Do Rock – The Doors

Esta noite não há concerto.
Sobre o palco decorre uma farsa. Cantam-se as canções do poeta em voz de falsete sobre a magia do laser e o vazio que ecoa em som digital. Os Doors terminaram quando a porta acolchoada do estúdio se fechou, quando na seda que revestia as paredes ficaram marcadas as impressões digitais do grande álbum de blues que Jim Morrison sonhara.

Depois veio Paris , a poesia , Campos Elísios púrpuras e a morte que o veio buscar de barba longa , purificado pelo banho.
Não se pode recriar o poeta .O rei lagarto que nos fez arder no calor tórrido do deserto da nossa alucinação apenas pode ser santificado em velas lentas em Père Lachaise.Um charro entre as lápides fugindo ao olhar do Gendarme e da viúva indignada , um bafo cedido ao coveiro para poder orar bem junto à campa do Senhor Mojo.

Esta noite não há concerto dos Doors no Atlântico.
Ícaro pedrado que voava a centímetros ácidos do piso do palco. A chuva de cigarros de marijuana e pastilhas de LSD que aterrava aos pés do profeta da longa estrada não irá acontecer esta noite em Lisboa. Jim está morto. Demasiado limpos os homens e as mulheres assistirão ao embuste. Beberricação de cervejas patrocinadas; um ocasional charro levantará os protestos de um espetador não fumador.

Esta noite não há concerto dos Doors no Atlântico.
No vazio do parapeito de um andar alto , equilíbrio precário que se compromete com o esvaziar da garrafa de mescal , balança o fantasma , arauto de mais uma vitima mortal de cabeça inquieta. A obra do poeta persiste nos rasgões de alma que destroem a noite, relâmpagos fazem brilhar supernovas nos olhos que procuram entre os filamentos da intoxicação o motivo para mudar mais uma vez. Sempre em constante mutação, camaleões que se deixam ir e dançam como habitantes de todo o planeta.

Ambrósia dos dementes, mescalina entre as dunas do deserto. Hóstia peyote , Huxley revisitado entre os cânticos do xamã e a super oito de imagem trémula , sempre a mudar a perspetiva . Sempre a chamar o comboio que leva a outro lado , sempre a procurar um ritual de purificação e a palavra declamada .

E nos arredores do pavilhão os carros passam rápidos. No banco da estação de comboios, garrafa quase vazia, sobretudo coçado e oscilante, olhos perdidos no mundo cruel , o afagar da barba , o sorriso desdenhoso pelo fim que se aproxima .
O som do espetáculo ,em formato digital e com vídeos walls exibicionistas das danças daquele que já não está connosco, ecoa tão alto que invade o espaço do terminal ferroviário.

O grande final faz-se na gare vazia, passos de dança de um profeta vomitado e re-encarnado, rodopio de braços abertos , gritos de alegria , a celebração do terminal , entranhas ardendo no fogo que destrói a noite e divide os dias entre bares e celas de prisão . Bidões ardendo , fogo fátuos feitos de fortíssima destilação , o espírito do Senhor Mojo a possuir o vagabundo , o gesticular do corpo , o tremor do queixo ,a emoção de proferir palavras sobre a vontade de foder a mãe e matar o pai. Sempre a rodopiar, sempre a rodopiar, a coronária à beira do colapso e como um asteroide o corpo tomba sobre o cimento . Redondo e morto . Isto foi o fim.

No palco do pavilhão pede-se um minuto de silêncio . A alma do poeta indignada ordena que o velório seja feito pelo restolhar das mortalhas , das gargantas a deglutir o quarto de pastilha , o gemer dos amantes , as palavras de um grande mestre trovador. Maças de Adão deglutindo a água do brilho da lua devem marcar o ritmo da cerimónia fúnebre.

À ventania de uma estrada esquecida deve ser entregue o seu espólio mortal .E as gentes que ainda se lembram de viajar nas asas de uma serpente cor de luz devem dançar em sua memória, não perante falsos deuses mas entre as linhas de uma oração americana que disse que era tempo de abrir as portas da perceção e perguntou se não havíamos ainda aprendido as negras lições de ser sano.

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