Terra de Incas – 1/6

Calor , muito calor , uma humidade imensa feita de suores pobres e das grossas nuvens de poluição que chegam a Lima vindas da grande cintura de indústria pesada. Um esgar mais profundo e conhecedor das narinas detecta as suaves fragrâncias dos ácidos e solvências oriundos de laboratórios clandestinos onde se fabrica a mais alta das alucinações . No táxi que me leva ao hotel admiro as gentes e lugares desta cidade ( embora na minha mente…) . A dimensão do engarrafamento é tal que ouso uma saída para ir buscar duas cervejas a uma “bodega” , o meu motorista agradece o gesto e desenrola a língua sobre as misérias da vida. Quando sabe que sou de Portugal recorda-se do Cubillas e dos dribles que embriagavam o antigo estádio das Antas . Fala-me do filho ,também taxista, e da filha que se perdeu. Com um encolher de ombros ironiza:
– No soy hijo de puta pero padre de puta.
Resigno-me em silêncio durante o resto do percurso ( Não consigo deixar de pensar nela) . O homem, José dissera chamar-se, fixou o olhar negro no fluxo do trânsito e cantarola algo triste que passa no rádio fanhoso do velho Ford.
É com alívio e uma gorjeta de dez dólares que me despeço e entro na bolha de estilo de vida que é o meu habitat. Ar condicionado, uso de desodorizante ; um bar onde se sirva um “Rusty Nail” decente.
No grande espaço do bar do hotel o meu interesse hesita, durante quatro pulsações apressadas, entre as bronzeadas prostitutas e o indivíduo de fato com uma solidão de traficante eternizada no olhar frenético. O constante sobressalto entre a venda e a chegada da polícia. Opto pelo consumo dos opiáceos aos prazeres da carne ( Estou a salivar, mais do que o costume ). O meu interlocutor revela uma pressa que me cria desconfiança.
– Quanto ? – Indaga, o rosto bexigoso de fuinha continua a varrer o espaço do “lobby”. Parece-me excessivamente directa a abordagem. Deve estar a vender produto fraco, está agarrado, quer enganar um otário e fazer-se à vida.
Ignoro-o com esforço da minha vontade e peço um “Rusty Nail” ao barman de olhar impávido e sorriso de cadáver. Quando se debruça para me servir a bebida murmura em voz circunspecta:
– La buena la tiene lo Capitan – o braço discretamente aponta uma mesa ao fundo da sala onde um homem só me convida com um gesto magnânimo do único braço que lhe resta. Pendendo do lado esquerdo do fato branco o vazio da manga faz o casaco descair quanto baste para revelar a coronha de um revólver de elevado calibre. O rosto tem a cor dos primeiros destas terras, o nariz forte , os olhos; esses não consigo vislumbrar, estão ocultos nuns óculos “Ray-ban” de lentes espelhadas que devem ter feito furor pelos finais da década de setenta. As lentes estão manchadas das grossas gotas feitas de suor e dos excessos da camada pastosa que lhe cola o cabelo negro e comprido ao crânio. A voz é educada mas contém uma aspereza que foi aprendida nas celas da penitenciária:
– Senhor , que posso fazer por si ? – Os dedos emoldurados em pirosos anéis de chuleco agarram o copo de gin e emborcam-no com sofreguidão.
Este homem é um profissional, sabe que vim comprar e quer vender . Vê pelo meu aspecto que tenho dinheiro, pelo meu olhar decerto vislumbrará a imensa ânsia.
Vejo pelo seu vagar que já fez isto milhares de vezes. Esse facto acalma-me. Abro as mãos sobre o tampo da mesa:
– Diez
O traficante grasna uma gargalhada com som a escarro de desprezo:
– Gringo loco ! – Depois propõe o seu preço.
Concordo com os duzentos dólares. O negócio não será feito aqui. É-me indicado o caminho dos balneários. O maneta levanta-se e arrasta as botas texanas até aos urinóis.
Espero um minuto e sigo-o.
Lá dentro tudo se passa rápido, contra a entrega de quatro notas com a cara do general Grant recebo dois generosos pacotes que albergam, de certeza absoluta ,as gramas que transaccionei. O comerciante parte e eu quase corro para os cubículos. Gestos atabalhoados conseguem constituir a primeira linha da noite e em poucos minutos levanto os pés do chão; sou um rei do mundo que sente escorrer pelas mucosas um caramelo infernal.
Quando regresso ao átrio os meus passos deslizam galopantes em direcção ao meu quarto. Guardo no cofre todos os meus bens mais preciosos excepto um dos pacotes , mil dólares em dinheiro e a minha identificação. Mudo de roupa dançando ao som da MTV, dou mais uma linha, não gosto da camisa amarela , mudo , desço, volto acima , dou mais uma linha, uma bebida do mini-bar , abro a janela , Lima jaz aos pés do meu olhar brilhante.
No bar de novo , as mulheres são agora mais belas , escolho duas , as com ar mais obsceno , bebo um vodka antes de sairmos à rua. Digo-lhes
– Quero fiesta
Elas dizem sim
Digo :
– Quiero la noche loca
Elas levam-me,a dançar, encharco-me em álcool e no aroma dos corpos generosos emanando feromonas e outros vapores do cio. O som está altíssimo. A noite é um carrossel de mãos que me apalpam e levam mais uma nota de cinco dólares entre os seios , fugas ao lavabo , mais , sempre mais. O meu primeiro pacote é generosamente partilhado com as minhas companheiras. Na pista de dança constato que as duas mulheres que me ensanduicham num roçar explícito não são as mesmas com que sai do hotel. Isso é indiferente, excepto ser um excelente motivo para convidar as novas amigas a darem uma linha.
Y.M.C.A é a banda sonora da primeira luxúria da noite. Nos lavabos – mais uma vez , um hábito preocupante – a minha oferenda às novas ninfas é acompanhado de um ajoelhar agradecido.
A partir desse momento a minha única ânsia é partir , esparramar na cama “King Size” do meu quarto todas as promessas que foram inaladas em grande pureza por tão badalhocas damas.
Pago muito por um táxi que guincha veloz entre as avenidas sempre movimentadas da movida latina . No banco de trás retemperam-se as forças sobre o pequeno espelho de maquilhagem , firmam-se as vontades de deboche no jogo réptil de mãos e bocas escancaradas com línguas de fora.
No hotel a selvajaria perdura até às quatro da manha.
Educadamente acompanho as poldras, balançando nos seus sapatos plataforma, até à porta principal do hotel onde um táxi as leva para sempre da minha vida.
Dirijo-me ao recepcionista. É um velho, as mãos tem desenhado um mapa que deve ter começado muito longe de Lima . Peço um despertar para as sete, sem motivo informo; talvez para conversar um bocado sem ter que pagar.
– Vou a Machu Picchu- estou excitado com a ideia e a minha voz treme como a de um adolescente.
O olhar do velho censura-me. Adverte:
– Cuidado lá senhor, é forte , muito forte – pigarreia – alguns mudam
Surpreendo-me com o tom do discurso e contraponho
– Forte ? Como assim ?
O velhote sorri-me:
– Nunca ouviu falar da sagrada Intihuatana?
Desconheço totalmente do que fala. Levanto a mão pedindo uma pausa e regresso ao bar , grato pelo seu fornecimento de álcool vinte e quatro sobre sete , peço mais uma bebida . Regresso para junto do balcão e enceto conversa com o velho recepcionista. Noto que lhe estou a retardar uma tarefa e que isso não o parece importar sobremaneira:
– O que é a Inti-tu hua..ta?
– A pedra Intihuatana está lá desde tempos imemoriais, senhor. Nasci lá perto e sempre ouvi falar dela , todos os avós de os nossos avós escutaram sobre a sagrada pedra dos nossos Ancestrais. Dizem que é mágica,senhor.
O excesso de envenenamento do meu sangue traz um frio desconfortável no exacto momento em que noto que a mão direita do meu interlocutor é incompleta de dois dedos.« Puta de terra de manetas » . O discurso do velho prossegue:
– Dizem , os velhos , que quem for puro e esfregar com fé a sua testa na sagrada pedra verá o mundo espiritual , tal como o viram os grandes xamãs . O senhor acha que é puro ?
Perante a ironia da pergunta lanço uma gargalhada que ecoa no mármore polido do átrio. «O velho está a gozar comigo!. Ninguém com os olhos neste estado pode parecer puro a alguém » – A camisa está algo suja de uma pequena hemorragia, a minha respiração acompanha o frenesim que vai em toda a extensão do meu corpo. Respondo muito arrogantemente:
– Não sou puro e vou esfregar a testa na tua pedra e nada vai acontecer. Nada!
O velho encolhe os ombros.
– Talvez não senhor, mas se acontecer será coisa que os puros não merecem.

( continua)

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