O Diretor

O director da escola entrou e disse à atónita professora:
– Então os alunos não se levantam? – A voz era prepotente, tom governação em vigor, e o cabelo era, pateticamente, pintado de farripas de grisalho.
Lurdes , professora de Inglês , quarenta e cinco anos, não queria acreditar na prepotência do novo senhor todo poderoso. Um bufão que proferira a si e aos outros professores uma longa palestra sobre a necessidade do rigor orçamental e a necessidade de não educar os alunos em assuntos secundários, como a Filosofia e a História, mas sim focalizar todos os recursos na produção de profissionais qualificados para a grande competição global. Lurdes levantou-se da sua cadeira e retorquiu com firmeza:
– Não é um hábito da nossa escola, Senhor Diretor !
Duas risadas ,vindas da multidão de trinta adolescentes de cor predominantemente negra, aprovaram a firmeza da “Setôra Lurdes”.
Os olhinhos pequenos, e visivelmente pouco inteligentes, do obscuro licenciado em Direito que o ministério enviara para optimizar o desempenho do estabelecimento percorreram a turma com visível repulsa em ver tanto preto. Contudo na sua mente uma consulta aos regulamentos confirmava, de facto , que o acto de os alunos se levantarem à entrada do Diretor na sala de aula não era uma obrigatoriedade pelo que resolveu ser mais diplomático. Cruzou as mãos atrás das costas e questionou em tom benevolente:
– Doutora Lurdes . O Inglês é ,de facto, fundamental no desenvolvimento da competitividade da nossa nação . Pode-me mostrar o que os seus alunos já sabem?
Os olhos da professora faiscaram perante o impertinente funcionário e a sua ousadia. Havia uma raiva dificilmente contida na resposta crispada:
– Senhor Diretor, os meus alunos são submetidos a avaliação regular. Não me parece de bom-tom exibir os seus conhecimentos para seu entretêm.
Um suspiro despeitado e um encher do peito foram acompanhados por um erguer ligeiro dos calcanhares. Vingativo , o olhar do dirigente indicava claramente a Lurdes que iria sofrer um processo disciplinar.
Uma voz grossa veio do fundo da sala:
– Diretor. Queres ver a gente a falar inglês? – quem falava era Daniel , MC Sem Xeta no mundo amador do hip-hop dos corredores do liceu.
O representante do Ministério da Educação viu uma oportunidade de melhoria de imagem , Lurdes seria processada e disciplinada mais tarde ;dirigiu-se ao aluno:
– Sim , sim , diga lá qualquer coisa em Inglês – de novo os braços se cruzaram atrás das costas do ser patético que se prostrava na beira do estrado.
Como a fúria dos “beats” dos guetos americanos as palavras bateram feitas balas no focinho do atónito gestor escolar:
– Job for the boys . Boys of the job
O silencio incrédulo perante a agressividade do discurso do alto negro, que agora se erguera e fixava o olhar de Mike Tyson no seu, foi sadicamente esfaqueado pela voz educada da Professora Lurdes:
– Quer dizer em Inglês . Trabalho para os rapazinhos ou rapazinhos do trabalhinho.
As órbitas do Diretor incharam-se de uma fúria incontrolável. A professora e aquele bando de futuros delinquentes devia ser banido do ensino. Ele ; ele era o representante do Estado, o líder nomeado por despacho ministerial . Corava de fúria mas não teve tempo para retorquir , mais uma saraivada de palavras partiu do mestre de cerimonias:
– Boy , Tens um Job, boy ? Que “motherfucker” mamaste para ter o “Job”? – Ao entoar desta rima dois outros alunos levantaram-se, com os punhos fechados junto à boca ,e começaram a soprar um “beat” ritmado ao som da palavra . Os braços cruzaram-se e dezenas de olhos de ódio filaram os primeiros momentos de medo do Diretor. O MC rematou a linha :
– Um blow Job do boy para o Job , boy!
Uma enorme gargalhada e o som amplificado do baixo vocal que, nesta altura , já era entoado por uma dúzia de DJ’s do sopro antecederam o último momento de postura do homem humilhado. Em vermelho apoplexia urrou para a turma que o desafiava:
– Vocês sabem quem eu sou ?Sabem ? Sou o vosso Diretor ! Quem manda! O chefe !Estão a perceber , bando de pretos de merda ?
Lurdes sentou-se, o Diretor havia cometido um erro catastrófico e já não havia muito que ela pudesse fazer.
A desvairada racista do Diretor encontrou pela frente quatro armas de fogo empunhadas por Daniel e a sua “crew” . Os joelhos do anafado membro do partido do governo cederam e quase caiu, uma imensa soltura escorregava dos seus intestinos. Com um gritinho de borrada aflição fugiu , os seus passinhos de corrida ecoaram pelo corredor cortando o silêncio tenso. Quando se apercebeu que estava fora do campo de fogo o Diretor começou a chamar, histericamente, pela polícia.
Lurdes levantou-se e encarou com determinação os canos ainda apontados na sua direção. O olhar dos alunos serenou , o “beat” cessou e as armas voltaram aos seus esconderijos. Daniel falou:
– Setôra , vem aí a bófia . Nós estamos fora daqui.
Tentando manter a firmeza Lurdes acenou e a turma começou a dispersar. Um dos últimos a sair foi Daniel, o MC. Disse algo que Lurdes não esperava ouvir:
– A Senhora fica bem ? – no rosto do jovem a expressão de agressão fora substituída por uma preocupação aparentemente genuína – Quer vir connosco ?
Lurdes negou:
– Eu fico aqui. Estou bem. Vai-te embora por favor.
O punho fechado de Daniel embateu contra o peito, no lado do coração, uma saudação de grande consideração no código da rua. A última palavra que proferiu antes de abalar foi:
– Respeito!
Cerca de trinta minutos mais tarde a PSP chegou, Lurdes foi acompanhada ao carro patrulha por dois agentes e um direto televisivo. No seu momento de glória mediática o Diretor proferiu uma atabalhoada intervenção onde exultava as virtudes da política do governo e apelava à necessidade de uma mão de ferro para dominar as rebeldias e insubordinações da classe docente.
Nessa mesma noite, numa sociedade recreativa de um bairro com nome de azinhaga pobre , Daniel , MC Sem Xeta, estava em casa. Perante os cento e cinquenta que assistiam ao seu “flow” pediu o silêncio e dedicou o tema a uma kota pula que marcara a posição perante um anão racista. Os braços de muitos alunos da sua turma estavam presentes na multidão e ergueram-se de punhos cerrados. Daniel sentiu o microfone tremer-lhe na mão, um arrepio de revolta inspirou-o para a rima; o DJ riscou os pratos e lançou a batida.

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