Do Rock – Sepultura

O bófia à minha frente quer ficar com o último charro.
Isto, hoje, não deveria acontecer.
Numa situação normal tal facto significaria um pequeno aborrecimento que terminaria com o afastar do policial sem vontade de preencher imensos impressos e o meu desgosto pelo facto do produto ter sido confiscado.
Hoje é diferente.
Hoje há speed de cristal no canal
O bófia tem aquela vermelhidão ainda não carcomida pelos fumos da grande cidade. Um campónio. O cabrão é um maçarico campónio que me quer ficar com a ganza e levar dentro.
Hoje não.
Hoje há Sepultura .
A arma na sua cintura é desafio minúsculo perante a raiva que cresce em mim. Mar ácido que me queima o estômago e me sobe pelo esófago. Este sabor que só se saciara com a vitória esmagadora. E ele diz:
– Você está preso!
A mão procura o par de algemas mas a sua presunção da minha não resistência termina quando o meu punho rude , arma do homem das tabernas e das lutas de rua, lhe esmaga a cana do nariz como se de um ossinho de frango ,triturado pelas mandíbulas de um horrendo monstro ,se tratasse.
Cai, a face ganha rapidamente a cascata do sangue. A sua visão seguinte, o terror que se ergue na boca que se escancara num “Não”, a mão em ordem de alto que não vai acontecer é barreira que a minha bota trespassa com toda a velocidade que esta imensa vontade de matar me traz.
Rebenta. O crânio encontra a borda do passeio. O azul da farda já pouco existe.
A arma no chão
Pego nela
Aponto. O speed de cristal diz que dispare
“Mata o bófia” diz a minha insanidade química que me faz palpitar o coração como um cavalo de corrida.
No fundo da minha mente ergue-se o muro sónico da guitarra de Max e o bombo duplo do seu irmão. A canção diz -“ Algum dia cairás e eu estarei à espera “.
Detenho o gesto
A consciência retorna, aos poucos, aos olhos do polícia.
É um miúdo. Não deve ter saído do curso da formação há muito. Azar.
O seu medo cintila entre os olhos semicerrados pelos hematomas e pela cortina vermelha da sua imensa derrota que se encontra nos primeiros estados de coagulação. O silêncio da rua , a falta de apitos e de gritos de “Quieto” e “Mãos ao ar” comprovam que os reforços não existem. Azar
Está nas minhas mãos. Agita-se um pouco sobre a poeira da rua. Lá ao fundo o pavilhão. Oiço passos. Não são botas de monos, são o passo acelerado do batalhão dos condenados. Uma milícia de insanos. Vestes negras, longos cabelos, baixa condição. Anunciação da violência extrema,
Se deixo o bófia ficar ali estendido irá certamente morrer sobre a chuva de biqueirada que o vai rebentar por dentro. E se me estiver a cagar? Azar
O tipo estende a mão, o gesto do afogado ao seu maior inimigo
Na minha cabeça o bombo duplo persiste. Daqui a pouco uma muralha apocalíptica de som irá ecoar do sistema de amplificação. Quero lá estar. Para tal não posso matar agora.
Atiro a arma para longe e dou a mão ao tipo. Cambaleante, talvez agradecido por o fim que lhe evitei, não profere palavra durante todo o caminho. No rádio que ainda traz pendurado à cintura o chefe do carro patrulha chama pelo agente Reis.
Então , como se o diabo me tivesse sussurrado ao ouvido, decido que o agente Reis vai conhecer os prazeres do grande tubarão insano que nos devora os tímpanos. O senhor agente vai rodar a mil à hora no covil da biqueirada. Tiro o casaco e cubro a camisa azul. À força enfio-lhe entre os dentes ( poucos ) que restam duas cápsulas de anfetaminas.
Duas nuvens de negro sobre o meu olhar, a imensa excitação que sinto ao avistar a sala escura , o fumo a cobrir o palco ,uma marcha marcial que diz à multidão que é hora de ser brutal . As hostilidades iniciam-se quando o quarteto surge em palco. Pendurada no bombo da bateria a omnipresente bandeira verde e amarela. A canção chama-se “raízes “ e toda a multidão volta aos estados primitivos da humanidade e convulsiona-se com fervor caótico , ossos quebram-se , feridas espirram , botas e corpos em espancamento coletivo. No centro a grande roda , lugar dos xamãs da agressão. Avanço para lá. Sobre o meu punho o agente Reis sente o efeito da bomba que lhe pus no corpo e grita insano, tenta libertar-se. Luta, quer sair do meu jugo. Empurro-o com desprezo para o centro do “mosh pit” , a última vez que o vejo está a rebentar à cabeçada a fronha de um puto para ai com dezasseis anos que lhe apareceu pela frente. Subo ao palco e mergulho em celebração à grande sinfonia do mal que ecoa em meu redor.

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