A Sul

Esta noite rasgo tudo o que erigi em patética adoração ao deus do capital e do enriquecimento. Esta noite vomito em grossas golfadas a normalização do meu ser e ,em plenos pulmões ,perante teu espanto que nada gera mais que desprezo e asco grito :
– A Sul!!!
Lembras-te do Tim todo congestionado a urrar ao microfone? “É hoje dia primeiro de Agosto e tudo em mim é um fogo posto” ? Claro que não ! Claro que isso são coisas de tempo de miúdos, arrumadas numa gaveta de vergonha , incompatíveis com os seres decentes que temos que ser . Lembras-te do pavilhão do Restelo a pingar suor do teto e nós, putos marados , a bebermos cada acorde ? Obviamente que é uma memória que se secundarizou na fona da vida adulta.
Sabes que mais ? Que se foda . A sul !!! Eu vou a Sul. Hoje, independentemente da puta da merda da folha gregoriana, da data de sistema, da hora legal que o locutor da rádio anuncie; hoje para mim é dia um de Agosto. E “É tanto o sol pelo caminho, que vendo um não me sinto sozinho” . Tu não és um caminho . A estrada , o grande asfalto chama por mim O diabo que carregue a europeia A2 e as suas zonas de serviço asséticas onde alentejanas usurpadas ao campo-mãe impingem sandes preservativo mistas de nada . A Canal Caveira ;sandes de carne assada gordurosa , prostitutas velhas de berma e camionistas com posters do Benfica na traseira da cabine do TIR , linhas de coca com motoqueiros alucinados que garantem uma hora do Canal a Albufeira. A Sul !! Deslizar pela estrada velha e parar para vomitar nas curvas da Serra iluminado pelos faróis dos grandes camiões .A Sul , às aguas quentes do Barlavento .A sul ;a bares repletos de operárias britânicas de Sheffield que nos engolem entre duas cervejas e o cântico do Manchester United . Sémen feito Tantum branco de gargantas saxónicas ; olhar vago nunca correspondido por olhos azuis congestionados do escaldão estival e do “Ecstasy “ bem elaborado.
A Sul .Apenas com alucinação e promessas de caos na bagageira do carro. Tua memória e de todas outras responsabilidades abandonadas como um rafeiro morto , estropiado , na berma da grande estrada. A janela aberta a chutar para dentro do mim o calor do Alentejo , no estéreo aquela batida marada que faz os corpos suarem até à exaustão. Esta simpatia pelo diabo , ..é apenas” rock n´roll “ mas eu adoro-o .
A sul ! Acordar com a pancada do bófia no vidro do carro e, em óculos escuros e sorriso de ódio, pedir uma desculpa que não sentes. Na alma um Charles Manson que gostaria de mutilar.
A sul , o Atlântico com sabor mediterrânico a beijar-me as canelas e a encharcar os “jeans” sujos de óleo de motor e resíduos da noite que foi. O olhar posto no horizonte e este sol, que tudo de mau queima ,a trespassar a pele como um solo de uma grande guitarra a fundir-se na lava da distorção .
A sul!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s