Dos altos da Serra de Sintra

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se escutava , o uivo do lobo cinzento veio. Desceu as encostas lesto, levado pelos nevoeiros e pelo frio que vinha do oceano. Entrou em primeiro lugar nos condomínios plantados à beira do “green” . Olhos de feições corrigidas e ganância inelutável fitaram em pânico o teto temendo a derrocada dos mercados. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam, o apelo da alcateia inquietou orçamentos curtos e dívidas em crescendo eterno. No quarto de poucos metros quadrados a menina percebeu que amanhã o pai também não teria trabalho; o grande lobo que descia a avenida deixava marcas de garras em carros ainda de prestação longa, os canais rodavam lentos nas televisões, dedos do medo de amanhã a tudo tentar esquecer.

Dos altos da serra de Sintra , como há séculos não se sentia , desceu uma fome de gente saloia minguando aos poucos . O obsceno cheiro a caviar das mansões repeliu-a como um vómito largado por um pedinte, chefe de família desonrado, na ruela que leva às casas de mesas parcas. No subúrbio amontoado de urbanização, com um nome que nem os seus habitantes recordavam ,o cheiro a privação apertou, ainda mais , cintos em barrigas algo crescidas de fome. Rufando por portas de vergonha , de decência mostrada e não sentida ,a míngua entrou nos bandulhos de tantos, como há tanto neste reino não se via.

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