Alta Finança para Dummies – High Flyer 2/2

Entretanto, no décimo nono piso do Hyatt de Atlanta, John Goodwill tenta repousar depois dos oito workshops nos quais mentiu sobre o portal que ainda não existe e papagueou figuras e tabelas redigidas pelo seu anjo empresarial. Ao canto da sala, ausente da luz do púlpito e da radiação do vídeowall, Evermore toma notas. Goodwill é hesitante no discurso. No vidro tátil “ Mais agressividade comercial. Contratar VP de Marketing”.
John sua, o nó da gravata foi rudemente alargado como se de aguilhão incandescente se tratasse. A garrafa de vinho é consumida com a voragem de alguém que sabe que tem muito que fazer, a infernal tournée de angariação de investimento está a sugar-lhe o tempo para o seu projeto. A aflição é imensa; envia uma mensagem privada a Evermore. “Precisamos de começar a desenvolver. Preciso de voltar “
Minutos depois, Evermore em pessoa, partilha o conteúdo de uma caixa de prata com Goodwill. Ainda atordoado pela pureza da matéria recebe a visita de Conchita . Evermore retira-se, ao fechar a porta adverte :
-Foda mas não se atrase para o jantar com o congressista.
Durante os meses seguintes John Goodwill fodeu as Conchitas de vinte e nove estados, comprou um Porsche e passou a ter a sua própria caixa de prata que fazia par com um elegante aspirador em platina. No espelho que cobria o interior via frequentemente os seus lábios ganharem a rigidez de uma linha. Desenfreado pela proximidade da IPO e pela acumulação de capital mudou-se para um elegante loft em Manhattan e tornou-se popular nos clubes mais sofisticados. No quadro de empregados da Goodwill apenas vigora o seu nome e as empregadas de limpeza que removem o pó das secretárias e das estações de trabalho abandonadas à inexistência da corporação.
Então, exatamente quinze dias antes do lançamento em bolsa, John Goodwill foi chamado com urgência ao escritório do seu tutor. Pareceu-lhe que a mesa que o separava de Evermore era maior de que outrora, o nó de gravata do investidor estava mais apertado que o costume, as mãos abriram-se, um tom de condescendência misturou-se com o olhar de lobo faminto:
– John. Tens duas semanas para nos mostrar qualquer coisa da tua plataforma. Está na altura de começares a escrever código
Num primeiro ímpeto encorajado pela cocaína, John aceitou o feito referindo a necessidade de uma equipa de desenvolvimento de quarenta elementos que trabalhasse num regime de vinte e quatro horas. Uma pequena risada antecedeu o primeiro corte orçamento da Goodwill Inc:
– Sabes quanto isso custa? Tens nove programadores, dezoito horas por dia. Mostra-me algo bom John – A mão acenou o final da reunião – Os olhos cravados nas costas de Goodwill reiteraram o aviso:
-Quinze dias para fazer algo de jeito que justifique o interesse dos investidores.
Durante as duas semanas seguintes várias coisas aconteceram.
Um enlouquecido e paranoico John Goodwill berrava ordens contraditórias de depuração de um código que parecia uma babel saída dos dedos inábeis de programadores de baixo custo. A pressão que sentia na nuca era uma dor que aliviava com frequência nos lavabos. Em seguida percorria o espaço aberto em passo acelerado, olhar demente sobre os ecrãs onde um desastre iminente tinha apenas página de entrada e um script de subscrição.
Todos os dias, exatamente dez minutos após o fim do horário contratado com os programadores, Evermore visitava as instalações. Aprazia-se pelas secretárias estarem vazias e, portanto, os custos controlados. A presença de John à secretária era eternizada pelo café em formato extra gigante e a sanduíche embrulhada em papel pardo. A pergunta de como estavam a correr as coisas era meramente retórica. Evermore reconhecia nas múltiplas gotas de suor que cobriam a testa de John Goodwill os sinais do vício e do fracasso.
No dia seguinte Evermore teve uma longa chamada em conferência. Para um tipo branco, republicano e com um PAR invejável o seu mandarim era surpreendente.
Cego às dificuldades de Goodwill o mercado atacou o título como um bando de piranhas em jejum forçado quando o mesmo surgiu nos monitores de transações. No Iowa, num confortável sofá, mãos enrugadas esfregavam-se de contentamento e a quilha de um veleiro começava a sair das brumas do sonho.
Ao nono dia de mercado a valorização bolsista superava os oitocentos pontos percentuais, os corretores berravam incansavelmente “compro, compro” ao papel da Goodwill. Na Internet o portal colapsava após o primeiro milhão de acessos.
No último piso de uma torre de escritórios com vista para o buraco imenso do chão zero, o sobrolho de Evermore encurvou-se e percecionou que era hora de agir. Consultou rapidamente os relógios presos na parede e confirmou que iria acordar alguém em Pequim. Marcou o número e desta vez o seu mandarim confundiu-se com o esperanto da linguagem de negócios e a palavra patente foi assegurada várias vezes.
Após a linha intercontinental se ter cerrado a mão de Evermore dirigiu-se ao teclado e libertou para o mercado uma enxurrada de ações da Goodwill a quarenta por cento do valor atualmente cotado. Neste gesto efetuou uma mais-valia de noventa e oito milhões de dólares e lançou a bomba fatal à Goodwill Inc. O mercado entrou em pânico, na sala de servidores da companhia um tresloucado John arrancava os cabelos e pontapeava um armazenamento de rede profícuo em luzes vermelhas de erro.
Na manhã seguinte a Goodwill entrou no mercado como um cão espancado quase até à morte. Transacionava na casa dos cêntimos. No Iowa as mãos enrugadas agarraram a cabeça em desespero e os pés saíram dos quentes chinelos e conheceram o frio do soalho, como se soubessem que o resto do Inverno iria ficar.
Uma semana depois dois advogados de uma das obscuras empresas de Evermore voaram em primeira classe para a China. Ao mesmo tempo John Goodwill foi notificado da sua destituição e informado que a patente industrial do portal que havia cedido nos termos do acordo com Evermore havia sido transacionada por valores confidenciais. Os termos e condições do seu contrato auferiram-lhe quatrocentos mil dólares de compensação, um seguro de saúde por mais dois anos e um selar de lábios eterno. John Goodwill assinou, uma das suas gotas de suor tingiu uma cláusula. Robert Evermore aconselhou:
-É melhor ires à casa de banho. Sujas-me o contrato.
Em seguida partiu para sempre da vida de John Goodwill.
Em Pequim, trinta minutos após a assinatura do contrato para o desenvolvimento do portal, noventa e dois programadores atiraram-se ao código com a fúria dos tigres. Cinco dias depois estavam online.
Cinco dias depois, pela noite nova-iorquina, John Goodwill sentado perante a janela panorâmica do seu apartamento parecia não sentir a labuta de uma Conchita de Queen’s.
Insatisfeito, incapaz, dispensou os serviços da prostituta e esperou que os saltos deixassem de martelar o mármore frio por onde se entrava em sua casa.
Abriu o jornal e encontrou a cotação da sua empresa, o ticker GWL, nas ruas da amargura empresarial. Um artigo de opinião acusava-o publicamente de uma incompetência atroz que manchava a perceção e confiança globais no empreendedor americano. Na página catorze passou desapercebido a John uma pequena notícia que dava conta do grande sucesso de um portal de empreendedorismo desenvolvido na China com financiamento de capitais de risco das sociedades Evermore.
Na página das cotações a Goodwill valia quatro cêntimos. Numa casa no Iowa uma voz de mulher envelhecida e plena de raiva acusava o seu esposo de como pudera atirar ao lixo todas as poupanças de uma vida, mãos trémulas pediam clemência.
O vidro quebrou-se e John Goodwill foi, tal como alguns dias atrás a sua empresa o tinha sido, um “high flyer”. A sua queda de anjo durou a brevidade do seu sucesso e terminou com aquela ideia que tinha tido em Des Moines mesclada e esquecida na massa encefálica que cobria o asfalto. Legalmente aquela ideia já não devia ali estar. Era patente de uma sociedade sino-americana com sede nas Bermudas.
No Iowa, mãos teceram o nó. Na manhã seguinte um corpo abanava na árvore em frente à casa. Os ventos do mercado embalavam o cadáver.
[sub][i]*Alta Finança p Dummies – Acrónimo usado para otimizar o tempo de leitura.
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Entretanto, no décimo nono piso do Hyatt de Atlanta, John Goodwill tenta repousar depois dos oito workshops nos quais mentiu sobre o portal que ainda não existe e papagueou figuras e tabelas redigidas pelo seu anjo empresarial. Ao canto da sala, ausente da luz do púlpito e da radiação do vídeowall, Evermore toma notas. Goodwill é hesitante no discurso. No vidro tátil “ Mais agressividade comercial. Contratar VP de Marketing”.John sua, o nó da gravata foi rudemente alargado como se de aguilhão incandescente se tratasse. A garrafa de vinho é consumida com a voragem de alguém que sabe que tem muito que fazer, a infernal tournée de angariação de investimento está a sugar-lhe o tempo para o seu projeto. A aflição é imensa; envia uma mensagem privada a Evermore. “Precisamos de começar a desenvolver. Preciso de voltar “Minutos depois, Evermore em pessoa, partilha o conteúdo de uma caixa de prata com Goodwill. Ainda atordoado pela pureza da matéria recebe a visita de Conchita . Evermore retira-se, ao fechar a porta adverte :

-Foda mas não se atrase para o jantar com o congressista.Durante os meses seguintes John Goodwill fodeu as Conchitas de vinte e nove estados, comprou um Porsche e passou a ter a sua própria caixa de prata que fazia par com um elegante aspirador em platina. No espelho que cobria o interior via frequentemente os seus lábios ganharem a rigidez de uma linha. Desenfreado pela proximidade da IPO e pela acumulação de capital mudou-se para um elegante loft em Manhattan e tornou-se popular nos clubes mais sofisticados. No quadro de empregados da Goodwill apenas vigora o seu nome e as empregadas de limpeza que removem o pó das secretárias e das estações de trabalho abandonadas à inexistência da corporação.Então, exatamente quinze dias antes do lançamento em bolsa, John Goodwill foi chamado com urgência ao escritório do seu tutor. Pareceu-lhe que a mesa que o separava de Evermore era maior de que outrora, o nó de gravata do investidor estava mais apertado que o costume, as mãos abriram-se, um tom de condescendência misturou-se com o olhar de lobo faminto:
– John. Tens duas semanas para nos mostrar qualquer coisa da tua plataforma. Está na altura de começares a escrever código
Num primeiro ímpeto encorajado pela cocaína, John aceitou o feito referindo a necessidade de uma equipa de desenvolvimento de quarenta elementos que trabalhasse num regime de vinte e quatro horas. Uma pequena risada antecedeu o primeiro corte orçamento da Goodwill Inc:
– Sabes quanto isso custa? Tens nove programadores, dezoito horas por dia. Mostra-me algo bom John – A mão acenou o final da reunião – Os olhos cravados nas costas de Goodwill reiteraram o aviso:-Quinze dias para fazer algo de jeito que justifique o interesse dos investidores.
Durante as duas semanas seguintes várias coisas aconteceram.Um enlouquecido e paranoico John Goodwill berrava ordens contraditórias de depuração de um código que parecia uma babel saída dos dedos inábeis de programadores de baixo custo. A pressão que sentia na nuca era uma dor que aliviava com frequência nos lavabos. Em seguida percorria o espaço aberto em passo acelerado, olhar demente sobre os ecrãs onde um desastre iminente tinha apenas página de entrada e um script de subscrição.Todos os dias, exatamente dez minutos após o fim do horário contratado com os programadores, Evermore visitava as instalações. Aprazia-se pelas secretárias estarem vazias e, portanto, os custos controlados. A presença de John à secretária era eternizada pelo café em formato extra gigante e a sanduíche embrulhada em papel pardo. A pergunta de como estavam a correr as coisas era meramente retórica. Evermore reconhecia nas múltiplas gotas de suor que cobriam a testa de John Goodwill os sinais do vício e do fracasso.
No dia seguinte Evermore teve uma longa chamada em conferência. Para um tipo branco, republicano e com um PAR invejável o seu mandarim era surpreendente.Cego às dificuldades de Goodwill o mercado atacou o título como um bando de piranhas em jejum forçado quando o mesmo surgiu nos monitores de transações. No Iowa, num confortável sofá, mãos enrugadas esfregavam-se de contentamento e a quilha de um veleiro começava a sair das brumas do sonho. Ao nono dia de mercado a valorização bolsista superava os oitocentos pontos percentuais, os corretores berravam incansavelmente “compro, compro” ao papel da Goodwill. Na Internet o portal colapsava após o primeiro milhão de acessos.No último piso de uma torre de escritórios com vista para o buraco imenso do chão zero, o sobrolho de Evermore encurvou-se e percecionou que era hora de agir. Consultou rapidamente os relógios presos na parede e confirmou que iria acordar alguém em Pequim. Marcou o número e desta vez o seu mandarim confundiu-se com o esperanto da linguagem de negócios e a palavra patente foi assegurada várias vezes. Após a linha intercontinental se ter cerrado a mão de Evermore dirigiu-se ao teclado e libertou para o mercado uma enxurrada de ações da Goodwill a quarenta por cento do valor atualmente cotado. Neste gesto efetuou uma mais-valia de noventa e oito milhões de dólares e lançou a bomba fatal à Goodwill Inc. O mercado entrou em pânico, na sala de servidores da companhia um tresloucado John arrancava os cabelos e pontapeava um armazenamento de rede profícuo em luzes vermelhas de erro.
Na manhã seguinte a Goodwill entrou no mercado como um cão espancado quase até à morte. Transacionava na casa dos cêntimos. No Iowa as mãos enrugadas agarraram a cabeça em desespero e os pés saíram dos quentes chinelos e conheceram o frio do soalho, como se soubessem que o resto do Inverno iria ficar.
Uma semana depois dois advogados de uma das obscuras empresas de Evermore voaram em primeira classe para a China. Ao mesmo tempo John Goodwill foi notificado da sua destituição e informado que a patente industrial do portal que havia cedido nos termos do acordo com Evermore havia sido transacionada por valores confidenciais. Os termos e condições do seu contrato auferiram-lhe quatrocentos mil dólares de compensação, um seguro de saúde por mais dois anos e um selar de lábios eterno. John Goodwill assinou, uma das suas gotas de suor tingiu uma cláusula. Robert Evermore aconselhou:
-É melhor ires à casa de banho. Sujas-me o contrato.
Em seguida partiu para sempre da vida de John Goodwill. Em Pequim, trinta minutos após a assinatura do contrato para o desenvolvimento do portal, noventa e dois programadores atiraram-se ao código com a fúria dos tigres. Cinco dias depois estavam online.Cinco dias depois, pela noite nova-iorquina, John Goodwill sentado perante a janela panorâmica do seu apartamento parecia não sentir a labuta de uma Conchita de Queen’s.Insatisfeito, incapaz, dispensou os serviços da prostituta e esperou que os saltos deixassem de martelar o mármore frio por onde se entrava em sua casa. Abriu o jornal e encontrou a cotação da sua empresa, o ticker GWL, nas ruas da amargura empresarial. Um artigo de opinião acusava-o publicamente de uma incompetência atroz que manchava a perceção e confiança globais no empreendedor americano. Na página catorze passou desapercebido a John uma pequena notícia que dava conta do grande sucesso de um portal de empreendedorismo desenvolvido na China com financiamento de capitais de risco das sociedades Evermore.Na página das cotações a Goodwill valia quatro cêntimos. Numa casa no Iowa uma voz de mulher envelhecida e plena de raiva acusava o seu esposo de como pudera atirar ao lixo todas as poupanças de uma vida, mãos trémulas pediam clemência.
O vidro quebrou-se e John Goodwill foi, tal como alguns dias atrás a sua empresa o tinha sido, um “high flyer”. A sua queda de anjo durou a brevidade do seu sucesso e terminou com aquela ideia que tinha tido em Des Moines mesclada e esquecida na massa encefálica que cobria o asfalto. Legalmente aquela ideia já não devia ali estar. Era patente de uma sociedade sino-americana com sede nas Bermudas. No Iowa, mãos teceram o nó. Na manhã seguinte um corpo abanava na árvore em frente à casa. Os ventos do mercado embalavam o cadáver.

[sub][i]*Alta Finança p Dummies – Acrónimo usado para otimizar o tempo de leitura.[/i][/sub]

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