Praia das Maças

O Supremo dos Sem Nome foi convocado. Invocado em sacrifícios de sangue, aguarda-se o retorno daqueles que caminham sem andar. Fustigado pela chuva, noite de inverno , os braços em cruz de uma figura masculina estendem-se no limiar do precipício. Trinta metros abaixo massas de água imensas estoiram, com fúria, nas escarpas. O ser vira o olhar para a sua direita e um esgar dos seus caninos aguçados fixa-se na poucas luzes acesas na povoação. Ele fechará o círculo, sete sangues de sete mulheres escorrerão para o Atlântico e Eles voltarão .

Fome , o desejo de agradar aos seus Deuses faz com que os olhos vermelhos lacrimejem de luxúria carnívora.

Parte , como os da sua raça , uma brisa ainda mais fria que a nortada que abana as persianas fechadas ; lá em baixo, algumas luzes , poucas. Guia-se pelo cheiro, precisa de uma fêmea, apetecível aos gostos de seus exigentes Senhores.

A pequena aldeia das Azenhas do Mar está vazia de iguarias. Inverte o voo e pousa no telhado da antiga escola primária que ainda se ergue junto às falésias. Inclinando a cabeça para trás aspira o aliseu que traz o odor de desodorizantes juvenis e a batida ,  perto , ali mesmo ao lado ,na Praia das Maças. O Mal alado parte para lá.

Evita os locais mais movimentados. A sua arte faz-se  nas vielas mais escuras onde ecoam passos de gente só .

Percorrendo os telhados ,numa corrida feita de silêncios rápidos, os seus ouvidos sensíveis captam um “Boa noite ” de uma voz doce , o som provêm de perto. Assume a forma  uma farripa da neblina que começa a vir do oceano e desliza ,rente ao solo ,em direcção ao som seco de botas de tacão que descem a escada de um prédio de dois andares.

Faz um ninho breve no parapeito e espera. A luz proveniente de um néon de um café incomoda os seus rubros olhos nefastos. Algo em si amaldiçoa aquele que viola a noite com tal claridade.

Ela surge.

É jovem , enverga uma saia curta , botas de cano alto, cabelo negro escorrido , voluptuosos seios. Aquele que nada se chama saliva mais abundantemente a sua baba putrefacta quando inspira o cheiro do sexo menstruado. Delicia-se com o aroma, um breve segundo, antes de armar a dentada e voar em direcção a ela.

O grito da rapariga dura menos que um batimento do coração, esse músculo, descontroladamente apavorado; que bombeia ,em grossas golfadas, o seu néctar  para a boca sequiosa que o ingere directamente da fonte generosa da jugular .

A sedenta deglutição do vampiro só termina quando a palidez de morte já está firmemente impregnada na tez. Unhas negras e longas perfuram o tórax e extirpam o coração agora tranquilo. Com a solenidade dos antigos flutua até ao mar revolto que engole , vaga a vaga , a areia da Praia das Maças e deposita o seu troféu nas águas profundas.

Nas falésias que levem à Praia Pequena consegue distinguir os vultos expectantes de outros como ele. Ainda com as mandíbulas escorrendo o vigoroso alimento voa ao seu encontro.

O Supremo em breve aqui estará; reis das coisas da noite virão, trazidos pela nortada que revolve o areal.

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