Do Rock – AC/DC

O tipo que controla as entradas no estádio deita um olhar divertido à minha companhia.
O velho Lucas aparenta ser uma ovelha tresmalhada no grande mole humana que enche o relvado e se agita, nervosa ,perante a iminente  chegada do grande comboio de aço que a Austrália lançou a este mundo sobre o nome de AC/DC.

Sorrio ao segurança e condescendo com a cabeça a sua jocosidade. Em seguida sussurro-lhe ao ouvido :
– É o meu avô. Enrola-as mais rápido que tu

Esgueiramo-nos entre a multidão. A tez tisnada em contraste absoluto com a longa barba branca cria inesperados corredores de acesso. Há algo em Lucas que emana o respeito da tribo do rock . Talvez seja a sua boina idêntica à do vocalista , quiçá a t-shirt negra com os restos de tinta da tournée de oitenta, talvez os olhos congestionados pelo haxixe que fuma em cachimbo de prata.
“Cónicas “- explica-me amiúde vezes, antes das mortalhas e dos telemóveis , antes de ser tão fácil ir ao concerto como ir ao cinema. Relata-me os tempos de ir para Inglaterra ao tomate e aos grandes festivais de verão , as festas das garagens. O bando de rapazes a contemplar a primeira stratocaster como se da mais bela peça de arte se tratasse . Falou-me de Vilar de Mouros , falou-me do país a acordar , das raparigas a terem saias mais curtas e bambolearem as ancas. Das noites do Bairro Alto onde o som das guitarras trinou mais alto que os fadistas e a distorção fez tremer as paredes das velhas casas.

Paramos a meio da arena. Posição central . A cerca de cinquenta metros do palco. O velho Lucas faz-me sinal que se vê bem e ouve melhor. Exemplifica com um gesto de dois punhos fechados a embaterem nas orelhas. Concordo e devo mostrar alguma patética reverência à sua sabedoria pois recebo um soco no braço e um gesto impaciente para que acenda mais uma pedrinha. No sistema de amplificação o volume vai subindo, as guitarras vão  aquecendo a multidão. Tenho uma secura imensa na boca, ele mantém-se impassível, apenas os olhos indiciam a brutal congestão de cannabis . Bate o pé ao ritmo da música, a vestimenta integral de ganga e os esfarelados ténis Sanjo fazem com que muitos olhares se dirijam na nossa direcção . Lucas aproveita o facto para cravar uns bafos em droga alheia que agradece com o seu sorriso de lobo velho e os polegares voltados ao céu.

Quando a escuridão antecipa o momento de entrada em cena de Angus Young e pares o meu amigo deita  fora o charro que tinha na mão e fixa o olhar no centro do palco. Uma mão entra em jeito malandro no bolso dos jeans apertados , a outra levanta-se num punho fechado. O queixo ergue-se com se ansiasse pelo impacto do muro de concreto que vai sair das colunas dentro de alguns segundos.
Para aqueles prestes a vibrar com o rock os canhões que encimam o palco proferem uma ruidosa salva . Depois vem a banda . A explosão , as luzes que rasgam os olhos e a batida seca e sincopada da secção rítmica. Sessenta mil entram em delírio quando o homem de calções cruza o palco e a sua guitarra começa a emitir os acordes que abrem as hostilidades.

Algo de aleatório no sistema de luzes faz com que um foco caía directamente sobre o Lucas. O braço esticado , a cabeça em direcção ao solo , o capacete a abanar, o dedo mindinho e o indicador a esticarem-se na saudação que alguns dizem ser do demo. O corpo sacode-se ao ritmo do bombo . No delírio daquele homem vejo a imagem perfeita da eternidade do rock n’roll . Dou-lhe um encosto no ombro e rio-me no seu rosto . Começo aos pulos como um louco. Parece-mos os putos a alucinar. As mãos a gesticularem a pose do guitarrista, punhos fechados a rifarem na atmosfera. Cabeças a abanar. Em redor a electricidade do nosso dueto lança as pessoas num frenesim. Punhos levantados, o baixo a enrolar um grande contratempo com a bateria. A voz rasgada a dizer que soam os sinos do inferno e que nós estamos a ir para lá. A voz da multidão . Ei . Ei . Ei

Deliramos durante as duas horas do espectáculo. No fim , arrasados pelo terceiro encore, secos por dentro , encharcados até aos ossos na cerveja e no suor, saímos apoiados um no outro do estádio agora quase vazio.
No parque de estacionamento algo parece fazer reviver o Lucas. O diabo do homem vai buscar energias a não se sabe onde. Talvez ao espelho que guarda no porta-luvas e à saqueta de meia grama de branca que cheiramos para voltar a nós.
No rádio uma velha cassete toca. O Lucas, olhos de louco , serena voz de chefe índio, diz que na fronteira de Elvas há uma casa onde as coxas das mulheres são roliças e baratas . Que no meio de um caminho que não leva a lugar algum há  uma casa de luz vermelha onde vão os homens sós e os predadores do pó da estrada. Que motas cromadas e mulheres de lingerie negra esperam por nós.

– È apenas sexo , drogas e rock n’roll e eu adoro essa merda .
Lucas roda a chave e o asfalto cola-se ao rodado do carro. De janela aberta , o vento nas fuças , o velho rádio a tocar baixo , bateria e guitarra , a coca na venta e o asfalto sempre a deslizar por debaixo de nós . O pé acompanha o ritmo , o pé do Lucas leva o motor ao limite. Lá á frente a luz dos faróis e os traços da estrada consomem a escuridão. Levo aos lábios a cerveja que adquirimos na primeira estação de serviço. Muitos goles depois da paragem  Lucas sai da estrada principal , ao fundo do negrume distingo um barraco onde uma inevitável lanterna vermelha alumia a porta fechada.

No interior a noite perde o controlo e leva-me na viagem alucinante que só acaba com o anúncio da aurora.  A memória torna-se uma sucessão de polaróides instantâneos retratos que persistirão entre o vómito e a ressaca. O Lucas a subir para o andar superior com dois longos pares de pernas, o absinto a desaparecer no meu copo. Mais uma linha , mais uma canção que fala de uma mulher chamada Rosie, mulheres de lábios escarlates levam-me a lugares mais reservados. O velho Lucas a fechar o punho e a uivar como o lobo antes de entrar no quarto com as beldades. E agora , na manhã que traz uma tonelada ao cérebro e a cortiça ao palato ecoam outro tipo de gritos. Uma voz em espanhol. Gritos de aflição:

– Muerto , Lo viejo es muerto.

O Lucas, só pode ser ele .Precipito-me para o quarto onde o vi entrar. Lá dentro o corpo enrugado , a tatuagem a encolher sobre si no braço , o quarto de putas onde emanou  o último suspiro do meu amigo. Deveria chorar mas não o faço. Percorro, com a visão ainda distorcida, o leito fatal daquele que ainda há horas atrás dançava comigo . A ausência de roupa , a garrafa vazia no chão, os aparatos íntimos de duas cores distintas. Sobre a mesa-de-cabeceira duas cobras secas de látex comprovam que o Lucas partiu bem. No rádio , que toca baixinho  junto a uma imagem de uma santa , as guitarras dos irmãos Young, a voz rasgada a vício e corrosão. Apanho a boina do Lucas e apodero-me das chaves do carro.

Perante o espanto e os protestos da dona do bordel saio porta fora. Penso que se agora Deus largasse um enorme relâmpago , fogo divino que tudo levasse a cinzas ,faria um bonito enterro ao Lucas.
Entro no carro e volto ao asfalto. Ligo o rádio o mais alto possível .
Estas rodas a ganharem a estrada . Talvez esteja na auto-estrada para o inferno mas no fundo é tudo , apenas, rock n’roll.

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