Alta Finança para Dummies – High Flyer 1/2

High Flyer

Termo que define uma ação excessivamente valorizada num curto espaço de tempo e cuja cotação é altamente especulativa perante o plano de negócios que, na verdade, é baseado em pressupostos não verificados ou sequer efetivados.

Este tipo de “stock” (é uma forma mais elegante de dizer ação e poderá eventualmente impressionar um não-leitor de “Alta Finança para Dummies”) foi altamente popular durante a denominada era das “dot.com” (pronunciar dotecome) e, na fase atual do mercado, tem alguma dificuldade em singrar dentro do espaço comunitário devido à fraca fluidez dos mercados e as restrições de tesouraria de potenciais investidores. Todavia são fenómeno ainda notório no seio das empresas tecnológicas cotadas no Nasdaq (não confundir com Nascar que são aqueles bólides americanos que circulam em pistas ovais) e nas praças financeiras dos mercados emergentes BRIC…

Brasil, Rússia, Índia, China.

Algo confuso , caro leitor ?

Se sim a metodologia adaptada pela “AFD”* é da dar corpo aos complexos termos financeiros usando a simbologia das parábolas, das histórias dos empreendedores, especuladores, operadores de mercado e toda a restante trupe de fazenda cinzenta que constituem a galáxia dos negócios. De forma a não o aborrecer recorremos frequentemente a pequenos episódios muito semelhantes às novelas às quais o seu limitado cérebro está tão acostumado. De forma a garantir o seu entretenimento garantimos que nestas páginas poderá encontrar emoção, amor, sexo, muita devoção e luxos obscenos. Todos estes estados de espírito orientados, única e exclusivamente, para a maximização do lucro.

Contemos então como se cria um “high flyer”, uma ação baseada na ideia que John Goodwill teve no último ano na Universidade de Des Moines (Cabe informar que usamos os nomes originais das personagens pois localizar o elenco e a narrativa ao território nacional é assaz difícil Simplesmente não existe o capital e jamais alguém financiaria um tipo chamado João Boa Vontade)

Regressando a Des Moines. No dormitório onde uma festa de finalistas do curso de engenharia informática era pródiga nas drogas, sexo desprotegido, bebedeiras colossais e todos os estereotipados quadros que compõem a mitologia destas instituições de ensino onde se moldam os futuros senhores do mundo, podemos encontrar John a visualizar um portal de internet que procura investidores às ideias que os seus membros lhe submetem usando um modelo de proteção de patentes e um inovador método de financiamento baseado em contribuição viral. Visiona-se como um evangelista dos grandes inventores, o homem que faz as coisas acontecer. O pensamento é interrompido pelo borbotar conseguido por Samantha Lee, aluna de primeiro ano há quase uma década, cuja reputação labial sobre as glandes finalistas era já uma lenda do “campus”. Depois dos “Kleenex “ o projeto empresarial volta a ocupar a mente de John Goodwill. Uma aura de entusiasmo febril invade-o, tal é o seu empenho, que o retorno de Samantha Lee ao leito trazendo pela mão outra conviva é ignorado. Fixos estão os olhos de John no ecrã do computador portátil onde, sobre as células de uma folha de cálculo, o seu sonho começa a ganhar vida.

Passados cinco meses um John Goodwill envergando um fato de três peças embala-se em casos de negócio, slides com projeções, estudos, a gravata tem um nó que revela não ser ainda um hábito diário. Do outro lado da mesa, cabelo grisalho, um nó imaculado que revela anos ao mogno da mesa de reuniões, mãos perfeitamente arranjadas. Um grosso anel de puro ouro revela a solidez familiar, acompanha-o a marca de prata de duas décadas e meia de seu puritanismo branco, protestante, anglo-saxónico No bolso interior do casaco da mais cara fazenda um PDA contêm os endereços de vinte e sete prostitutas, quatro senadores, um médico que receita tudo e presidentes de vários bancos.

O “business angel” dá pelo nome de Robert Evermore. Detentor maioritário de vários fundos de risco tem uma reputação de membro superior da cadeia alimentar, mexe milhões com a cadência de um malabarista mais entusiasta, do mendigo mais necessitado de uma dose. Frenéticos, quatro monitores indicam os comportamentos das praças, o seu olhar divide-se entre a apresentação de John e os “tickers”. O seu método consiste em financiar empresas de uma forma a garantir uma renda generosa altamente compensadora do risco. Se o sucesso existir Evermore lucrará largas somas pelo simples facto de ter clicado a ordem inicial que permitiu a nascença da sociedade que envergará o nome de Goodwill como CEO. A estrutura de voto da assembleia geral está sobre total controlo de Evermore. Ele decidirá quando é que se abrirão ou cerrarão as comportas do crédito e quem se sentará nos cadeirões negros do conselho de administração.

Mãos apertam-se, a palma de Evermore é maior que a de Goodwill, envolve o jovem empreendedor como um afago sem retorno. Goodwill engole em seco quando encontra os olhos que cerram o acordo.

O patrono do jovem empresário estende a sua rede de influências, o PDA é agora frequentemente requisitado. Passadas poucas semanas, encontramos John Goodwill num campus de empresas do conhecimento envergando um polo com as cores e o motto da companhia. Os restantes lugares do espaço pensado para trinta almas estão vazios, o saldo capitalizado da Goodwill Computer, Inc, é superior a cinquenta milhões de dólares. Até agora nada foi criado, existem apenas os planos de negócios iniciais e uma agressiva campanha de marketing arquitetada por Evermore que lança o sistema financeiro na voragem de uma IPO que promete retornos explosivos. Tocam telefones, furiosas mensagens de correio eletrónico dão ordens de compra, mensagem instantânea incentivado a subscrição de preferências de compra. Só se fala na “Initial Public Offer”.

Para si, estimado leitor, IPO significa Ilusão para otários. Pequenos investidores usados por fundos de risco que brincam com o capital alheio como bobos loucos de uma corte onde todos querem transcender o lucro do trimestre passado. Os telefones tocam, queixos algo inseguros que veem pouco rendimento do seu fundo de pensões aceitam o abandono do porto seguro da poupança para poder aceder ao título da Goodwill. Do outro lado da linha a voz avisa que a taxa de rateio é pesada pois pelo mundo inteiro há inteligentes pessoas, iluminados seres que procuram um perfil menos conservador de investimento. Esses seres maravilhosos que desfrutam um futuro risonho, cruzeiros na Florida, morte assistida em inexistente dor, alguns amores, as viagens há tanto sonhados. Esse pequeno investidor que perante a promessa do retorno de mais de quatrocentos pontos percentuais condescende em contrariar uma dívida a uma taxa de juro promocional para a IPO da Goodwill. Do lado de lá da linha a voz do operador diz vinte e oito, no sofá confortável de uma casa do Iowa uma mão treme, um segundo hesitante. Depois o aceitar das condições. Quando a chamada termina uma pequena oração ecoa no salão.

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