Do Rock – Sex Pistols

Só a heroína injetada é digna do momento. Em memória do Sid . Em memória dos gritos de revolta de uma Londres acordada à biqueirada de bota da tropa e guitarras pessimamente tocadas por desencantados de roupas estranhas e alfinetes de dama atravessados nos mamilos. E tanto tempo passou…tantas gringas , tantas curas , tantos que se ficaram de ferro no braço , as línguas negras , as tatuagens a perderem a tonalidade ao ritmo da alvura mortal .
E não está morto ,o punk não está morto . O tempo passou, o mercado veio e de uma certa forma teve a audácia de converter tudo em vendável. O sumo da papoila torna-me um deus perigoso perante as boas intenções dos homens, não acredito que os Sex Pistols se tenham voltado a juntar por alguma causa. Pasta , pura pasta e uma ilusão, um número de circo semelhante aos dos punks de cristas trabalhadas por horas de laca em trafalgar. Para a foto , para a pasta , para o entretenimento. Paredes de Coura , Portugal , dois mil e oito , quase trinta anos após a morte , por overdose de heroína , de John Simon Ritchie, Sid Vicious para o mundo .No palco está a envelhecida, outrora anunciada voz do punk , Joãozinho Podre .Todavia na grande maioria das camisolas envergadas pela populaça , um pogo de operários cansados e gajas magras do cavalo e desencantadas com tudo , a face que persiste estampada é do carismático baixista. Dele disseram que era a atitude do punk . Quando um gajo que diz que está tudo fodido envereda por um caminho que termina com a sua desgraça e morte propositadas não me resta nada mais que o incluir nas minhas orações que procedem o momento da injeção na veia.
O efeito pretendido não estava a funcionar. Não quis dançar na roda de pés do ar que se formou no centro do recinto. Não me deu particular vontade de lançar grossas escarradas contra os que se encontravam em meu redor. No meio da multidão nem todos pensavam assim e a minha cerveja, copo reciclável do patrocinador do festival , foi inundada por o grosso muco de um tipo de cabelo ausente e olhos reveladores de ,pelo menos, um bafo na chinesa . Encolhi os ombros e bebi. O punk não está morto .
A multidão canta os hinos para auxílio da deteriorada voz , o som é mau , tocam mal como à merda e porém tem uma multidão aos seus pés . Os netos do punk , putos alegres e bem fumados , que envergam camisolas dos green day e usam sapatilhas de alto custo . Os degradados ainda sobreviventes, incluo-me nessa categoria, gajos e gajas a quem , basicamente , a vida não trouxe nada de novo , o tal não há futuro era efetivo e não termina num caldo luminoso mas sim na fome nos limites , nos dias sem nada que fazer exceto ver a televisão mostrar vidas que não tivemos. E de facto algo não está morto. Algo fez uma multidão vir, uma manta de retalhos, mas a verdade é que vejo cá todas as tribos que povoaram a minha juventude . Os carecas , os mods , os punks de crista , os metálicos , os straight , vanguardas com ar de cadáver, cadáveres com ar de pedinte do estacionamento . No chão; seringas, pontas de charro, garrafas partidas, muito gregório e algum sangue escrevem uma complicada charada sobre os motivos que arrastaram estes homens e mulheres apodrecidos e sem esperança para o norte mais longínquo do país, para vir a Paredes de Coura fazer caralhadas uns aos outros e cantar que não há futuro .
Preciso de dar mais uma bomba. Procuro um arbusto , uma tenda vaga , um recanto qualquer onde possa ferver o caldo e dar o tiro . Por detrás de um dos barracos fechados dos comes e bebes . Anicho-me , os movimentos são serenos , a chama pequena do isqueiro , a sopinha a ferver . E depois:
Trau !! A grande luz , o martelo nos cornos . É tão forte que desfaleço por momentos, quando volto a mim encontro um rosto cinzento , um tipo de para ai uns cinquenta anos , as rugas são profundas , há algo no seu olhar que diz que já foi submetido a inúmeros internamentos , traz no esgar perdido o formol das enfermarias do manicómio . Fala :
– Só deste metade da bomba. Posso ?
Não tenho reação ao seu gesto de retirar a agulha do meu braço. Pressionar, com um lenço imundo que retira do bolso de um casaco tão degradado como o seu dono, a minha pequena hemorragia; depois , passos arrastados de buda dos drogados ; depois, qual sida , qual hepatite , dá ali mesmo à minha frente . Um direto no canal. Arrasta a cabeça para trás e deixa o corpo ir, as mãos tomam a posição do sacerdote que abençoa o seu povo , alguns espasmos evidenciam a fome saciada. Levanto-me e enfio-lhe um violento pontapé nos costados . Não há futuro !
Lá em baixo, no palco ,o hino supremo da revolta . Anarquia !
Foda-se . Corro para o centro do covil do mosh com toda a minha droga a tornar-me violento e mau.
E eu sou um anticristo. Que deus do caralho é este que me pôs assim.?E sou um anarquista . Lanço as costas contra um amontoado de corpos, alguém cai , piso-o brutalmente , não há futuro. No centro do poço destilo toda a ira que há em mim, todas as raivas , todas as baldas da vida , todas as merdas a correr sempre mal .Não há futuro .
Alguém me soca brutalmente o rosto e sorri-me em seguida , um rosto jovem , um dos netos. Fodo-lhe a tromba com uma cabeçada e ele abraça-me em agradecimento. Lá , no centro do pogo distribuo toda a porrada que a vida me tem dado. Sou as pás de um moinho de toda a deceção que a meia idade assegurou ser permanente. Junto a mim , corpos em cadeia de choque sem sentido , proliferam frustrações semelhantes à minha. Não há futuro.
Caio, alguém me chuta o lombo. Dói, Rastejo para fora da agitação, em zonas menos turbulentas dois braços ajudam a erguer-me. Dentro de mim o cavalo bombeia-me o sangue em ebulição.
Apaguei.
Voltei a mim perto da zona das tendas, como mortos vivos figuras arrastam-se pelo labirinto de canadianas. Não tenho para onde ir , nem me recordo se trouxe tenda , perdi o saco.
Junto a uma arvore avisto-a. É tão velha como eu , as bochechas flácidas , os olhos onde a excessiva maquilhagem negra não esconde uma também excessiva tristeza , o cabelo loiro foi espetado com cola , envereda uma saia de napa gasta e umas meias de rendas negras onde as malhas já rebentaram em múltiplos sítios. A lividez do seu rosto , a ausência de ser no seu perscrutar da noite revelam que já sentiu a mordidela da agulha. Encara-me, agarra-me:
– Queres foder ? Apetece-me foder .
Ali, no meio de um acampamento levanta a saia de cabedal e oferece-se sem pudor. Vira a cabeça.
– Anda.
Vou. Qual sida , qual hepatite . Entro nela como sou e demoro dois minutos a terminar. A mulher despede-se de mim enfiando uma violenta cabeçada na árvore. A última visão que tenho dela é um rosto ensanguentado e pleno de uma raiva que o sexo não amainou. Os restos de mim escorrem entre as malhas rebentadas e as botas militares. Cospe-me no rosto e parte.
Limpo o escarro
– Adeus Nancy .
Depois parto em busca de mais um recanto. Para dar o último caldo, o do dia , talvez da vida. Não há futuro.

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