Do Rock – Nirvana

Não consegui ver a arma. Fui totalmente incapaz de percecionar a metamorfose do braço da fender no aço frio da caçadeira remington. Faltavam cinquenta e oito dias , quantos caldos ele terá dado nesse intervalo de tempo ? Mil trezentas e noventa e duas horas onde aquele olhar alucinado que se encaixou no canto mais distante do palco do Dramático se afundou , grama a grama , riff a riff , até ao disparo fatal . Mas não vi , não vi a morte a dançar no meio do mosh que se formou quando o rei canhoto do rock entrou em palco; os meus olhos de pupilas feitas cabeças de alfinete cintilavam na esperança do caos em formato de concerto , esperanças estéreis lançadas aquela figura franzina que sabia esmagar guitarras contra os marshals ; que voava , ossos ignorantes à fratura , sem medo, pleno de medo .Que se foda tudo , punk triste de olhar sem esperança , rocker supremo , unificador das tribos da distorção. O seu voo para a multidão, camisas de flanela sujas, cabelos longos e descuidados, o cheiro do suor e da ganga imunda , haxixe , pingos de sangue da hemorragia do caldo , tudo flutuava ao som daquela guitarra em momentos tão branda , em outros rasgando a alma em muralhas de distorção , aquela voz rouca cheia de raiva perante tudo e todos que exigia ao mundo que nos entretivesse. O dramático estava a abarrotar, do teto caiam gotas da condensação do odor e da ânsia da multidão. Ninguém sabia que estávamos perante alguém que oito semanas depois estouraria a cabeça com uma munição de alto calibre , que deixaria o mundo órfão de mais um rebelde que não suportou o peso da fama. Ignorávamos eu e todos que nos agitávamos nas filas da frente, que do alto do Pártenon celestial de nuvens cor-de-rosa pintadas a LSD e alucinação os fantasmas tóxicos de Hendrix , Joplin , Bonham, Bon Scott e Sid Vicious já o chamavam. Nada víamos , éramos bebés chorões que nos havíamos prostrado aos pés daquele milagre de rock puro que se chamava Nirvana. Bebés assustados com um mundo que começava a acelerar em mudança incompreensível .Lembro-me da Sandra , camisa de flanela e olhos congestionados , aos meus ombros , a gritar em plenos pulmões “Rape me “ enquanto o seu sexo encostado ao meu pescoço tremia e soluçava na memória do padrasto que entrara lá dentro cedo demais , errado demais. O Manel das Gringas , a pontapear tudo o que o rodeava e a entoar que não era o único . Mais um lacrimoso filho do grunge que acabou dois anos depois na ponta da seringa na casa de banho imunda da estação da Amadora. E lá em cima , o Kurt , escondido atrás do microfone ,no canto mais longe do palco , olhos vagos , não de heroína mas já de morte dizia-nos que todos tínhamos medo , que não precisávamos de respirar . Quando a raiva pura de “Breed “ invadiu a amplificação de Cascais perdi o controle, não me lembro do que fiz , do que disse , de quanto sangue me escorreu do nariz esmagado contra o cimento .
Naquele momento não tinha uma mente ( Mind, don’t have a mind)
Naquele momento só queria fugir ( Get away )
Da casa que por tanto amar não conseguia suportar ( Away, Away from your home )
Tinha tanto medo ( I am afraid )
De todos os fantasmas em mim

Sai do concerto com um profundo nó no estômago, a carência de drogas justificava a dor , mas havia algo mais . Algo me dizia que vira pela primeira e última vez a raiva insuportável dos suicidas. Tinha razão. No dia seis de Abril chorava lágrimas amargas pela morte do meu ídolo. A campainha tocou , era a Sandra, os seus olhos estavam vermelhos do desgosto , o rosto vazio , uma órfã de Seattle. Perguntou-me se podia entrar, abracei-a e choramos ali pelo nosso irmão de guitarra canhota que se tinha ido embora. Deitamo-nos na cama e acariciei-a longamente, chamei-lhe menina linda, chamei-lhe Polly , beijei-a com meiguice e desespero , os nossos corpos doíam , o lítio acalmou-nos a dor . No dia seguinte, quando acordamos, o mundo não era o mesmo .Ela partiu uns meses mais tarde , nunca mais a vi. Por vezes olho a noite fria enquanto a bateria poderosa me martela o cérebro e a rouca voz diz que tem que encontrar um caminho. Nas estrelas do céu procuro o brilho da constelação Nirvana e rezo para que a Sandra ainda esteja viva.

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