Do Rock – Placebo

Corta-me a guitarra plena de vício com a voz efeminizada, corta-me a ansiedade do caramelo que se desfaz nas mucosas com o ansiolítico que impede o salto do andar alto.
Sê minha amiga , mãe , conselheira  embalada em clarividência de papoila a  vinte pisos do asfalto onde os transeuntes correm a corridinha dos ratos loucos no labirinto do compromisso. Não me fales de nós ou abato-te com o ferro que o lado mais incerto da vida me deu .

Dá-me uma manhã pura onde os lençóis cheirem a sémen e fumos ilegais, privilegia-me com a tua nudez andrógina onde os seios são pequenas ameixas da mulher que aparentas ser e as seringas repousam, fatigadas do amor , na mesa de cabeceira.
Não te preocupas comigo sei-o bem , sou mais um triunfo da tua idade precária , sou mais um que gritou o nome da deusa imunda  entre tuas coxas. Sou o cinzeiro pleno de beatas de infusões várias, sou o coração tão quebrado que deixou de existir nos sorrisos falsos , sou a caixa dos sapatos que usaste apenas uma vez e disseste serem feios . Não há nada mais a fazer . És todos os seres que podias fingir e iludes-me na canção. E eu sei-o , deixo-me ir , olhos de pupilas pequenas , coração que bate rápido por interacção química que simula a emoção e sobrevive no contentamento das duas gramas diárias.

Dança  nua , talvez, apenas, o quimono que mãos de crianças destinadas à morte teceram  em rocas sem fusos e vidas sem usos. Inquires-me , entre as insinuações do teu corpo magro , se gosto de homens e se a minha ânsia de ti não é apenas uma mentira à minha inversão.
Silencio-te, dois dedos na boca ,” chiu chiu “, rompo-te as entranhas intestinais para te dar a ilusão que te enganas e grito dentro de ti com o meu cabeleireiro no pensamento.

E quando a manhã raiar vamo-nos rir da insanidade e de como a morte se veste de guitarra baixo. Ou talvez não passemos desta noite , quiçá nos findemos no colapso coronário da anestesia para equídeos , talvez as nossas almas se desprendam da gravidade que o mundo dos homens de postura graves nos deu, nossos insustentáveis ferrolhos de insanidade.
Cairemos em direcção à tumba como cometas de tonalidades roxas numa chuva estival que ninguém tem nome para dar .  Gosto tanto de ti  mas pareces durar de mais e o néon que vem da rua traz-te rugas de mulher velha aos trinta anos . Escoras a respiração, e amaldiçoas os meus olhos negros da noite e da desmesura de tudo o que dissimula a tristeza.  

O céu chama por nós e tu , dançando nua no quimono  que as crianças teceram , relembras que a cada palpitação mais um menino de costelas reviradas para fora pela fome se foi e que ,aos pés da cama, persistem os sapatos que curtiu antes de morrer. E ris-te , e dás-me a arma e digo que não te consigo odiar tanto. E a seda que os imberbes teceram cai no chão , teus pés de maldição percorrem a curta distância entre nós e dizes “chiu,chiu “ e levas-me para dentro de decadência que tens húmida da vontade de ser um pouco viva.

A guitarra rasga mais um acorde que me leva para o mundo a cair aos bocados e , subitamente , relampejo os olhos à consciência. Na penumbra do quarto de pensão que alugamos após o concerto aspiro o cheiro do teu anonimato. Percorro com os olhos os resíduos da noite e não deslumbro prevenção. Em bicos de pés acaricio-te o cabelo revolto e agradeço-te pelo filho ou pela doença que plantamos na noite que parecia ser de querubins alucinados em cloridrato de cetamina e agracio-me com a tua última visão antes de procurar a janela que leva ao abismo. Digo-te adeus na brisa que sopra dos lados do rio e salto.

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