Desobediência civil -II

Entre os fogos de verão, entre as cinzas que asfixiam o respirar da tua subsistência alguém chora uma glória que não sucedeu nos relvados da negra África. E a ti o que isso importa ?

Tirou-te a fome o petardo da Jabulani que encontrou o ferro ? O protesto da substituição que roubava a hipótese de vitória foi tão maior que aquele que proferes perante o pão que se transfigura de saloio em escasso à tua mesa. Todavia nada dizes, encolhes esses olhos encovados em direção ao jornal e folheias a página de classificados com esperança que vai pouco além da distribuição de publicidade porta a porta. Talvez seja melhor argumento convencer a amada a fazer oral ao natural ou atenderes cavalheiros que ainda dispõem de capital para ejacular o teu esfíncter em troco de remuneração.

Na rádio alguém, incauto , quiçá subversivo aos interesses da estabilidade económica, lançou a agulha sobre a voz de Zeca Afonso. Comem tudo aqueles que, decerto, não fazes parte da prole. A palavra é contenção, realismo na despesa, o ronco no teu estômago traduz restrição orçamental em fodido. E na gaveta tens a arma que compraste um dia porque o dinheiro era fácil e podias ter problemas. Agora que os tens reservas as balas para a tua têmpora ou ainda consegues inscrever nelas o nome de um ex-ministro? Mais um arquiteto não responsabilizado da tua penúria que anuncia aos microfones da nação que ,em nome da estabilidade ,devíamos assinar o óbito da esperança em redução salarial que nos faria tão competitivos como eslavos esfaimados que agora já não se ofuscam  numa cortina que outrora foi de ferro  mas  que , nos dias de hoje , sucumbem à  férrea vontade da economia livre dos homens opulentos e das métricas que pouca melhorias trazem á vida dos comuns.

Encontras o que resta da tua dignidade nos rotos bolsos da veste coçada ou na inveja pelo polimento da viatura do vizinho que, cada vez mais dias , mês após mês, fica estacionado à porta ? Cospe o asco que te sabe ao pequeno-almoço que cedeste aos teus primogénitos e recorda a arma que repousa envolta no veludo. Olhos raiados de faminta frustração retornando ao lar ,dedos trémulos de poucos euros afagar rodam o tambor e ao final da volta aleatória o ferro encontra o palato , pensas no ministro e , no momento imediato antes de premires o gatilho , concluis que não tens munição suficiente para abater todos os obreiros da merda de vida que está prestes a ir . Fodido , fodido.

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