Do Rock – Crazy Horse

O canto do olho do Jorge Passado , meu companheiro de drogas e festivais , chamou-me para uma conferência das opções possíveis de subida aos céus em virtude das más condições climatéricas. Disse assim:

– Foda , pá , foda-se, pá . Pá, está a chover com’a merda . Então pá? O que damos pá ? (uma generosa linha de branca antes de sairmos do carro era o motivo para o atabalhoamento do seu discurso)

A minha sinusite impediu-me sempre de desfrutar a plenitude dos prazeres da senhora branca pelo que me encontrava menos afetado que o meu compincha. Apelei ao bom senso:

– Temos que meter as trips ,pá ! Já viste o que chove ? Fazer ganzas ? – Jorge acenou que não – Fazer um risco ? Jorge discordou:
– Fica tudo em papas – depois levantou a cabeça numa pergunta que era a esperança de muita alucinação naqueles olhos dementes. Eu tinha a resposta:

– As trips pá . Vamos ver os cotas com cores bonitas! – O convite agradou a Jorge Passado. Eu não imaginava a barbaridade que estava a dizer. Tomei a pastilha cerca de trinta minutos antes do início da maior tareia de rock n’roll que apanhei.

Quando Neil Young e os Crazy Horse subiram ao palco chovia copiosamente, os homens com rugas feitas de noites de guitarra ,bateria e baixo olharam as grossas gotas com desprezo . Um subiu a gola do casaco mas as mãos rudes e calejadas de eternas horas a dar no bordão da guitarra baixo não hesitaram um segundo. Tinha um trabalho a fazer. Quando a banda encarou a plateia, o grande lamaçal de Vilar de Mouros, havia o brilho de sexo , de drogas e de muita veteranice das coisas do rock. Quando as guitarras entraram Neil Young arrancou um solo que parecia dizer à borrasca que se aguentasse que agora era a hora da eucaristia do deus dos roqueiros .Um frenesim percorreu a multidão , algo mais subtil que a histeria das entradas das bandas de sucesso comercial, um “ummm”, as cabeças a abanar ligeiramente , os pés a acompanhar o bombo.
Olhei em volta, nesse momento o ácido era uma parte de pleno direito da minha corrente sanguínea pelo que ganhei aquele voyeurismo que caracteriza a viagem. Sondei com olhos plenos de relâmpagos de luz o terreiro fértil de gritos de insubordinação e grandes noites de música. Vi algumas caras conhecidas. Um dos Xutos , um antigo traficante de cavalo lá da minha terra , três tipas que gostaria de ter na minha tenda ao final da noite , um maluco que costumo ver em todos os concertos onde as guitarras são rainhas. Todos os olhares estavam siderados nos homens sobre o palco. Havia um certo drama no ar, como se no imaginário coletivo a chuva incessante fizesse que o guitarrista, dedos rápidos e alma fundida com o instrumento, arriscasse a eletrocussão num duelo entre o trovão eminente e a distorção habilmente trabalhada pelo “slide”.

Quando o tema terminou o público aplaudiu com vigor. A banda apenas agradeceu com um acenar de cabeças, como quem agradece uma imperial e arrancou logo para o tema seguinte. O baixo e bateria malharam um ritmo bem marcado até o líder da banda, o canadiano Neil Young , uma lenda viva do rock , acabar de beber o que me pareceu ser cerveja e arrancar ao breu da noite as almas dos que assistiam ao seu espetáculo. De olhos fechados, à beira do palco , a catadupa a escorrer pelo corpo da Fender Stratocaster , as cordas a brilhar , um caleidoscópio feito de notas distorcidas , a aura do grande solo. A cabeça para trás, o cabelo longo mas já sem glória, escorrido da água de Vilar de Mouros. O transe; o dele, o meu.

No lamaçal as brumas de setenta e um misturaram-se com os ácidos de Woodstock e a branca refinada e barata dos dias presentes. No centro de uma poça de água dançava uma mulher, ainda jovem , firmeza no seu busto exposto , os longos cabelos negros eram cataratas de ocultação do seus seios generosos, uma tatuagem de escorpião junto à cintura. Estendeu um braço ao homem à beira do palco. Ele viu-a.
Eu estava agora mais próximo, do palco e da jovem que chamava o velho músico. Havia algo prestes a acontecer. O ácido permitiu-me um ínfimo detalhe na minha observação. Que algum deus abençoe os engenheiros das boas químicas. Procurei nos olhos de Neil Young , um sorriso de desafio rasgou assimetricamente a boca onde os dentes conhecem o sabor de todos os fumos do mundo . Desafio. Havia um desafio feito no gesto daquela mulher de mamas ao léu que apelou a algo. Não era luxúria, era algo que aquele homem conhecia bem. Milhares de palcos, noites e noites perante multidões, trazem um carisma a alguns homens. O que sucedeu foi, no meu psicadélico entender , a honra do overdrive , o momento em que o rock se torna duro e a luxúria é ejaculada na forma de uma sequencia de cordas, torturadas ao limite , uma palheta que se assemelha a uma língua sobre a vulva, o cilindro metálico no dedo médio deslizava ao longo do braço da guitarra ; o efeito era óbvio. Ela reagiu ao homem de pernas abertas, instrumento extensão de si mesmo; a cabeça atirada para trás, a chicotada da longa cabeleira encharcada nas costas, todo o esplendor revelado; os meus olhos feitos microscópio vislumbraram o enrijecer dos mamilos perante a chuva e a música. Aquele solo era dela, aquela visão era dele.

Com um sorriso e um piscar de olho o musico voltou ao microfone, uma manta cobriu a nudez da rapariga. As palavras falavam sobre uma rapariga de canela. Olhei-a de novo, de facto o sol havia criado na sua tez o dourado apetitoso da especiaria.

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