Mama Sume

19 de Setembro 1965 , algures perto do Lago Niassa.

Uma rajada voou por cima da minha cabeça. Encolhi-me para metade de mim e rastejei até uma pequena pedra que era o único abrigo visível no meu curto campo de visão . « Merda do capim ».Algures uns vinte metros à minha esquerda, a voz do Sargento Tristão :
- Não responder ao fogo . Poupar munição , poupar munição – Depois um grito que apelava a alguém que já não iria responder – Matos ! Matos ! Onde é que estás com o cabrão do rádio?
Do flanco da linha veio a voz minhota do Paixão, antecedida por um grosso escarrar e um disparo da G3:
- O Matos foi-se Sargento. Meteram-lhe uma bala no bandulho – o tom forte da sua voz atrai mais uma rajada proveniente das árvores a nossa frente – foda-se.... turra de um cabrão ! – Um disparo . A voz do Sargento mais uma vez autoritária: - Não abrir fogo sem ordem !
Do lado oposto a Frelimo responde com apenas dois tiros. « Devem estar a ficar secos » - alegro-me um breve segundo - « tal como nós». No bolso apalpo a carta do adeus, tenho-a sempre comigo desde que vim para Africa. Penso que o cabrão do Salazar e o filho da puta que organizou esta saída pela picada é que deviam estar aqui, colados ao solo, imóveis , rezando que ,entre um tremular do capim embalado pelo vento do fim da tarde, a nossa cabeça não se torne visível a um atirador. Somos o que resta de um grupo de combate da 28º Companhia de Comandos. Dos vinte cinco homens que marcharam pela manhã restam menos de uma dezena. As minas, a falta de apoio aéreo e uns mapas de merda meteram-nos na boca do lobo.
- O rádio ?? Onde é que está o cabrão do rádio? – A impaciência do homem mais graduado . Nunca o ouvi tão irado.
- Foda-se Sargento, está com o Matos ! – Replica de novo o Paixão. Deve haver algo de muito incomodativo na sua voz densa e agressiva. Deve soar a colonialista pois os pretos abrem de novo fogo. De ambos os lados escuto o ruído dos corpos a minguarem misturados com a terra.
- Então vai lá buscar! Onde é que está?
- Vinte metros atrás de mim, Sargento – Algum desconforto no Paixão. É obvio que será ele a fazer uma viagem arriscada.
- Duas salvas de fogo de cobertura – a voz do duro homem que lidera a minha equipa é tão determinada que sinto que nada pode correr mal. Engatilho a arma, tiro manual. Dois disparos à voz de comando.
-Preparar . Fogo - a voz é firme na ordem. Os elementos que restam levantam-se em posição ajoelhada e fazemos fogo simultâneo sobre a linha de árvores onde se oculta o inimigo. Vejo com agrado a queda, já mortos, de dois turras mais descuidados que estavam demasiado expostos. O fogo foi preciso. Somos elite.
- Rádio – grita o Paixão. Está vivo. Bom para todos.
- Preparar! Fogo – a segunda rajada é mais difícil. O inimigo está precavido. Ao surgir das nossas figuras em ponto de fogo ripostará. Assim tal acontece.
À minha direita escuto um “Ahhh “ e tomba mais um soldado. O Ribeiro, atleta, pugilista. K.O em Moçambique. Por detrás de mim o restolhar do corpo do Paixão a rastejar para a posição do sargento. Rodo sobre mim e vejo-o:
- Paixão. Estás bem?
A resposta que recebo é um mero aceno atarantado de um rosto incrédulo de ainda existir. Rodo de novo para a posição de tiro.
Durante uns minutos persiste o silêncio. Quase absoluto, todos os sons da grande África calaram-se . Ocasionalmente um desafio:
- Português. Tu vai morrreeer - Após este final esganiçado ecoa da floresta um coro; “Uh!Uh!” e um tambor guerreiro. Aperto com força a coronha contra o ombro. Não há movimento. Voam apenas palavras na trincheira improvisada.
- Foda-se! Merda de material – pelo som é obvio que o Sargento está a desfazer à porrada um rádio inoperacional. Estamos tramados. Engulo em seco. Começo a ganhar a perfeita noção que de amanhã não passarei. Os primeiros sinais da estrelada noite do mato aproximam-se.
O Sargento passa palavra. Tentar retirar recuando – Devagar; muito devagar – aconselha.
Pelas 22h05 iniciamos o movimento. Como lagartos de camuflado deslizamos ,na lentidão que aprendemos no lodo. Olhos atentos e rastejar suave. Quero ser invisível. E sou-o.
O deflagrar de uma mina, a menos de quinze metros da minha direita , atira com restos do Paixão para cima de mim. Já cansado de ter visto tanta morte ao longo do dia não me sinto particularmente afectado pela perna que pousa perto do meu rosto.
Estamos encurralados. Atrás um campo de minas, em frente a desconhecida força hostil . À esquerda, o rio. O flanco direito, por onde chegamos ,é a linha de união entre a seara de explosivos e a capacidade de fogo do inimigo.
Alguém me sussurra, perto, muito perto:
- Viste aquilo pá ? O Paixão foi-se – era o Loureiro, o elemento mais estranho do meu grupo de combate. Filho de gente importante, finalista de teologia , abandonara tudo para ingressar na tropa mais dura , nós , os Comandos. Dele só nos rimos ao principio, era tão rijo como qualquer um de nós. Rezava todas as noites. Muitas vezes em silêncio a caserna escutava. Como se o menino do papá orasse por todos nós. Pela unidade.
Aceno que sim, que vi o Paixão morrer. Pergunto:
- Quantas balas tens?
O olhar preocupado responde:
- Quatro . Estamos bem fodidos, não estamos?
Embora o medo me inunde por todos os poros respondo com a frieza que aprendi na recruta:
- É fodido ser Comando – olho-o para ver se encontro alguma coragem – Comandos não morrem, Reagrupam-se no Inferno
Coberto pela escuridão conseguimos rastejar até junto uns dos outros. Somos sete. Dividi-mos munição; cinco tiros cada homem. O Sargento é o ultimo pai que iremos conhecer, por isso escutamo-lo em reverência atenta:
- Os gajos vão carregar pela primeira luz. Devem estar com pouca munição. Há duas horas que não disparam – o olhar percorre-nos com dureza. Uma ordem que não gosta de dar – Armar baionetas.
O treino militar corta o breve segundo de assombro e receio que nos invade. Com gestos precisos as nossas lâminas brilham ao parco luar e são colocadas junto à boca da arma.
Passam-me horas. Creio ter dormitado um pouco. Acordo sobressaltado pelo canto de um pássaro que ousou voltar às copas. Uma baixa neblina cobre o mato dando-lhe um aspecto de cemitério. Lembro-me de um filme de terror onde mortos caminhavam. A bruma era a mesma. Ocultava apenas a metade inferior do corpo. Os meus olhos alarmados percorrem o fino fumo, gélido como a morte que sinto a vir, procuro vultos , catanas no ar.
O tambor recomeçou. Pancadas graves e muito perto de nós.
Momentos depois, embrulhado em dois archotes surge um velho, o corpo pintado , o aspeto tribal é obvio . É um feiticeiro. Na mão agita o rabo ,ainda sangrando ,de uma cabra. Não me contenho. Tenho um bom ângulo e arrisco o disparo. Não acerto. «É impossível» penso horrorizado. «Nunca falho um tiro destes». O feiticeiro vira a sua atenção para onde estou. Tem um olhar insano. Os dentes foram afiados com limas. Aponta na minha direção. A névoa traz uma voz intemporal e assustadora:
- Tu! Tu não mata – A cauda de cabra é agitada no ar.
Muito perto de mim o Loureiro ajoelha-se e faz fogo. Desta vez está lixado. O tipo é o nosso melhor atirador.
- Como é que? – Atónito o Loureiro mira a arma traidora.
Brusco o bruxo avança quatro passos determinados. Os que o acompanham com os archotes avançam. Estão desarmados, os seus olhos transtornados estão fixos no horizonte, para lá das nossas costas. De novo a cauda é agitada:
- Tu . Morre!!
Ergue os braços ao céu e brada algo numa língua ancestral. Dezenas de vozes negras entoam “ Noyi , Noyi , Noyi” O ritmo do tambor acelera. Eles começam a sair. Em passo lento, há algo de doentio e fanático no seu andar. Os corpos adornados para a batalha , longas laminas na mão. Vem para nós. Querem-nos trinchar. Preparo-me.
- Fogo! – A voz do Sargento faz-me saltar como uma mola e descarregar as quatro munições que me restam. São tiros que não causam baixas. Pelo coro de “foda-se” e “o que é esta merda? “ que escuto as nossas balas não atingiram um único alvo. Só nos resta a baioneta. Instintivamente procuro um companheiro. Encontro o Loureiro. Largou a arma. De joelhos, prece cravada no céu , reza alto. Sacudo-o:
- Atenção Comando! Ataque inimigo!
Duas mãos de unhas mal cortadas e imundas cravam-se no meu rosto. Os olhos têm a insanidade dos mártires:
- Tu não vês? Só Ele nos pode salvar. Só Ele!!!
As mãos voltam à posição de reza deslizando pelo meu rosto; cavando socalcos de sangue que ardem em contacto com o suor.
A voz do meu irmão de armas é a única voz que escuto. Dentro de mim o silêncio, preparo-me nas linhas do Padre Nosso para encontrar o meu fim.
Um grito de agonia corta o meu momento de fé. Vem do outro lado. Não entendo. Esforço o olhar pela neblina e parece-me ver um vulto de vestes longas correndo entre nós e os pretos.
De súbito ,outro grito, em língua de turra ;e outro , e outro. Brados de óbito começam a manar do lado inimigo. Pela quantidade o Sargento percebe que algo está a acontecer. Ordena numa voz de Marte:
- Comandos . Carga ! Mama Sume!
Gritando como loucos , baionetas caladas , passo de carga encontramos apenas dois pretos ainda vivos , furamo-los com rudes golpes. De resto tudo morto, a decepagem de membros , os profundos cortes não foram feitos pelas nossas laminas. São golpes de gládio bem maior.
Vagueamos por entre o que resta desta tropa superior em número. Não acredito no que vejo, não acredito ainda estar vivo.
Do fundo, já dentro do arvoredo, ecoa a voz de demónio do feiticeiro. Magia negra, ódio de escravo. Benzo-me:
- Noyi ! Noyi – desafia à distância.
Outra voz, esta lusitana, brada mais alto.
- Por El-Rei – o grito do bruxo cala-se
Ainda mais confuso olho em redor e procuro o Loureiro. Não está entre os que patrulham entre os bocados de turra. Volto a correr à nossa posição inicial. Encontro-o vivo, ainda em fervorosa oração. Tenho uma pergunta que me está a sufocar. Ajoelho-me e puxo-lhe o rosto para junto do meu :
- Ele quem ?? Loureiro . Ele quem ????
Uma catarata de lágrimas tomba sobre os lábios trémulos. Abraça-me junto a si, a força dos sobreviventes. Beija-me a cabeça e sussurra-me ao ouvido.
- O Condestável. O nosso Santo Condestável.
Há perplexidade em mim . Levanto-me e uso a mira telescópica ,que tenho direito como atirador especial, para vasculhar o horizonte. Já há muito dia no ar. Procuro, procuro e quando o encontro ajoelho-me.
Ao longe, em passo lento ,um homem de barba caminha . Enverga um traje de monge. À cinta balouça uma enorme espada cujo gume não brilha devido à pasta de sangue que o cobre. Vira-se em minha direção e levanta um braço em saudação. O hábito, rasgado na zona do peito, revela uma cota de malha que reluz perante os primeiros raios de Sol.

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