobre o lavatório. No espelho estava o pior aspecto que já havia presenciado de mim mesmo. “Farrapo”. A visão estéril do corredor do hotel despertou em mim os primeiros sinais de tranquilidade, a impessoalidade feita em tons ligeiros de azul   e material de natureza plástica era de tal maneira profunda que tive o reconfortante pensamento que em tal sitio nem coisas boas ou más poderiam florir.
Estabeleço tréguas com o mundo e devolvo alguma actividade visível ao lado lógico do meu cérebro em frente a um revigorante “buffet” americano ,onde não falta o encontro intercontinental do  Apfelstrudel   com a pequena montanha de “brownies” e “waffers”, e uma ida aos lavabos . “Para a viagem “ – murmuro visivelmente mais animado. No entanto o aspecto pouco saudável e incivilizado parece ter-se fixado no meu parecer para o resto da jornada. Não posso deixar de notar que tanto optimismo artificialmente estimulado é constantemente corrompido por idas ao canto do olho à procura de algo, um milésimo de retorno ao medo de coisas que sei viverem por perto.
O cais de embarque está pleno de uma babel do turismo global. Reformados europeus , espiritualistas de “ipod” escutam “audiobooks” sobre a pureza do espírito embalados em   flautas “dubbadas”, Woodstocks 2.0 , velhos com aspecto saudável  , americanos de olhar pasmado e excesso de calorias , aventureiros de sapatos “Timberland” novinhos em folha, um pequeno aglomerado de nipónicos que acenam as cabeças ao paragrafar de cada frase da guia turística com um cíclico “Hai”. Roço o ombro algo mais erguido, mais arrogante, mais alto por um deles e desafio, sabendo que não terei resposta:
-Ai o tanas !
.Embato acidentalmente num homem que aparenta estar muito doente e ser esta a sua ultima peregrinação. Não peço desculpa. Preciso de um lugar sentado e de encostar a cabeça . “Precisas de descansar” .  A Suiça chama por mim no tumulto que me sacode o fígado atirando a bílis para demasiado perto do palato.
Envolvo-me no meio deles, ultrapasso, furo a fila , ignoro o protesto em cinco idiomas e ganho o assento junto à janela. O meu imundo aspecto e as fragrâncias que emano são o prémio de uma família francesa retardatária. Retruco o “bonjour” com um ronco simulado. “Preciso de descansar”
A viagem de três horas de vistas deslumbrantes é percorrida sem qualquer memória. O meu corpo derrotado e o embalo do comboio oferendam-me um sono totalmente isento de sonhos e de sobressaltos. Sou devolvido à realidade por uma mão fraterna e anónima que me abana o ombro à chegada ao destino.
Quando alcanço a primeira visão da cidade perdida calo-me esmagado pelo peso da paisagem. Por breves e efémeros momentos, o vento fino que sopra entre as enormes cordilheiras limpa de mim os males que são da minha alma, e tenho a perfeita noção de belo. Mentalmente tento recordar a última vez que me sentira assim esmagado por algo; não me consigo recordar de nada , zonas obscuras da memória que , para sempre , a droga levou. Neste momento contudo não sou vicioso, não sou toxicodependente , não sou a pantomina corrosiva de cartão sem limite que a fortuna me tornou . Neste momento maravilho-me perante a grandiosidade das ruínas. Acho que sorrio sinceramente.
Embrulho-me pela segunda vez na multidão, desta vez de forma menos turbulenta, e percorro, no obediente carreiro de corações que palpitam e obturadores insaciáveis de captar o momento, a cidade que foi esplendor de outras eras. Sente-se a magia no ar , há um íman feito de memórias ancestrais, falta de oxigénio e eficiente marketing turístico que me faz sentir único e especial por pisar uma das sete maravilhas do mundo.
Num momento de descanso após duas horas de visita guiada, oculto numa sombra da  grandiosa praça ,retenho um momento para observar aqueles que me acompanham. Foco momentaneamente a atenção no peito generoso de uma loira platinada , cara metade do envelhecido otário com um boné de um clube de golfe em Kansas City , quando, entre as madeixas platinadas, lá longe , um raio de sol mais pronunciado tomba sobre uma zona onde sei que tenho de ir. Mecanicamente ergo o meu fatigado corpo e abandono a protecção do rebanho para procurar o confronto. Em cada degrau que percorro, com protesto das minhas articulações carenciadas de produto, sei que Intihuatana espera.
A quase ausência de turistas é deveras estranha junto à rocha da fundação, o centro de tudo e quase ninguém por perto. Um vigilante de idade avançada envergando trajes típicos perfilha-se com um olhar fixo no ícone do seu povo.
O meu primeiro movimento de aproximação é de receio e de reverência refrescada por lampejos das minhas memórias recentes. Contemplo-a. “É só a porra de uma pedra “. Todavia hesito antes de me aproximar. Ganho fôlego ,percorro o espaço com o olhar,  encaro o vigilante de semblante rude  .O desafio é feito no gesto lento de retirar a mão debaixo do colorido capote e esfregar ostensivamente a testa enquanto um queixo quadrado e moreno é erguido em chamariz à minha coragem.
Foi assim que começou a minha estranha viagem por terra de incas. Intihuatana , o mundo dos grandes xamãs para os puros de espírito , o acto milenar de roçar a testa no monumento e aguardar a chegada de visões etéreas .
Avanço com uma agressividade que esconde o medo e esfarelo a pele do meu osso frontal de encontro à rocha. Volto as costas ao segurança e, de braços abertos para a multidão que não me olha, bramo às cordilheiras:
– Não sou puro , Não sou puro . Nada ! Vejam ! Nada acontece
E de facto a terra não treme e coisas já mortas não interrompem a azáfama da mole humana para me vir punir. Sinto que fechei o ciclo. Agora é tempo de voltar ao mundo civilizado, oferecer-me um festim de despedida e rumar à “Detox”. Quando rodo sobre os calcanhares venho pleno de toda a arrogância que o dinheiro em excesso me ensinou e a presunção exaltou. Acto reflexo, pespego uma grossa escarrada na pedra sagrada. Miro desafiante o vigilante, rondo a pedra e o seu rosto sem expressão segue a minha trajectória. Não profere palavra, não avança um passo em minha direcção. Um desafio de pé firme ao qual não resisto, avanço para ele  pronto para esmurrar o velho. A dois metros de distância deparo-me com um olhar feito integralmente de branco cegueira que me estanca o passo e me reacende o incomodo no estômago:
– Vês-me? – Pergunto receoso.
O rosto sem expressão desdobra-se num sorriso desdentado e humilha.
– Não . Cheiras muito mal. É fácil seguir-te
Viro as costas ao ancião e rio em sonoras gargalhadas até sair do recinto. “Para o diabo com os incas , as pedras e as gajas mortas enterradas vivas “. A última noite em Cusco espera por mim, uma noite feita em tom de “até já” às drogas pesadas, um festim antes da tormenta da sobriedade. Quando o comboio pára no terminal salto para a plataforma com uma saudade imensa do que deixei no cofre do hotel a apressar-me a marcha. As primeiras trevas erguem o breu sobre a cidade, os vícios do mundo chamam por mim.
Já na privacidade do meu quarto sussurro “ Esta noite é minha”. O rosto exausto é revigorado num duche quente. Duas grossas colunas de sangue, que escorrem pelas narinas, revelam a natureza do meu “after-shower”.Kleenex e algodão estancam o dano do septo. “Esta noite é minha”.
(continua)

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