Singela Avenida

Nesta singela avenida onde outrora se cruzaram os chapéus dos cavalheiros e as sombrinhas das donzelas são outros os costumes. Boné no chão, algumas moedas, fome na cara.

O transeunte ignora o gesto, o cartão rabiscado é irrelevante. Sida , fome, filhos famintos , cegueira , tudo é motivo para o gesto apressado do não se, por má sorte, os olhos daquele que passa se cruzarem naqueles que esperam pouco.

Em um certo momento a memória daquele que se move em passo apressado identifica no homem ajoelhado no chão ,apelando à boa-fé perante a sua imunodeficiência, imensas similaridades com o invisual que percorre a linha de Sintra pela manhã e o pedante risonho e fanfarrão de um café manhoso junto à estação de Rio de Mouro.

A esta singela avenida impõe-se o regresso da bengala. Um belo bastão de punho de sólida prata. Empunhada pelo pé faria a vara justiça sobre os costados do miserável. Ah , raça indigente! A bengala pune repetidas vezes o malandrim. Os seus gritos de socorro são tão ignorados pela restante populaça como eram indiferentes os seus apelos à caridade. Quando o sangue jorra a tareia para.

O vagabundo corre rua acima, para trás o cartão rabiscado a marcador , um boné e quatro euros e vinte cêntimos. A bengala esfuma-se no ar depois de ter apelado que se marchasse a São Bento para punir outros pulhas. Apenas encontrou o silêncio da multidão e vergonha do Tejo.

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