Do Rock – Lou Reed

Este primeiro cheiro de natal tem um gosto especial. É o gosto de estar sem ti , sem virgem Maria ,sem casa e sem emprego . Estar sem  qualquer coisa  que tenha cognome de certeza . É especial estar aqui, em Nova Iorque , e não seres mais nada que o primeiro número que apaguei do telemóvel quando embarquei na porta catorze da Portela. Tu querias-me dar amor e dizias “Seremos felizes” e eu só pensava nas coisas que se perdiam na vida chata que tínhamos, nas mulheres fáceis de olhos viciosos e em seringas com êmbolos de ouro. Ao fundo soava a guitarra ligeiramente distorcida e a voz cavernosa de Lou Reed. E tu dizias que era uma música estranha e eu dizia que um dia o iria ver no seu covil. Tu rias-te e dizias que eu já não tinha idade. Tu não vias que o animal do rock vive sempre inquieto na minha alma. E decidi que de ti já bastava. Já não eras a minha Julieta, eu nunca serei Romeu de ninguém. Gosto demasiado das caves negras plenas de fumos de naturezas mil, os amplificadores ao fundo da sala ,o homem velho junto ao microfone que  transpira grossas gotas de heroína e redenção. E tu , não foste minha vida , nem minha mulher mas ela esta noite foi. Como é bom caminhar na almofada do lado selvagem da grande maça carregando em nossas veias o mais puro “smack”. Bomba de vidro e as guitarras lá ao fundo na sala. No lavabo , com o garrote ainda apertando o meu batimento cardíaco sem amada ou pressa de vida , leio que a Amanda faz ao natural  por cem  dólares e que o Diamond , a Terry e alguém chamado Lee Jean brincaram jogos porcos de agulhas e bocas gulosas naquele cubículo . Alguém disse nesta porta de urinol que Deus nunca se esquece de Nova Iorque , alguém disse que na quinta avenida vai ser lançada uma linha de lingerie para pervertidos e gente sórdida. A guitarra, a voz lá dentro , alguém com a autoridade inegável de ser o sobrevivente mais perfurado do rock n’roll .Gasto , o corpo de Lou Reed está tão gasto mas a voz  não está cansada de contar as histórias que só as guitarras podem contar e os braços injectados escutar. E todavia não consigo ainda sair desta casa de banho. Vim ver o grande animal, o trovador dos urinóis onde exércitos de berlinenses se caldaram num novo holocausto e , ironia da vida , a heroína dentro de mim congela-me e não deixa que  presencie a música que tem o seu nome.

E fechado aqui neste esterco imundo onde tanta merda , tanto grego , leites e sangues contaminados se propagaram , sinto-me capaz  , sei que sou filho de Jesus. E, quando o ferro sai novamente do canal, contemplo mais um escrito na parede. É uma mensagem do criador , é talvez apenas uma frase tonta para um homem tonto mas , com esta merda toda dentro da cabeça, acredito que vi a letra da salvação e ela diz. “todas as meninas doces e os sorridentes rapazes venham dançar”

E liberto-me, fujo do lavabo e emerjo na plateia que se oscila ao ritmo lento e aparentemente sem controlo dos opiáceos injectados. Acho que toda a gente que dança comigo esteve algures num lavabo a dar uma bomba. E agora sou tão livre e acho que não sei nem me importo que esta seja a minha última noite. Esta noite de escuridão, de perdição nas vielas mais sujas onde os agarrados do crack se acariciam a si mesmos e à sua imensa privação. Enquanto ardem os bidões por debaixo dos viadutos outros drogados mais afortunados viverão festas em luxuosos apartamentos onde a arte e as seringas convivem na mais amena simbiose de pecado. Sucedem-se as telas, as odes declamadas  e as colheres a ferver o caldo da morte. E as guitarras dos homens de óculos escuros distraem-me momentaneamente de quem agora sou . Procuro de novo o teu nome. Tu que te chamavas o que? Sei que não eras nada. Um pouco de jet lag e bastante heroína apagaram-te. És uma pegada sem importância na maior avenida desta cidade onde ainda cheira a mortos das torres e aos hambúrgueres do velho Jimmy Lee que morreu baleado numa disputa entre bandos rivais na esquina da cinquenta e dois .

Nova Iorque tem Lou Reed e milhões de outras coisas que te perdem sempre a acontecer. Nunca se dorme, há sempre qualquer vício para alimentar e para as fomes dos homens a grande cidade do mundo tem todas as respostas. E esqueci-te, e já não voltarei. Espera-me o sobretudo roubado e imundo do vagabundo pleno de cirrose; braços com tromboses múltiplas. Talvez não seja assim e me espere uma tipa gira que gosta de ver os Knicks . Ou restam-me dois minutos de dança louca , quiçá o calor quente da cama de uma mexicana que acredita em jogar na bolsa. As Vénus de peles e saltos altos correm paralelas às ruas mais escuras e um polícia que se chama Jim Nova fala-lhes de deus e que há um caminho para a salvação. A puta mais velha escarra-lhe que ele é um cliente que não paga por foder as mulheres da rua. Jim Nova não sabe se ela falava dele ou do senhor.

E com tantas valsas de dias tão negros a apodrecer à sombra dos grandes arranha-céus que roubam a luz do sol aos homens e mulheres de passo apressado porquê haveria de ter saudade de ti? Aqui aprende-se a matar a saudade com inquietação e pó castanho. Aqui há tantos estranhos para chamar meu amor que apenas um rosto já não tem sentido. Em Nova Iorque todos podemos ser alguém ou optar pela queda sem que ninguém nos impeça. Ninguém terá pena de mim pois os corredores das estações de metro estão cheias de seres trémulos que pedem um níquel para o cachimbo ou para a garrafa ou para apenas mais uma rodada no póquer dos casinos sem nome e sem néon. Aqui há tudo a acontecer tão depressa que te podes esquivar entre a chuva monótona da vida e seres mil criaturas de óculos negros e rosto cravado no chão que a pele macilenta e alva comprovam a eterna vivencia nocturna.

No palco uma guitarra malandra que ainda tem um vago tom do rock n´roll que fazia abanar salas de liceu e clubes clandestinos diz que está farta de ti . E eu concordo e roço a pélvis nas nádegas malandras de alguém que só por não seres tu me cria uma excitação imensa. Erecção feita a ópio e lá em cima o senhor lento da voz grossa diz que somos todos uma estranha experiencia. E fala no zoo e eu sinto que o cio chegou no formato de uma canção. A pressão das nádegas de uma mulher sombria de maquilhagem carregada diz que também o sente e eu estou farto de ti e abendiçoo a vadia que me caiu na sorte.

Junto ao microfone Lou Reed diz-me que a algeme e lhe dê a experimentar caminhos proibidos. Fala em roupas negras e bocas amordaçadas e depois relembra que tudo é permitido nos hotéis baratos de Hell’s Kitchen onde a policia só entra depois de ter havido disparos. Dou a mão aos longos dedos que tremem, talvez de tesão talvez da necessidade de mais uma injecção , da mulher que não quero saber como  se chama.  Será apelidada de  querida e isso chega. O solo da guitarra diz que é tempo de colchões onde já gritaram muitos e já morreram alguns. E no dedilhar lento de uma escala que decerto foi escrita num quarto negro e sem ar puro penso pela última vez em ti e em como gostaria que estivesses presente. Para ver ; eu e ela e as coisas tão obscenas que faremos. Que visses, que entendesses que o amor breve e porco é  tão delicioso como o caramelo de heroína a derreter-se na prata.

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