Vassili doente

Lisete levantou a voz e dirigiu um olhar entediado à figura alta e trémula que se encontrava do outro lado do guiché:

– Preciso do cartão de utente. Está a perceber? Sem cartão não posso fazer nada.

A face, encharcada num suor pouco sadio, de um homem eslavo de meia-idade contestou, depois de rebuscar nos vocábulos do seu curto tempo em Portugal:

– Doente. Senhora. Vassili muito doente.

O turno da noite no grande hospital era o conceito de inferno para Lisete. Os bêbedos, os estropiados no asfalto , o quase cadáver octogenário que a família vinha depositar estrategicamente antes da época estival. Das centenas de milhares de lares nos concelhos assistidos por aquela unidade, os piores e mais sujos casos desembocavam sempre na porta das urgências onde o ruído das sirenes parecia ganhar uma dimensão fantasmagórica.

Eram quatro e meia . Estava cansada. Apenas aceitara voltar aos turnos de fim de semana e noite a conselho da sua amiga Elisa. Na secção de pessoal ouvira-se falar em regime de mobilidade e que era melhor ser mais pró qualquer coisa para evitar chatices. Por isso aqui estava, cheia de sono. E agora mais um chato de leste, daqueles que mal sabem falar; e sem cartão.

Dois nós de dedo delicadamente bateram no vidro insistindo:

– Senhora, por favor. Pouco tempo Portugal. Cartão não

O carrapito de Lisete espevitou-se e repetiu:

– Sem cartão não ! Niet . Percebe ?

Vassili não entendia. Crescera com pouca comida e uma vida sem grandes confortos. Mas sempre houvera médicos. As pessoas estavam doentes e havia médicos. Lá, em Kiev.
Não era um homem rude, fora educado para ser professor de música, mas os acordes da betoneira e da montagem do andaime eram mais sonoros e por isso viera, um ano depois do cunhado, para Portugal. Tinha no bolso o papel de processo que lhe custará três dias de espera no serviço de estrangeiros, mas parecia que para a senhora do hospital não servia. Falava do cartão, do cartão e ele com tanta febre, tão doente. Um abanar de cabeça resignado, os olhos de um vivo azul a implorar entre o vidro e as várias normas afixadas no guichet e daquela mulher antipática veio um bocejo que o fez sentir-se totalmente mal vindo.

Havia muitos dias que se sentia mal. Comia pouco, bebia algumas mínis e vivia num quarto com mais quatro compatriotas e um romeno. A sua disciplina férrea permitia-lhe enviar quatrocentos euros por mês para a sua esposa e filha. Mas comia pouco e aceitava sempre as horas extras. Tinha medo mas aceitava. Tinha medo desde um dia em que, no alto de um quinto andar , o andaime parecerá fugir e as pernas tremeram . Do cansaço, da fome.

Tinha ido trabalhar sempre mesmo sentindo-se mísero, tinha febre mas tentava enganar-se molhando constantemente a cabeça e o torso. O estômago era uma chaga ardente que não suportava um golo de Sagres. Começara a beber água. Os colegas riram-se dele. Hoje, ao sair do trabalho , a caminho da paragem do autocarro o vómito viera , havia pouco para sair, mas o que havia trazia sangue. Decidira vir ao hospital.

Perante a recusa permanente da funcionária hospital recuara um pouco cedendo o seu lugar a um rosto ensanguentado de uma briga de bar. Tinha cartão, entrou.
Enquanto tentava estabelecer de novo contacto visual com a ocupada funcionária, que não desgrudava o olhar do computador, uma ambulância, em sirenes de goela aberta, parou abruptamente junto à porta. Gerou-se um burburinho, um maqueiro entrou a correr levando a sua frente um jovem negro, de não mais de quinze anos, que apresentava ferimentos de bala no abdómen. O tremor nas pernas anunciava momentos finais. Atrás ,a um passo mais lento, outra maca circulava .Totalmente coberta por um lençol, encharcado em sangue, de um dos lados pendia um braço já sem vida.

Vassili baixou a cabeça em respeito aos mortos. Olhou para o átrio e percebeu que não conseguiria falar com a senhora do guiché. Uma pequena multidão de jovens vestidos em cores iguais, dois polícias e uma negra e gorda mulher em pranto incontrolável ocupavam todo o espaço do balcão. Lá fora ouvia-se o chegar de carros potentes em grande velocidade. Foi ver o que se passava.

No exterior quatro carros pintados de negro e com aspeto desportivo estavam perfilados lado a lado. Junto a eles cerca de uma dúzia de indivíduos negros olhavam em frente, de braços cruzados. Outros descreviam um vai e vem desconjuntado num curto espaço de dez, quinze metros. Um dos carros emitia uma cintilação roxa da parte inferior. Vassili notou que a cor era igual à do lenço atado à cabeça do imberbe na primeira maca. Reparou então que o roxo, de uma forma ou de outra, estava presente em todas as indumentárias do grupo. Um potente sistema de som emitia música em alto volume. O ucraniano reconheceu o ritmo do rap mas não entendia as palavras:

“ No matter yo colour or creed,
Im going to make ya bleed,
Packing my AK
I wanna see you die , today.”

Vassili sentia-se mal, cada vez pior . Quis voltar para dentro e rodou sobre os calcanhares. Ao completar os cento e oitenta graus deparou-se com um indivíduo de feições semelhantes às suas no que diz respeito à origem geográfica. O “boa noite “ em ucraniano iniciou um breve colóquio onde foi relatada a pobre condição clínica. O seu compatriota ao ser informado da falta de cartão encolheu os ombros e proferiu uma obscenidade eslava. Pousou a mão no ombro do servente exausto e explicou:

– Camarada, se queres ver médico faz o que eu dizer. Estás a ver aquele negro alto, ali junto ao carro com luz roxa ?
– Da – anuiu Vassili
– Vai lá e diz em Português , Preto do caralho .
– ch`to ?– não entendera
– Diz ao homem . Pre-to do Ca-ra-lho

Vassili repetiu em surdina ,várias vezes : Pre…to da Cara-lhu, Prieto do Caralho.
Caminhou em passo firme em direção ao negro mais alto , que parecia liderar o grupo , parou a dois metros de distância e disse :

– Boa noite.

Imediatamente vinte e quatro olhos de marfim congestionados em pequenos rios de sangue rodopiaram em sua direção. Três mãos entraram no lado esquerdo dos casacos, outra mão movimentou-se para o cós das calças.

– O que é que tu quer , pula ? Emigra ! – Foi disparado por uma voz violenta e rude. A frase foi acompanhada por um baixar de um braço com três dedos estendidos.

– Boa Noite . Pre..to do Caralhu!

A mão do gigante negro ,em menos de um instante ,empunhou uma Glock, recentemente roubada na Azinhaga dos Besouros a um agente da PSP , e proferiu dois disparos.
Os carros partiram deixando atrás de si o cheiro da borracha e a batida “Gansgta” de Dr.Dre. Correram maqueiros, o corpo estendido no chão foi rapidamente transportado para o interior.

Quando Vassili recuperou, por momentos, a consciência percebeu toda a extensão da dor. As luzes no teto ,que passavam rápidas a seus olhos ,e pela pressa com que empurravam a maca, soube que estava no hospital e que estava, realmente , muito, muito doente.

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