Na América – Rosemary

Rosemary não saiu à rua quando viu o noticiário. Embrulhada na sua manta de um sofá só, sentiu as lágrimas virem sem controlo. Lá fora as primeiras buzinas, os gritos de América, América , a vitória a descer de Queens e de Long Island . Até da longínqua Jersey ecoam os urros , estrelas e listras ao vento.

Sobre a TV a foto de Paul, vítima oficial número mil oitocentos e quarenta nove do chão zero, consumido no querosene rápido que varreu em fogo o piso onde exercia a função de mediador de seguros. A companhia fora generosa, o dinheiro , todavia , não a impedira de desmoronar como as torres. Fechada noite e dia perante uma televisão e um computador portátil, escuridão, internet , encomendas de antidepressivos, tequila , tacos , chinelos do canal oitenta e dois , um dildo que pouco uso teve , comida , uma lingerie para belas e enormes mulheres , comida a jorros , álcool , mais comprimidos, prescrição online . Um cartão de crédito recheado traz tudo à sua porta.

Tudo menos os passos arrastados do seu Paul . Seu marido , feito cinza , mescla com betão em fusão e restos de outros mortos. Os grupos de apoio das vítimas , os círculos de cadeiras , eu sou John , eu sou Rosemary, eu sou Lou , eu sou Dee-X , eu sou Alfonso , eu sou, eu sou… ,Eu perdi .
Eles , meu Paul , meu querido filho Albert , pai , o meu pai; mi amor , a voar pela janela a arder , eu sei ,era ele.

O baque no pátio interior dos corpos a saltarem . Pum . Pum . Pum . O enlouquecido Sargento Garcia da NYPD em pé no circulo a gritar , mãos a arrancarem pedaços de pele , esgravatando para o crânio . Os baques , os baques , pum , pum , os saltadores do dia onze.

Rosemary abandonara os grupos pois era-lhe inadmissível que alguém sofresse mais que ela. Tornou-se a viúva ermita, gere um fórum online , tem alguns vídeos guardados no seu disco rígido de mensagens de adeus de outros e outras que , tal como ela , haviam entrado na espiral descendente. Esses , aqueles que lhe haviam enviado os vídeos com a arma na mão , com a tigela de veneno no ângulo visível da webcam , soluçando e deixando a vida ir pelos punhos abertos. Esses não haviam vivido para escutar a nova da morte do inimigo. Do homem que chamara os aviões e os loucos.
As lágrimas de Rosemary não são pela morte de Osama , são pelo seu Paul , do qual nada resta exceto a foto para onde o corpo de cento e quarenta quilos se arrasta. Um afago na moldura.

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