Terra de Incas 2/6

O despertar soa desagradavelmente alto na minha insónia, olhos fixos na ventoinha que rodopia em sombras que me causam receios infundados. A conversa do velho causou-me esta incerteza, será que entre as pás dependuradas no tecto vagueiam almas desta gente tão antiga?
“Não. Nada disso” – levanto-me e exercito os rituais do viajante atrasado; resolvo não consumir mais drogas, por enquanto. Ainda estou cheio da velocidade da ainda há pouco, o cenário que me espera arrepia-me; o aeroporto internacional de Lima é um local nada propicio aos excessos e à indiscrição , estou seguro que o meu cartão dourado de viajante frequente afasta a atenção da segurança mas não convêm arriscar a sorte. “Voar baixo” , penso.
O percurso é feito em silêncio na companhia de um homem sem conversa e do seu táxi sem pintura. Pairo na madrugada peruviana, olhar perdido no desfalecer da visão do hotel e na recordação; aquela conversa sobre os puros ainda não parou de calcorrear as veredas onde ainda me resta emoção.
Afasto essas ideias irracionais com o vasculhar da confirmação de voo no bolso interior do meu casaco. A minha presunçãozita de europeu de liga distrital faz-me desdenhar da minha transportadora aérea. «Taca airlines , Caca Airlines» . Sinto uma ligeira irritação quando imagino um voo a bordo de um avião manhoso onde a diferença entre viajar em económica e executiva é o facto de termos, ou não, uma galinha ao colo.
Engulo a minha presunção cinquenta minutos depois quando o meu pé direito aflora a alcatifa novinha em folha de um Airbus 320 e levo uma bofetada de luva branca do sorriso belo e profissional de uma hospedeira de tez morena e enormes cabelos negros.
Nos seus olhos de índia há um brilho que suspeito conhecer a natureza. Isso faz a mulher ainda mais atraente
O voo dura cerca de hora e meia, tento dormitar após o take-off . A lotação está esgotada. Lá atrás ,na zona do povo, um grupo de reformados italianos prepara-se alegremente para ir conhecer a asfixia de grande altitude. Acordo quando começamos a aproximação. Vou à casa de banho e inspiro uma pequena linha. No regresso à fila dois excedo o contacto devido com a tripulante apetitosa. Algo dentro da camisa de seda diz que a firmeza é natural, algo no seu olhar diz nunca; parte rebolando as generosas nádegas empinadas; a segunda bofetada do dia.
Quando acabo de apertar o cinto e fixo o olhar no exterior fico perfeitamente esmagado pela visão das enormes cordilheiras, o ninho do grande condor. Ventos laterais fazem a aeronave chocalhar um pouco ; do cockpit o piloto responde com a mestria de um pouco mais de potência. De cabeça encostada à janela assisto, em encantado transe, ao nosso pássaro de aço aproximar-se e afagar com seus pneus a terra milenar .Uma paz apodera-se de mim , contrariando os tóxicos que ingeri o bater do meu coração ameniza-se ; ao sair o meu olhar pede uma desculpa envergonhada à hospedeira. Um sorriso amistoso diz-me que nada se passa.
A sola do meu sapato toca a terra de Cusco com um estranho sentimento de pureza no meu espírito. Agora soam diferentes as palavras do velho « puros , sagrada , Intihuatana».
O primeiro contacto com o exterior revela uma cidade de construção baixa , raros são os edifícios que ultrapassam os quatro andares. Um táxi leva-me em direcção ao centro . Contrariamente a Lima o tráfego flui sem paragens , o carro que me transporta é moderno mas , independentemente de todas as mordomias da engenharia alemã, facto é que a minha respiração aumenta gradualmente de dificuldade , um ligeiro mal-estar instalou-se no meu estômago e um suor que me diz a palavra doente encharca-me a camisa de linho. Pelo retrovisor os olhos do motorista apercebem-se do meu estado e em silêncio a mão direita dirige-se ao porta-luvas e entrega-me um saco de plástico cheio de folhas secas. Dirige a mão à boca convidando-me a ingerir, a mascar.
– Es legal – uma risada franca notifica-me que já percebeu que sou um utilizador muito frequente de outros formatos mais refinados da substância que me oferece.
O braço musculado que sai da manga cava exibe-se num músculo considerável.
– La masco desde los quinze . Tengo cuarenta
De facto.não deve fazer muito mal. Encho um punhado generoso e sacio a minha asfixia na chiclete do alento. Os locais destes sítios caminham longas marchas de trinta quilómetros em terreno montanhoso sobre o efeito da folha de cocaína mascada. Encosto os olhos ao tecto do veículo antes de os fechar e deixar que esta dor imensa de cabeça tenha um pouco de dó da minha pobre condição de homem mal dormido.
Passados uns minutos a voz do taxista devolve-me à realidade.
– Mejor? – inquire . Tenho dificuldade em vislumbrar-lhe o rosto devido ao grande chapéu que usa. Dependurado no espelho baloiça ,na ponta de um rosário, uma pequena cabeça mumificada . Cabelos longos de mulher jovem.
O motorista percebe a minha curiosidade e diz:
– Uma das virgens do Sol.Tanta Carhua
Subitamente a falta de oxigénio e a saliva calibrada que desliza por mim tem o seu primeiro sério efeito cerebral. Imagens brutais , fragmentos de um horror de há muito imiscuíssem com a monumental enxaqueca , espasmos musculares e alguns vómitos são o acompanhamento físico de quatro momentos de dolorosa e realista alucinação.
Um.Tanta Carhua , dez anos
Dois, O corpo de criança serve a gula fanática e animalesca dos grandes sacerdotes. Uma pasta branca é aspirada pelos santos homens ,incenso do fanatismo e dos actos horrendos. À vez afadigam-se sobre ela…
Terceiro, Tanta Carhua é sepultada viva sobre um sólido muro de pedra que veda eternamente o recanto da montanha. A ultima pedra , a ultima visão de Tanta Carhua é o olhar do supremo sacerdote. O olho vazado brilha inerte sobre a luz das grandes fogueiras.

Junto à sagrada Intihuatana o círculo dos sacerdotes regozija pelo feito.

E volto ao assento de cabedal , as ruas cheias de gente de roupas coloridas. Má viagem é a conclusão. Então o carro estanca . Uma travagem brusca .
– Su Hotel
A seguir vem o medo. Ao inclinar-me para tirar a carteira vislumbro a mão esquerda que segura o volante. Ou melhor , o gancho que com o seu abraço letal faz a vez do membro que lá não está. A mão que ainda é de gente retira o chapéu e encara-me.
Ignoro a bagagem e corro pelo lobby numa cavalgada de pânico necessitado em direcção ao bar. Preciso de um Rusty Nail.
Não sei o que mais me aterrou. A falta do membro , o olhar zarolho muito idêntico ao do meu terceiro “flash” ou a chaga putrefacta que cobria toda a testa. Uma obsessão doentia, o ritual dos fanáticos junto à pedra de Intihuatana brilhava insano no olho ainda vivo.
O mal que vi chamava por mim das terras altas de Machu Picchu.
(continua)

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