Noturno de Chopin

Medicação para um paciente apenas. Alinhados no tampo da mesa perfilham-se como soldados de um exercito de maltrapilhos de cores diversas . Prevalece o branco e a forma arredondada. A grande maioria dos corpos tem um sulco ao meio que é o local do corte para a designada meia-dose.  Algo que está fora da minha dieta .

Medicação auto prescrita. Lista do inevitável sossego, este desejo de dormir por mil anos como um faraó alheio ao passar dos tempos, as brilhantes areias do tempo que trariam o esquecimento.

A minha mente retêm apenas três palavras do discurso anterior .

Sossego ,

Dormir,

Esquecimento .

Tamborilo o tampo onde medicação psiquiátrica conjuga um verbo que só um especialista , um rei que dorme em fofas nuvens de medo ausente , consegue percecionar a beleza . O serenar a percorrer a cadeia sanguínea, os dedos escolhem os paladinos que enfrentarão todos os medos que me assolam

Sossego é Wellbutrin, agrada-me particularmente a nota de rodapé da bula  :

“Wellbutrin é um antidepressivo. Atua ao nível do cérebro para tratar a depressão. Desconhece-se como funciona exatamente devido ao caráter inovador do produto . Estudos especializados garantem que não potencia tendências suicidas nem de automutilação”

Engulo duas doses em conjugação com Effexor , verdadeiro guardião dos pavores  e Mellaril .

O doce Mellaril que , mágicas artes da indústria , simplesmente me leva para uma estratosfera onde só perdura   o sorriso que perdi algures nos tempos tristes a que me tenho acostumado chamar de vida.

O conforto do sofá virado de costas para a janela que persiste em chamar para o deslumbramento da paisagem que existe entre o sétimo andar e o passeio pejado de automóveis. O som final seria uma amálgama de vidro estilhaçado e carroçaria amolgada. Descaio os músculos que começam a sentir o apregoado relaxamento entre as almofadas e deixo que os sons de um noturno de Chopin encham o ar que começa a ganhar cores apaziguadoras. Do subir e descer do meu peito nascem pequenos fogos-fátuos que brincam um pouco na boca do meu estômago antes de partirem em direção ao candeeiro . Há uma aurora boreal a pairar em meu redor. Pianíssimo, dedos a deixarem de existir absorvidos pela cicuta entorpecedora, Pianíssimo, abano lentamente a cabeça e deixo que o peso das pálpebras se torne um desaguar de ânsias sobre as minhas cavidades oculares tão exaustas de tanto verem. Um pequeno suspiro, aconchego de uma manta que cobre os pés .

Quando o repouso parecia ser o trilho da noite eles retornam.

No ouvido esquerdo o sussurro frio de um fantasma recomeça tudo de novo . Abano a mão , enxoto a memória de alguém que já cá não está . Em seguida encolho-me em posição fetal e cubro o rosto com as mãos. As minhas unhas sujas acariciam a testa. O suor congela quando o espetro me acaricia a face e ,  voz de alguém que foi próximo , ordena :

-Estás todo sujo . Cobre-te a face uma lama fétida . Fedes , Limpa-te.

Aumento o ritmo e a intensidade da coceira, o ardor é atenuado pelo que só perceciono a intensidade do dano quando o acre do sangue me toca a boca .

Vejo-te ainda, ganhaste forma humana , aí junto ao cortinado , queres que vá à janela . Não irei , não te quero ver , não quero o vazio de um passo a mais  , não perecerei perante teu apelo. Cravo as garras na periferia do globo ocular e escavo para que te desvaneças. Para que não sejas mais rotina de todos os crepúsculos

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