Voz

Veio numa noite de sexta-feira quando a solidão deles era mais profunda. Eram quatro da manhã quando os rádios falaram. A voz chegou por todas as casas daqueles que pouco de feliz podem atribuir à vida. Gente sempre com medo, gente tão feia, gente tão magoada que não ousa a partilha. Famílias que já não existiam, opção, alguns para fugir da seringa que embala os arrumadores flutuantes sobre os estacionamentos à beira do Tejo, outros necessitados de hospício. As idades eram tão variadas quanto as cores das tezes ou a propensão dos órgãos para os atos sexuais.

A voz, semelhante a um grasnar insistente que repousava sobre uma banda de sonora onde se distinguiam, entre as batidas, gemidos de prazer da mais variada natureza, incitava-os a saírem à rua; assim como estavam, pijamas, chinelos, nada, short, tanga, négligée empoeirado. Incentivava-os, hipnotizava-os, era irresistível o apelo que aquela voz que não podia pertencer a espécie humana lançava. Cobertores deitados para trás, colchas de sofá abandonadas, os cartões de um grande frigorífico devolvidos á condição de lixo.

Na rádio, na estação mais popular da cidade, o locutor soube que algo estava a acontecer. Dentro de si a voz ordenou que tocasse fanfarras à penetração, ritmos de tempos do acasalamento. E assim, também já profundamente excitado, o homem do FM estéreo lançou um grunhido de macho necessitado e embalou uma noite onde a voz da carne cantou mais alta que qualquer outra.

Nos becos, nas vielas, casas de porta aberta, carros, no aconchego de uma sebe, aqueles que a voz chamara despojavam-se de seus uniformes solitários e entregavam-se em todos os formatos imagináveis às coisas do deboche.

Algum tempo depois, soou a trombeta do anjo da morte e todos os que copulavam morreram.

A voz foi generosa. Deixou que todos os defuntos gozassem o último estertor no momento do orgasmo mais brutal que todas as suas vidas haviam conhecido.

Na rádio, o piquetar da agulha sobre o final do trinta e três rotações e o riso da voz.

Tombado no chão o locutor e sua mascara terminal de êxtase, a seu lado o desdentado sorriso do homem da limpeza. Ambos os sexos repousam  vazios de vida.

O que dirá esta cidade com tantos lares pequenos na manhã seguinte? Quando os noticiários se atafulharem nos corpos nus e satisfeitos que surgiram por toda a cidade, o que sucederá?

Virá o medo ou dedos fartos de estarem ausentes da vida rodarão as frequências procurando o apelo da voz?

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s